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O PARTIDO VIVO

A ideologia como valor fundante do PC

Walter Sorrentino*

Falamos da necessidade de atualização do pensamento de partido. Isso repõe, em outros termos histórico-concretos, as polêmicas acerca da moderna teoria do partido revolucionário, de Lênin. Lênin traçou os fundamentos táticos, de ação de massas, ideológicos e organizativos do partido de novo tipo, em demarcação com a velha Segunda Internacional. Como se sabe, em 1916 Lênin fundamentou o Imperialismo - Etapa superior do capitalismo, do qual derivava a noção da época das revoluções proletárias, colocando o partido - o fator subjetivo - como determinante das possibilidades revolucionárias. Por isso, a teoria e prática de partido leninista foram uma inovação estupenda que esteve na raiz dos êxitos revolucionários do século XX.

Os pilares da construção teórica acerca do partido foram os de um partido de vanguarda, de caráter classista proletário, constituído organizativamente como um sistema orgânico funcional à consecução do projeto político do proletariado, que assegurasse a unidade de ação com um centro único dirigente constituído em bases democráticas. Vejamos o núcleo ideológico da questão.

Os anos de 1902-1905 foram particularmente vitais nessa construção teórica, quando Lênin elabora Que fazer?, Um passo à frente, dois passos atrás, Carta a um Camarada, Sobre a reorganização do Partido, entre muitos outros escritos voltados àquele fim. Aspecto central - e, diria, clássico - nesse processo foi a relação espontâneo-consciente. É o busílis do Que Fazer?, onde Lênin conclui que "sem teoria revolucionária não há ação revolucionária", base da idéia de um partido de vanguarda. Isso embasou a noção de que, para os comunistas, o valor fundante do partido revolucionário, seu amálgama, é o fator ideológico.

Muito já se escreveu acerca da relação espontâneo-consciente. Lênin assentou suas formulações na teoria marxista, em polêmica com a velha Segunda Internacional e as formas de economicismo então presentes na Rússia, que conduziam ao predomínio do espontaneísmo e, conseqüentemente, a formas-partido funcionais ao predomínio da luta parlamentar e sindical - o partido como apêndice da luta econômica do proletariado.

Lênin fundamenta a noção do partido de vanguarda, elaborador-portador da teoria revolucionária, a qual não surge espontânea e diretamente do confronto econômico entre operários e patrões. A consciência vem "de fora" dessa relação imediata. Sabe-se que Lênin partiu de formulação de Kaustky, bastante mecanicista a esse respeito. Entretanto, o próprio Lênin, durante esses anos (reconhecendo-o em 1912) se negara a tratar Que fazer? fora do âmbito do debate então travado: tratava ele de corrigir a "curvatura do bastão" dos economicistas, em suas próprias palavras.

Que fazer? faz a crítica da visão evolucionista e do seguidismo que caracterizavam a corrente economicista. É uma apologia do partido político em oposição à perspectiva estreita daquela corrente. Marcante nesse sentido é o recorrente apelo de Lênin a observar "todos os aspectos da vida social", "todos os aspectos da vida política", voltar a atividade do partido a "todo o povo", "todas as classes da população", observando a relação entre "todas as classes", explicar a "todos" o significado histórico mundial da luta emancipadora do proletariado (Burgio). Portanto, é central a luta contra a concepção corporativa da própria identidade e função do partido. Considero isso um aspecto central e mais que nunca atual do pensamento de partido. Com o partido se define teórica e politicamente "a autonomia da classe operária, como expressão da sua capacidade de se fazer intérprete e protagonista do processo político que envolve toda a sociedade" (Gruppi). Portanto, "de fora" significa que a consciência não provém da experiência imediata da relação de exploração mas da visão crítica global da sociedade. Ela vem da parte do partido que observa o campo das relações recíprocas entre todas as classes. O Partido é a fusão do elemento consciente com o elemento espontâneo.

Ao mesmo tempo, Lênin demarca com o determinismo mecânico e o positivismo. Movendo-se no campo do determinismo materialista (que não só não pressupõe o fatalismo mas ao contrário oferece o próprio terreno para uma ação racional), Lênin "correlaciona partido e movimento real, iniciativa revolucionária e situação objetiva, sujeito e objeto, com forte destaque ao sujeito revolucionário" (Gruppi).

Formas de determinismo estrito e mecânico nesse terreno são fatais. Nessa armadilha envolveram-se muitos, entre outros Stalin. Conduzem o partido a uma formação monolítica e monocéfala, de "homens e mulheres de aço", exigindo não raro mediações de ordem moral e até mesmo religiosa para definir a militância. A experiência soviética, no limite, demonstrou onde pode levar tal caminho, ossificando a forma-partido, impondo a obediência acrítica e desarmando ideologicamente o proletariado em sua luta. O mais certo é que não se deveria derivar diretamente de Que fazer? uma filosofia sobre a origem da consciência revolucionária, que não foi esse o escopo da obra.

Tampouco se poderia derivar da formulação leninista naquela obra um determinado modelo de forma organizativa qual seja, a de um partido fechado, de quadros, de predominante atividade ilegal ou clandestina. O próprio Lênin flexibilizaria formulações já no auge da revolução de 1905 (Sobre a reorganização do partido) e também posteriormente (Novas tarefas, novas forças). É notório, e deveria ser mais valorizado, a flexibilidade e sensibilidade de Lênin para adaptar o partido às condições e exigências dos diversos momentos da luta revolucionária. Nessa armadilha envolveram-se muitas organizações, presas do sectarismo e dogmatismo, pela "esquerda", bem como outras, que diluíram seu caráter revolucionário sob a bandeira da renovação, pela "direita". Pense-se no ex-PCI eurocomunista ou mesmo na experiência brasileira do atual PPS.

Em suma, o partido não pode ser concebido como uma organização apartada do movimento real. Na relação espontâneo-consciente em Lênin, o espontâneo é uma forma embrionária do consciente. O partido é a predominância do fator consciente, mas se alimenta permanentemente do fator espontâneo da luta dos trabalhadores, generaliza-a e dá-lhe uma perspectiva política de ruptura. Não se deve contrapor mecanicamente uma "espontaneidade privada de consciência a uma consciência estranha ao movimento espontâneo" (Gerratana).

Tais polêmicas não cessam de se repor ao movimento e deveríamos confronta-las como exigência para o avanço do pensamento marxista e leninista. Por ora, centremos a atenção no essencial: o componente ideológico - marxista, classista e revolucionário - é central à retomada da perspectiva transformadora. Materializa-se em homens e mulheres militantes, conscientes, que adotam uma perspectiva de ruptura com a ordem atual, dedicam energias ao movimento transformador, organizados em seu partido de classe. Sem homens e mulheres assim não há partido de ação revolucionária. Como o fazem e em que condições - e como se formam tais homens e mulheres -, nos remete à questão de alimentar a perspectiva ideológica dessa formação partidária hoje, tema tratado no 10º Congresso.

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NÃO DEIXE DE LER:  

NÃO DEIXE DE LER:
Que fazer? de Lênin, é ainda fundamental à compreensão do tema, e pode ser estudado em ligação com copiosa literatura de Lênin sobre a matéria. Além disso, são úteis textos que fazem uma abordagem histórico-crítica do significado dessa obra no seu contexto histórico e seu sentido clássico. Entre outros:
- Burgio, Alberto - Per una lettura del Che Fare? oggi, in Lenin e il Novecentro, sob cura de Domenico Losurdo e Ruggero Giacomini, pp 447-469, Istituto Italiano per gli Studi Filosofici, La cittá del sole, Itália, 1997
- Monty Johnstone - Um instrumento político de tipo novo: o partido leninista de vanguarda in História do Marxismo, org Eric Hobsbawm, vol 6, pp 13-41, Paz e Terra 1988;
- Luciano Gruppi - O pensamento de Lênin - O partido revolucionário, pp 19-47, Graal 1979.
- Valentino Gerratana, Stalin, Lênin e o marxismo-leninismo in História do Marxismo, org Eric Hobsbawm, vol 9, pp 221-247, Paz e Terra, 1987

Entre nós, Loreta Valadares e Augusto Buonicore têm vários artigos publicados em PRINCÍPIOS e A CLASSE OPERÁRIA sobre o mesmo tema. A CLASSE OPERÁRIA publicou Ficha de Leitura e Debate de Que Fazer?, elaborada por Loreta Valadares sob direção da Comissão Nacional de Formação.
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Digressão...

De Lênin, em 1919, em O Esquerdismo, doença infantil do comunismo

Como se mantém a disciplina do partido revolucionário do proletariado? Como pode ser comprovada? Como pode ser reforçada? Primeiro, pela consciência de classe da vanguarda proletária e por sua fidelidade à revolução, por sua tenacidade, abnegação e heroísmo. Segundo, por sua capacidade de vincular-se, de estabelecer o mais íntimo contato e, digamos, de fundir-se, em certa medida, com as mais amplas massas de trabalhadores, em primeiro lugar com o proletariado, mas também com as massas trabalhadoras não proletárias. Terceiro, pela justeza da direção política que essa vanguarda exerce, pelo acerto de sua estratégia e tática políticas, sempre que as amplas massas se hajam convencido, por experiência própria, de que são justas. Sem estas condições é impossível lograr disciplina em um partido revolucionário verdadeiramente capaz de ser o partido da classe avançada, cuja missão é derrotar a burguesia e transformar toda a sociedade. Sem estas condições, inevitavelmente malogram todas as tentativas de implantar a disciplina e terminam em fraseologia. De outra parte, estas condições não podem surgir de repente. Só se formam mediante esforços prolongados e uma dura experiência. Sua formação é facilitada por uma teoria revolucionária acertada que, por sua vez, não é um dogma, senão que só adquire sua forma definitiva em estreita vinculação com a atividade prática de um movimento verdadeiramente de massas e verdadeiramente revolucionário.


*Walter Sorrentino, médico, membro da Comissão Política Nacional e Secretário Nacional de Organização

 
e-eletrônico: waltersorrentino@pcdob.org.br

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