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O PARTIDO VIVO

A questão de partido e sua atualização

Walter Sorrentino*

A coluna tem recebido, com alegria, observações e críticas que, centralmente, expressam um anseio: o de abrir um debate sobre a atualização do pensamento de partido. Essa questão esteve presente no 10o congresso e é, sem dúvida, indispensável para enfrentar a problemática de partido e de militância na atualidade.

Vou buscar contribuir com esse debate nas próximas semanas, nesta nossa coluna. Começo em um ponto: um dos defeitos recorrentes de nossa tradição foi a de equiparar questões de partido a questões de organização. Nesse reducionismo, de aparente tecnicalidade, esconde-se uma questão: a idéia de que a teoria de partido está pronta e acabada, e o problema é como aplica-la, ou seja, construir o partido é problema de mera organização.

Na verdade, subjaz a isso a noção de um modelo determinado de forma organizativa do partido, tomando por padrão determinadas formas emanadas da experiência do movimento comunista, tendo por centro o modelo soviético. Não estamos no ponto de ter dado um balanço histórico circunstanciado dessa questão. Isso deveria compreender tanto o enorme impulso representado pela corrente comunista ao longo de todo o século, com seu papel de luta não raro heróica, sua fidelidade aos ideais da classe operária e em demarcação com as tendências anti-revolucionárias e revisionistas, quanto a degenerescência que se observou nos partidos comunistas, que se ossificaram em determinados moldes e perderam a perspectiva ideológica que podia ter permitido ao proletariado evitar a derrota estratégica sofrida. Num e noutro caso, por razões históricas óbvias, o papel do PC da ex-URSS foi central: quem falhou foi o partido. Impõe-se seguir investigando as causas de natureza teórica, ideológica, política e organizativa, contextualizadas historicamente, que levaram a esse resultado.

Efetivamente considero que a teoria está dada, a moderna teoria leninista de partido. Mas também efetivamente ela necessita de atualizações e desenvolvimentos. Ela precisa dar conta da realidade contemporânea da luta e consciência social, adequar-se às realidades concretas de diferentes situações, responder mais diretamente ao projeto político e caminhos implicados na luta por colocar o socialismo como projeto exeqüível na atualidade. Note-se que necessitamos aí um esforço de corte similar ao realizado quando da crítica a que submetemos o modelo socialista, extraindo lições dos erros da primeira experiência socialista e re-elaborando o Programa Socialista do PCdoB.

É positivo constatar o quanto habita os debates do movimento comunista em todo o mundo a questão da identidade do partido, refletindo a compreensão de que o PC é o agente da transformação social, que sem partido revolucionário não há ação revolucionária. Também entre nós isso ocorre, carecendo ainda de um esforço concentrado e orientado com o fim de atualizar as respostas necessárias na esfera das questões de partido. Considero que a década passada foi de importância na evolução de nosso pensamento e prática de partido: expansão das fileiras militantes, maturação da organização partidária. Transitamos esses anos com as fundamentações do 8o, 9o e 10o Congressos.

O 8o Congresso foi fundamental a esse percurso: reafirmou nosso caráter, o sentido de permanência, a defesa de nossa identidade. A crise do marxismo e do socialismo posta em evidência com a queda do Leste nos encontrou firmes na convicção da necessidade de perseverar na construção do instrumento da transformação – o partido comunista: “Sem partido não há movimento transformador”. Entretanto, não deixamos de pôr em questão uma determinada visão modelada do socialismo e do partido comunista de tipo leninista. Por isso, falamos de permanência e renovação.

Coube ao 9o Congresso, com o partido já vivendo uma expansão notória, cunhar a expressão “Partido Comunista de princípios,  revolucionário, de feições modernas”. Do ponto de vista político havíamos cunhado a expressão Partido de porte médio. Era o fator renovação sendo mais exigido. Seu corolário foi diagnosticar a construção do partido nos planos político, ideológico e organizativo; afirmar a existência de um descompasso ideológico (convicções, unidade, disciplina) e organizativo (raízes nas bases); e cuidar mais e melhor do partido. As conseqüências foram os 3 planos de estruturação partidária com alguns êxitos importantes.

Com o 10o congresso, compreendemos melhor a exigência de avançar no pensamento de partido. O texto é rico em indicações e inferências possíveis, e merece ser tomado como partida para o debate necessário. Registramos no Congresso a progressão da expansão partidária, reclamando novas soluções para alcançar os objetivos fixados. Reafirmamos que ganhou maior clareza a questão de modificações importantes na realidade social e formas da consciência social que impactam a forma-partido e o caráter da militância comunista. Entre os consensos que foram se formando (vide colunas anteriores), inscreveu-se a crítica à qualidade do trabalho de direção na esfera ideológica e, também, o reconhecimento da necessidade de encontrar formas mais consentâneas de ligar o partido à ação política de massas e ao proletariado. Por fim, mas não em importância, a problemática das formas de organização nessa realidade social bastante modificada em comparação com o que predominou ao longo do século passado.

Tais questões precisam ser tomadas por nós como desafios dos quais não se pode abrir mão. Imagino mesmo a possibilidade de um esforço conjugado, de caráter nacional, tendo por centro a Atualidade da Questão do Partido Revolucionário. São muitos pontos de partida e temas muito impregnados de conteúdo ideológico, político-organizativo e mesmo sociológico.

Um ponto de partida que nunca abandono é que quanto mais madura se faz a indagação de um caminho brasileiro para o socialismo, tanto mais precisamos modelar um partido capaz de empreender essa transformação. Isso significa que devemos valorizar nossa originalidade, a experiência e características de nosso povo, tirar lições do conjunto da experiência revolucionária, mas pauta-la pelo nosso projeto político e pelos caminhos da transformação brasileira. Aliás, esse esforço, que é próprio do leninismo, foi em diferentes medidas adotado pelas experiências revolucionárias (pense-se nas características dos partidos e movimentos revolucionários na China, Vietnã, Cuba, p.ex.), e teve desenvolvimentos importantes no pensamento de Gramsci, entre outros. Além disso, penso que devemos partir da polêmica, do confronto com correntes que não cessam de repor a edulcoração do partido revolucionário, bem como novas formas de espontaneísmo, algumas até neo-anarquistas, na luta contra o capitalismo.

Há duas questões, que merecem menção entre outras, condicionando esse debate na atualidade. Uma a de que nos encontramos em momento de estratégia defensiva, sob a crise da perspectiva transformadora, em refluxo do movimento revolucionário. Isso significa que não podemos idealizar o debate, encontrar outras fórmulas prontas e abstratas, fora da experiência concreta – e sempre renovada -  do movimento real de luta dos trabalhadores e dos povos. A outra, é que as questões de Partido precisam ser abordadas historicamente. Partindo dos fundamentos teóricos do leninismo – também apreendidos em sua dimensão histórico-crítica -, nosso debate deve responder à realidade social atual e ao projeto político concretamente plasmado do partido, nas atuais condições da luta de classes no Brasil e no mundo. Certamente, devemos compreender então o enorme esforço crítico, teórico-ideológico, de ação e organização, o que envolve também pesquisa empírica sobre a realidade social, compreendendo que isso está em permanente evolução.

Voltando ao início: as questões de partido não são apenas organizativas. Implicam problemas de natureza teórica, ideológica, política, de ação de massas e, também, organizativas. Uma política de organização mais consentânea é hoje uma exigência para desenvolver o partido, mas ela está em correlação com a atualização do pensamento de partido. Voltaremos ao tema!

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NÃO DEIXE DE LER: Sem dúvida, nas linhas e entrelinhas, o material do 10o Congresso sobre o Partido, in Novos rumos para o Brasil, Documentos e Resoluções do 10o Congresso, Anita Garibaldi, 2002.

J. Amazonas, “força decisiva da revolução e da construção socialista”, in Princípios no. 40, fev-abr 1996; Editora Anita Garibaldi.
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Digressão...

O NOVO E O VELHO

Se não é um novo caminho, é um novo jeito de caminhar. A expressão, sempre lembrada pelos camaradas do Estado do Amazonas, é tomada de Thiago de Mello, que honra a cultura nacional. Dialético, porque não implica abandonar o velho, mas sim alimentar-se dele para síntese nova. Aliás, o velho Bertolt Brecht, de outra parte, amava recordar – referindo-se a Marx e Lênin – a importância de ensinar “coisas velhas” como se fossem sempre “novas”, porque “poderiam ser esquecidas e consideradas válidas apenas para tempos já transcorridos. Não há necessariamente inumeráveis pessoas para as quais elas são totalmente novas?”.

O partido está em expansão. Precisamos aproveitar intensamente as condições para reforçar o partido. Recusar o acanhamento, superar condicionamentos de outros tempos e outros momentos históricos. Tudo está em movimento. O leninismo implica nisso: a análise concreta da realidade concreta. Não adaptar a vida a nossos planos mas antes o contrário.

Isso implica adaptar-se ao novo – tanto o real quanto aquilo que é nova aquisição de nossa consciência. Saber ver o novo que nasce mirrado, em quem nem todos apostam, mas que pode vingar. Se há no horizonte a possibilidade de uma hora da virada, essa é também a hora para o PCdoB. Estejamos à altura disso, sabendo inventar novos jeitos de caminhar! Inclusive para saber imaginar-se maior!

*Walter Sorrentino, médico, membro da Comissão Política Nacional e Secretário Nacional de Organização

 
e-eletrônico: waltersorrentino@pcdob.org.br

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