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O PARTIDO VIVO

O Partido na participação em administrações

Walter Sorrentino*

Tem sido um bordão desta coluna que injunções políticas determinam ou condicionam caminhos da estruturação partidária. Ou seja, estruturação partidária é antes de tudo assunto político! Já está mais do que na hora de superar aquela metafísica atrasada de separar política do partido de questões de partido, que ainda marca, infelizmente, a prática de parte importante da atividade do partido.

A questão da participação do partido em governos e das conseqüências que isso vem trazendo à vida do partido é um desses problemas. A questão é antiga. Pense-se por exemplo no peso das disputas eleitorais, forçando partidos de esquerda a constituir fortes bases eleitorais. Organizações políticas com base ideológica mais pragmática ou diluída, enfrentam mal essa pressão. Desfazem núcleos e atividades de base onde os tinham, a vida partidária passa a girar em função dos parlamentares e aparatos de governo, torna-se rarefeita e manipulada a vida partidária propriamente dita. De outra parte, organizações políticas revolucionárias muitas vezes engessaram-se ao negar a participação nessas instâncias, ou ao colocá-las em contradição antagônica com seus objetivos últimos.

A contenda está presente hoje, no Brasil. Há forças que defendem o antagonismo entre luta institucional e luta de massas, uma negando a outra, numa dinâmica pobre e estéril. Para nós, trata-se de compô-las dialeticamente a serviço de nosso projeto político, reconhecendo de fato a existência de contradições nesse processo. O PCdoB tem se esforçado em construir essa política, recusando a internalização de lógicas de governo a ditar a vida partidária, e recusando o primarismo de imaginar ser possível cumprir o programa integral dos movimentos populares na Administração ou, ainda, desconhecer que o espaço por excelência da estratégia política é o espaço nacional, ao qual se subordina o local. Trata-se, como se vê, de desafio novo de inventividade política, para pôr tal participação a serviço do projeto do partido de Um Novo Rumo para o Brasil.


O fato é que o PCdoB tem importante participação em governos, sobretudo locais. As condições que se criaram com a vitória oposicionista nas eleições de 2000 criaram condições irrecusáveis para a participação do PCdoB em governos. Se se criam outras condições, a questão se colocará num futuro e eventual governo Lula. O PCdoB nunca participava de tais governos, por princípio. A profunda mudança estratégica na luta de classes, ocorrida com a queda do campo socialista e a hegemonia neoliberal, nos impuseram nova leitura. Isso foi fundamentado no 9o congresso, em 1997 e reafirmado no 10º Congresso.

É notório que o PCdoB, a partir dessas funções, ampliou seu arco de apoio na sociedade, em particular em estratos além dos populares que sempre caracterizaram nossa base social de apoio. Ganhamos visibilidade política e mais extensa relação de confiança com o povo a que se volta a política praticada por nós nas administrações e isso deverá se refletir no desempenho eleitoral de nossos candidatos e mesmo no crescimento partidário. Sem dar um balanço extenso, digamos que tem sido uma experiência a muitos títulos positiva no sentido de atender a reclamos de massa, de padrão democrático participativo e educação política quanto aos limites da ação institucional. Pense-se por exemplo quanto tal conduta tem ajudado a organização popular, apoiando o esforço de entidades de massas, em seus congressos e reivindicações.

Entretanto, há o lado contraditório no processo, e precisa ser levado em conta por nós. Já argumentei em outro momento que, mesmo fazendo opções corretas, que se impõem pela realidade política, não podemos desconsiderar os custos dessas opções, porque eles efetivamente existem, e exigem medidas ativas para fortalecer o caráter do Partido e a luta pelo seu projeto político.

Também sem ser extensivo, pode-se dizer que alguns efeitos negativos estão presentes. As pautas partidárias nos locais onde participamos de governos ficam saturadas com o cotidiano político local e institucional, e seus efeitos na formação dos novos militantes nem sempre é o da vocação para a grande política. Há situações em que divergências se instalam no partido em torno do cotidiano das medidas da Administração. Contradições reais, de fundo corporativo como no caso do funcionalismo público, cobram-nos alguns ônus. Em casos mais graves cisões se verificam, em função de cooptações praticadas pela Administração, como é o caso atual de Goiás.

Quanto ao assunto central desta coluna, os problemas relacionados à estruturação partidária, o que se verifica é também contraditório. Onde o partido é pouco estruturado (ou pouco madura política e ideologicamente a sua estrutura de quadros e militantes), a nova esfera de responsabilidade imposta ao partido pela participação em governos pode até agravar o problema do partido, por subtrair energias ao trabalho principal do partido. Por outro lado, onde o partido é mais estruturado, não é automático nem espontâneo que sua estruturação se incremente, tornando-se necessárias medidas de reforço do trabalho de direção, em particular organizativa. Sem dizer que, em ambos os casos, não é automático que se reforce o trabalho de base e de massas do partido sem uma criteriosa direção e vontade políticas.

Detenho-me especificamente no fato de direções partidárias ficarem enfraquecidas porque quadros experientes vão para a administração, para a "atividade política pública", enquanto a dedicação ao esforço de construção e estruturação partidária fica desequilibrado na distribuição das responsabilidades de quadros dirigentes. Um efeito indireto disso é visível na esfera das secretarias de organização. No Ativo Nacional de Organização de Brasília, dos 17 Estados presentes, 9 Secretários de Organização eram novos, e entre eles, 5 eram quadros novos, ainda em formação nessa área nevrálgica. Nada contra a renovação, necessária e benéfica. Mas a organização, que tem o papel de ser um estrategista da construção partidária, não pode ter o trabalho enfraquecido, justamente nesta hora em que o partido está em expansão. Era essa aliás a preocupação da Resolução do CC, não autorizando automaticamente a indicação dos principais dirigentes partidários para cargos de governo.

Precisamos construir um melhor equilíbrio nessa matéria, sem perder de vista jamais a natureza precipuamente política da questão. Examinar se, em alguns casos, não têm sido insuficientes os contrapesos para assegurar, ao lado da participação do partido na esfera institucional, uma maior atenção à luta de massas por parte do partido, maior atenção ao trabalho com nossa principal base de apoio social, a maior parcimônia em garantir, antes de tudo, quadros experientes para sustentar o trabalho de direção partidária.

É certo que ninguém pensa em formar um partido na redoma de cristal, à margem da luta de classes e de seus escolhos reais. Mas nossas opções precisam ser conscientes, e precisamos ser críticos conosco mesmos, para manter a coerência e clarividência que tem caracterizado o PCdoB. Por isso, então, a exigência de acurado balanço, em tempo real, de nossas experiências nesse terreno e a adoção de medidas compensatórias adequadas e a crescente normatização política e organizativa de nossa atividade partidária nessa esfera de atividade institucional.

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NÃO DEIXE DE LER:
9º Congresso e 10º Congresso - Informes especiais sobre a 
participação do partido em governos.
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Digressão...

CASTA DA REDE

Há situações na vida do partido que seriam engraçadas se não fossem expressão de impotência. Uma delas é aquela em que alguém faz longa exortação contra o abstencionismo e a impontualidade nas reuniões partidárias... e quem as ouve é exatamente quem está na reunião e chegou na hora certa!

Vivo uma dessas situações. Vou reclamar do portal do partido - só para quem vê regularmente a rede. Aliás, a própria reclamação só me veio à mente por causa da...rede. Explico.

O portal do partido é uma ferramenta formidável e estamos só nos primórdios de exaurir sua utilidade. Verifico um recorrente desconhecimento de diversos camaradas do que lá vai publicado, inclusive e especialmente desta modesta coluna que já vai na sua 10o participação (no caso, devido a certas opções que serão reexaminadas).

Qual é a questão? Deve preocupar-nos que não se forme uma casta dos internautas no partido. Ou seja, é preciso se beneficiar das vantagens permitidas pela via eletrônica, mas "sem discriminar os membros do partido em função do acesso". Isso porque é evidente que poucos têm acesso e menos ainda têm a cultura e possibilidades de buscar informações e diretivas sistematicamente via net.

Então, são necessárias medidas compensatórias. Lembro, entre outras, de duas. Primeira: nada pode ser assegurado na comunicação interna ao partido só pela via eletrônica - precisa ser complementada pela via postal e pelo órgão central A CLASSE OPERÁRIA, que precisa não só se manter como fortalecer. Aliás, este é o que realmente pode chegar às mãos da militância. Segunda: tudo que for acessível na rede pode e precisa ser transformado em material impresso, para maior difusão: seja nos boletins ou jornais (do partido ou seus parlamentares), seja na forma de impressos específicos. Isso coloca então a questão de uma responsabilidade formal: quem faz isso, com que regularidade, com que meios?

Em tempo: a minha reclamação proveio da frustração do retorno alcançado pela coluna, mas só ganhou corpo porque acessei o endereço do Partido Comunista Português e eles lá já estão com essa preocupação explícita: eu as citei acima entre aspas.


*Walter Sorrentino, médico, membro da Comissão Política Nacional e Secretário Nacional de Organização

 
e-eletrônico: waltersorrentino@pcdob.org.br

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