| Introdução
O 9o Congresso do Partido Comunista do Brasil –
PCdoB, realizado em outubro de l997, concluiu que o
Brasil, na vigência do governo Fernando Henrique
Cardoso, permanecia como uma nação dependente. No
plano político acentuava a inconstância e do ponto de
vista econômico encontrava-se instável e vulnerável.
Além disso, o povo brasileiro sofria as agruras do
autoritarismo, da perda de conquistas históricas e da
desestruturação nacional. A tendência democrática da
fase anterior vinha sendo invertida. Decorridos quase
quatro anos, a situação do país se agravou.
Desde o último Congresso, grandes acontecimentos –
crises políticas e econômicas e a crescente crise
social – sacudiram o país. Tudo como decorrência da
expansão, concentração e centralização do capital
em escala planetária e sem paralelo histórico; de uma
ordem político-econômica “unipolar”, conduzida
principalmente pelo hegemonismo do imperialismo
estadunidense, que no período atual subordina sua
política externa aos planos de uma “guerra prolongada”;
da adoção pelo governo brasileiro de uma estratégia e
uma política submetidas à ordem mundial dominante; e
das contradições próprias da peculiaridade
sócio-econômica brasileira, devido à resistência dos
trabalhadores e do povo a tal situação.
No contexto brasileiro, diante de uma realidade de
expansão do capitalismo monopolista e da ofensiva da
política neoliberal, desenvolveram-se várias formas de
luta de resistência da sociedade e, apesar da
adversidade, procurou-se organizar um amplo movimento de
oposição – democrático, patriótico e popular –,
na busca de uma alternativa ao modelo imperante. Essa
luta tem sido difícil e desigual para as forças
oposicionistas. Ainda prevalecem os interesses
dominantes, propagados por meio de intensa investida
política e ideológica nas instituições estatais, na
dinâmica dos pleitos (em todos os níveis) e na mídia.
A corrupção, a promiscuidade, o balcão de negócios e
a politicagem rasteira – atos esses de verdadeira
perversão da democracia política – passaram a ser
ostensivos e corriqueiros nas atitudes do governo da
República, a ponto de imperar uma institucionalidade
tácita que tornou sem fronteiras o bem público e o
privado, condizente com um sistema apodrecido.
O quadro estrutural brasileiro vem sendo rapidamente
alterado em mais de 6 anos de governo de Fernando
Henrique. Essa experiência vem demonstrando que o
modelo neoliberal adotado é um fracasso como artífice
de um crescimento sustentado e, mais precisamente, como
estratégia de desenvolvimento. Esse projeto
desnacionalizou a economia do país. Ademais, seu maior
estrago é o desmonte do Estado nacional, articulado com
a liquidação de conquistas sociais e trabalhistas
fundamentais e o aprofundamento das desigualdades. A
década de 90 do século XX acumulou grandes mudanças,
levando o país a percorrer uma trajetória que o
ameaça: a neocolonização. Esta tendência se tornou
mais presente com a proclamação de guerra imperialista
e o conseqüente recrudescimento do hegemonismo e
expansionismo, depois dos acontecimentos de 11 de
setembro nos Estados Unidos.
O PCdoB participou e interveio no curso desses
acontecimentos políticos e sociais nesse período como
opositor conseqüente à política neoliberal conduzida
por Fernando Henrique. Tem sido lutador persistente pela
construção da unidade da esquerda e do movimento
oposicionista com base em um programa antineoliberal –
de mudanças estruturais e alternativo ao modelo vigente
–, perseguindo a conquista de um governo democrático,
patriótico e popular que possa se aproximar de seu
objetivo maior; objetivo esse expresso na transição ao
socialismo. Empenha-se na formação de um movimento
cívico em defesa do Brasil, da democracia e do
trabalho, na edificação de uma corrente classista
entre os trabalhadores e na mobilização e
organização popular e das camadas oprimidas da
população. O Partido conquistou importante vitória no
pleito municipal de 2000, recuperou sua bancada federal
de 10 deputados, ampliou o número de militantes e
quadros, elevou seu nível de organização. Além
disso, hoje é uma corrente em expansão e com presença
destacada na vida da sociedade brasileira.
Quatro anos de crises
A continuidade do governo FHC
A aprovação da emenda da reeleição e a imposição
de FHC como candidato único das forças conservadoras e
neoliberais foram manobras decisivas para garantir a
continuidade do projeto de “abertura e estabilidade”.
Assim, o segundo mandato de FHC nasceu dos arranjos de
uma votação parlamentar viciada, com uma ostensiva
interferência na Convenção Nacional do PMDB visando
à eliminação de um possível oponente. A vitória das
forças situacionistas nas eleições de 1998 completou
a investida continuísta.
A despeito da vitória de FHC no primeiro turno (eleito
apenas com um terço dos votos) e da imposição de toda
sorte de adversidades, as esquerdas e a oposição em
geral alcançaram significativos êxitos. Pela primeira
vez se obteve a união dos partidos de esquerda que
constituíram uma frente – União do Povo, Muda Brasil
– encabeçada por Luis Inácio Lula da Silva e Leonel
Brizola. Tal iniciativa se revelou capaz de mobilizar
amplos setores sociais e de reacender a esperança de
transformação do país.
Desde meados de 1997 a trajetória do governo FHC tem
sido caracterizada e determinada por crises financeiras
e econômicas sucessivas, desdobradas em crises
políticas e inter-relacionadas entre si. A economia
brasileira começou a viver seu primeiro “choque
especulativo” – cri""se cambial – na
metade de 1997 (primeira onda da crise asiática), que
se alastrou até o final deste mesmo ano. Adquiriu um
novo impulso durante 1998 (segunda onda da crise
asiática), culminando com um segundo “choque
especulativo” de maior proporção nos últimos meses
daquele ano, tendo de recorrer ao FMI – mesmo assim
não chegou a ser estancado. Estendeu-se à crise
cambial no início de 1999, levando à mudança do Plano
Real, com a desvalorização da moeda nacional em mais
de 50% naquela ocasião.
O segundo mandato de Fernando Henrique já nasceu em
meio à forte crise. O ano de 99 foi marcado por
recessão, maior desemprego e lutas sociais,
aproximando-se da eclosão de uma crise
político-institucional. Entretanto não houve maior
conseqüência no rumo de uma mudança em virtude do
quadro de forças ainda desfavorável à oposição –
e de suas limitações e dificuldades de integrar
maiores contingentes sociais à luta política. Apesar
do abrandamento posterior da situação, em 2000 a crise
se manteve latente, com ciclos de incidência menos
intensa e progressiva perda de credibilidade por parte
do governo.
O resultado das últimas eleições municipais confirmou
a tendência favorável às forças oposicionistas,
constituindo-se numa grande vitória destas. No primeiro
turno a oposição cresceu 38% em relação a 1996 e 40%
nas maiores cidades do país (com mais de 200 mil
eleitores). O segundo turno consolidou essa vitória,
particularmente das correntes de esquerda. A oposição
conquistou 20 das 31 cidades onde houve segunda volta.
Neste começo de 2001 os fatores econômicos e
políticos da crise latente, que foram se acumulando –
somados à derrota do governo nas eleições municipais,
às sucessivas denúncias de corrupção no seio das
forças governistas e à maior incerteza econômica,
agravada com a crise energética de grande dimensão –,
produziram uma nova fase grave e difícil que o país
começou a viver. A fragilidade do governo FHC, seu
final desastroso, distinto do cenário tendencialmente
aglutinador da reeleição de 1994, precipitou a disputa
sucessória presidencial de 2002.
A deflagração da crise de energia que afeta o país
contribuiu para deteriorar profundamente a situação
neste período final do governo FHC. A ameaça que paira
sobre o Brasil é de colapso do sistema elétrico. Isso
porque nosso esquema anterior de planejamento
energético foi desmontado. Os “investimentos”
oriundos das privatizações não aumentaram sequer um
megawatt à capacidade instalada. Revelou-se uma
fantasia o conto de que bastaria a abertura e a entrada
de capitais privados estrangeiros para produzir os
investimentos para edificação da infra-estrutura e dos
serviços públicos, sem a intervenção do Estado. O
governo, ao acatar as imposições do FMI, que não
permitiu investimento estatal – considerado despesa
– em produção e transmissão de energia elétrica,
levou o sistema hidroelétrico brasileiro, moderno e
seguro, ao descalabro. Diante disso, a expectativa é de
queda do crescimento econômico já contido e de mais
desemprego.
A crise que se abriu com o estalar dos atentados no dia
11 de setembro nos Estados Unidos e a seguida
proclamação de guerra imperialista, desencadeou grave
ameaça à paz, à democracia e à soberania dos povos e
acentuou a tendência recessiva da economia mundial. O
irrompimento dessa nova situação agravou o curso da
crise multilateral que permeava o país. Em face desses
graves acontecimentos o governo FHC tomou uma posição
dúbia, estando de um lado sujeito às pressões do
governo norte-americano e, de outro, acossado pela
rejeição da opinião pública e da grande maioria da
população contrária ao engajamento do Brasil na
empreitada guerreira estadunidense. O país tem
tradição de ação diplomática pacifista e não
intervencionista. Por isso, foi descabida a invocação
pelo Itamaraty do Tratado Interamericano de Assistência
Recíproca (TIAR), porque o atentado nos Estados Unidos
não resultou de ataque de qualquer Estado estrangeiro
àquele país. Também o governo concedeu a permanência
em território brasileiro de representação de serviço
de inteligência dos Estados Unidos. O envolvimento
militar do Brasil na guerra atual é contrário aos
interesses do povo brasileiro.
Em suma, o caminho percorrido pelos dois governos de
Fernando Henrique, o segundo ainda inconcluso, está
determinado por crises (manifestação de uma crise
crônica), instabilidade, autoritarismo, corrupção,
injustiça e, em última instância, pelo agravamento
dos problemas estruturais brasileiros. Desde 1998, com
os novos acordos firmados com o FMI, foram impostos ao
país pesados ajustes fiscais e a reforma liberalizante
do Estado. Assim, o ciclo da dependência vai se
agravando. Na realidade o país passou a ser governado
por um condomínio – governo compartilhado –,
formado pelo Presidente da República, seus financistas
e tecnocracia mais o FMI e o Tesouro norte-americano.
Reestruturação, desmonte nacional, sociedade
mais desigual
A situação econômica
A “inserção” do Brasil na economia mundial a
partir de 1990, conduzida pela elite dominante, seguiu
os preceitos do chamado Consenso de Washington, fórum
orquestrado e dirigido pelos interesses do imperialismo
estadunidense. O governo FHC se encarregou de
aplicá-los em tempo curto, sofregamente. O país
submeteu-se, então, pressionado pelos centros
capitalistas mundiais, sobretudo os Estados Unidos, às
condições de “ajustamentos” impostas pela crise
das dívidas externas dos anos 80, seguindo estritamente
as normas dos mercados financeiros liberalizados, cuja
regra básica está na “estabilização” com a
abertura financeira e comercial. Mas para essa abertura
havia a necessidade de um “lastro”. O Brasil teve de
oferecer ativos compensatórios – títulos da dívida
pública de curto prazo, empresas e bancos estatais
atraentes, ações depreciadas de empresas privadas
nacionais –, pós-abertura, que pudessem ser
incorporados pelos monopólios transnacionais no seu
curso inexorável de concentração e centralização do
capital.
Desse modo, o país passou a leiloar seu patrimônio
público, construído em várias décadas; a vender suas
empresas privadas ao capital estrangeiro; a endividar o
Estado realizando vultosa emissão de títulos
públicos, pagando juros estratosféricos; e a elevar
rapidamente seu passivo externo, tornando-se
completamente refém da oscilação do fluxo dos
capitais de fora. Nesse período de governos FHC a
dívida pública interna mais que quadruplicou e dobrou
o passivo externo líquido, ou seja, duplicou a dívida
e o investimento externos, mesmo considerando as
reservas internacionais brasileiras.
Essa linha de liberalização e abertura provocou nesses
poucos anos forte desequilíbrio macroeconômico e
profundos desajustes estruturais, desmentindo a prédica
oficial de serem sólidos os “fundamentos”
econômicos. Sobretudo a partir de 1995 persistiu, de
maneira crescente, um déficit na balança comercial e
também de serviços, produzindo um saldo médio
negativo anual nas transações correntes de mais de 25
bilhões de dólares (mais de 4,2% do PIB), mesmo após
a mudança cambial. O investimento direto estrangeiro
(IDE) que entrou para cobrir esse saldo negativo, apesar
de volumoso, tende a decair (a previsão é de menos de
20 bilhões de dólares este ano) e o déficit a se
elevar (prevê-se mais de 26 bilhões de dólares em
2001). Por outro lado, em regimes de abertura
financeira, como é o caso do Brasil, a absorção do
capital externo não eleva a taxa de investimento
interno. Este, ao longo de uma década no país, subiu
apenas 2% em relação ao PIB. Atualmente, a invocada
“contaminação” da crise argentina não teria
repercussão interna efetiva se não fosse mais do que
considerável a fragilidade das contas externas.
Essa política que vem sendo sustentada pelo governo FHC
desencadeou intenso processo de reestruturação,
provocando verdadeira desestruturação na indústria e
na agricultura, não elevando, como se afirmava, a
competitividade do sistema. A “modernização”
aplicada – em condições cambiais desvantajosas,
juros altíssimos e sem nenhum planejamento industrial
– trouxe como conseqüência um intenso aumento nas
importações de equipamentos e insumos industriais e o
abandono da indústria brasileira de meios de
produção. Hoje, conforme conclusão de analistas
econômicos independentes, o Brasil passa por um
processo de desindustrialização – em relação ao
valor bruto da produção, há uma redução do nível
dos produtos de maior valor agregado. Tal situação é
demonstrada em função da fragilidade competitiva da
indústria em todos os seus complexos de alto valor
agregado e de conteúdo tecnológico; debilidade
estratégica e tamanho reduzido dos grandes grupos
domésticos; e enfraquecimento das empresas nacionais em
todos os setores manufatureiros complexos (de maior
valor agregado). Atualmente, parte das grandes e médias
empresas que se sobressaem está amarrada de forma
subalterna a uma estrutura globalizada, condicionando
uma série de “buracos” nas principais cadeias de
produção. Como conseqüência disso, esses desajustes
básicos limitam a taxa do crescimento do país e a sua
sustentabilidade.
O setor agrícola ficou aquém de atingir volumes de
exportação necessários para galgar maior capacidade
para importar e manter a queda dos preços dos alimentos
básicos. O Brasil, que possui condições concretas de
se transformar em grande exportador de produtos
agrícolas e agroindustriais, hoje se tornou um dos
maiores importadores nesse setor. A forte
desvalorização cambial do início de 1999 não foi
suficiente para eliminar o déficit comercial,
aumentando, também, os índices de importação,
demonstrando assim a profundidade do desequilíbrio
estrutural. Desse modo, a crise cambial está sempre
latente e não é apenas conjuntural. Ela não pode ser
resolvida simplesmente com uma mudança de política de
câmbio. A reestruturação praticada não ampliou o
mercado interno, não internalizou novas tecnologias,
não modernizou a indústria básica; em razão disso,
foi elevado sobremodo o montante das importações,
resultando numa estrutura industrial e agrícola com
cadeias descontínuas, e relativamente atrasada. O
Brasil vem retornando, gradualmente, à condição de
exportador de produtos primários.
Esse processo de reestruturação neoliberal gerou
restrições fundamentais, como nunca, à economia
brasileira – desnacionalizada de forma rápida e
descontrolada. A parte mais importante dessa
desnacionalização é o processo de privatização das
grandes empresas estatais: até o início de 2001,
envolveu operações dos setores de energia elétrica
(34,3 bilhões de dólares) e de telecomunicações
(26,4 bilhões de dólares). O setor financeiro,
público e privado, foi o terceiro grande negócio, com
cerca de 18 bilhões de dólares. A outra parte
fundamental corresponde a aquisições e fusões de
empresas líderes de setores industriais importantes
(autopeças, eletrodomésticos, produtos alimentícios,
produtos de higiene e limpeza, bebidas, bens de capital
e até agroindústrias).
O curso da desnacionalização se desenvolve por meio do
investimento direto estrangeiro (IDE), o qual se
caracteriza por não expandir o parque produtivo e por
investir em setores ou empresas não geradores de
divisas; e, além disso, eleva substancialmente a
remessa de lucros, aumentando mais ainda o seu ônus
sobre as contas externas de curto e longo prazos. A
partir de 1997 aumentaram exponencialmente as
aquisições de empresas nacionais por grupos
transnacionais. No início da década de 90 as remessas
de lucros e dividendos não ultrapassavam o montante de
300 milhões de dólares; para este ano, se prevê mais
de 7 bilhões de dólares de remessas – uma
significativa mudança de qualidade.
A abertura financeira e as regras impostas pelo FMI
conduziram todo setor público a uma crescente escassez
de recursos. O gasto público econômico e social em
relação ao PIB decresceu; mas, em contrapartida, a
carga tributária e fiscal agigantou-se para saldar as
despesas com juros que, no ano passado, quase
alcançaram 8% do PIB (em 95, foram 2,58%), elevando a
dívida pública, de cerca de 20% em 1994, para
aproximadamente 50% do PIB atualmente. Para se ter uma
idéia do peso dos juros em relação à receita
corrente líquida, basta dizer que os juros das dívidas
interna e externa, que em 1995 representavam 21,2%, em
1999 chegaram a 35,2% e, em 2000, 61,3%. O investimento
público, hoje, não passa de irrisórios 2,5% do PIB.
Desde o acordo com o FMI, no final de 1998, as Leis de
Diretrizes Orçamentárias (LDO) vêm se pautando por
forte arrocho fiscal; pela manutenção e acréscimo de
pesada carga tributária; e pelo corte radical dos
investimentos e dos gastos sociais. A sua essência
consiste em extrair o máximo de receitas e, ao mesmo
tempo, cortar despesas não financeiras (gastos sociais
e investimentos públicos), a fim de possibilitar um
maior gasto com as despesas financeiras (serviço da
dívida e outros). Disso resulta a componente com a qual
se define um superávit fiscal primário (geralmente,
cerca de 3% do PIB), sendo tudo submetido a esse
objetivo – o único número intocável do Orçamento.
Enquanto isso, de 1995 a 2000, os recursos destinados à
Saúde diminuíram de 2,1% do PIB para 1,96% e os da
Educação de 1,4% para 1,2%. Disso sucederam as
conseqüências brutalmente danosas para a situação em
que se encontram as cadeias de redes sociais públicas e
toda a infra-estrutura do país. Esta, com a escassez do
investimento público e as privatizações, vem sendo
deteriorada e ficando aquém da demanda exigida por um
crescimento, mesmo que contido. A crise energética,
produzida principalmente nos governos de Fernando
Henrique, demonstra o grau de liquidação que alcançou
o Estado nacional brasileiro.
A continuidade da aplicação desse projeto neoliberal
no Brasil implicará em crescentes restrições para o
desenvolvimento da economia nacional, que estará
sujeita às oscilações que determinam o financiamento
externo adotado e à extensa desnacionalização que
aprofundou a dependência econômica. Em tais
condições, a retomada do crescimento sempre fará
aumentar o déficit externo – porque aumentará mais a
importação e a remessa de lucros –, enquanto que as
exportações se manterão defasadas, não acompanhando
o crescimento do índice de importação, como resultado
das restrições estruturais atuais. Por isso, a
dinâmica econômica tem sido caracterizada por um
pequeno crescimento, seguido de recessão, e vice-versa;
resultando num crescimento médio medíocre, em uma
conjuntura internacional de incertezas, condicionando
uma tendência econômica marcada pela instabilidade,
estagnação e maior dependência. Essa situação tende
a se agravar – mantidas as premissas neoliberais –
em uma conjuntura mundial de recessão e guerra.
Desmonte do Estado nacional
A trajetória de quase 10 anos da predominância da
orientação neoliberal no Brasil, principalmente a
partir do governo FHC, vem provocando mudanças
estruturais na base econômica – desestruturação da
economia nacional –, produzindo, simultaneamente,
modificações na superestrutura política, sobretudo
com o desmonte do Estado nacional. Desse modo, a
estratégia de abertura e de domínio do mercado
brasileiro pela oligarquia financeira transnacional dos
países centrais, através da supremacia política
destes e do seu próprio poderio econômico, consiste em
forçar a liquidação dos instrumentos econômicos,
tecnológicos, políticos, sociais e culturais –
fundamentais para a soberania e a proteção nacional.
Essa oligarquia que engloba os grandes monopólios é a
força social dominante na sociedade capitalista
contemporânea. Procura submeter a burguesia local a fim
de favorecer o predomínio sem contrapesos de seus
interesses. Tal força dominante tanto utiliza o poder
de seus Estados imperialistas para sua expansão
mundial, quanto o poder do Estado brasileiro para
realização de suas rentáveis operações financeiras
e comerciais. Assim, o aparato estatal deve estar
preparado para garantir liberdade plena de movimentos
aos monopólios transnacionais e reprimir os movimentos
de resistência e mesmo uma parte da burguesia nacional.
A denominada reforma do Estado vem sendo utilizada como
meio para adequar o Estado nacional a essa investida do
grande capital monopolista, submetendo-o aos seus
preceitos e interesses. O Estado brasileiro, de Estado
da macroeconomia, do emprego e da renda (economia da
produção), cada vez mais está se tornando num Estado
da macroeconomia da riqueza financeira. Transformou-se
em centro transferidor de gigantescas parcelas de
riqueza a grandes rentistas internacionais e associados
locais. Do Orçamento Nacional previsto para 2001, mais
de 40% da receita destinam-se ao pagamento do serviço
da dívida pública.
O governo de Fernando Henrique Cardoso é artífice e
condutor desse desmonte nacional, construtor de um
Estado em processo de colonização contemporânea. Esse
Estado vem intervindo eficaz e rapidamente nos momentos
de crise provocados pelo mercado financeiro para evitar
as perdas patrimoniais dos grandes grupos privados
transnacionais, providenciando mecanismo de proteção,
conhecido como hedge. Dessa forma, se o seguro não for
suficiente para “tranqüilizá-los”, poderá
recorrer ao FMI, sob condições leoninas, exigindo
pesados sacrifícios ao povo, e transferir enormes
volumes de recursos públicos para salvar o sistema
financeiro. Para tanto, o Estado atual é máximo: valem
as medidas de intervenção, não as leis do mercado.
A fim de justificar as mudanças, coloca-se em movimento
um extenso aparato político-ideológico: órgãos
estatais, mídia, instituições, universidades, parte
da intelectualidade. Todo recurso discursivo a serviço
do poder é profusamente difundido no sentido de
qualificar, pejorativamente, como “absurda” e “atrasada”
qualquer proposta que se contraponha à agenda “natural”
dominante. Tudo que seja obstáculo à investida
imperialista atual é apregoado como superado:
Estado-nação, projeto nacional, empresa estatal,
soberania nacional. E mais, “o mercado é o melhor
regulador das relações econômicas e sociais”, “a
desigualdade social é importante fator de estímulo ao
crescimento econômico” e outras pérolas neoliberais.
O governo e os condutores do processo liberalizante, na
sua marcha transformadora, agendaram uma série de “reformas
estruturais”. Primeiro, a mudança da linha geral da
Constituição de 1988. Segundo, a adoção, a partir do
final de 1998, da linha “disciplinadora” do FMI. E,
terceiro, a desfiação de um conjunto de leis
fundamentais, consideradas como “blindagem” do
sistema dominante – garantia da sua continuidade mesmo
com a mudança de governos –, tal como as leis que
disciplinam o modelo das Agências Reguladoras, a Lei de
Responsabilidade Fiscal e, ainda, a tentativa de
formação de um Banco Central “independente”.
A Reforma Econômica, com a alteração do Capítulo da
Ordem Econômica da Constituição, foi o ponto de
partida, implicando em mudanças fundamentais:
alteração do conceito de empresa nacional para “empresa
brasileira”; fim do monopólio estatal do petróleo e
das telecomunicações; desnacionalização da
navegação de cabotagem; aprovação da nova Lei da
Propriedade Industrial – lei das patentes. Tudo isso
abriu caminho para o desenvolvimento das grandes
privatizações e da desnacionalização da economia,
garantindo às empresas estrangeiras os mesmos direitos
de crédito e de exploração das nacionais, com um
diferencial essencial: aquelas vinham com divisa forte e
tinham acesso ao crédito de fora com juros muito
inferiores aos locais.
Logo em seguida, a reforma na área social, ainda
inconclusa, consiste num conjunto de medidas que segue a
lógica da diminuição das despesas não financeiras
(gastos públicos) e da minimização do Estado na
própria esfera social. Exemplo significativo disso foi
a Reforma da Previdência que, além de promover perdas
nas conquistas dos trabalhadores, visa à privatização
de seu setor mais rentável. A Reforma Administrativa,
seguindo a mesma linha de “diminuição do Estado”,
revogou a estabilidade do servidor público e o direito
à aposentadoria integral, instituiu o “contrato de
gestão”, recurso esse que permite ao Estado se ver
livre de muitas responsabilidades, repassando-as para o
setor privado ou para organizações sociais – até
nas áreas de Saúde e Educação. O Brasil tornou-se um
dos campeões mundiais em processo de
desregulamentação do trabalho. O estágio atual
consiste na flexibilização dos direitos trabalhistas
através da alteração do artigo 618 da CLT
(Consolidação das Leis Trabalhistas), revogando na
prática a legislação trabalhista ao estabelecer que
os acordos e convenções coletivas se sobrepõem à
lei. Isto como expediente que visa atender o ritmo da
concorrência altamente concentradora imposta pelo
capitalismo atual. No mesmo caminho do endurecimento nas
relações de trabalho, por meio de atos de força,
arbitrários e antidemocráticos, são efetuadas medidas
que visam restringir o poder de mobilização dos
trabalhadores, especialmente dos servidores públicos,
cujo direito de greve está ameaçado. Além disso
procura-se golpear a resistência dos trabalhadores
negando a unicidade sindical, através de mais uma
emenda constitucional.
Todavia, o governo não completou o ciclo das
denominadas reformas estruturais. Mantêm-se em pauta as
reformas tributária, judiciária e política. A
primeira é parte fundamental da política neoliberal;
ainda não avançou porque o governo já conseguiu o que
pretendia: aumentou significativamente a arrecadação e
agiu intempestivamente através da aprovação de
emendas constitucionais – a Desvinculação de
Recursos da União (DRU), que assegura ao governo 20% da
receita da União, para gastos fora do enquadramento
orçamentário, um verdadeiro confisco, e a CPMF
(Contribuição Provisória sobre a Movimentação
Financeira), o imposto “cascata” –, e da
promulgação de outras leis fiscais que mantêm um
sistema tributário extremamente regressivo (repasse de
recursos, mais do que proporcionais, das camadas pobres
e camadas médias para o Estado) e centralizador
(debilitação do próprio pacto federativo). Sua
proposta atual segue a manutenção dessa linha, com a
defesa dos impostos indiretos que não incidem sobre a
renda e a propriedade, mas sim sobre a circulação de
mercadorias, atingindo indistintamente todas as camadas
da população.
A Reforma do Judiciário segue o mesmo escopo. A
adoção da Súmula Vinculante, por exemplo, permite aos
tribunais superiores a promulgação de decisões
válidas para todas as instâncias do judiciário,
facilitando a concentração da pressão governamental
“por cima”, como nos casos sucedidos na concessão
de processos de privatização.
Pretende, o governo, que a Reforma Política, ainda em
andamento, desenhe o novo arcabouço político
partidário e eleitoral do sistema que vem sendo
implantado. Ainda não avançou efetivamente em
decorrência das contradições da própria base
política governamental. Esta reforma por sua natureza
fortemente autoritária, antiplural e antidemocrática,
também encontra justas resistências. Um Estado que vem
sendo moldado para assegurar crescente concentração do
capital e da riqueza é incompatível com a
democratização. Torna-se vital, para sua
governabilidade, consolidar e “aperfeiçoar” um
mínimo condomínio de partidos, do qual subsistam
apenas os situacionistas, embora circunscritos a um
número menor de legendas e a apenas um partido de
oposição maleável, confirmando ainda mais o caráter
elitista do poder político. Evidentemente, partidos
como o PCdoB não podem ter representação parlamentar
nesse conceito antidemocrático. O traço fundamental
dessa “reforma” é não impedir o livre movimento do
poder econômico, a fim de exercer sua influência, de
uma forma ou outra, nos pleitos, principalmente no atual
estágio da democracia liberal burguesa, em que as
campanhas, para triunfar, tornaram-se cada vez mais
virtuais e milionárias. Os partidos vinculados aos
setores sociais dominantes não podem prescindir do
financiamento econômico privado. Para consubstanciar o
modelo governamental pretendido, seus autores se valem
do entulho autoritário disponível no estoque dos
períodos ditatoriais da história brasileira e copiam
modelos elitistas de fora, como a cláusula de barreira,
o voto distrital misto e a proibição da coligação na
eleição proporcional.
Nos acordos com o FMI a partir do final de 1998, o
governo “reafirma” a linha e a agenda das “reformas
estruturais”; compromete-se em “acelerar e ampliar o
escopo do programa de privatizações” e em “exercer
com determinação a sua política” de “conceder
maior eficiência e reduzir, ao longo do tempo, o papel
dos bancos públicos na economia”. As premissas e os
números básicos do Orçamento Nacional são ditados
por esse organismo internacional, bem como as principais
metas financeiras e econômicas para o país. Tudo isso,
sob o regime de um permanente controle externo,
significou um avanço qualitativo na escalada
liberalizante, retirando parte fundamental da autonomia
nacional para definir a política econômica-financeira
brasileira.
Com o advento das privatizações, o governo espelhou-se
no modelo norte-americano para criar as Agências
Reguladoras, com a finalidade de regular a atividade
econômica de setores fundamentais – petróleo,
energia, telecomunicações, águas, transportes –,
que passam a ser a expressão orgânica da idéia da
retirada do Estado da atividade produtiva. Os
presidentes dessas agências têm mandatos fixos que
não coincidem com o do presidente da República.
Qualquer novo governo encontrará nesse estratégico
terreno da administração econômica uma situação
estabelecida, independentemente de sua política. Apesar
de dispor formalmente de amplo poder regulador, tais
agências possuem pequena capacidade real para impor
suas determinações, pois as empresas desses setores
são constituídas sob a égide de grandes monopólios
internacionais, prevalecendo, em última instância, a
força do “mercado” e a influência dos poderosos
conglomerados. Estão imunes à prestação de contas à
sociedade. Além disso, destacam-se como definidoras da
política neoliberal como no caso do saneamento básico
(recursos hídricos como questão estratégica),
propondo um arcabouço institucional (Projeto de Lei
4.147/01), constituído no âmbito federal, cujo
objetivo maior é a privatização do setor. Ainda
pode-se ressaltar a escalada sem precedentes da
privatização do ensino e da saúde. Cerca de 75% das
Instituições de Ensino Superior do país pertencem à
iniciativa privada. No campo da saúde, 60% dos leitos
estão em instituições privadas (filantrópicas ou
não). Quarenta milhões de brasileiros estão hoje
vinculados aos planos e seguros de saúde,
principalmente através dos convênios-empresas que são
estimulados a se estender.
Para compor essa “blindagem” do sistema em
implantação, foi promulgada a Lei de Responsabilidade
Fiscal (LRF) que, ao contrário do difundido, não
limita a farra com o dinheiro público, pois permite a
ampliação dos gastos financeiros, especialmente os da
União. A finalidade dessa lei é fazer cumprir, ao
extremo, metas fiscais, na linha do ajuste reafirmado ao
FMI, enquadrando de forma draconiana governadores e
prefeitos, punindo-os até mesmo com prisão e
desconsiderando, ostensivamente, os preceitos do pacto
federativo vigente. Ela impede qualquer negociação das
dívidas dos Estados e das prefeituras, geradas em
conseqüência dos altos juros. E a sua resultante maior
impõe o congelamento dos gastos sociais, numa realidade
em que prefeitos e governadores vivem sob pressão
explosiva de demandas humanas e sociais.
A sociedade mais desigual e deformada
A modelagem que vem sendo realizada na base
econômica e no arcabouço estatal do Brasil atual –
resultante do surto liberal, condição imposta pelo
curso da concentração e da centralização do capital
transnacional – vai cavando na sociedade brasileira
maiores desigualdades e profundas deformações. O atual
arranjo político e econômico produz um estrago social
ainda pior que os anteriores. Às questões estruturais
do subemprego e da pobreza se agregaram o desemprego
aberto, a precarização nas relações de trabalho e a
exclusão social de camadas antes participantes do
processo de desenvolvimento. A taxa de desemprego
praticamente dobrou (mesmo considerando os índices do
IBGE), saltando de 4,3% em 1990 para 7,1% no ano 2000.
Hoje, 54% da População Economicamente Ativa (PEA)
integram o mercado de trabalho informal. No cenário de
um crescimento médio medíocre, há uma queda no gasto
público econômico e social (atualmente mal atinge o
nível da década de 80, caindo, portanto, em relação
ao PIB) e a predominância de uma política fiscal
regressiva somada aos inúmeros “ajustes fiscais”.
O perfil social que vem sendo plasmado é expresso em
segmentos compostos por uma camada minoritária na
sociedade, efetivamente incorporada ao padrão de
desenvolvimento vigente; por uma camada maior
intermediária, ameaçada, que vive a agonia permanente
de manter seu nível na escala social e de preservar
certos direitos, atualmente em perigo; e pela maioria da
população – da qual fazem parte os que vivem com
menos de três salários mínimos (de 80 dólares), os
desempregados, subempregados, os abaixo da linha da
pobreza e os marginalizados – que é deserdada do
processo liberalizante. Ao regime sequer foi possível
concretizar, de forma continuada, “políticas
compensatórias” para atender à crescente carência
social. Seguindo o padrão da reprodução capitalista
atual – no qual a taxa de lucro imposta pelos
monopólios transnacionais é bem superior à de
crescimento obtido, na média, nos países “periféricos”,
como é o caso do Brasil –, a perspectiva é que no
máximo cerca de 30% da população sejam realmente
incluídos no mercado resultante do processo atual.
Do ponto de vista de classe social, com a abertura
liberal e a conseqüente sucessão de medidas
desnacionalizantes e as mudanças na superestrutura,
cresceu o poder da oligarquia financeira internacional
no país, acentuando a estratificação interna da
burguesia brasileira – a “financeira” e a “produtiva”
–, resultando na formação, nesta classe, de uma
camada associada de formas diversas à oligarquia
estrangeira e de camadas que foram perdendo espaço,
ameaçadas ou absorvidas. Trata-se de um processo em
desenvolvimento, carecendo ainda de melhor definição.
Por outro lado, esse movimento do capital vem produzindo
a progressiva depauperação do proletariado e do
campesinato em geral e a marginalização de parcelas
maiores da população. As diferenças regionais se
acentuaram, concentrando a produção de bens e
serviços de maior valor agregado no sudeste e no sul do
país.
Diante desse quadro em formação é inevitável o
agravamento das contradições sociais e nacionais,
provocando, como conseqüência, a resistência e a luta
dos trabalhadores e do povo em geral. Nesse período
mais recente, as lutas populares alcançaram o nível da
mobilização política com o expressivo ato de
metalúrgicos, funcionários públicos, estudantes e
sem-terra, em abril de 1997 em Brasília, e com a grande
manifestação da marcha dos 100 mil, em agosto de 1999.
Além disso, nesse mesmo ano, as grandes ações de
massa de caminhoneiros e de pequenos e médios
agricultores. No ano passado a campanha exigindo um
plebiscito sobre dívida externa mobilizou 7 milhões de
votantes em quase todos os Estados. O Fórum Social
Mundial, realizado em Porto Alegre no início de 2001,
tornou-se um grande evento de repercussão mundial,
contando com a presença de 15 mil participantes de 120
países integrados na luta contra o neoliberalismo. A
luta pela reforma agrária se ampliou com ocupações de
terra e importantes marchas nas cidades. As greves
econômicas, mesmo diante da pesada adversidade para os
trabalhadores, não deixaram de eclodir. Estes têm
empunhado bandeiras em defesa dos seus direitos
ameaçados, das condições de trabalho que se
precarizam, pela diminuição da jornada de trabalho
para 40 horas e aumento do salário mínimo. As
mobilizações estudantis promovidas pela UNE e pela
Ubes cresceram nos últimos anos, pautando a defesa da
educação pública e colocando no alvo o governo FHC. O
Fórum Nacional de Lutas organizado desde 1997, que
congrega mais de 80 organizações sindicais e populares
de caráter nacional, tem cumprido importante papel
aglutinador e na mobilização de grandes ações de
massas no país.
Em duas décadas, do número total de habitantes, a
população urbana saltou de 50% para 80%, inchando as
cidades, fato esse que, diante de uma política
econômica e social desigual e injusta e da ausência de
investimento público, aprofundou a clivagem dessa
população, conformando, no âmbito de uma mesma cidade
algumas ilhas “de primeiro mundo” cercadas por
amplas concentrações, até mesmo, de “quarto mundo”.
As lutas sociais contra a rápida deterioração da vida
das massas se espraiam em várias formas de
organização em todo o país, num somatório de
pequenas ações por moradia, saúde, educação,
transportes, saneamento básico e contra a violência,
sobretudo nos grandes centros. A criminalidade e os
assassinatos atingiram níveis alarmantes, condizentes
com um quadro de guerra civil. Nisso muito contribui o
narcotráfico, que utiliza milhares de jovens na sua
atividade criminosa. As camadas marginalizadas promovem
revoltas em favelas e na periferia das cidades e
sublevações nos presídios e Febens. Os diversos
setores da população, como mulheres, índios, negros e
as minorias, mantêm uma constante luta por seus
direitos específicos.
É preciso acentuar o fato de que as mudanças nas
relações entre capital e trabalho vêm ocorrendo num
ambiente político com correlação de forças
francamente desfavorável à classe operária e suas
organizações mais conseqüentes, reduzindo o poder de
mobilização, a unidade e as condições de luta dos
trabalhadores, que têm sido constrangidos à defensiva.
Combinada com a ofensiva política intensa, uma vasta
pressão ideológica pesa continuamente sobre eles. O
movimento sindical brasileiro encontra-se em refluxo. A
rigor, vive uma crise de representação, com a
redução de suas bases e obscurecimento das
perspectivas políticas. Novos desafios emergem dessa
realidade e devem ser enfrentados pelos comunistas e
demais forças conseqüentes do movimento operário.
O agravamento das contradições políticas, econômicas
e sociais vai desnudando a natureza do governo FHC e
expondo os recônditos interesses dos partidos e
facções que o sustentam para parcelas crescentes da
sociedade. Sua credibilidade despencou e cresce a
rejeição à sua política. Transparece
progressivamente – por detrás do engano e do disfarce
convenientemente concertados – o fato de Fernando
Henrique Cardoso sempre ter procurado ocultar o sentido
de sua submissão externa. Seu governo acentua a
característica autoritária. Possui uma trajetória
marcada por uma conduta que combina truculência para as
camadas populares e arrogância para a oposição com,
de outra parte, condescendência para as aristocracias
financeiras – externa e interna. Vai se tornando
evidente o seu bojo cheio de politicagem, corrupção e
fraude. Foram muitas as CPIs circundadas e barradas por
ele e seus acólitos. Para enfrentar a resistência à
aplicação de sua política antipopular e antinacional,
governa de forma discricionária por meio das Medidas
Provisórias que se transformaram em um recurso
permanente. O Poder Executivo resulta num
presidencialismo imperial. As duas casas legislativas
– Câmara dos Deputados e Senado Federal – perderam
grande parte de sua autonomia.
Na sociedade atual, em desenvolvimento, é relevante a
interferência da mídia na prática política e no
exercício do poder como instrumento de construção de
consenso e legitimação do projeto hegemônico. É
preciso fazer o povo “aceitar o sacrifício”. Na
visão de analistas independentes, sobretudo levando-se
em conta a televisão, identifica-se que esta se tornou
o “Príncipe Eletrônico”, ou seja o “maquiavelismo
contemporâneo”. A TV pode gestar a “realidade
virtual”. A mídia constitui-se e efetiva-se como
empresa e, seu produto, como mercadoria; sua mediação
e sociabilidade obedecem aos parâmetros mercantis. Em
nosso país a grande mídia liderada por famílias
aristocráticas tradicionais se modernizou e, condizente
com o processo atual de concentração do capital, se
monopoliza, com algumas empresas sendo absorvidas por
grupos estrangeiros e entrelaçando-se através de
múltiplos interesses econômicos à oligarquia
financeira no processo de desnacionalização em curso.
Por se tornar também um potente instrumento de poder, a
mídia de porte médio e pequeno foi sendo montada e
capturada diretamente pelos grupos políticos dominantes
em vários Estados.
Ameaça neocolonial contemporânea
Abandono do projeto nacional
Transcorridos 10 anos de vigência da orientação
neoliberal no Brasil, torna-se mais nítida a evolução
das tendências predominantes, suas fontes e o caráter
das mudanças ocorridas. Se o país perdera a década de
80, tal fato, relativamente, ocorreu ainda mais na
seguinte. A abertura radical da economia desde o início
de 1990; o processo de “reformas”; as operações de
privatizações das empresas estatais e a ampliação da
desnacionalização; o desmonte do Estado nacional
brasileiro e a revisão drástica da Constituição de
1988 em seus principais capítulos ocorreram em
praticamente 5 anos – uma rara velocidade histórica
se se considerar o fato do país estar diante de
mudanças estruturais e da superestrutura nacional.
Está patente que o Brasil se inseriu num projeto ditado
e manuseado de fora, pois “era o único caminho que
restava”, segundo a vulgata neoliberal, agravando e
prolongando o impasse do capitalismo dependente
brasileiro. As elites dominantes brasileiras (grande
burguesia, seus políticos, parte da intelectualidade, a
quase totalidade da mídia), visando resguardar seus
interesses e posições, acossadas pela “crise das
dívidas” dos anos 80 – nas quais elas mesmas
acabaram se enredando –, excluíram qualquer veleidade
de desenvolvimento autônomo, de projeto nacional.
Pactuaram com a oligarquia financeira transnacional o
destino da nação, abrindo-a, literalmente, concedendo
lastros, garantias e realizando as mudanças exigidas do
exterior para o êxito do novo empreendimento. Hoje, a
governabilidade perdeu o sentido nacional para os atuais
governantes. Na eleição presidencial de 1989, a
tentativa de fazer vingar um projeto alternativo – de
cunho democrático-popular que, diante da encruzilhada
da década de 80, pudesse abrir caminho no rumo da
soberania e da democracia – quase triunfa no segundo
turno das eleições, após ter conseguido ampla união
de forças. Os setores dominantes de dentro e de fora do
país estremeceram e apressaram a viabilização e a
manutenção do rumo liberalizante.
Os problemas estruturais brasileiros – dependência
econômica e acentuada desigualdade social –,
próprios de um país “periférico”, condicionam uma
dinâmica capitalista periódica de acumulação com
endividamento externo, o que tem sido uma tendência
histórica. Entretanto, na trajetória do Estado
brasileiro, desde 1930, considerando-se também o
período do regime militar, ainda persistia, mesmo com
suas deformações, uma “visão nacional” –
responsável por uma economia, uma política e uma
diplomacia nacionais. A tendência nacionalizante, a
busca de um projeto nacional, foi truncada na década de
90. O projeto democrático-popular foi derrotado em 89 e
os setores dominantes abandonaram qualquer pretensão de
projeto nacional. O Estado nacional vem sendo desmontado
e, hoje, amoldado às condições geopolíticas e
geoeconômicas da ordem mundial, hegemonizada pelos
Estados Unidos. Se continuarem essas tendências à
desnacionalização, com concentração do capital
dirigido de fora e à submissão às condições
impostas pela potência hegemônica, o Estado nacional
brasileiro atingirá um patamar de abandono completo das
funções, objetivos e compromissos nacionais,
crescendo, assim, a ameaça neocolonial sobre o país.
Um exemplo claro dessas tendências, é a recente
tentativa do governo FHC de internacionalizar a Base de
Lançamentos de Satélites de Alcântara, no Maranhão,
cuja proposta já se encontra na Câmara dos Deputados.
Caminho da neocolonização
Em suma, a crise crônica que vive o governo FHC, com
reincidências constantes, é manifestação da mudança
imposta desde o início da década passada: a tendência
definida pelo anseio nacional e pela democracia em todos
os terrenos foi barrada temporariamente. A fixação da
linha neoliberal para os países latino-americanos,
nascida no Consenso de Washington, tem um sentido
estratégico definido de domínio econômico-financeiro
e político sobre essa região. Por isso compreende a
sucessão de etapas fundamentais de médio e longo
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