Importantes acontecimentos tiveram lugar
nos últimos
anos no cenário mundial que confirmam as análises e
resoluções do 9o Congresso do Partido, realizado em
outubro de 1997, acerca do desenvolvimento das
tendências objetivas do sistema
capitalista-imperialista e do conjunto da situação
política. Agravam-se os antagonismos irreconciliáveis
do sistema – entre o proletariado e a burguesia, os
povos e o imperialismo, e as contradições
interimperialistas –, cujos reflexos políticos e
sociais criam situações explosivas e um quadro
político de enorme instabilidade. A contradição entre
o capitalismo e o socialismo continua presente como uma
das contradições fundamentais da época atual, embora
seu desenlace não esteja colocado como solução de
curto prazo.
Impasses do sistema capitalista
O capitalismo contemporâneo desenvolve mudanças,
intensificando a internacionalização econômica e
dispondo de inovações tecnológicas, porém persistem
e renovam-se seus grandes impasses. Não se apresenta
sinal evidente de reversão do longo período de
dificuldades para a retomada de um dinamismo econômico,
com progresso material expressivo, simultâneo e global,
envolvendo a grande maioria das nações. Diferentemente
do período pós-II Guerra Mundial até o início dos
anos 70, em que houve certa uniformidade de crescimento
em todos os principais países imperialistas, o cenário
atual é de enormes dificuldades. Crescente
instabilidade e crises freqüentes marcam a economia
mundial. Em 1974 e 1975 e de 1980 a 1982 ocorreram
fortes recessões. Em 1989 e 1990, novamente os
principais países capitalistas entraram em crise. Ao
longo das duas últimas décadas sucederam-se fortes
crises financeiras, como a crise da dívida
latino-americana, em 1982, a queda da Bolsa de Nova
Iorque em 1987, as crises do México (1994), da Ásia,
da Rússia e do Brasil, entre 1997 e 1999, e, mais
recentemente a crise argentina. Presentemente, há
problemas na acumulação de capital; manifesta-se
ausência de sincronismo entre os ciclos econômicos das
principais potências, com destaque para a prolongada
estagnação japonesa e os fortes sinais de crise na
economia norte-americana, que registrara crescimento
durante boa parte dos anos 90. São crises ainda
parciais, pela sua duração e por se circunscreverem a
determinado país ou área, mas o fantasma de um
desastre global ronda a economia capitalista, cujas
causas radicam nas contradições fundamentais e nas
leis objetivas do desenvolvimento do sistema
capitalista. Hoje, com os evidentes sinais de recessão
na economia norte-americana, e nos demais pólos da
economia capitalista (Europa e Japão), configurando o
que muitos analistas denominam de primeira crise
sincrônica desde a grande depressão de 1929/33, caem
por terra as ilusões, cultivadas por muitos, até nos
círculos de esquerda, em relação à “revolução”
do sistema capitalista, em sua capacidade regenerativa,
ao ingresso em uma nova “idade de ouro”, marcada
pelo crescimento expansivo, prolongado e sistêmico. Na
seqüência desses esforços para aparentar vigor, os
ideólogos do imperialismo norte-americano criaram o
falso conceito de “nova economia” – originalmente
divulgado pelo Departamento de Comércio dos Estados
Unidos –, conceito ideológico que vem sendo
desmentido pela atual conjuntura de dificuldades da
economia norte-americana. Na verdade, o que os últimos
anos têm confirmado é a existência de uma crise
crônica e integral do sistema capitalista, como
advertiu o nosso Partido em seu 9o Congresso.
O contexto da década de 1990 é de profundas mudanças
na produção e na gestão do trabalho. O capitalismo
preserva sua lógica de acumulação e reprodução,
recorrendo à reestruturação produtiva, financeira e
geopolítica para superar obstáculos. O sentido geral
dessa reciclagem é a transferência do peso da crise
para os ombros dos trabalhadores. Os anos 1990 comprovam
que o essencial das mudanças capitalistas é a
salvaguarda das taxas médias de lucro e a busca do
lucro máximo, a partir da nova onda de exploração
brutal dos trabalhadores.
Os aumentos da composição orgânica do capital e do
exército industrial de reserva convergem para a
política de desvalorização da força de trabalho.
Adotam-se transformações técnicas para elevar a taxa
de extração de mais-valia relativa. Ao mesmo tempo,
intensifica-se o ritmo de trabalho (mais-valia absoluta)
e promove-se a regressão das formas de trabalho, a
diminuição dos salários, a dispensa de trabalhadores,
que se tornam supérfluos com as novas tecnologias, a
anulação de conquistas trabalhistas e o surgimento de
esquemas de subcontratação (terceirização). Assim, o
capital concretiza grande ofensiva sobre o trabalho.
No âmbito do capital, o aumento da sua concentração e
centralização (fusões, aquisições, criação de
mega-empresas) coexiste, em tensão, com o
aprofundamento da competição entre grupos
oligopolistas. Grandes grupos capitalistas privados,
tendo à frente a oligarquia financeira, elevam o grau
de monopolização da economia, contando com forte
privatização de estatais. As 500 maiores empresas do
mundo obtiveram em 1998 receitas de 11,5 trilhões de
dólares, aproximadamente 1/3 do produto bruto mundial.
Apenas 6 dessas empresas são da América Latina,
enquanto 455 têm suas matrizes nos Estados Unidos, na
Europa e no Japão. As cinco maiores empresas nos
setores de automóveis, petróleo, aeroespacial e de
computadores concentram cerca de 60% do faturamento
mundial da produção desses setores. Paralelamente a
esse processo de concentração e centralização dos
capitais, cresce o papel de organismos internacionais
controlados pelo imperialismo, como o Fundo Monetário
Internacional (FMI), o Banco Mundial e a Organização
Mundial do Comércio (OMC).
A rentabilidade do capital decorre da extração da
mais-valia na esfera produtiva. Foi essa esfera que
comandou o chamado período de prosperidade capitalista
do pós-II Guerra Mundial. Porém, a queda das taxas de
lucros e a crise da década de 1970 impulsionaram a
migração de capitais para a esfera financeira, que
não é mais caracterizada como suporte da esfera
produtiva. Há uma exacerbação da busca da
rentabilidade a partir da esfera financeira, gerando
inevitavelmente o aumento na instabilidade econômica
geral. O mercado mundial tem limites para o movimento de
exportação de capitais. Reiteradas e recentes crises
financeiras negam a idéia de mercados financeiros
eficientes. O agigantamento do capital fictício retira
capitais da esfera produtiva, fenômeno que também
está ligado às atuais dificuldades de crescimento.
O desmembramento da produção entre vários países é
um meio para ampliar os lucros. Essa nova tendência de
organização da produção resulta no abandono da
produção multidoméstica, evitando que a cadeia
produtiva situe-se em um só país. Ao mesmo tempo,
tomam-se medidas para assegurar as posições diretivas,
financeiras e tecnológicas nos principais países de
origem das grandes empresas transnacionais.
Os mais diversos esforços são realizados para
favorecer o crescimento da acumulação e da
concentração de capital, buscando-se adotar políticas
que possibilitem abrir uma “nova fase” de “relançamento”
do capitalismo. Essa diversidade de políticas e
processos está contida no projeto neoliberal, que
consiste na privatização das empresas estatais e do
patrimônio público; na retirada do Estado da gestão e
do papel regulador da economia; na desregulamentação;
na abertura nas áreas comercial, financeira e
tecnológica; na disciplina fiscal; na estabilidade
monetária obtida à custa do sacrifício do
desenvolvimento econômico e social; e na promoção de
reformas regressivas nas áreas social e trabalhista.
Essa receita neoliberal é diferenciada entre os países
imperialistas e os subdesenvolvidos e dependentes. Nos
países capitalistas desenvolvidos, o Estado continua
respaldando suas grandes empresas privadas,
empenhando-se na criação de oportunidades de negócios
no resto do mundo para a operação internacional desses
grupos capitalistas. Protecionismo, restrições
comerciais extra-alfandegárias, subsídio à
agricultura, isenções de impostos, medidas cambiais,
endividamento público, desenvolvimento científico e
tecnológico etc, são mecanismos de intervenção dos
Estados em apoio ao grande capital em cada país
desenvolvido. A acumulação de capital não pode
renunciar ao auxílio extra-econômico oferecido pelo
Estado. Nos episódios de crise financeira, o Estado
intervém reiteradamente para salvar grandes bancos.
A idéia do fim do Estado-nação, de que as fronteiras
econômicas já não mais existem, é inteiramente
falsa. Nunca a questão nacional e a luta
antiimperialista estiveram tão presentes. Houve, sim,
um debilitamento do Estado dos países dependentes e um
fortalecimento dos Estados dos países imperialistas. A
idéia do fim do Estado-nação parte de falsos
pressupostos – que a globalização neoliberal teria
levado à superação das economias nacionais e, por
isso, os Estados nacionais seriam incapazes de formular
políticas macroeconômicas. Tal visão é uma apologia
da submissão à “economia global” e cumpre um papel
ideológico para impor o “caminho único” da
globalização neoliberal, procurando impedir que os
países formulem projetos próprios de acordo com o
interesse de seus povos e nações.
As economias vulneráveis dos países dependentes e
subdesenvolvidos foram particularmente afetadas pela
aplicação do projeto neoliberal. Suas moedas foram
desvalorizadas, alguns países latino-americanos já
adotaram a dolarização, as taxas de juros atingiram
patamares altíssimos, com impacto sumamente negativo
sobre as taxas de crescimento econômico, os parques
produtivos foram quase destruídos, o patrimônio
público privatizado. Acumularam-se pesados passivos
externos pelo comércio desigual e pelo déficit nas
transações correntes dos balanços de pagamentos. O
FMI impõe condicionalidades estruturais draconianas,
obrigando os países dependentes a se adequar aos
preceitos da política neoliberal.
O cenário econômico da América Latina mostra com
clareza o retrocesso causado pela adoção da política
neoliberal. Segundo dados da Comissão Econômica para a
América Latina (Cepal), entre 1990 e 1999 o crescimento
econômico teve um índice médio anual de 3%. Com outra
política, a média do período de 1945 a 1980 foi de
5,5%. A Cepal considera que o mínimo de crescimento
indispensável para superar os males acarretados por
essa política teria de ser 6%, a fim de diminuir a
distância em relação aos países desenvolvidos. A
abertura comercial na América Latina significou uma
exposição desprotegida à competição internacional,
acarretando o desaparecimento de ramos inteiros da
indústria, levando a um grau ainda mais elevado de
dependência do capital internacional e dos centros de
poder imperialista, com o retraimento do mercado interno
e o escasso nível de acumulação de capital, déficit
crônico nas balanças comercial e de pagamentos e
elevada dívida externa, cujo montante chega a 750
bilhões de dólares. A implantação da Área de Livre
Comércio das Américas (Alca), se concretizada,
agravará ainda mais esse quadro.
A retomada torna-se ainda mais difícil com a crise na
economia norte-americana. A integração intensificada
pelos mecanismos da globalização colocou as demais
economias em maior dependência dos acontecimentos nos
Estados Unidos, cujos abalos em sua economia acrescentam
elementos importantes de dificuldades para o dinamismo
da economia mundial.
Essa propensão ao desajuste nega as concepções
equivocadas alusivas ao fim da história e ao triunfo do
capitalismo. Apressadamente houve quem proclamasse o fim
do ciclo econômico e seu inevitável desfecho em crise,
apresentando, em favor dessa tese, o exemplo do
crescimento econômico dos Estados Unidos durante quase
toda a década de 1990. O desempenho da economia
norte-americana seria uma vitória do neoliberalismo e a
restauração incontestável da sua supremacia em face
das demais potências imperialistas. O crescimento
cíclico dos Estados Unidos foi motivado por inovações
tecnológicas e pelas relações financeiras. A
hegemonia política norte-americana foi a alavanca
indispensável para que tal ocorresse. Na década de
1980, esse país se tornou o maior devedor do mundo e
nos anos 1990 a economia norte-americana passou a ocupar
o primeiro lugar como importadora de capitais – com
montante líquido de capital importado da ordem de 400
bilhões de dólares anuais. Os Estados Unidos contaram,
portanto, com imenso financiamento externo, a partir da
centralização concretizada por seus mercados
financeiros e pelo dólar, funcionando como verdadeira
bomba de sucção dos capitais disponíveis no mundo.
Paradoxalmente, o incremento da economia norte-americana
ocorreu na razão direta do aumento do seu parasitismo e
dependência de financiamento externo. No plano
comercial, os Estados Unidos têm um enorme déficit,
que hoje chega à casa de um bilhão de dólares por
dia, sendo deficitário também seu balanço de
pagamentos.
Tudo isso evidencia que são instáveis e precárias as
bases da economia estadunidense. A especulação
financeira não pode ser a base para o crescimento da
economia, mas sim um componente de agravamento das
contradições do capitalismo contemporâneo. A
observação atenta do quadro em evolução revela que
se encontra em desenvolvimento a tendência ao declínio
relativo da hegemonia mundial norte-americana.
Nos Estados Unidos repetem-se as quedas dos preços das
ações, os investimentos declinam e o endividamento dos
consumidores atinge proporções elevadíssimas. Segundo
a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento
Econômico (OCDE), o crescimento dos 30 países mais
adiantados recuará para a taxa de 2% em 2001, com a
ameaça de a economia do Japão entrar em uma espiral
descendente. A Alemanha, maior economia da Europa, tem
previsão de queda da taxa de crescimento para 2,25%
neste ano. Hoje, as encomendas às fábricas alemãs
enfrentam as maiores quedas desde setembro de 1991. A
OCDE prevê que a economia norte-americana apresentará
queda da taxa de 5% de crescimento, em 2000, para
medíocres 1,7% em 2001 – e sua taxa de poupança caiu
de 5% do PIB em 1990 para zero em 2000.
Crescente instabilidade e crises freqüentes marcam a
economia mundial. Para sair de tal situação, o capital
desenvolve as forças produtivas mas, ao mesmo tempo,
engendra novas dificuldades, porque reduz relativamente
a força de trabalho, a qual constitui a base da
valorização do próprio capital. Essa contradição
tem sua manutenção e agravamento evidenciados pelo
desemprego avassalador e permanente. Hoje todas as
tendências do capitalismo radicalizam-se:
concentração e centralização do capital,
desenvolvimento tecnológico e agigantamento financeiro.
O sistema funciona em permanente tensão, passível de
crises cíclicas mais graves. O conceito de crise não
implica na idéia de colapso automático ou derrube
final do capitalismo (este, relacionado com a luta
política revolucionária). Na sua fase imperialista, o
capitalismo tende ao aguçamento das crises, com ciclos
econômicos indefinidos e irregulares, com o
entrelaçamento de crises de superprodução e
financeiras e o aumento do parasitismo.
Diante desse quadro de crise econômica sistêmica, o
Partido Comunista do Brasil sustenta a opinião de que,
nas atuais condições, são falsas as prédicas sobre
as possibilidades de desenvolvimento social sob o
capitalismo. Pelo contrário, a característica marcante
deste nos nossos dias é o retrocesso em todos os
terrenos, diferentemente do período do pós-guerra, em
que foi possível instaurar o Estado de bem-estar
social. Quando a revolução tecnológica e científica
torna a humanidade capaz de produzir alimentos, bens de
consumo e serviços em abundância, possibilita o
surgimento de inimagináveis progressos no terreno da
biogenética capazes de produzir saltos na medicina e as
novas técnicas de comunicação reduzem distâncias e
apagam fronteiras, paradoxalmente constata-se que 30
milhões de pessoas morrem de fome a cada ano e mais de
800 milhões estão subalimentadas, outras tantas morrem
de enfermidades curáveis e camadas numerosas de pessoas
vivem na mais sombria ignorância e na escuridão do
analfabetismo. Constata-se, assim, a irracionalidade do
sistema capitalista. Em termos gerais a situação
mundial se caracteriza pela espoliação imperialista
sobre povos e nações, o ataque indiscriminado às
conquistas sociais, aos direitos dos povos e às
soberanias nacionais, o aumento das desigualdades
sociais, a devastação ambiental, a degradação da
condição humana. Na virada do século e do milênio,
presenciamos uma crise de civilização. O ordenamento
político e econômico mundial, sob a égide do
capitalismo imperialista em sua fase de globalização
neoliberal, é incapaz de garantir a sobrevivência da
humanidade em condições de dignidade.
Imperialismo norte-americano, inimigo
da liberdade, ameaça os povos com a guerra
Ao contrário do que os círculos imperialistas e
seus centros de propaganda apregoam, predomina no quadro
político mundial a desordem, a insegurança, a crise e
a instabilidade. A chamada nova ordem mundial, formada a
partir do desaparecimento da União Soviética e da
derrocada do socialismo no Leste europeu, configura-se
cada vez mais como uma ordem imperialista, marcada por
desenfreada espoliação dos povos e nações, pela
acentuação da polarização social, pelo aumento da
distância e das diferenças entre os países ricos e
pobres, pelo hegemonismo, o militarismo, o autoritarismo
e a ameaça de devastação ambiental. O século XXI se
inicia marcado por um colossal retrocesso das conquistas
da humanidade. O panorama mundial encontra-se agravado
pela hegemonia e agressividade política e militar dos
EUA. Por toda parte, aumenta o intervencionismo
norte-americano. O desenvolvimento da situação
internacional está carregado de graves ameaças à paz,
à segurança, à independência das nações, à
liberdade e aos direitos dos povos. Na origem da
instabilidade encontra-se a política espoliadora e
agressiva do imperialismo norte-americano, que cada vez
mais recorre à força e à superioridade militar para
impor sua hegemonia ao mundo. O imperialismo
norte-americano elevou o seu ditame e o chamado direito
de ingerência sobre nações e povos à categoria de
princípio incontestável de política internacional,
tornando letra morta princípios consagrados como a
soberania nacional, a igualdade, o respeito à
integridade territorial, a solução de conflitos por
meios pacíficos, a não-intervenção. A nova
administração norte-americana, tendo à frente um
presidente ultraconservador, já emitiu sinais de que
pretende aumentar a tensão para com seus adversários
na defesa dos interesses hegemonistas norte-americanos,
acarretando insegurança ainda maior para os povos.
Significativas mudanças estão em curso no quadro
mundial, a partir dos atentados em Nova Iorque e
Washington em 11 de setembro. Desde então se abriu uma
crise de grande envergadura em que a democracia, a paz,
a civilização e os destinos da humanidade estão sob
grave ameaça. O que está acontecendo, porém, não é
uma viragem completa na conjuntura mundial, não nega
nem inverte a lógica essencial dos fenômenos que se
desenvolviam. Os fatos em curso constituem a
exacerbação de tendências que vinham evoluindo, a
manifestação violenta das contradições do mundo
contemporâneo. A guerra e o perigo de uma escalada sem
precedentes já estavam contidos na cruel realidade do
capitalismo globalizado e neoliberal e na política
praticada pela nova Administração dos Estados Unidos.
O Partido Comunista do Brasil repudiou os atentados de
11 de setembro porque condena o terrorismo como meio de
ação política. Nada justifica a morte de milhares de
cidadãos inocentes. Atos desvairados e sem
legitimação política e ideológica servem apenas para
dar força à direita, aos inimigos da liberdade
política e dos direitos civis. Compartilhamos com as
forças democráticas a opinião de que o terrorismo é
fenômeno nefasto a ser combatido, no âmbito da
Organização das Nações Unidas, de acordo com as
normas do direito internacional e no estrito respeito à
soberania das nações e às liberdades civis. Os
Estados Unidos não têm autoridade moral nem política
para combater o terrorismo, pois como país imperialista
praticou inomináveis atos de covardia e terrorismo de
estado contra populações indefesas e países
soberanos. É inaceitável que no combate ao terrorismo
se pretenda confundi-lo com a luta revolucionária, a
luta de resistência, a guerra civil, diferentes
expressões de radicalismo político, relacionadas com
realidades nacionais e sociais concretas. Assim como é
inadmissível a tentativa de criminalizar os movimentos
revolucionários.
Os Estados Unidos iniciaram em 7 de outubro bombardeios
maciços sobre o Afeganistão. A mais colossal e
sofisticada máquina de guerra arrasou um país
paupérrimo, exaurido por mais de duas décadas de
conflitos externos e conflagrações internas. Começou
a guerra norte-americana, a primeira do século XXI, que
segundo as palavras do presidente George W. Bush, será
“prolongada e dura”, extensa, diferente de qualquer
outra “e implicará o uso de toda arma de guerra
necessária”. O potencial de fogo mobilizado e a
agressividade da retórica do chefe da Administração
estadunidense indicam que o objetivo da operação não
é propriamente a captura de Osama bin Laden e a
derrubada do regime Talibã. Ao anunciar que ampliará o
alvo de seu ataque, relacionando mais de 50 países que
seriam, no entender dos órgãos de espionagem
norte-americanos, “terroristas ou coniventes com o
terrorismo”, a Administração Bush deixa claro que
seu propósito é concretizar uma estratégia
anteriormente traçada, qual seja, a de impor a
hegemonia e o domínio unilateral no mundo, através do
emprego da força. Na verdade, com os atos de guerra
iniciados em 7 de outubro, os Estados Unidos têm em
mira resolver desde já problemas estratégicos, numa
perspectiva de muitas décadas. E nessa empreitada não
pretendem deter-se diante de qualquer obstáculo de
natureza ética, diplomática ou política. Os
imperialistas norte-americanos querem impor uma tirania
ao mundo, o que sugere um tipo novo de fascismo. A
criação de um tribunal militar estadunidense com a
atribuição de realizar julgamentos sumários e
secretos e proclamar a condenação à morte de
estrangeiros sem direito a recurso a qualquer instância
é fato da maior gravidade, atentatório à democracia e
aos direitos humanos. Trata-se de uma declaração de
guerra aos povos, que revela a tendência a estabelecer
a tirania dos Estados Unidos em escala planetária.
Também ofende a consciência democrática a
manipulação das informações por parte dos meios de
comunicação monopolizados pelos Estados Unidos. A
partir dos ataques ao Afeganistão e da proclamação da
guerra “longa e dura” por Bush, o mundo viverá um
processo de militarização das relações
internacionais, o que trará inevitavelmente duras
conseqüências para os povos – limitação de
direitos democráticos, crises sociais e perda de
soberania nacional.
A atual crise vai revelando “a natureza militar da
hegemonia americana”, como disse o embaixador Samuel
Pinheiro Guimarães em artigo publicado em “Carta
Maior”. Malgrado os rios de tinta que os
propagandistas do império do norte têm gastado para
proclamar o triunfo definitivo da hegemonia dos EUA, os
verdadeiros estrategistas deste império sabem que a
superioridade militar é fator decisivo para a
imposição dessa hegemonia. Em crise econômica e com
um déficit energético considerado por muitos
especialistas como “desesperador”, os EUA têm a
exata noção do papel da Ásia Central e do Oriente
Médio para a sua sobrevivência como potência.
Igualmente os Estados Unidos têm em conta a força de
países como a China, a Rússia e a Índia, potenciais
adversários. Zbigniew Brezinszi, ex-assessor de
Segurança Nacional dos EUA, em seu livro O Grande
Tabuleiro, afirma: (o ponto de partida) “para a
supremacia global é a Eurásia, o maior continente do
globo, onde vivem 75% da população mundial e está
concentrada grande parte da riqueza do mundo, seja
industrial, seja no subsolo, que incide na formação de
60% do PIB mundial e em três quartas partes dos
recursos energéticos conhecidos”. O jornal italiano
Il Manifesto, de 4 de setembro de 2001, observa que “a
principal preocupação dos Estados Unidos, que naquela
região não são hegemônicos, é a de impedir a
formação de uma tríade Rússia-China-Índia, cujo
potencial precursor é o tratado de amizade e
cooperação firmado em julho por Moscou e Pequim”.
Os atuais planos de guerra do imperialismo
norte-americano não foram traçados a partir de 11 de
setembro. A década de 90 do século passado começou
com a Guerra do Golfo, quando o ex-presidente George
Bush proclamou a “nova ordem”, e terminou com a
guerra da Otan contra a Iugoslávia. A primeira ação
externa do novo governo dos Estados Unidos foi um
inopinado bombardeio aéreo contra o território do
Iraque, revelando uma vez mais o caráter arbitrário do
imperialismo, mais um episódio em que a potência
norte-americana ignora as normas do direito
internacional. A repetição de tais ações
combinava-se com o prosseguimento das sanções injustas
aos iraquianos, impedindo que se curem as chagas
econômicas e sociais abertas com a Guerra do Golfo de
1991, constituindo-se ainda como crime de
lesa-humanidade, na medida em que provoca a morte de
milhares de pessoas por falta de alimentos e
medicamentos. Já durante a campanha eleitoral no ano
passado, o então candidato Bush referia-se à “missão”
de fazer valer os “interesses nacionais permanentes
dos EUA” na luta contra o “mal”.
A crônica dos primeiros meses do governo Bush é
ilustrativa de que os EUA optaram por uma política
externa unilateral, baseada na força, voltada para o
expansionismo e a imposição da hegemonia
norte-americana. Os EUA enrijeceram a política para com
a China, provocaram-na abertamente, através do
episódio do avião de espionagem que violou o espaço
aéreo chinês e incitando o separatismo tibetano e o
“independentismo de Taiwan”; proclamaram a
caducidade do Tratado antimísseis de 1972 e decidiram
desenvolver um sistema antimísseis que lhe daria
supremacia absoluta em termos de armas nucleares, o
famigerado projeto “Guerra nas Estrelas”;
recusaram-se a assinar o Tratado de Kyoto, retiraram-se
com estardalhaço da Conferência anti-Racista da ONU e
respaldaram todos os atos agressivos de Israel contra a
Intifada palestina. Implementaram na Europa uma
política de militarização preconizando a expansão da
Otan e criando situações ainda mais tensas nos
Bálcãs, a fim de justificar a presença de tropas
imperialistas nesta região, também estratégica. Na
América do Sul, prossegue a aplicação do Plano
Colômbia, que constitui uma retomada do
intervencionismo norte-americano, a implementação
pelos EUA do Plano Puebla Panamá e intensificam-se as
pressões políticas para a criação da Alca. Durante o
ano de 2001 tiveram lugar na Argentina exercícios
militares conjuntos das forças armadas norte-americanas
com as de vários países do subcontinente.
Ainda é cedo para avaliar as repercussões da atual
crise sobre a correlação de forças e os blocos de
alianças. Mas é falso que os EUA tenham conseguido o
alinhamento automático de todos os países à sua
política guerreira ou que todos se tenham rendido à
ameaça do presidente norte-americano: “ou estão
conosco ou com os terroristas”. Nas declarações de
muitos governos, percebeu-se muita cautela, diplomacia,
sinceridade no propósito de combater o terrorismo,
interesse próprio em conter movimentos separatistas de
inspiração fundamentalista. E não faltou quem, entre
os aliados dos Estados Unidos, quisesse tirar proveito
da situação para acumular força, caso do Japão e da
Alemanha, que ofereceram tropas com o objetivo de abrir
precedentes para o levantamento da proibição de que se
militarizem. A fim de fortalecer suas posições, os EUA
apresentaram como trunfo a suposta adesão da China mas,
ao contrário do que se propaga, o grande país
socialista asiático não apoiou os bombardeios. “É
necessário que o Conselho de Segurança jogue seu
papel. Qualquer ação militar deve respeitar os
princípios e os objetivos da Carta das Nações Unidas,
além das normas do direito internacional”, declarou o
presidente chinês Jiang Zemin. É inevitável que, uma
vez evidenciados os propósitos norte-americanos, voltem
a prevalecer as divergências dos Estados Unidos com
outras potências e se recoloquem na ordem do dia os
conflitos econômicos, comerciais, políticos e
diplomáticos.
Não cabem dúvidas de que semelhante estratégia oporá
irremissivelmente a esmagadora maioria dos países e
povos ao imperialismo norte-americano. No Paquistão, na
Indonésia, na Palestina, nos países árabes, a
política norte-americana desperta ódio e revolta. Na
Europa e nas Américas erguem-se os protestos contra a
guerra que ameaça a civilização. Os povos do mundo,
mais do que nunca, devem levantar a bandeira da PAZ,
CONTRA A GUERRA IMPERIALISTA. Por toda parte, é
necessário organizar o movimento pela paz, com o
pluralismo e a diversidade que tal tipo de movimento
comporta. A frente-única e a unidade em torno da luta
pela paz precisam ser forjadas, tarefa para cujo êxito
os comunistas e as demais forças de esquerda devem
contribuir. Expressão da luta dos povos por democracia,
soberania nacional e justiça social em oposição aos
tenebrosos planos de dominação do mundo pelo
imperialismo norte-americano, a luta pela PAZ coloca-se
na ordem do dia como tarefa central do movimento
revolucionário, vertente essencial da luta pelo
socialismo na época atual.
Na América Latina, encontra-se em vigor o Plano
Colômbia, que retoma o intervencionismo norte-americano
na região. Sob o pretexto de combater o narcotráfico,
os Estados Unidos mantêm centenas de especialistas
militares na Colômbia e fornecem ao Exército desse
país armas modernas. Na verdade, trata-se de combater o
movimento revolucionário local e ocupar um espaço
estratégico na região amazônica. Ultimamente, tendo
em vista envolver os países sul-americanos em sua
empreitada agressiva, os imperialistas norte-americanos
referem-se à “regionalização” do Plano Colômbia
ou a uma certa “iniciativa andina”. Faz parte desse
cenário o aumento da presença militar norte-americana
no continente latino-americano, nas bases militares de
Puntumayo (Colômbia), Manta (Equador), Iquitos (Peru),
além das tropas no Suriname e no Panamá e das manobras
militares recentemente realizadas na ilha de Vieques, em
Porto Rico. A existência de bases militares e a
presença de tropas norte-americanas na América Latina
atingem indistintamente todos os povos da região e
merecem a mais viva condenação por parte das forças
progressistas. Quanto ao Plano Colômbia, é uma
exigência da consciência democrática e patriótica
dos latino-americanos o seu cancelamento.
Simultaneamente ao reforço de sua presença militar na
América Latina, os Estados Unidos intensificam as
pressões políticas sobre os governos para a
implantação da Alca, não poupando para isso as
chantagens, as ameaças e as manobras visando a
desagregar o Mercosul. Para as nações e os povos das
Américas, não cabem dúvidas de que a criação da
Alca constituirá uma subordinação de suas economias
à economia norte-americana, um golpe definitivo à
independência de todos esses países. A verdadeira
integração por que lutam os povos deve ocorrer entre
nações que respeitem o princípio da igualdade,
integração para reforçar a independência e
incrementar o progresso, conforme apregoaram os
próceres libertadores do continente nas lutas pela
independência no século XIX.
A política do imperialismo norte-americano para a
América Latina mantém um traço conservador e
reacionário na reafirmação e prolongamento do
bloqueio à Cuba socialista, que resiste bravamente,
empunhando a bandeira da defesa de sua independência e
das conquistas de sua Revolução.
O imperialismo norte-americano segue uma política de
força que consiste em aumentar seu poderio militar e o
dos seus aliados. Depois da guerra de Kossovo, foi
anunciado o novo conceito estratégico da Organização
do Tratado do Atlântico Norte (Otan), que assumiu
caráter ofensivo, ao tempo em que essa organização
estratégica amplia seu raio de ação para o Leste da
Europa. É também de sentido hegemonista a renovação
do acordo militar nipo-norte-americano e a presença de
tropas estadunidenses na Ásia. Agora o governo dos EUA
está empenhado na criação de um escudo de defesa
antimísseis, projeto bilionário batizado de “guerra
nas estrelas”, entrando em contradição com a
Rússia, a China e mesmo com aliados europeus. O escudo
antimísseis afeta perigosamente o controle dos
armamentos nucleares, os esforços para a não
proliferação dessas armas e rompe o equilíbrio
estratégico anterior, estabelecido no acordo firmado em
1972.
A consolidação da China como grande nação socialista
despertou a animosidade dos Estados Unidos. Fatos,
incidentes e provocações revelaram a hostilidade do
imperialismo norte-americano para com a China. Até
mesmo na produção literária e cinematográfica
começaram a aparecer materiais que tentam forjar a
idéia de uma China como a nova ameaça. Em 1997 foi
publicado o livro de Richard Bernstein e Rosso Munro
intitulado O iminente conflito com a China. A China,
através da revista Beijing Informa (número 27, julho
de 1997) repeliu a publicação, afirmando que os EUA
têm uma espécie de “síndrome da falta de inimigos,
produto da mentalidade da guerra fria”. Nesse quadro
ocorreu o bombardeio da embaixada da República Popular
da China em Belgrado, durante a Guerra de Kossovo em
1999, uma aberta provocação à China, explicada pelos
EUA como um “lamentável incidente”. Recentemente,
depois da posse do novo presidente, George W. Bush, com
a acentuação do hegemonismo e da política de força
dos EUA, cresceu particularmente sua hostilidade e
postura provocativa contra a China. Os fatos se
amiudaram. Destacam-se o incidente com o avião de
espionagem obrigado a pousar no aeroporto de Hainan em
1º de abril de 2001, após ter sido interceptado por
caças chineses; a decisão dos EUA de vender mais armas
a Taiwan; a declaração de que “farão o necessário
para ajudar Taiwan a defender-se da China”, numa clara
interferência em assuntos internos chineses; e as
mudanças no pensamento estratégico norte-americano,
anunciadas pelo Ministério da Defesa, em maio de 2001,
segundo as quais os Estados Unidos deverão dedicar
menos atenção à Europa e mais atenção à China.
Ultimamente, para acentuar o traço provocador de sua
política contra a grande nação socialista asiática,
o presidente norte-americano recebeu, na Casa Branca, o
Dalai Lama tibetano e autoridades de Taiwan.
No Oriente Médio, prossegue a crise provocada pela
crescente agressividade dos sionistas israelenses
apoiados pelos imperialistas norte-americanos contra os
palestinos. Os acordos até agora assinados mostraram-se
insuficientes na busca da paz. Particularmente a partir
de fevereiro deste ano, recrudesceram os conflitos, com
centenas de palestinos assassinados brutalmente pelo
Exército israelense. A política do governo encabeçado
pelo general fascista Ariel Sharon, com longa folha
corrida de crimes contra árabes e palestinos, acirra os
ânimos e dificulta que se encontre uma solução para o
conflito.
Divisões no campo imperialista
Os meios de propaganda do imperialismo
norte-americano tentam demonstrar a sua hegemonia como
consolidada e incontestável e eterno o seu domínio no
mundo. Contudo, sua própria liderança econômica é
historicamente ameaçada pela formação de outros
pólos imperialistas. Na Ásia, o Japão disputa a
hegemonia, malgrado a estagnação prolongada de sua
economia. É importante considerar a esse respeito a
atitude do governo da Malásia durante a crise
asiática, de recusa ao monitoramento do FMI e à
reivindicação de criar uma moeda única asiática no
âmbito da Associação das Nações do Sudeste
Asiático (Asean). No Ocidente a consolidação da
União Européia cristaliza a formação de um poderoso
bloco que objetivamente invade áreas outrora sob a
exclusiva influência norte-americana, como é o caso da
América Latina. Inscrevem-se nesse quadro de
competitividade interimperialista o fracasso dos
intentos para a imposição do Acordo Multilateral de
Investimentos e a prolongada estagnação das
negociações no âmbito da OMC, de que é exemplo mais
emblemático a fracassada reunião de Seattle em
novembro de 1999. É evidente que a guerra econômica
não exclui a colaboração e a concertação no âmbito
do G-7, principalmente quando se trata de vilipendiar os
interesses dos países dependentes. Não se pode
subestimar o surgimento da “zona do Euro” e a
existência de interesses próprios da Europa, inclusive
no âmbito militar, com a decisão da União Européia
de criar uma força móvel com 60 mil homens antes de
2003. Também a idéia de criar uma “zona econômica
asiática” e a ofensiva em que estão empenhados os
EUA para criar a Alca e exercer maior controle sobre as
economias latino-americanas devem ser observadas sob o
prisma das rivalidades interimperialistas. São
evidências de que a ordem “unipolar” não é tão
única e una como o nome parece sugerir. As recentes
derrotas dos Estados Unidos nas eleições para as
comissões de Direitos Humanos e de Combate às Drogas
das Nações Unidas indicam que, embora lentas, há
mudanças em curso nas relações internacionais.
Há, pois, no mundo de hoje a tendência objetiva à
formação de outros pólos que contestam o poder da
superpotência norte-americana e desestruturam a sua
política de dominação unilateral. As tentativas de
manutenção desse mundo “unipolar” estão
condenadas ao fracasso. As razões que embasam tal
afirmação radicam não apenas nas rivalidades
interimperialistas, mas também no cada vez mais
destacado papel da China na economia e na diplomacia;
enfim, na vida política internacional, como também no
papel da Rússia, que, embora capitalista, reage aos
intentos de desagregação como país de grande
envergadura e influência no concerto internacional. O
anunciado acordo entre a Rússia e a China é, nesse
sentido, fato com importância e projeção
estratégicas.
Também a ação de países em desenvolvimento,
separadamente ou no âmbito de articulações
internacionais – como o Movimento dos Não Alinhados,
a Cimeira dos 77, a Conferência Internacional Contra o
Racismo, a Xenofobia e todas as Formas de Intolerância,
a Organização da Unidade Africana, o Mercosul, as
reuniões de cúpula União Européia-África e União
Européia-Mercosul –, pode contribuir para criar um
ambiente internacional favorável à contestação do
domínio “unipolar” norte-americano.
Os povos em luta
O advento da nova ordem imperialista há 10 anos, na
esteira da derrocada da URSS e dos países do Leste da
Europa, trouxe consigo a formação de uma correlação
de forças bastante desfavorável ao movimento
revolucionário e de libertação dos povos em todo o
mundo. Se bem essa correlação de forças ainda
perdure, determinando um diferenciado e prolongado
processo de acumulação de forças do movimento
revolucionário, ressurgem sinais de retomada do
movimento operário e são marcantes os avanços das
lutas democráticas, progressistas e patrióticas em
todo o mundo. As comemorações do 1º de Maio de 2001,
caracterizadas pela combatividade, constituem
estimulante sinal de revigoramento do movimento
operário.
Fato novo na vida internacional é o surgimento do
denominado movimento antiglobalização capitalista, com
momentos de confrontação aguda entre manifestantes e
forças policiais e outros de debate e reflexão.
Seattle, Praga, Nice, Porto Alegre, Davos, Buenos Aires,
Quebec e Gênova foram palcos de episódios importantes
desse movimento, nas ocasiões em que se reuniam
organismos internacionais, executivos empresariais ou
chefes de governos e de Estados. É um movimento que se
soma objetivamente a outras manifestações
progressistas e concorre para a alteração em médio e
longo prazos da atual correlação de forças
políticas. Seu papel será tanto mais positivo na
medida em que não errar o alvo e não se deixar levar
por preconceitos anticomunistas ou contra organizações
clássicas de combate dos trabalhadores, como os
partidos revolucionários, as frentes populares e os
sindicatos classistas. Na sua evolução, o movimento
antiglobalização precisa ajustar sua plataforma de
luta, sem perder de vista que não pode haver verdadeira
luta antineoliberal sem um marcado caráter
antiimperialista e que o marco global da luta não anula
o movimento patriótico em espaços nacionais
específicos. Nesse quadro o PCdoB valoriza o Fórum
Social Mundial, dedicado ao debate e à denúncia da
globalização capitalista.
Faz parte da grande corrente antiimperialista a luta
pelo progresso na África do Sul, os movimentos
democráticos no continente africano, a luta pela paz e
a unidade nacional em Angola. A revolução nacional e
democrática no Congo, que derrotou o feroz regime
reacionário de Mobutu, foi um acontecimento marcante no
final do século XX. Também evolui num sentido
democrático e antiimperialista a luta dos povos do
Magreb (Norte da África). Nosso Partido sempre lutou
contra as odiosas discriminações do imperialismo
norte-americano ao povo e ao governo da Líbia.
No Oriente Médio, a Intifada palestina é a mais alta
expressão da luta dos povos árabes e do povo
palestino, pela autodeterminação, pela criação de um
Estado independente, pelo progresso social e a paz na
região. Mais do que nunca, o PCdoB soma sua voz e seus
esforços ao lado dos palestinos. Defende as justas
aspirações desse povo à sua terra, milenarmente
habitada por eles. Defende uma paz justa e duradoura.
Para isso, o Partido apóia a criação do Estado
Nacional Palestino, sob o comando de sua Autoridade
Nacional e legítima, e defende o direito ao retorno dos
mais de 4,5 milhões de palestinos que vivem no exílio
e à devolução de suas terras. Essas medidas devem ser
encaminhadas sob os auspícios das Forças das Nações
Unidas, que precisam recuperar a sua autoridade no
conflito, fazendo valer as suas próprias resoluções,
em especial as de números 242 e 338, que asseguram os
direitos dos palestinos. O PCdoB seguirá ao lado desse
povo, na busca da paz. E coloca-se ao lado igualmente
dos patriotas e democratas libaneses e sírios, que
também clamam, além da paz, pela devolução de seus
territórios ocupados no Sul do Líbano e das Colinas do
Golã.
Na América Latina cresce o movimento democrático e
antiimperialista. A “Revolução Bolivariana” na
Venezuela infligiu dura derrota às classes dominantes
retrógradas com suas instituições apodrecidas. Na
Colômbia, avança o movimento insurgente. No Uruguai, a
Frente Ampla, que reúne todas as correntes de esquerda,
transformou-se na principal força política do país.
No Equador, eclodiu em janeiro de 2000 a revolução
indígena-popular. No Peru, a ditadura de Fujimori foi
derrotada. Na Argentina, mergulhada em gravíssima crise
econômico-social e sob um governo instável, as lutas
operárias e populares ganham força, podendo
transformar-se num movimento de grande envergadura. Na
América Central, a Frente Sandinista nicaragüense e a
Frente Farabundo Marti salvadorenha consolidam-se como
importantes forças políticas. No México, o movimento
indígena ganhou força e repercussão. Nas colônias
caribenhas, cresce o movimento independentista,
principalmente em Martinica e Guadalupe. No Panamá, o
movimento patriótico conseguiu uma vitória com a
retirada dos norte-americanos do estratégico canal.
O movimento popular na Indonésia derrubou a ditadura de
Suharto. Na Índia o movimento dos trabalhadores foi
capaz de realizar uma poderosa greve geral, na Coréia
do Sul as lutas operárias e populares são cada vez
mais combativas.
Fato auspicioso nos últimos anos foi a conquista da
independência pelo povo irmão do Timor Oriental depois
de mais de duas décadas de anexação e genocídio por
parte da Indonésia.
Um dado importante na atual situação internacional é
o fortalecimento dos países socialistas. Apesar das
adversidades, China, Cuba, Vietnã, Coréia do Norte e
Laos mantêm-se firmes empunhando a bandeira do
socialismo. Sentindo-se todo-poderoso com a derrocada do
campo socialista do Leste europeu e a extinção da
União Soviética, o sistema capitalista internacional,
através das suas forças hegemônicas, chegou a se
movimentar no sentido de fomentar a queda de outras
experiências socialistas no mundo. Esses países
socialistas procuraram levar adiante suas políticas de
construção da nova sociedade, tendo em vista as novas
condições do mundo, levando em conta o fim de um campo
socialista, o alto nível de integração mundial, a
rica experiência de acertos e erros na prática de
construção do socialismo e as peculiaridades de cada
um de seus países. Ainda que com diferenças de um
país para outro e sem constituir modelos a copiar, de
uma forma geral as experiências socialistas que
continuaram tiveram que conceber políticas de
transição originais, onde coexistem categorias
econômicas de mercado com fundamentos socialistas, sob
o primado destes.
Contrasta com essa realidade dos países socialistas o
caótico panorama de crise econômica, degradação
social e instabilidade política que caracteriza sem
exceção os ex-países socialistas – os quais, em
nome de promessas vãs, renunciaram a conquistas
históricas de suas revoluções.
A busca de alternativas
O crescimento das lutas dos povos, vitórias parciais
e localizadas que têm sido conquistadas, os avanços
dos países socialistas são importantes fatores que
concorrem para a alteração da correlação de forças
no mundo, para uma acumulação revolucionária. Mostram
que a situação está em evolução, que o domínio
hegemônico da potência norte-americana não é isento
de conflitos e sua política de força não corresponde
às perspectivas históricas. São indicadores de que é
possível alterar o rumo atual dos acontecimentos no
mundo. As terríveis contradições do capitalismo
agravadas pela política neoliberal, a feroz
exploração dos trabalhadores, a extremada espoliação
dos povos, a ofensiva contra as soberanias nacionais
criam um quadro propício ao desenvolvimento das lutas.
Do ponto de vista político, porém, os elementos de
resistência presentes na conjuntura não invertem a
tendência geral. Ainda está em curso no mundo uma
contra-revolução. As reformas apregoadas pelos
neoliberais são na verdade uma c |