A história recente da
humanidade demonstrou ser impossível desenvolver o
processo de superação do capitalismo sem ter como
instrumento fundamental uma organização de vanguarda.
Demonstrou também que, nos países onde essa
superação ocorreu, tal processo foi conduzido por
vanguardas classistas, de tipo leninista. A retomada dos
caminhos de construção de um projeto emancipador
renovado, nas novas circunstâncias históricas de
predomínio neoliberal e após a derrota das
experiências socialistas – que teve na degeneração
do Partido dirigente um fator decisivo –, impõe a
necessidade da atualização do pensamento sobre o
Partido.
Esse debate tem como pontos de referência: primeiro, a
experiência histórica da classe operária, em
diferentes países, que encontra na concepção
leninista de Partido sua mais avançada sistematização
e na degenerescência dos partidos comunistas de meados
do século passado o mais desafiador aprendizado;
segundo, as peculiaridades da sociedade contemporânea,
com os mecanismos de dominação do Estado burguês
reformulado, o novo perfil do proletariado, a dinâmica
atual de desenvolvimento da luta de classes e o
predomínio da ação institucional; e, terceiro, as
características próprias do Brasil, com uma formação
econômica e social complexa e particular, com uma elite
dominante política e socialmente conservadora e com uma
história de amplas mobilizações políticas de massas
– ou seja, um país jovem, de grande extensão
territorial e uma expressiva riqueza cultural mas,
apesar disso, com um grande atraso social.
A construção de um partido revolucionário é um
processo de desenvolvimento dialético que obedece às
circunstâncias históricas em que atua, à inserção
do partido na luta de classes em curso e ao grau de
assimilação da teoria científica do proletariado. Ao
refletir acerca dessa compreensão, o 9o Congresso
debruçou-se sobre a experiência do Partido, sobre a
nova dimensão de sua ação de massas nas diferentes
frentes, sobre a recente participação dos comunistas
em executivos, e reafirmou a necessidade de um partido
de princípios, marxista-leninista, de feição moderna,
capaz de realizar a grande política destinada a mudar
os rumos do país.
Cabe ao 10o Congresso atualizar o debate em torno do
Partido, que necessita responder a novas tarefas, a
novas funções e assumir as novas feições exigidas
pela sociedade contemporânea. Este será, também, um
momento privilegiado para uma reflexão abrangente sobre
a indispensabilidade de um partido comunista
revolucionário, que contribua para uma aproximação
maior com todos os comunistas que se encontram
dispersos, ou em outras organizações, particularmente,
com os integrantes do Partido Comunista Brasileiro.
A necessidade de um partido revolucionário
A polêmica em torno da necessidade e da
atualização do partido da transformação social é
parte destacada da luta de classes no terreno
ideológico e não é um fato dos nossos dias. Os
ataques ao partido de tipo leninista vêm desde o
começo do século passado e se repetem, na conjuntura
atual, partindo daqueles que vislumbram apenas a ação
política nos marcos do sistema capitalista e da
democracia burguesa. Esta atualização se dá num
quadro de defensiva estratégica, em meio a um período
de exacerbação da hegemonia neoliberal, onde o mercado
põe sob seus tentáculos todas as dimensões da vida
humana, tornando cada vez mais incompatível a
convivência entre a democracia formal burguesa e a
globalização neoliberal imperialista. O
enfraquecimento da democracia e das representações
classistas do proletariado é parte dessa estratégia de
dominação. Perseguindo esse objetivo, os
representantes do capital buscam realizar reformas
políticas restritivas para impor um sistema que se
limite aos partidos que defendem seus interesses.
Há alterações significativas na organização da
política e nas reivindicações populares, em especial
frente ao desmonte do Estado e das políticas públicas
que precisam ser levadas em conta. Ocorre uma
descentralização de responsabilidades administrativas
nos níveis municipais, embora permaneça a
concentração, no nível federal, dos recursos e das
decisões. Tal descentralização provoca um certo
fracionamento na relação com os poderes, deslocando
para as instâncias municipais uma atenção
privilegiada por parte das massas populares. Predominam
as formas parlamentares e institucionais de luta,
espaços para os quais se voltam as esperanças das
massas na busca de melhoria das condições de vida.
Esperanças essas que se frustram diante da composição
política predominantemente conservadora – sobretudo
do Congresso Nacional – e do controle exercido pelo
Executivo sobre o mesmo.
Surgem novas dinâmicas na vida social que aparecem em
construções de identidades, formulação de
reivindicações, criação de estruturas organizativas
e novas formas de manifestação e de luta. Vale
registrar a emergência da mulher na sociedade, o
surgimento de um movimento cultural de massas,
particularmente nos setores marginalizados, e a
intensificação do debate em torno das questões
étnicas, raciais, ambientais, de comportamento, de
orientação sexual, entre outras. Isso tudo são
fatores que modificam as condições para a construção
da luta pelo poder central e de um projeto global para o
país, pressionando a perspectiva de um partido
vocacionado para a ruptura política.
Incrementa-se, a par disso, uma ampla ofensiva contra o
partido revolucionário. Apresentando-se como “modernas”,
algumas forças – até mesmo de esquerda – tentam
indicar saídas de negação do partido de vanguarda,
procurando fazer emergir novas concepções
espontaneístas ou de aberta negação do papel de
ruptura e da necessidade de um novo poder político.
Difundem a idéia de que, sem os partidos, os processos
se tornariam “mais democráticos”; sem política, os
movimentos seriam “mais puros”. Desenvolvem um
esforço para transferir a legitimidade da
representação da sociedade apenas para entidades da
sociedade civil, particularmente para as Organizações
Não Governamentais – ONGs. Escamoteiam a idéia de
que tais entidades – embora sejam expressões da
atividade de parte da sociedade com preocupações
específicas, muitas vezes legítimas – não se
propõem a um projeto global de transformação; logo,
não têm condições históricas para substituir as
organizações partidárias, nem mesmo para conquistas
maiores nos marcos do capitalismo.
A constatação do complexo processo de mudanças da
sociedade moderna não altera a compreensão de que se
mantêm atuais os aspectos fundamentais da teoria
leninista de partido. Esta compreensão incorpora, para
recuperar o caráter universal da contribuição de
Lênin, a necessidade de libertar a concepção de
partido do confinamento a que, de certa forma, ficou
submetida pela apresentação esquemática de seus
fundamentos e o entendimento mecânico de seus
princípios. O núcleo central da teoria de partido, em
Lênin, é a introdução do conceito político de
vanguarda e a idéia de fusão da consciência
socialista com o movimento espontâneo da classe
operária. Em matéria estritamente organizativa, o
essencial está no princípio do centralismo
democrático, dentro da diversidade que assume sua
estruturação nas diferentes fases de desenvolvimento
da luta revolucionária.
Os adversários do tipo leninista de partido tentam
fundamentar suas críticas a partir de alguns
pressupostos que, ao serem desnudados, esclarecem bem a
natureza de seus ataques.
Em primeiro lugar, abandonam a idéia de ruptura
anticapitalista e, mesmo com uma retórica socialista,
reduzem sua proposta ao aperfeiçoamento do atual
Estado. Certos teóricos da esquerda propõem formas de
ação e organização que possam dirigir a história no
sentido da criação de uma chamada “esfera pública”,
popular, democrática e não-estatal, de controle e de
indução do Estado, para reformá-lo profundamente, de
fora para dentro. Divulgam concepções ilusórias sobre
a possibilidade de aspectos do poder socialista poderem
ser antecipados nos marcos da atual estrutura política
e estatal capitalista. Exemplos disso são as
referências a iniciativas dos governos populares, como
as experiências do Orçamento Participativo (programa
de participação do povo no debate orçamentário) e de
instâncias do poder local, como se fossem pressupostos
da construção do socialismo. Embora tais iniciativas
signifiquem importantes avanços democráticos dentro do
sistema vigente, não alteram a lógica de classe à
qual estão submetidas as diferentes instâncias da
máquina do Estado. A experiência histórica já
comprovou não ter sido construído – em qualquer
país do mundo – nenhum projeto socialista sem ruptura
com o poder capitalista. Esses espaços podem e devem
ser usados para elevar a consciência socialista e a
luta emancipadora.
Em segundo lugar, tentam combater a idéia de “partido
de vanguarda” contrapondo-o ao “partido de massas”,
considerando a primeira uma proposta superada por não
responder à multiplicidade e à variedade das demandas
produzidas pela luta de classes no capitalismo moderno.
Mais uma vez se repete a deformação do sentido mais
geral do conceito de vanguarda e a sua confusão com o
“partido de quadros”, experiência particular de
determinados momentos históricos. O sentido maior da
caracterização de um partido de vanguarda é o daquele
dotado da teoria revolucionária capaz de explicar o
movimento social e planejar além do limitado horizonte
do cotidiano. É o que orienta a atividade de agora com
a visão dos objetivos maiores e futuros que se
materializam na superação do capitalismo. Um partido
de vanguarda pode e deve assumir, em determinado
momento, uma estruturação ampla, isto é,
transformar-se em um partido grande e articulado para
atuar nas várias frentes em que se manifestam os
conflitos políticos e sociais do mundo moderno. Os
marxistas compreendem que não existe um partido com
imaginárias virtudes de “vanguarda” por
definição. Uma organização será de vanguarda e de
formação ampla na medida em que suas proposições
políticas se revelarem suficientes para abrir caminhos
à luta dos trabalhadores pelo poder e na medida em que,
por sua atividade, as grandes massas a reconheçam como
destacamento avançado.
Em terceiro lugar, os adversários do partido leninista
repetem a velha tecla de que o centralismo-democrático
encerra uma prática autoritária onde só os chefes
detêm o poder nas instâncias partidárias. Utilizam
para isso uma interpretação dogmática desse
princípio, tanto do ponto de vista conceitual, como do
ponto de vista prático. A vitalidade do
centralismo-democrático relaciona-se com a sua
aplicação às condições históricas e políticas da
luta de classes e ao estágio de desenvolvimento do
partido. O centralismo-democrático é a forma mais
criativa de apropriação da “sabedoria coletiva”,
através da democracia interna e de sua transformação
em força material através da ação política
unitária. Os que combatem o partido leninista não
conseguem entender ou aceitar a necessidade fundamental
de unidade da classe operária e de seu partido na luta
contra o capital. Lênin alerta: “Em luta pelo poder o
proletariado não dispõe de outra arma além de sua
organização. (...) o proletariado só pode chegar a
ser, e será, inevitavelmente, uma força se, unido no
plano ideológico (...), consolidar esta unidade pela
unidade material de uma organização que torne coesos
milhões de trabalhadores no exército da classe
operária”.
A construção ideológica do partido
revolucionário
A construção ideológica do partido se desenvolve
tomando-se por base três aspectos da vida interna que
se inter-relacionam: a convicção revolucionária de
seus membros; uma política transformadora que
corresponda à dinâmica em curso no país; e uma
íntima ligação com o movimento real dos
trabalhadores. Nas condições do Brasil, essa
construção se faz, também, a partir da avaliação
crítica da experiência de 15 anos de legalidade do
Partido, num ambiente de prevalência de intensas
disputas na esfera institucional-eleitoral, onde o
Partido é pressionado constantemente pelos valores
neoliberais hegemônicos desse período, no sentido de
se adaptar às possibilidades e ao estabelecido.
Os valores ideológicos defendidos pelo PCdoB são
opostos aos da elite brasileira. Uma elite submissa,
anacrônica e incapaz de formular e dirigir um projeto
nacional que mude a situação do país para melhor. Os
comunistas cultivam o sentimento nacional, o orgulho de
pertencer a este povo, a cultura e a arte da terra em
suas múltiplas manifestações e a admiração pelas
lutas históricas que tantos heróis e mártires
produziram. Valorizam o trabalho produtivo contra a
exploração e a especulação parasitária, as coisas
públicas e coletivas sobre as coisas privadas, a
solidariedade generosa contra o individualismo
mesquinho; ao mesmo tempo, respeitam a singularidade de
cada indivíduo incentivando-o a desenvolver suas
potencialidades. Combatem a indiferença e o sentimento
de impotência – disseminados pela burguesia –,
diante da situação vigente, procurando despertar o
interesse pela vida política e descortinando uma
perspectiva transformadora. O PCdoB estimula o combate
aos preconceitos existentes, sobretudo os étnicos,
raciais e de gênero, que foram amplamente impregnados
na sociedade brasileira pelas classes dominantes e que
são manifestos aberta ou sutilmente. Afirma sua luta
por direitos iguais para todos, para que as diferenças
entre os indivíduos floresçam e sejam respeitadas. A
luta por tais valores é parte integrante do combate
político por uma nova sociedade.
O período da legalidade, nessa prolongada defensiva da
luta dos trabalhadores, exige um elevado grau de
convicção ideológica e de conhecimento das
possibilidades revolucionárias futuras. Nesse contexto,
o trabalho ideológico interno tem como objetivo elevar
a compreensão dos projetos do Partido e reforçar o
trabalho de formação teórica e de cultura marxista, o
estudo e a compreensão do que é próprio da realidade
brasileira, o interesse pelo saber, pela ciência e pelo
estudo, contrapostos à superficialidade e à
irracionalidade, próprias dos padrões de conhecimento
e informação neoliberais, bem como dos padrões de
conhecimento teórico acadêmico, desvinculado da
prática social. É parte desse combate o cultivo de
valores éticos elevados, do desprendimento pela causa
de servir ao povo, da valorização da opção de
militância política e social em prol da
transformação revolucionária.
As convicções socialistas, a perspectiva
revolucionária, só serão reforçadas e ganharão
novos contingentes se os quadros e militantes elevarem
sua compreensão científica de que a derrota que sofreu
o socialismo e a ofensiva neoliberal são passageiros em
termos históricos; que as crises do sistema capitalista
tendem a se agravar; que há uma tendência ao
desenvolvimento da resistência dos trabalhadores, povos
e nações dominados contra a submissão e a
exploração imperialista.
Nessa construção ideológica, assume particular
importância a idéia de que o partido da
transformação socialista tem, como um dos pilares de
sua construção, a incorporação de seus membros nas
lutas políticas, econômicas e sociais em curso no
país. Esse partido deve compreender a emergência de
priorizar, em sua ação cotidiana, a construção de um
amplo movimento político de massas para impulsionar a
frente única no combate histórico ao neoliberalismo.
Deve reconhecer o papel estratégico que a luta
operária e sindical joga na elevação da resistência
antineoliberal e na acumulação de forças com vistas
ao projeto socialista e, por isso mesmo, dedicar a ela
destacada atenção. Um partido capaz de absorver toda a
potencialidade revolucionária da juventude, comprovada
ao longo da história do país. Um partido que entenda o
importante papel da intelectualidade progressista
brasileira e, por isso mesmo, busque a integração de
seus membros nas fileiras partidárias. Um partido que
compreenda o impacto da luta dos trabalhadores sem-terra
para o desenvolvimento brasileiro, participando de seus
movimentos e ampliando a presença dos melhores
combatentes pela terra na sua estrutura. Um partido que
se coloque à frente das lutas urbanas por moradia,
educação, saúde, segurança, por entendê-las como
dimensões irrecusáveis da luta social. Um partido que
atue sobre os novos e diversificados temas emergentes na
sociedade – cultura, gênero, questão étnica,
racial, ambientalismo, comportamento –, mas que recuse
o fracionamento e a fragmentação do conhecimento e da
representação desses setores, buscando integrar suas
dinâmicas num projeto de ruptura anticapitalista e de
construção de uma nova sociedade.
Um partido de classe para o proletariado atual
A identidade do PCdoB com o proletariado está
expressa na sua gênese, nos seus objetivos
estratégicos e na sua opção teórica
marxista-leninista. No atual processo de atualização
do pensamento de partido e de reforço de sua
construção ideológica, o aspecto mais desafiador e
instigante se situa exatamente no aprofundamento dessa
identidade. Assumir essa identidade, na sua plenitude,
exige do PCdoB: a) responder ao desafio teórico da
reafirmação do caráter potencialmente revolucionário
da classe operária; b) ganhar a adesão dos
trabalhadores a um projeto político de transição,
viável, que os convença e libere suas energias
criadoras; c) avançar na percepção de seu novo perfil
e novas formas de luta e organização; e d) superar o
atraso na incorporação de seus melhores lutadores às
fileiras partidárias.
Talvez, em nenhum outro momento da história, como nesta
fase de implantação do projeto neoliberal, tenha se
dado uma ofensiva ideológica tão ampla e generalizada
contra o proletariado e, especialmente, contra seu
núcleo mais avançado: os operários fabris das grandes
empresas. Procura-se negar a sua centralidade no
processo produtivo e atacar seu papel de sujeito
histórico central na luta pela superação do
capitalismo. Justifica-se a diminuição do seu papel
político pela sua redução numérica, fruto da
automação. Insinua-se que a crise de sua organização
sindical decorre, apenas, de aspectos de seu novo perfil
com sua fragmentação e heterogeneização econômica,
o que inviabilizaria a organização coletiva e
unificada. Tenta-se, no interior das empresas,
neutralizar a reação contra a exploração com uma
política de cooptação através de novas formas de
gerenciamento, aperfeiçoando-se, também, os mecanismos
de intimidação e de autoritarismo.
Embora de maneira dispersa, já se inicia uma resposta a
tal ofensiva ideológica, que tem o nítido objetivo de
desarmar os trabalhadores e deter sua reação, num
momento de crescimento da exploração capitalista. a) A
negação da centralidade do trabalho no processo
produtivo é contestada com a demonstração de que a
produção de valor não se realiza senão através do
trabalho vivo, efetuado diretamente pelos trabalhadores,
por mais reduzido, alterado ou fragmentado que ele se
torne. As máquinas dependem de homens e mulheres para
serem operadas, por mais tecnologia que a produção
incorpore. b) Ao argumento da diminuição do papel
político da classe operária industrial pela sua
redução numérica, fruto da automação,
contrapõem-se aspectos fundamentais dessa fase de
reestruturação produtiva. Ocorre uma forte e crescente
polarização entre aqueles que vivem da venda de sua
força de trabalho e os donos do capital, que se
alimentam da compra e exploração dessa mesma força de
trabalho, expressa na generalização do trabalho
assalariado e de suas formas precarizadas. c) No que se
refere à permanência da crise da organização
sindical, pode-se dizer que ela sofre grande influência
de aspectos políticos na sua dinâmica, que se somam
aos impactos provocados pela fragmentação e pelas
alterações na organização do trabalho. Ao lado da
ofensiva ideológica há uma política de
flexibilização das relações do trabalho, de ataques
às conquistas dos trabalhadores e de desmonte das
organizações sindicais, que dificulta o reforço da
luta organizada.
Impõe-se um estudo cuidadoso do perfil do proletariado
brasileiro, que vem passando por sucessivas
modificações. A classe operária fabril adquire novo
perfil e traz à cena aspectos fundamentais para a
definição de novas estratégias para a sua
incorporação à luta emancipadora. A introdução de
novas tecnologias em empresas dos mais diferentes ramos
da estrutura econômica produziu, no interior do
proletariado como um todo, um segmento restrito, mais
qualificado, mais intelectualizado, muito diferente dos
trabalhadores das velhas linhas de produção.
Contraditoriamente, mesmo em indústrias de moderna
tecnologia, mantém-se um setor de mão-de-obra com
pouca qualificação, facilmente substituível, que
realiza o trabalho simples de “apertar botões”. Em
indústrias de alta tecnologia, os operários vendem sua
força de trabalho que combina o dispêndio de esforços
manuais e esforços intelectuais. Uma boa parte dos
operários fabris de hoje completou o ensino médio. A
classe operária industrial, inicialmente concentrada em
São Paulo, sofre forte tendência à descentralização
para outros Estados e Regiões. No entanto, mantém
ainda na capital e região do Grande ABC a sua principal
concentração.
O proletariado brasileiro cresceu e se diversificou
muito. Como produto mais característico do
desenvolvimento da grande indústria capitalista, surge
nos últimos 50 anos, um novo proletariado fabril que é
o núcleo central do movimento operário,
potencialmente, o mais combativo do proletariado. Na
construção civil, transportes, energia elétrica e
outros setores dos chamados serviços mercantis
não-financeiros também se desenvolve, nas últimas
décadas, um proletariado numeroso e combativo. No
campo, o desenvolvimento capitalista teve como
conseqüência o aparecimento de um proletariado rural
de certo porte.
No Brasil, dominado pela elite neoliberal, há um enorme
contingente social constituído por pessoas que
trabalham e perdem seus empregos em curto espaço de
tempo: os desempregados crônicos e os trabalhadores
informais, sem vínculo sindical, além dos milhões de
jovens que não conseguem o primeiro emprego. Essa massa
é discriminada, perseguida e freqüentemente reprimida.
Por vezes se organiza em movimentos culturais na
periferia, nas torcidas de futebol, nas inúmeras festas
populares que, de uma forma ou outra, expressam
elementos de protesto e inconformismo. Muitas propostas
de “saída” chegam a essa gente, sobretudo nos
marcos de suas necessidades espirituais. Há, também,
as aparentes “soluções imediatas” que respondem
às suas necessidades de consumo materializadas no
tráfico e nas drogas. O Partido está praticamente
ausente dessa problemática. É preciso que,
urgentemente, esse contingente social seja polarizado
politicamente pelo movimento transformador.
A incorporação à estrutura partidária, sobretudo de
operários fabris, é fator decisivo para o reforço de
seu caráter classista e de sua identidade ideológica.
Esta incorporação, nas condições da exploração
capitalista presente, não se dará espontaneamente, nem
por obra do acaso. Merece um cuidadoso e controlado
planejamento, que inclui desde a atividade sindical até
um certo grau de “clandestinidade” nas formas de
organização dentro das fábricas. E esse planejamento
só avançará na medida em que for compreendido como
tarefa política e ideológica prioritária de toda a
estrutura partidária. É necessária uma propaganda
organizada das idéias socialistas, a partir da
experiência concreta, para se constituir uma tendência
classista nos pólos centrais da classe operária. O
Partido deve dedicar atenção especial ao cerco
ideológico desenvolvido no interior das empresas.
Disputar ideologicamente os trabalhadores não é uma
mera questão de pregação doutrinária. Há o fator
objetivo de ampliação da exploração e da forte
ditadura do capital escamoteada pelos novos processos de
gerenciamento. Nesse sentido, a atividade sindical
classista continua sendo instrumento irrecusável para
abordar esse combate.
Experiências e lições dos 15 anos de legalidade
Os 15 anos de legalidade do PCdoB transcorreram num
cenário de grandes mudanças do modelo de dominação
do capital, de ofensiva neoliberal e sob intensa
pressão ideológica pela derrocada das primeiras
experiências socialistas. Nesse período – o mais
longo da história do PCdoB –, intensificou-se a
diversificação no campo da esquerda, com a existência
de diferentes partidos do campo popular, particularmente
do Partido dos Trabalhadores. Criado com a marca das
lutas operárias do ABC paulista, de 1978/79, sem ter de
carregar os efeitos da situação de clandestinidade, o
PT desencadeia, em situação privilegiada, a disputa
pela hegemonia política dos setores progressistas e do
movimento operário, sindical e popular.
Nessas condições, pode se afirmar como
predominantemente positivo o balanço dos 15 anos de
atividade legal do PCdoB. Nele, registraram-se
importantes avanços, sobretudo na formulação do
pensamento político, tanto tático quanto estratégico,
incluindo-se aqui a elaboração do Programa Socialista,
nas condições do Brasil, e a proposta de frente única
para o combate histórico ao neoliberalismo. O PCdoB
conquistou, embora em condições de grandes
dificuldades, presença significativa nas organizações
populares, particularmente no movimento juvenil e no
movimento sindical. Inovou formulações em relação à
sua política de organização, com as modificações
estatutárias ocorridas sobretudo no 8o Congresso e com
os recentes planos de estruturação. A legalidade
possibilitou a reconstituição da direção central e
das direções estaduais, duramente atingidas pela
ditadura militar. Possibilitou, também, uma
aproximação maior do Partido com as massas populares,
em especial, através de sua participação
institucional, tanto eleitoral quanto nos espaços
governamentais. Nesse período, o PCdoB conseguiu
construir uma marca própria como o Partido do
socialismo, da soberania nacional e dos direitos
sociais. Tem-se pela frente, no entanto, o grande
desafio de avançar no processo de construção,
buscando fazer com que as grandes massas identifiquem e
reconheçam essa marca na militância e nas lideranças
partidárias mais destacadas.
O novo quadro em que passou a atuar o PCdoB, complexo e
diversificado, diferente da experiência de todo o
período anterior, coloca a necessidade do exame dos
novos problemas e desafios que vão surgindo nos
diferentes terrenos da atividade partidária. Foi
possível detectar, com preocupação estratégica, as
debilidades em sua implantação no movimento operário
e certo distanciamento da intelectualidade progressista.
Registram-se dificuldades na ação de massas do Partido
e na defasagem entre os avanços políticos e os níveis
de construção ideológico e organizativo. Cresceu a
compreensão de que houve uma subestimação do trabalho
teórico-ideológico e de que há necessidade de
elevados investimentos nessa esfera da vida partidária.
O grande desafio, desse período, esteve na
possibilidade de o Partido realizar a diferenciação
política e ideológica junto à sociedade, em relação
às demais forças de esquerda, para dar visibilidade e
se afirmar como força independente com um projeto
emancipador. Essa diferenciação necessitaria ocorrer
em todas as áreas de atuação. A sua realização toma
como ponto de partida a defesa do projeto socialista e a
conseqüência na luta contra o neoliberalismo,
compreendendo a interligação entre as três bandeiras
da defesa da soberania, da democracia e dos direitos
sociais. Ao mesmo tempo em que ganha destaque a
necessidade de impulsionar a ação política de massas
do Partido, especialmente junto ao proletariado,
perseguindo o objetivo de integrar as diferentes frentes
num projeto de ruptura anticapitalista e de construção
do socialismo.
Partido na ação política e de massas
Na última década, o Partido enfrentou a ofensiva
neoliberal, deflagrada pelo governo Collor e consolidada
pelo governo de Fernando Henrique, com uma proposta de
unidade em defesa da soberania, da democracia e dos
direitos sociais. Teve papel decisivo na construção da
Frente Brasil Popular, aliança eleitoral de 1989 em
torno da candidatura de Lula, que valorizou o papel das
forças de esquerda no cenário nacional. Investiu, de
forma pioneira, na campanha do Fora Collor, estimulando,
através de sua influência no seio da juventude, o
movimento dos Caras Pintadas, liderado pela União
Nacional dos Estudantes (UNE) e União Brasileira dos
Estudantes Secundários (Ubes). Imprimiu sua marca na
elaboração do manifesto Em defesa do Brasil, da
democracia e do trabalho, ao qual aderiram democratas de
todo o país. Em torno dessas bandeiras de mobilização
nacional, empenhou-se na busca de construir a frente
única contra o neoliberalismo e um amplo movimento
político de massas para dar sustentação à luta
geral. Articulou e mobilizou para todos os grandes atos
políticos ocorridos contra o neoliberalismo e seus
efeitos sociais mais perversos.
O PCdoB, para adequar sua intervenção nos movimentos
sociais que vinham assumindo novas dimensões, propôs e
organizou estruturas que se transformaram em correntes
de difusão das idéias emancipadoras junto ao movimento
feminista, com a União Brasileira de Mulheres (UBM), e
ao movimento anti-racista, com a Unegro. Essas
estruturas, além de contribuírem para a intervenção
organizada nesses movimentos, possibilitou,
particularmente na frente feminista, um nível de
formulação teórica nova, levando o debate a um
entrelaçamento entre a questão de gênero, classe,
raça e etnia. No que se refere à luta de combate ao
racismo torna-se urgente aprofundar o debate, unificando
a compreensão do Partido sobre as particularidades
brasileiras dos problemas étnicos e raciais e sobre as
políticas específicas propostas.
Nos 15 anos de legalidade do PCdoB, o povo brasileiro
realizou grandes atos políticos de massa em torno da
democracia, da soberania e dos direitos sociais; os
trabalhadores, resistindo à exploração, realizaram
inumeráveis greves econômicas; ampliou-se a luta pela
reforma agrária com ocupações de terra e importantes
marchas nas cidades; nos grandes municípios,
realizou-se um poderoso movimento em defesa de moradia,
de melhorias urbanas e de segurança; o núcleo
avançado da intelectualidade brasileira procurou
resistir ao projeto de desmonte do sistema nacional de
produção científica. Os militantes comunistas
empenharam-se no esforço por se integrar a essas
mobilizações.
Faz-se necessário analisar as debilidades dessa
integração para daí retirar ensinamentos. A presença
do PCdoB na luta de massas e nos diversos movimentos
sociais ainda não alcançou o necessário patamar de
uma intervenção planejada e de uma direção coletiva
eficaz. Mantém-se uma prática compartimentada, onde
cada frente trata especificamente de sua área, sem ter
como eixo central a elevação desses movimentos a um
nível superior de protagonismo político. Só
recentemente ocorreram avanços na ação dos comunistas
junto ao Fórum Nacional de Lutas. Há, ainda, a
dificuldade de colocar a ação parlamentar e
governamental em completa sintonia com a luta de massas
desenvolvida pelos comunistas nas diferentes frentes. A
ação partidária nos movimentos populares e a ação
parlamentar e governamental precisam ser orientadas e
planejadas em conjunto, para unificar e potencializar a
intervenção política do Partido.
A atuação dos comunistas no movimento sindical se
realiza num contexto particular, onde um setor
significativo que representa os trabalhadores do mercado
formal vive um processo de adaptação às propostas
neoliberais. Esse setor, majoritário, adota teses que
priorizam a negociação em detrimento da luta, dirige
sua ação pelo pragmatismo, pratica o sindicalismo
propositivo. Crescem as propostas pouco politizadas que
tentam manter a luta nos limites das reivindicações
econômicas e tendem à conciliação de classes. No
caso da Força Sindical, esse processo se dá de maneira
aberta, tendo ganhado força, especialmente em São
Paulo. Atuando sob o ideário neoliberal, a Força
Sindical angaria muitos recursos com os quais tenta pôr
em prática seu assistencialismo e a promoção
política de seus representantes. Na Central Única dos
Trabalhadores (CUT), a corrente majoritária adota a
linha da social-democratização de sua atuação. O
sindicalismo classista, onde atuam os comunistas, embora
apresentando uma saída de classe para a crise, convive
com a dificuldade de ser minoria e, mesmo mantendo a
coerência teórica e ideológica, ainda não conseguiu
dar respostas à onda destrutiva e regressiva contra o
emprego, o salário e os direitos sociais. Apesar de um
contexto desfavorável, a Corrente Sindical Classista
cresceu, enfrentando vários obstáculos, mantendo-se
atual a política de sua inserção na CUT.
Ocorre uma incompreensão, em amplos setores
partidários, inclusive em alguns níveis de direção,
em relação ao papel decisivo que as organizações
sindicais jogam nas ações políticas de massa e na
realização de nossos objetivos estratégicos. O
tratamento prioritário necessário a esse setor impõe
que os dirigentes políticos passem a acompanhar, de
forma especial, o desenvolvimento do trabalho nessa
área. Cresce em importância o estudo, por todo o
Partido, das resoluções produzidas pela Conferência
Sindical realizada no ano do 10o Congresso.
Também especial atenção o Partido deve dar às
questões culturais e artísticas, ampliando sua
atuação na sociedade. Dessa forma, precisa organizar a
sua atuação no campo cultural e artístico, visando
construir um setor próprio nessas importantes áreas de
ação política.
Nesse período de legalidade, o Partido desenvolveu
trajetória vitoriosa no trabalho juvenil. A ação dos
jovens comunistas resultou em importante contribuição
política à luta de massas no Brasil e permitiu a
aproximação de milhares de jovens às idéias do
socialismo e ao projeto do Partido. Mesmo em um contexto
geral adverso, manteve-se uma grande influência na
direção das entidades do movimento estudantil. A atual
orientação para o trabalho com a juventude, definida
nas resoluções de 1996 e 1999, do Comitê Central,
está sendo implementada e desenvolvida com êxito. A
União da Juventude Socialista (UJS) foi relançada
enquanto expressão concreta dos objetivos e da
estratégia do Partido para a juventude, sob sua
direção política e ideológica, caracterizada como
sua força auxiliar, embora compreendida como ampla
organização socialista com autonomia orgânica.
Registrados esses êxitos, é preciso debruçar-se sobre
certas debilidades que persistem. Faz-se necessário uma
melhor sistematização da experiência desde o
relançamento da UJS para identificar e tentar superar
as dificuldades e insuficiências de um projeto em
construção. Permanece o desafio de fazer da UJS um
amplo movimento, com maior influência política e
ideológica entre os jovens, mais organizado em
direções e núcleos, com mais recursos. É preciso
reforçar o trabalho próprio da UJS, principalmente
entre os estudantes, com novas bandeiras e formas de
participação, bem como entre os jovens trabalhadores,
nos bairros populares e nos diferentes movimentos
juvenis existentes. A grande influência da UJS no
movimento estudantil é uma enorme conquista, mas esta
ação não deve se limitar às manifestações,
eleições e congressos. A UJS deve renovar os seus
objetivos políticos no sentido de ampliar a
participação dos estudantes na base e a
representatividade e o enraizamento das suas entidades.
É preciso estar alerta para manifestações típicas de
incompreensões em relação ao papel do militante
comunista, com a transposição, para a vida interna, de
práticas equivocadas existentes no movimento
estudantil. O Partido necessita acompanhar mais e melhor
o trabalho da UJS, estudar melhor a realidade da
juventude brasileira, fazer mais propaganda junto à
juventude, estimular a participação dos jovens
comunistas na vida partidária e assumir a formação
teórico-ideológica, política e moral da nova
geração de comunistas.
Numa quadra de refluxo da luta política e social, com a
hegemonia do neoliberalismo, ampliou-se o peso da luta
eleitoral no país. Como um partido que atua no curso
dos acontecimentos políticos, o PCdoB ampliou sua
ação parlamentar e governamental, buscando construir
alianças e frentes eleitorais contra-hegemônicas
adequadas à correlação de forças de cada situação.
De maneira geral, sobretudo nas grandes concentrações
urbanas – capitais e maiores cidades –, construiu,
predominantemente, alianças com os partidos populares,
PSB, PDT, em especial com o Partido dos Trabalhadores.
Com essa atuação procurou não só fortalecer o campo
popular, núcleo central da frente única proposta, como
também criar melhores condições para a ação do
Partido, evitando o seu isolamento.
Ao implementar sua política eleitoral, o Partido
alcançou êxitos, especialmente no que se relaciona à
ampliação de seus espaços nas casas legislativas e
nos cargos executivos municipais e estaduais. Essa
ampliação levou o Comitê Central a normatizar a
participação nesses espaços, condicionada a: “I –
Adoção de políticas, programas e projetos de
aprofundamento da democracia e desenvolvimento
econômico e social, sintonizados com as aspirações
dos trabalhadores, com o objetivo de elevar o nível de
consciência política e de organização do povo e
baseados em participação popular. II –
Fortalecimento da unidade das forças políticas
progressistas, democráticas e populares. III –
Fortalecimento da identidade partidária, preservando a
sua independência e contribuindo com a sua
construção. IV – Transparência na ação e na
política administrativa adotada, em especial na
prestação de contas, junto à população e ao
Partido, da ação de seus representantes”.
A participação nos espaços parlamentares e
governamentais, embora só tendo alcançado, mais
recentemente, um nível superior, com o Partido
assumindo funções diretas à frente de executivos, tem
demonstrado a justeza dessa orientação. Seu
desenvolvimento possibilita um conhecimento maior sobre
as particularidades do Estado brasileiro, ajudando na
elaboração de políticas públicas que atendam aos
interesses populares e na afirmação do Partido junto
à sociedade; permite uma convivência partidária
multilateral, ajudando na construção cotidiana da
frente única; possibilita uma ligação mais direta com
as organizações populares, ampliando as condições de
apoio às suas lutas e de divulgação das idéias
partidárias. Pode se transformar em base de apoio para
a intervenção dos militantes comunistas no movimento
operário, sindical e popular.
Alguns problemas limitam a potencialização da ação
partidária nos processos eleitorais e nos espaços
executivos. Há dificuldades objetivas que contribuem
para uma menor visibilidade das propostas partidárias
no esforço de afirmar sua legenda junto às massas.
Nessa fase de acumulação de força houve a necessidade
de uma tática eleitoral na qual predominaram
coligações majoritárias e proporcionais, levando a
campanhas que se realizavam mais pelos nomes dos
candidatos do que pela legenda do PCdoB. Há, no
entanto, limitações de natureza política e até mesmo
ideológica. O Partido tem encontrado uma enorme
dificuldade para realizar a diferenciação junto à
sociedade. Nos governos de frente, onde atuam os
comunistas, com raras exceções, não se tem conseguido
imprimir marca particular que os diferencie dos demais
partidos. Nesses governos, há uma forte pressão para
restringir a ação dos comunistas aos limites de
políticas sociais compensatórias defendidas pelos
governantes que dirigem as administrações. Alguns
militantes comunistas, ao assumirem essas funções,
tendem a pensar muito no governo e pouco no Partido,
invertendo as prioridades da sua opção ideológica. Os
espaços de governo ocupados por quadros do Partido
devem ser um exemplo de uma nova forma de fazer
política, incluindo o atendimento às demandas
populares, contrapondo-se ao clientelismo e ao
fisiologismo, tão comuns no sistema político
dominante.
A atividade nas esferas governamentais e nos parlamentos
já provoca alguns impactos problemáticos na vida
partidária. As necessidades de investimentos humanos
nesse setor tendem a absorver os quadros mais
preparados, levando a debilitar, se não houver
controle, as instâncias de direção partidária e as
estruturas de apoio do movimento operário, sindical e
popular. Pela dinâmica própria desses instrumentos,
ainda muito valorizados pelas massas, há margem para o
surgimento de núcleos reais de “poder” para além
das instâncias de decisão do Partido. Por isso, assume
uma dimensão superior a necessidade de mecanismos
reguladores efetivos, expressos nos estatutos, como
forma de reforçar o controle coletivo e a legalidade
partidária.
Apesar dos problemas citados, a ação partidária nesse
terreno corresponde ao período de prolongada
acumulação de forças em que vivemos. Sem poder
recusar essa dimensão de sua ação, impõe-se a busca
de um maior debate sobre o significado dessa
acumulação. A experiência destaca, desde já, alguns
aspectos a serem considerados:
1) o reforço à construção da frente única para o
combate histórico ao neoliberalismo;
2) a contribuição, através das estruturas
disponíveis – governamentais e legislativas –, para
o desencadeamento de um amplo movimento político de
massas;
3) a difusão e o reforço de uma tendência socialista
entre os melhores filhos do povo; e
4) a materialização do fortalecimento do Partido
revolucionário, através do seu crescimento real.
Lições da construção ideológica do Partido
Na experiência de uma construção sob um
generalizado cerco, o PCdoB enfrentou esse período de
crise realizando um importante debate ideológico. Nas
Resoluções do 8o Congresso, particularmente, o Partido
fez uma avaliação multilateral dos acontecimentos
ocorridos no mundo socialista. Esse acúmulo de debates
serviu de base para a manutenção de sua perspectiva
revolucionária nos anos que se seguiram. Cabe, no
entanto, um rigoroso exame crítico e autocrítico da
experiência que se realizou no contexto de um partido
legal, com atividade diversificada e a ampliação de
suas fileiras de forma significativa.
Na construção ideológica desse período, tem grande
importância a atitude renovada do Partido para com a
teoria marxista-leninista, iniciada a partir do 8o
Congresso. Esse processo renovador, de conteúdo
antidogmático, foge à compreensão da teoria como
estudo e adaptação de modelos preestabelecidos.
Torna-se a base da reapropriação crítica da realidade
mundial, da formação econômico-social brasileira em
suas particularidades históricas e, conseqüentemente,
do processo de reelaboração do pensamento
programático e estratégico do Partido.
Atuando numa quadra de intensa ofensiva neoliberal, os
comunistas interagem com um ambiente que dificulta a
consolidação da perspectiva revolucionária. Aparecem
nas fileiras partidárias manifestações de
espontaneísmo, liberalismo, grupismo, pragmatismo,
imediatismo, burocratismo e acomodação. Esses
fenômenos revelam a presença de debilidades
ideológicas relacionadas com a aceitação das
condições atuais e a adequação a elas. Nesse momento
em que as conquistas imediatas dos trabalhadores são
cada vez mais difíceis, criando uma atmosfera
derrotista e de abandono de qualquer perspectiva futura,
muitos se afastam da militância política por não
verem resultados imediatos de sua ação.
Tais fenômenos negativos necessitam ser combatidos
através de um estilo e de métodos de trabalho que
estabeleçam uma correta ligação entre a teoria e a
prática revolucionárias, que valorizem a crítica e a
autocrítica comunistas. As debilidades, muitas vezes,
se dão pela fragilidade ideológica de alguns ou pela
falta de mecanismos eficazes de controle partidário.
Daí a necessidade da formulação desses mecanismos e
da sua crescente normatização.
Na medida em que se ampliam e ganham peso na atividade
partidária o trabalho parlamentar-eleitoral e o
trabalho sindical e estudantil, debilidades se
manifestam nessas frentes. Alguns parlamentares, eleitos
pelo esforço coletivo, abandonaram a legenda. No campo
sindical e estudantil militantes comunistas foram
cooptados por correntes conciliadoras. As armadilhas e a
sedução desses ambientes levaram, em certas
circunstâncias, alguns militantes menos preparados a
refluir em sua preocupação com os objetivos
estratégicos, enfraquecendo seu compromisso
ideológico. Apareceram os projetos pessoais que se
sobrepuseram aos projetos partidários – o
carreirismo, o estrelismo, a arrogância, a falta de
ética proletária –, chegando até mesmo, em alguns
casos, a práticas corrompidas.
Cientes das defasagens que se acumularam na esfera
ideológica, após o 9o Congresso, retomou-se o trabalho
de formação. Passos importantes foram dados desde
então, estruturando-se uma política nacional de
formação, elaborada coletivamente, e iniciando-se novo
percurso de trabalho. O conteúdo desse novo percurso
levou o Partido a fundamentar sua linha, a partir de uma
abordagem histórico-crítica do marxismo e da sua
aplicação à realidade concreta do Brasil e do mundo.
Centrou-se o esforço no estudo dos problemas do país,
da sua história e cultura, dos feitos de sua gente.
Avançou-se na experiência de programação
centralizada dos conteúdos, ao mesmo tempo em que se
fazia ampla descentralização na estratégia de
trabalho da formação. Desenvolveram-se, em todo o
país, cursos intensivos de formação marxista, em
correlação com as exigências dos planos de
estruturação partidária, e cursos básicos, por
intermédio de vídeo. Milhares de quadros e militantes
foram alvo desse esforço. O resultado foi a
manifestação de maior ânimo e confiança em relação
ao projeto partidário.
No enfrentamento da realidade partidária, o reforço do
trabalho nessa esfera segue como uma exigência
incontornável. Torna-se necessário romper com certo
esquematismo e subestimação com que é encarado o
trabalho na frente teórica e ideológica. É preciso
diversificar suas formas e instrumentos, constituindo um
sistema teórico e ideológico coeso, correlacionando o
setor de propaganda com o setor de formação. Para esse
fim, seus órgãos devem ser dotados de programas de
conteúdo e ação objetivos, exeqüíveis e
cumulativos, tanto para o trabalho ideológico na ação
política e de massas, quanto para o trabalho no
interior das fileiras partidárias.
No terreno da propaganda, a legalidade permitiu amplas
possibilidades de difusão da política do Partido e das
idéias socialistas. A presença nos parlamentos (e não
apenas durante os processos eleitorais) assegura, nos
marcos da legislação vigente, programas nacionais em
cadeia de rádio e televisão, levando a mensagem do
PCdoB a milhões de brasileiros. Registram-se
dificuldades na veiculação da propaganda socialista e
certo grau de improvisação na utilização desses
espaços |