O10º Congresso do PCdoB realiza-se
sob as condições de significativas mudanças no quadro
mundial; de graves impasses à soberania e à democracia
em nosso país; de perdas de conquistas do povo
brasileiro; e de favorável expansão de nosso Partido.
Quadro mundial de crise: guerra e recessão
O curso da conjuntura mundial atual está marcado
pela crise de grande dimensão que se instalou a partir
dos atos terroristas de 11 de setembro nos Estados
Unidos, agravando mais ainda o quadro de recessão
econômica global e sincrônica que vem se gestando
desde o final de 2000. A presente situação de guerra e
recessão é uma manifestação violenta e cruel da
realidade do capitalismo globalizado e neoliberal que
ameaça o destino da humanidade e o bem-estar dos povos.
A atual crise vai demonstrando o real objetivo do
império do norte de impor a hegemonia, o expansionismo
e o domínio unilateral planetário, revelando a
superioridade militar como fator decisivo para a
imposição dessa supremacia. Invoca os recentes
atentados para legitimar o seu propósito de dar
centralidade à “segurança”, com todas as suas
implicações. A sua política externa se estrutura em
eixos fixados no belicismo e na busca agressiva da
conquista de objetivos geopolíticos. Os órgãos e
fóruns multilaterais são esvaziados, prevalecendo
acordos bilaterais conforme seus interesses em cada
situação. Essa tendência da hegemonia norte-americana
vai impondo o ordenamento mundial pós-Guerra Fria.
A situação é mais grave ainda porque os imperialistas
estadunidenses querem impor sua tirania ao mundo. As
manifestações democráticas, as lutas das forças de
esquerda contra o neoliberalismo, os movimentos
revolucionários e de resistência passam a ser
reprimidos como tendências ao terrorismo. A pretexto de
combate ao terrorismo, é legitimada a política do
Estado de Israel de ocupação e colonização dos
territórios palestinos. Essa força agressiva e de
provocação, com o apoio norte-americano, impõe
violento cerco armado a um povo desarmado, realizando
bárbaro genocídio de uma população encurralada.
Nos Estados Unidos o governo Bush reedita os piores
tempos do macartismo. As prisões arbitrárias em massa
se sucedem; até mesmo, tribunais militares sumários
são instalados para julgar estrangeiros. Medidas de
restrição às liberdades civis são aprovadas a toque
de caixa no Congresso norte-americano e apelos e
pressões nesse sentido são feitos para que os outros
países adotem uma legislação antidemocrática.
Inúmeros setores democráticos e progressistas no mundo
demonstram preocupação diante do risco de se firmar
uma tendência neofascista.
Condenação do terrorismo e do belicismo
imperialista
O PCdoB repudiou os atentados de 11 de setembro
porque condena o terrorismo como forma de ação
política e defende que o mesmo, como fenômeno trágico
à convivência entre os povos, deva ser enfrentado no
âmbito das organizações multilaterais em respeito às
normas do direito internacional e aos princípios da
soberania nacional e das liberdades civis. O nosso
Partido teve uma posição conseqüente e ativa ao
denunciar que os Estados Unidos não têm autoridade
moral e política para combater o terrorismo, pois sua
lógica e trajetória imperialistas se expressam por
atos de força, terror e covardia contra populações
sofridas e países independentes.
Condenamos também, veementemente, os bombardeios
iniciados em 7 de outubro sobre o Afeganistão. Os
Estados Unidos colocaram em movimento, junto com alguns
aliados ricos, uma portentosa e sofisticada máquina de
guerra, atingindo como sempre milhares de civis
inocentes; compraram a cumplicidade de países vizinhos
e exerceram todo tipo de chantagem a fim de prevalecer o
seu ditame. A potência norte-americana arrasou um país
já destruído. Ocupou-o com a penetração de tropas
terrestres e o estabelecimento de bases militares. Trata
agora de conseguir da ONU o beneplácito na montagem de
um governo de coalizão, imposto de fora, e de duvidosa
representatividade, porque essa composição depende do
complexo jogo de interesses geopolíticos na região.
O tempo vai confirmando que essa tão vasta campanha
guerreira não se resume na derrubada do regime talibã
ou na captura de Osama bin Laden. O governo Bush
reafirma persistentemente que a escala dessa guerra
será global e por tempo ilimitado, nomeando
permanentemente países “suspeitos” de ajuda ao
terrorismo. Insaciável, o presidente norte-americano
afirma: “o Afeganistão é só o começo”; e: o “pior
da campanha ainda está por vir”. O imperialismo dos
Estados Unidos ocupa na ordem mundial atual o papel de
carrasco dos defensores da paz e do progresso da
humanidade.
Tendência recessiva da economia mundial
O mundo está marcado pela estagnação, com raras
exceções, onde domina o padrão capitalista de
inédita concentração e centralização do capital,
extrema contenção do trabalho vivo, gerando uma leva
de desempregados jamais vista, e da combinação de alta
especulação financeira com crescimento mínimo.
As chamadas operações de salvamento, coordenadas pelos
bancos centrais da tríade mundial (Estados Unidos,
Japão, Europa Unida) – ostensivas intervenções
financeiras estatais, onde são mobilizados, de uma vez,
valores na escala de metade de um trilhão de dólares
–, desmascaram os dogmas liberais não
intervencionistas em voga e mantêm – até quando? –
uma situação de tênue equilíbrio: nem
desenvolvimento nem colapso, com a ocorrência de graves
crises periódicas. Dessa modalidade de equilíbrio
resulta um sistema econômico de tensão permanente onde
a instabilidade adquire maior relevo.
A crise econômica mundial, acentuada pela deflagração
da guerra atual, caracteriza-se pela combinação de
recessão e deflação dos preços nos Estados Unidos,
Japão e Europa Unida, aproximando-se da depressão. O
FMI e a OCDE estimam que o crescimento da economia dos
29 principais países do mundo, quase a totalidade do
PIB mundial, não passará de 1% neste e no próximo ano
(em 2000, a economia mundial cresceu 4,2%). E no plano
global os setores de ponta, como telecomunicações,
tecnologia da informática e da comunicação, além de
automóveis e aviação civil, já enfrentam um regime
de capacidade ociosa e baixa rentabilidade. As
conseqüências da recessão global repercutem neste
final de ano em todas as regiões do planeta.
Frente única pela Paz
As contra-reformas neoliberais em curso – com seu
corolário de deterioração econômica e agravamento da
crise social mundial –, o domínio hegemônico da
potência norte-americana e da sua estratégia belicista
e agressiva alimentam movimentos de resistência, o que
intensificará as tendências em defesa da soberania,
democracia e justiça social, e a multipolarização do
sistema internacional. Neste momento, essa resistência
se amplia na luta pela paz, contra a guerra
imperialista. A frente única e a unidade em favor da
paz se diversificam e adquirem expressão em todos os
continentes.
Hoje essa tendência constitui uma vertente fundamental
do embate por uma nova ordem mundial em prol dos povos e
da acumulação de forças revolucionária, tendo em
perspectiva a luta pelo socialismo na época atual.
Hegemonismo norte-americano na América Latina
Diante da nova realidade mundial, a agenda dominante
do sistema de poder internacional vai sendo determinada,
crescentemente, pela combinação de processos de
militarização e neocolonialismo. Por conseguinte, essa
evolução da ordem imperialista se reflete em todas as
regiões do mundo – na América Latina e no Brasil
inclusive. Desde antes, o intervencionismo
norte-americano, calcado no Plano Colômbia, buscava o
controle e o domínio da Amazônia, ao norte do
continente e, agora ao sul, se estende à Tríplice
Fronteira – Brasil, Argentina, Paraguai – a pretexto
de combate ao terrorismo.
O governo dos Estados Unidos explicita abertamente sua
nova doutrina: “o combate ao terrorismo tem
centralidade em relação à pobreza”. Aliás, tudo
mais se subordina a essa principalidade. Em decorrência
disso, intensifica a pressão política sobre os países
latino-americanos, exigindo a reformulação da
orientação de segurança nacional, baseada no novo
conceito antiterrorista. Seguindo esse mandamento,
espalha agentes para impor aos governos dessa região a
formação de pesada e custosa rede policial e de
espionagem e a adaptação das forças armadas a esse
mister. A investida ameaça até mesmo as liberdades
públicas conquistadas.
O sistema de poder do império no seu conjunto se
completa através de políticas neoliberais que se
impuseram a partir do Consenso de Washington e hoje se
exprime na pressão para a criação da Área de Livre
Comércio das Américas (Alca). A Argentina, que seguiu
fielmente o modelo hegemônico, vive uma crise de longa
duração, sem precedentes, um grande impasse de sua
história: ou dolariza-se de vez, vendendo sua
soberania, inviabilizando o Mercosul, ou busca outro
caminho de resgate da sua independência e dignidade
nacional.
O centro do debate do 10o Congresso
Na vigência dos governos de Fernando Henrique, o
Estado brasileiro foi reduzido crescentemente da sua
função, objetivo e compromisso nacionais. No atual
período da ordem internacional tornaram-se mais pesadas
as restrições externas ao nosso país. Esses processos
de coerção aberta e de re-colonização, agravados
pela tendência recessiva, aprofundaram a dependência
do país, acentuando a instabilidade econômica e
política e agravando a realidade social. Numa
inter-relação com tal situação, as restrições
internas se avolumaram por conseqüência da aplicação
da política ultraliberal e desnacionalizante. Nesse
contexto, o 10º Congresso tem como centro do debate a
natureza da crise e do impasse brasileiro e qual a
saída, tendo presente o rumo de reconquista da
soberania, da ampliação democrática e da promoção
da justiça social.
No início de 1990 as elites dominantes brasileiras
começaram a ajustar com a oligarquia financeira
transnacional os destinos da nação, atrelando o país
ao sistema de poder centrado em Washington e Nova
Iorque. Esse rumo seguido foi a resposta dessas elites
às crises do capitalismo dependente dos anos 80, e tem
suas raízes nos interesses colaboracionistas de setores
dominantes financistas e rentistas, que sempre pregaram
essa associação com o capital estrangeiro e a
estabilidade monetária a qualquer custo.
Formou-se um poderoso pacto dominante, sobretudo a
partir do primeiro governo de Fernando Henrique, que
procedeu a grande intervenção política, baseada numa
justificativa ideológica – a inviabilidade do Estado
nacional e do Brasil como nação independente. Desde
então a busca de um projeto nacional e democrático foi
truncada. A governabilidade perdeu o sentido nacional.
Assim, tornou-se essencial, para governar o Brasil, a
constância do fluxo do capital de fora, o visto de
baixo risco concedido pelo mercado financeiro
internacional, os aportes financeiros do Tesouro
norte-americano e do FMI e, sobretudo, o aval deste
último para proteger os grandes credores e investidores
nas crises cambiais sucessivas.
Desse modo o governo transformou-se tacitamente num
condomínio de participantes internos e externos. A
elite dominante brasileira se comprometeu com os
círculos dominantes dos Estados Unidos, transferindo
para estes, em última instância, o poder de decisão
sobre a economia do país.
O caráter da crise brasileira
O resultado é que considerando o período dos
últimos cem anos, o país manteve-se estagnado nas duas
décadas, de 80 e 90. Nesta última, o crescimento
médio anual foi ainda inferior ao de 80 (a década de
80 cresceu 2,2% e a de 90 1,6%), a economia foi
desnacionalizada de maneira inédita e aumentou o fosso
da desigualdade social. Do ponto de vista da evolução
histórica, a dinâmica capitalista periódica no
Brasil, de acumulação com endividamento externo,
atingiu um nível extremo em nossos dias. O nó reside
em que o total que o país precisa pagar no exterior
neste ano chega a US$ 56,1 bilhões (déficit em contas
correntes e amortizações). Descontados os
investimentos diretos de aproximadamente US$ 18
bilhões, os quais caíram em conseqüência da
recessão mundial, o Brasil terá de buscar a título de
empréstimo ou financiamento, US$ 39 bilhões nos
mercados financeiros internacionais.
Em suma, nesse contexto, os passivos externo e interno,
por seu enorme volume, tornaram-se problemas estruturais
atuais. Daí o círculo vicioso e cruel em que o país
se meteu, o qual consiste na persistência dos juros
altíssimos (das 40 maiores economias do mundo, o Brasil
tem mantido os juros mais altos por quatro anos), da
estagnação econômica que perdura, do elevado
desemprego crônico, da queda na renda dos assalariados
e perda de direitos. A maior vulnerabilidade externa do
país e a instabilidade em todos os terrenos são os
efeitos resultantes dessa situação.
Esse desequilíbrio estrutural não se alterou com os
acordos com o FMI, nem com a desvalorização cambial
desde o começo de 1999, porque os “fundamentos” do
modelo são os mesmos. O tratamento aplicado resume-se
aos efeitos, não às causas, agravando mais ainda o
dito desequilíbrio. Trata-se, pois, de um quadro
extremo que se prolongou, agravando-se o impasse
brasileiro. Essa exaustão de ciclos continuados de
dependência cada vez mais profunda, desnacionalização
econômica, com forte crise estrutural, agora agravada
com longo período de estagnação, vai assinalando o
esgotamento de um ciclo econômico. Essa extenuação se
expressa no plano social e político na forma de uma
crise crônica, com manifestação aguda intermitente.
Tal fenômeno se reproduz na crise que atravessa o
Brasil atual e se manifesta pela contradição entre
duas tendências: uma definida pelo anseio de um projeto
nacional autônomo, articulado com as aspirações
democráticas e populares; e a outra, definida pelo
sistema de poder vigente, liberal-desnacionalizante,
acentuadamente assimétrico, que levou o país a ocupar
um papel subordinado ao sistema hegemônico.
No plano político, comprovando esse fim de linha
econômico e social e seus efeitos, as próprias forças
governistas falam em “mudança” ou que a “era
fernando-malanismo acabou”. A estagnação econômica,
a desigualdade, a pobreza falam mais alto – já não
podem ser escamoteadas. Isso não quer dizer que o
modelo neoliberal se esgotou. Para os países
dependentes ele é regiamente aplicado, passando,
porém, por fases de ajustes ou reciclagem. Por outro
lado, nos países capitalistas desenvolvidos, diante da
atual recessão, crescem as medidas intervencionistas e
protecionistas. Tal procedimento vale para os países
ricos, não para os pobres.
O Consenso de Washington, plataforma das políticas
neoliberais para o nosso continente, prossegue, já em
outras condições, no “consenso da Alca”. Este é
produto da contínua imposição estratégica dos
Estados Unidos, visando à consolidação do seu
domínio sobre as Américas. Recentemente, o presidente
Fernando Henrique, comprometido com sua política de
profunda dependência aos círculos de poder
norte-americanos, por um lado e, por outro, à pressão
crescente interna por uma posição de não alinhamento
do Brasil, tem assumido uma postura ambígua diante dos
novos acontecimentos no mundo. E no plano externo ensaia
um discurso crítico aos resultados da globalização,
porém atrela mais ainda o país à hegemonia do capital
financeiro, aparecendo em cena como um presidente “dois
em um”.
Programa de reconstrução nacional
O Brasil precisa de um novo rumo, de uma ruptura com
a atual orientação dominante, de um projeto de
mudanças que seja capaz de promover a reconstrução
nacional, a transformação social e a mais ampla
liberdade política. Desde o 9o Congresso já
afirmávamos que o Brasil reúne condições objetivas
para um caminho de desenvolvimento autônomo, sustentado
e democrático. Faltaria dar impulso às condições
subjetivas – a reunião das forças políticas e
sociais – capazes de abrir e construir um novo
caminho. Somos um imenso país, uma grande nação,
dotada de imensos recursos espirituais, materiais e
humanos.
O nosso Partido almeja e se empenha na luta pela
vitória dos ideais socialistas em nossa época. Neste
momento, em nosso país, devemos considerar que a mais
importante batalha conformada diante de nós resulta,
primeiro, do caráter da contradição – projeto
nacional autônomo e democrático contra o projeto
hegemônico subordinado – produzida pela crise que
vive o Brasil; que, segundo, esse embate se realiza de
imediato no contexto institucional vigente, o qual
define as condições concretas da disputa eleitoral de
2002.
Em função desse conteúdo da luta e no terreno em que
ela se realiza é que podemos definir as nossas
premissas, quais sejam: formar amplo pacto político das
forças patrióticas, democráticas e populares, baseado
num programa com novos fundamentos – defesa do Brasil,
recomposição do Estado nacional, democracia ampliada,
retomada do desenvolvimento com distribuição de renda
e defesa do trabalho; e derrotar o pacto de poder das
forças que impuseram a reestruturação
liberal-desnacionalizante. Afirmamos que essas duas
premissas, por sua natureza política e programática,
definem o caráter de ruptura do projeto de mudança.
Estimamos que nas condições atuais o êxito desse
projeto mudancista encontra-se estreitamente dependente
da capacidade de unidade das forças de esquerda para
serem núcleo de uma aliança ampliada com as forças
oposicionistas interessadas na reconstrução nacional,
ampliação democrática e defesa dos direitos
populares. Não subestimamos a dimensão do poder
concentrado nas mãos das correntes governistas e da sua
capacidade de manobras políticas diversionistas.
Por isso, sozinho, nenhum partido de oposição poderá
derrotá-las. Ao mesmo tempo, a frente oposicionista tem
seu poder no apoio popular e, se este for realmente
manifestado na sua forma mais elevada, no nível de
extenso movimento cívico de massas contra o governo
FHC.
O novo governo democrático, de reconstrução nacional,
somente poderá ser conquistado e tornar realidade o
programa de mudança se for expressão dessa unidade de
forças contrárias ao projeto neoliberal e contar com o
respaldo desse amplo movimento político popular.
Dois programas distintos
Os dois governos de Fernando Henrique aprofundaram a
dependência do país. Com o advento da liberalização
financeira e comercial, deixou de existir qualquer
modelo ou plano de desenvolvimento. Numa situação de
desgaste progressivo, mesmo as forças comprometidas com
a política vigente são obrigadas a se desprender da
equipe econômica do governo e pregar uma “continuidade
sem continuísmo”. Procuram confundir seu programa e
seu discurso com o da oposição.
Diante dessa conjuntura, cabe ainda mais às forças
oposicionistas conseqüentes definir sua linha
programática demarcatória, indicando o essencial da
verdadeira mudança. Demonstrando que existem dois
programas distintos e dois discursos diferentes – um
da continuidade e outro da ruptura que, entretanto, não
deve ser confundido com uma plataforma voluntarista,
desligada das condições concretas, do nível da
batalha em curso.
A definição de um programa que rompa com o modelo
neoliberal deve considerar:
Primeiro, no plano da luta ideológica, as
idéias-força, os novos valores que servem de base à
montagem programática e que, nesse período de “pensamento
único”, tornaram-se anátemas pelos ideólogos e
praticantes da ordem liberalizante. Desse modo, é
preciso reerguer, reavivando sua dimensão conceitual,
valores como soberania e identidade nacional, projeto e
plano estratégico nacional; solidariedade,
desenvolvimento com transformação social; justiça
social, universalidade dos direitos sociais básicos; e
democratização política, econômica e social.
Segundo, o eixo do programa resulta do caráter da crise
– sociedade mais dependente e mais dividida,
democracia mais limitada –, sobretudo considerando-se
o grau de desmonte do Estado nacional, sobressaindo
assim o seu objetivo de reconstrução nacional,
democrático, voltado para os interesses populares.
Terceiro, o caráter patriótico, democrático e popular
do novo governo, a reversão do processo
liberal-desnacionalizante e de crescimento estancado, o
núcleo da retomada do crescimento desimpedido da
restrição externa, voltado para a ampliação do
mercado interno e a transição que permita sair da
situação presente para realização do novo programa.
O novo governo, resultante da vitória das forças de
oposição ao neoliberalismo, estará diante da tarefa
primordial de estabelecer o novo papel do Estado,
capacitando-o para exercer uma intervenção
reestruturadora, abrangente e continuada. Vai destacar a
reconstrução das bases e dos mecanismos de
financiamento interno, definindo um papel complementar
para o investimento estrangeiro, tendo em vista a
execução de um projeto de desenvolvimento nacional
sustentado com distribuição de renda.
A política externa deve afirmar uma posição
independente nos fóruns e organismos internacionais.
Rejeitar os propósitos do governo dos Estados Unidos
que objetivam, por meio da Alca, transformar todo o
continente em zona econômica livre e dolarizada, sob o
seu domínio. Tomar iniciativa, a partir do Mercosul,
para formar um pacto latino-americano a fim de
fortalecer os interesses das nações dessa região
diante do hegemonismo norte-americano.
O projeto nacional pode explicitar um Plano Estratégico
de Desenvolvimento que destrave as amarras para o
crescimento, objetivando um grande ajuste estrutural, a
ampliação do mercado interno que incorpore mais de 50
milhões de brasileiros quase inteiramente
marginalizados do mercado. A política de
desenvolvimento se combina com a universalização dos
direitos sociais e uma orientação de reforma agrária
antilatifundiária, cooperativismo e crédito amplo aos
pequenos e médios proprietários rurais.
Além das medidas de substituição de importações,
impõe-se suspender todas as privatizações
programadas, especialmente das empresas geradoras de
energia e do saneamento básico.
A transição para novo rumo
No trânsito para adoção do novo programa se
encontrará um país submetido a pesadas restrições
externas e internas: dívidas imensas; explosivo
déficit externo; juros elevados; acordos internacionais
lesivos à soberania; e mercado e condições de
trabalho, adversos ao trabalhador. Enfim, uma realidade
plasmada pela hegemonia do capital financeiro
internacional. Os grandes interesses desses agentes
hegemônicos fomentarão uma corrente antitransição. O
que vai estar em jogo são os meios políticos e
econômicos necessários para fazer frente a essa
contracorrente.
Nessa situação é que se fará sentir a importância
de um coeso pacto das forças oposicionistas
interessadas no novo rumo, apoiado na força de amplo
movimento cívico da sociedade, permitindo assim a
formação de uma nova maioria política. Pois, conforme
as condições da realidade encontrada, será preciso
adotar medidas unilaterais para enfrentar o grave
problema do endividamento e utilizar recursos que
mantenham o controle de entrada e saída do movimento de
capitais, romper com o círculo vicioso da “ciranda
financeira”.
Produto da realidade da reestruturação neoliberal,
segundo juristas conceituados, a Constituição de 88
sofreu processo de desfiguração por via de emendas que
lhe subtraíram características básicas, amputando
aspectos fundamentais de seu projeto. Estamos diante de
uma questão constitucional. Correntes situacionistas
defendem a convocação de uma constituinte porque,
mesmo com as emendas que mudaram a linha geral da Carta
de 88, ainda falta consolidar o seu desiderato
liberalizante.
Por seu turno as correntes oposicionistas estão diante
de uma peça constitucional disforme, que revogou
valores democráticos, nacionais e populares
conquistados em 1988. O nosso ponto de vista é que se
impõe assim, após a vitória de um novo governo dessas
correntes, a convocação de uma Assembléia Nacional
Constituinte, livremente eleita, para assentar bases
institucionais que permitam a construção do programa
de defesa nacional, democrático, voltado para os
anseios populares.
Possibilidade de vitória em 2002
Diante do impasse brasileiro, da crise e do
descrédito popular no governo FHC, das suas derrotas no
último pleito nos grandes municípios e do crescimento
da contestação à política neoliberal, a oposição
reúne condições históricas excepcionais para
alcançar uma vitória nas eleições gerais de 2002.
Esta situação antecipou o debate acerca da sucessão
presidencial. Os partidos e os diversos pré-candidatos
já na cena política adiantam a apresentação de
argumentos e plataformas na busca de uma saída para o
país. A continuidade da reestruturação em curso
defendida pelas forças situacionistas vai agravar a
incessante agonia em que vive a maioria do povo. O país
não agüentará mais uma metade de década de
crescimento estancado e pode se tornar neocolonizado.
Não se pode subestimar tamanho risco ao destino de
nossa pátria. Agora, o governo FHC e seus cúmplices,
apoiados em vastos recursos, sustentados por grandes
interesses internos e externos, compram a cumplicidade e
o apoio político, visando a manter sua base de
sustentação, retomar a iniciativa e encantoar a
oposição.
A responsabilidade de nosso Partido e da oposição
perante o povo tem conseqüências históricas: ou nos
colocamos à altura dessa tarefa decisiva de barrar a
evolução neoliberal e abrirmos um novo rumo para o
Brasil, ou continuaremos numa resistência cada vez mais
dramática para nosso povo.
Por isso, reafirmamos a nossa convicção unitária;
imbuído da qual o PCdoB tem sido uma voz na defesa
constante da coesão das forças de esquerda em torno de
um programa de mudança da ordem ultraliberalizante e
estendendo essa frente a amplos setores políticos e
sociais que comunguem dos mesmos propósitos. Também
consideramos que cabe ao Partido dos Trabalhadores –
por constituir-se no maior partido da oposição –,
destacada parcela de responsabilidade na realização
desse movimento de grande dimensão para o futuro da
nação.
Hoje, continuaremos empregando o melhor do nosso
esforço insistindo na busca da concretização da
unidade das forças oposicionistas no plano nacional e
nos Estados da Federação desde o primeiro turno das
próximas eleições. Se esse objetivo não for
alcançado contribuiremos para estabelecer condições
viáveis para unir, com base num programa comum
democrático, de reconstrução nacional, todas as
forças possíveis de serem unidas no segundo turno, a
fim de abrir um novo rumo para o Brasil.
Partido unido e em expansão
Neste 10o Congresso, em relação ao 9o, a
militância partidária que tomou parte da discussão
das Teses – Projeto de Resolução – teve um
acréscimo de 75% e houve um impulso na formação das
organizações de base. A militância do Partido vem
crescendo 15% ao ano. O número de quadros
intermediários mais que dobrou. Foram realizadas
Conferências Estaduais em 26 das 27 unidades da
Federação, precedidas de 903 Conferências Municipais.
O Partido está presente em mais de mil municípios,
equivalentes a 75% da população brasileira. Foram
publicados quatro números da Tribuna de Debates com um
total de 114 artigos, resultando nessa atividade
congressual um incremento de mais de 50%, em relação
ao último Congresso.
O Partido chega a esta suprema Plenária Nacional como
uma referência destacada no cenário nacional na luta
em defesa do Brasil, da liberdade política, dos
interesses dos trabalhadores e das massas populares e do
socialismo. E destaca-se o crescimento da sua
intervenção e participação nas frentes de atividade
de massas, sindical, parlamentar, governamental e de
ampliação nas relações partidárias no interior e
exterior do país, colhendo significativos êxitos em
vários terrenos.
Nas condições de conjunto, de defensiva estratégica
da luta revolucionária e predominância ainda do
ideário liberal capitalista, mesmo em situação
adversa, o PCdoB é hoje um partido em expansão,
prevalecendo grande unidade em suas fileiras. Ele vai se
tornando uma necessidade imprescindível para o êxito
da luta nacional e democrática e da emancipação dos
trabalhadores.
O nosso Partido vai completar 80 anos de existência em
março do próximo ano. Porém ainda temos maiores
tarefas a realizar e caminho mais longo a percorrer,
trabalho desta e das futuras gerações.
Tarefa partidária fundamental
Neste momento o Partido tem diante de si a tarefa
fundamental, de dimensão histórica: conquistar o
governo democrático de reconstrução nacional, abrindo
passagem para um novo tempo para nosso povo. A vitória
dessa batalha imediata de grande porte abre passagem
para ocupação de posições mais importantes,
impondo-se adiante novos embates ainda maiores, tendo em
vista a conquista dos objetivos estratégicos.
Encontramo-nos em meio a uma realidade mundial de
significativas mudanças e de grandes impasses no
Brasil, condicionando um plano de diferentes situações
e novos desafios. Essa realidade presente pode iniciar
um período de maior expansão do Partido, se
compreendermos os ensinamentos atuais, corrigirmos as
insuficiências e desvios e reavivarmos a nossa
perspectiva histórica socialista.
É uma tarefa incessante e gigantesca a construção do
Partido da transformação social, revolucionário,
integrada na dimensão das exigências de nossa época,
que requer um aperfeiçoamento crescente do domínio do
marxismo-leninismo e da sistematização da nossa
experiência política, e seu entrelaçamento com a
realidade concreta do Brasil, uma política e prática,
acertadas, ligação com a vida e o movimento real das
massas, absorvendo sua inesgotável energia em um
sistema de organização partidária desde cima até as
bases.
A partir, sobretudo, do 8o Congresso (1992) demos
grandes passos na assimilação desses princípios e
categorias. Realizamos importante movimento
antidogmático, destravando o desenvolvimento teórico
criador, apesar de termos nítida consciência das
nossas limitações ainda existentes. Pôde-se assim,
considerando as peculiaridades da formação histórica
brasileira, começar a definir um programa que
estabelecesse justa etapa a percorrer, visando à
transição ao socialismo nas condições do Brasil.
A nossa experiência demonstra, cabalmente, ser preciso
condenar os modismos dominantes, no traço comum da
ambigüidade dos terceirismos, das “terceiras vias”
– nem socialismo cientifico, nem capitalismo, nem
desenvolvimentismo nacional, nem neoliberalismo, nem
prevalência do Estado nem do mercado –, que pregam a
ilusão de um meio termo irreal, de uma pureza
fictícia, de uma via “inteiramente nova”, de um
recomeço inexistente da história, de uma ética
política abstrata, própria das organizações
políticas de base social intermediária,
social-democratas velhas ou novas, e de base teórica
eclética, prevalecendo assim o oportunismo político e
o afastamento da perspectiva revolucionária.
A nossa convicção é que a luta política realmente
transformadora se trava no espaço nacional, e, com sua
originalidade, ganha aí sua expressão própria e sua
fisionomia determinada. Ao mesmo tempo, a experiência
histórica comprova sobejamente que a luta política que
se expressa no âmbito nacional não transforma a
sociedade em nova formação econômico-social, em
sistema socialista, nos marcos do próprio regime
capitalista. Como também a existência do partido de
vanguarda, expressão do proletariado de qualquer época
– síntese das idéias e do programa mais avançados
–, essencial para direção do processo
revolucionário, não pode vingar na estufa das velhas
ou novas concepções espontaneístas.
Nesse sentido, no âmbito da organização do partido
revolucionário, não tem forma mais avançada ainda,
que possa unir a sabedoria coletiva à ação política
unitária, essencial para o êxito transformador, do que
o centralismo-democrático. Este não impede a
democracia interna mais ampla, nem o trabalho colegiado
de direção, mas garante uma direção única e uma
atividade coesa e eficaz, segundo nossa experiência
partidária.
Novos e maiores desafios
Apesar dos avanços significativos nestes 15 anos de
legalidade do Partido Comunista do Brasil – o maior em
toda sua história –, nos encontramos diante de
maiores desafios. Esse período de legalidade em nosso
país, nas condições de uma correlação de forças
ainda desfavorável para o movimento revolucionário,
impõe a busca incessante de formas políticas e
organizativas nos marcos da institucionalidade vigente,
que permitam dar curso ao processo de acumulação de
forças desse movimento e do nosso Partido.
Hoje essa contenda construtiva passa necessariamente
pela sustentação do projeto político do Partido em
todas as frentes de atuação partidária, sendo a base
da aglutinação de toda militância e aderentes; pela
união de extensa frente antiimperialista e
antineoliberal, ao mesmo tempo em que defende as idéias
avançadas, preservando a identidade própria
partidária; pela integração ao proletariado,
levando-o a ser força motriz e decisiva da mudança e
componente fundamental do movimento político de massas.
Assim também a luta ideológica assume crescentemente
um papel primordial nas condições da grande investida
das idéias neoliberais. A concepção e a conduta
liberal e exacerbadamente individualista que predominam
na sociedade atual interferem na construção
partidária, fomentando idéias antiestruturantes, que
levam muitas vezes a vicejar o liberalismo e pragmatismo
político, rebaixando o projeto do Partido; o
burocratismo, impedindo a ligação com as massas; e o
espontaneísmo, minando o processo organizativo.
A formação teórica da nova geração de comunistas, e
o aperfeiçoamento permanente dos veteranos intimamente
ligados à práxis política requerem atualização
constante, levando-se em conta as idéias vivas e as
polêmicas em desenvolvimento, e a unificação entre o
trabalho de formação do contingente partidário com o
de propaganda em todos os terrenos. No âmbito da
sociedade e da luta política em curso, defesa na forma
de amplo alcance das nossas idéias, aproximação das
correntes de pensamento mais avançadas e utilização
mais rápida dos meios modernos como a Internet, além
da televisão e do rádio.
Essas são as exigências políticas, ideológicas e
organizativas para o avanço nesse novo período, quais
sejam, o alcance dos objetivos programáticos
estabelecidos e do crescimento partidário mais elevado,
da afirmação do Partido como uma força independente,
portador de um programa emancipador, revolucionário.
Papel insubstituível do PCdoB
A história política brasileira demonstra que o
papel do Partido Comunista do Brasil é insubstituível
em todo o processo da luta democrática, nacionalista e
de transformação social nestes quase 80 anos.
Esse papel se afirmou mais ainda em nossos dias porque o
Partido soube garantir a defesa e o desenvolvimento da
teoria revolucionária; ele se empenha em enriquecer um
pensamento político próprio, baseado em princípios,
ao mesmo tempo amplo, flexível e revolucionário, que
dê conta das particularidades concretas de uma
realidade plena de instabilidade e marcada por mudanças
constantes; o Partido é a única força política que
participou na linha de frente de todos os episódios de
redemocratização do país e das grandes campanhas
nacionalistas dessas últimas sete décadas; o PCdoB tem
uma longa experiência acumulada de atuação em todas
as situações históricas caracterizadas pela reação
ou abertura, ascenso ou descenso da liberdade política;
e teve permanente atividade nas condições de
legalidade ou clandestinidade, intervindo e participando
com diferentes formas de luta.
Assim, a existência e o fortalecimento do PCdoB são
uma garantia para levar o movimento político além do
horizonte capitalista, alcançar a verdadeira
emancipação dos trabalhadores, salvaguardar a
soberania nacional e a democracia ampliada e não se
perder nos limites do cotidiano e do simples movimento
reivindicatório.
Camaradas, inspirados no exemplo da férrea convicção
dos heróis e mártires do nosso Partido e dos
combatentes do nosso povo pela causa progressista,
defendamos com redobrada convicção nossos princípios
revolucionários. Empunhemos com firmeza a bandeira do
nosso grande ideal socialista. O tempo dará razão aos
que combatem pelos ideais da transformação
revolucionária. Dediquemo-nos com afinco para a
passagem da ordem neoliberal ao novo rumo de soberania,
democracia e justiça social para o Brasil, unindo o
povo em ampla frente política. Apliquemos o melhor do
nosso esforço e inteligência na construção de um
grande e forte Partido Comunista do Brasil a fim de
contribuirmos mais ainda pela causa da emancipação dos
trabalhadores do Brasil e do mundo.
Viva o 10o Congresso do Partido Comunista do Brasil!
Por um novo rumo para o Brasil! |