| As visões básicas sobre a Amazônia
Em tese todos estão preocupados com o
desenvolvimento da Amazônia e, conseqüentemente, com a
proteção de sua extraordinária biodiversidade. Em
tese, porque na prática as concepções mais difundidas
acerca do “desenvolvimento” da região são
francamente conflitantes. As principais “visões”
sobre a Amazônia são a Teoria Desenvolvimentista, a
Teoria do Santuário e a Teoria do Desenvolvimento
Sustentado.
Teoria Desenvolvimentista
Com o fim do ciclo da borracha a Amazônia experimenta
um longo período de recessão econômica. Nesse
período a atividade econômica se restringe basicamente
ao extrativismo de subsistência. Tal situação criou a
base objetiva para que na década de 70 a “tese
Desenvolvimentista” ganhasse força e adeptos,
esposando a bandeira de substituir “a mata por pata de
boi”. A base ideológica dessa teoria é o Plano de
Integração Nacional (PIN) e a sua verbalização
prática a construção de grandes rodovias, dentre elas
a Transamazônica que, segundo o pensamento oficial da
época, seria o instrumento para “assegurar terras sem
homens para homens sem terra”, numa referência ao
vazio demográfico da região e o “excedente”
populacional do Nordeste. Muito em moda na década de
70, hoje, essa “tese” está completamente isolada e,
por isso mesmo, poucos se apresentam publicamente como
defensores da mesma, embora se saiba ser essa a visão
predominante entre a maioria do empresariado e dos
políticos conservadores.
Teoria do Santuário
Os estragos ambientais provocados pela “Teoria
Desenvolvimentista”, sem maiores ganhos
sócio-econômicos para a população nativa, são a
base objetiva sobre a qual se constrói a “teoria do
santuário”. Esse pensamento, muito em “moda” na
década de 80, esposado principalmente por ONG’s
estrangeiras, defende a “tese” de que a Amazônia
não suporta pisoteio humano e, portanto, deveria ser
integralmente preservada como reserva estratégica para
toda a humanidade, pois trata-se de um “patrimônio da
humanidade” e não apenas do povo brasileiro. Raras
são as pessoas que atualmente assumem publicamente essa
“tese”, embora muitos sejam os seus adeptos,
especialmente entre as ONG’s estrangeiras.
Teoria do Desenvolvimento Sustentado
O entrechoque dessas duas concepções faz surgir no
final da década de 80 a “tese” de que é preciso
conciliar crescimento econômico com conservação
ambiental, para que esse crescimento se torne perene e
se converta efetivamente em desenvolvimento. Hoje,
praticamente todo mundo se proclama adepto dessa
concepção, embora, efetivamente, poucos, ao
verbalizarem o seu ponto de vista sobre a Amazônia,
deixem transparecer qualquer vestígio dessa teoria.
Mesmo entre os realmente adeptos há muitas
divergências práticas e teóricas sobre essa teoria.
Também aí se escondem muitos “santuaristas” e,
principalmente, a maioria dos “desenvolvimentistas”.
O processo de ocupação da Amazônia
A ausência de um plano estratégico de
desenvolvimento sócio-econômico para a região
amazônica, por parte do governo central, faz com que
essa região viva de “surtos” de crescimento,
ancorados nos chamados “grandes projetos”,
intercalados por períodos de longa depressão
econômica. A única presença oficial na Amazônia tem
sido as Forças Armadas. Sinteticamente poderíamos
dizer que essa “ocupação” se deu através de três
processos: a colonização portuguesa, a “teoria do
adensamento” defendida pelos militares através dos
chamados “grandes projetos”.
A colonização portuguesa
A partir de 1669 os Portugueses ocuparam a região.
Com a presença portuguesa na Amazônia não houve
progresso e nem desenvolvimento para a região. A
prática de saque, dilapidação e extermínio, já
praticada em outros locais, foi a característica
básica desse invasor. Entretanto, diferentemente de
outras regiões, onde a mão de obra predominante era
escrava, nesta os portugueses utilizaram a indígena –
parte escravizada – na atividade basicamente de
extrativismo e agricultura de subsistência. A
resistência dos índios – um povo habituado à caça,
à pesca e à livre migração como modo de vida – a
esse novo “modo de ser” dos portugueses foi
violenta, caracterizando-se por lutas sangrentas entre
as várias etnias locais contra o invasor português. A
mais memorável dessas lutas de resistência foi
liderada pelo chefe Ajuricaba que, finalmente vencido,
preso e acorrentado, se jogou às águas do rio
Amazonas, pois “preferia a morte do que a escravidão”.
A presença militar – “teoria do adensamento”
A Amazônia, desde o início da sua colonização,
recebeu uma forte presença militar, o que corresponde
à visão estratégica das Forças Armadas para a
região, segundo a qual o adensamento populacional desse
imenso território é pressuposto para a sua defesa e
integração nacional. Seguindo a lógica desse
pensamento estratégico os portugueses estabeleceram, ao
longo dos séculos XVII, XVIII e XIX, nada menos que 37
fortificações militares. Esse processo posteriormente
foi intensificado através de várias unidades, dentre
as quais se destacam: Colônia Militar Rio Araguari, AP
(1840); 26º BC, Belém, PA (1842); Colônia Militar,
São João do Araguaia, MA (1850); Colônia Militar,
São Pedro de Alcântara, MA (1853) e Colônia Militar
de Óbidos, PA (1854).
No início do século passado surgem os primeiros
grandes comandos, denominados “REGIÕES DE INSPEÇÃO
PERMANENTE”, com sedes em Manaus, Belém e São Luiz.
Cria-se, também, o 27º BC em Manaus e pelotões em
Tabatinga, Cucui, Ipiranga, Vila Bittencourt (AM), Boa
Vista (RR) e Clevelândia (AP); 8ª Região Militar,
Belém (PA); Comando de Elementos de Fronteira de Manaus
(AM).
De 1950 a 1986 os militares desenvolvem uma nova
ofensiva; desta feita com o deslocamento de grandes
contingentes e o desenvolvimento de ações que fogem do
modo tradicional de operação das Forças Armadas
brasileiras. Nesse período foram implantadas as
seguintes unidades militares: Comando Militar da
Amazônia, Manaus, AM; 12ª Região Militar, Manaus, AM;
Colônia Militar de Tabatinga, AM; Colônia Militar do
Oiapoque, RR; Companhias Especiais de Fronteira em
Tabatinga (AM), Boa Vista (RR), Macapá (AP), Rio Branco
(AC), São Gabriel da Cachoeira (AM) – atuais
Batalhões Especiais de Fronteira; Pelotões de
Fronteira em Bonfim, Normandia e BV8 (RR); Colégio
Militar de Manaus; CIGS – Centro de Instrução de
Guerra na Selva – Manaus (AM); 1º e 2º BIS –
Batalhão de Infantaria de Selva (Manaus e Belém);
Batalhões de Selva em Marabá, Altamira e Itaituba (PA)
e Imperatriz (MA) – fruto da Guerrilha do Araguaia;
23ª Brigada de Selva em Marabá (PA); 17ª Brigada de
Infantaria de Selva em Porto Velho (RO);
Recentemente ocorreu o deslocamento da Brigada de Santo
Ângelo (RS) para Tefé, no epicentro da Amazônia
Ocidental, como reflexo direto do fim da “guerra fria”
e a crescente convicção entre os militares de que o
“inimigo” vem do Norte – no caso, os
norte-americanos.
A fase contemporânea
O ciclo da borracha, (1839/1940)
Configura um período em que toda a economia da região
esteve alicerçada na produção de borracha, destinada
no fundamental à exportação de forma “in natura”,
sem qualquer agregação de valor. A extração do
látex de forma mais ou menos intensa ocorreu por um
longo período (1839 a 1940). O período “áureo”,
entretanto, que convencionou-se chamar de “Ciclo da
borracha” vai de 1880 a 1911, tendo seu ápice em
1910. Entre 1901 e 1910 (auge do ciclo) a Amazônia
exportou aproximadamente 12 bilhões de dólares em
borracha, sendo que apenas no ano de 1910 as
exportações atingiram algo em torno de 2 bilhões de
dólares. A imensa riqueza oriunda da borracha produziu
uma casta de abastados numa ponta e, como sempre, uma
legião de miseráveis no outro extremo, composta de
seringueiros que trabalhavam em regime de
semi-escravidão e que freqüentemente eram assassinados
para não receberem o saldo que eventualmente obtinham
na venda de seus produtos para o seringalista. Esta
casta de abastados, cujos filhos estudavam em Coimbra e
Sorbonne, se caracterizava por um comportamento
perdulário e extravagante, dentre eles alguns
prosaicos, como tomar banho com água mineral francesa
importada.
É deste período a construção de duas belas obras
arquitetônicas: o Teatro da Paz, em Belém e o Teatro
Amazonas, de Manaus, considerado um dos mais belos e
suntuosos do mundo. Nessa época, também foi criada a
Escola Universitária Livre de Manaus (1908), a primeira
universidade brasileira. Com o fim do ciclo da borracha
a região entra numa crise prolongada, cujos reflexos se
estendem até hoje.
Fase Desenvolvimentista (1940/1960)
Caracteriza-se por uma “ofensiva” do governo no
sentido de “adensar” a Amazônia. É desse período
a rodovia Belém-Brasília, Porto Velho-Cuiabá, e
também órgãos de fomento e pesquisa, como BASA e
SUDAM (criados com outro nome), CPRM, INPA, Zona Franca,
etc. Junto com a visão “Desenvolvimentista”
ocorreram as queimadas, a agressão ao meio ambiente, a
grilagem, a pistolagem, a substituição da mata pela
“pata do boi”, sem que isso contribuísse para
melhorar os indicadores sociais da região. A prática
de saque das riquezas da região – iniciada com os
portugueses –, sem contrapartida efetiva para os
amazônidas, prosseguiu nessa fase e até se
intensificou.
Surto Ecológico
A agressão sistemática e violenta aos recursos
naturais da região deteriorou sobremaneira o meio
ambiente, sem que isso representasse, pelo menos, alguma
melhora no padrão de vida da população. Por isso
mesmo parte das décadas de 70 e 80 se caracterizou pelo
surgimento de um intenso movimento ambientalista como
uma reação natural a essa prática criminosa e
irracional. É desse período, por exemplo, o “Movimento
da Defesa da Amazônia” (MDA), que não se limitava à
defesa meramente ecológica, colocando a questão da
soberania da Amazônia como bandeira central de suas
preocupações. Nem todo movimento ambientalista,
naturalmente, tinha essa visão estratégica do MDA.
Muitas organizações esboçavam a idéia de a Amazônia
ser intocável (a “teoria do santuário”) e
restringiam suas plataformas à defesa de uma espécie
animal e/ou vegetal em particular, permitindo que
grosserias como “eles querem salvar as borboletas e
matar o caboclo de fome”, cunhadas por “amazonólogos”
do porte de Gilberto Mestrinho, fizessem certo sucesso.
Outras passaram a questionar até mesmo a “capacidade”
de a Amazônia suportar “pisoteio” humano,
defendendo não só a idéia do “santuário” como
também a “teoria” segundo a qual a Amazônia, pela
sua complexidade e importância no equilíbrio
ambiental, deveria ser vista como patrimônio da
humanidade e não do povo brasileiro. É a tese da
soberania limitada, que tanto anima os imperialistas do
mundo inteiro e os norte-americanos em particular. Como
se pode ver há muito contrabando travestido de defesa
ambiental.
Teoria do desenvolvimento sustentável
A contradição radical entre os defensores do “desenvolvimentismo”
e os adeptos da Amazônia como “santuário” levou as
correntes mais progressistas a desenvolverem um conjunto
de idéias que busca conciliar a necessidade objetiva
que os povos dessa região têm por alimentos,
desenvolvimento tecnológico e exploração de seus
recursos naturais, sem que isso represente a
degradação e a destruição do ecossistema. É o
reconhecimento óbvio de que a defesa da Amazônia só
será efetiva se a população dessa região for
finalmente beneficiada pela extraordinária riqueza da
região, especialmente os milhares de ribeirinhos,
indígenas, castanheiros, seringueiros, etc., que até
hoje continuam marginalizados em razão dos vários
surtos de “desenvolvimento” que a Amazônia
experimentou. É uma polêmica em aberto, especialmente
no que diz respeito a determinadas atividades, como
exploração de madeira – mesmo com manejo e com “certificado
verde” dos organismos internacionais.
Os grandes projetos – traço dominante na
ocupação da Amazônia
Como nos referimos anteriormente, a falta de um
planejamento estratégico por parte do governo central,
no que diz respeito ao desenvolvimento da Amazônia e à
sua conseqüente preservação, tem feito com que a
região seja submetida, sistematicamente, a “grandes
projetos”, cuja eficiência além de duvidosa tem,
como regra geral, caráter transitório, a exemplo da
Zona Franca de Manaus com data predeterminada para
acabar. Tais “grandes projetos” têm sido um traço
predominante no processo de ocupação da Amazônia.
Dentre eles se encontram, evidentemente, alguns dos
principais projetos econômicos da região, inclusive
aqueles que se notabilizaram pelo fracasso.
Numa ordem mais ou menos cronológica poderíamos
destacar os seguintes: construção da estrada de ferro
Madeira-Mamoré (RO), em 1903/13; plantio de
seringueiras, 1928/46, na região de
Fordlândia/Belterra (PA); exploração da Serra do
Navio (AP), a partir de 1954; construção, em 1958/60,
da rodovia Belém-Brasília; implantação em 1967 da
Zona Franca de Manaus; construção, em 1971, da rodovia
Transamazônica, com valor superior a 12 bilhões de
dólares; em 1971, o projeto Javi, no Pará; o projeto
Trombetas, em 1973, com investimentos da ordem de 390
milhões de dólares; construção da hidrelétrica de
Tucuruí, em 1977; em 1978, o projeto Albrás –
Alunorte , com investimentos na ordem de 2,5 bilhões de
dólares; o Grande Carajás (1980), com investimentos da
ordem de 3,5 bilhões de dólares; garimpo de ouro de
Serra Pelada (1981); o Pólo-noroeste (1981/87);
conclusão, em 1981, da rodovia BR-364 que liga Rio
Branco (AC) a Cuiabá (MT); início da exploração
comercial da bacia petrolífera de Urucu (AM), pela
Petrobrás em 1985; o Calha Norte, 1985; início da
construção dos 1570 km da Ferrovia Norte-Sul, 1988;
início do Projeto SIVAM, 1995; o LBA – Experimento
Escala da Biosfera e Atmosfera na Amazônia, coordenado
pela NASA, 1998; em 1999, dentro da lógica da “teoria
do bloqueio”, o governo tem sinalizado com a
implantação dos corredores ecológicos e admitido
publicamente que aceita discutir uma velha proposta
norte-americana de converter parte da nossa dívida em
favor da preservação de florestas.
Por que a Amazônia tem caráter estratégico
A Amazônia hoje é, sem dúvida, a “marca”
brasileira mais conhecida no exterior. Para grande parte
dos brasileiros, todavia, o secular interesse que a
Amazônia desperta no exterior decorre meramente de sua
exoticidade. Não é verdade. O grande interesse que
essa região desperta no mundo inteiro – menos na
quase totalidade dos governantes brasileiros – está
diretamente ligado ao caráter estratégico dessa
região, sob todos os aspectos.
A motivação básica desse interesse repousa numa área
da ordem de 5 milhões de km2 (60% do território
nacional) distribuída em 9 estados (Acre, Amapá,
Amazonas, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima,
Tocantins e a maior parte do Maranhão) e que faz
fronteira com 7 países (Bolívia, Colômbia, Guiana,
Peru, Suriname, Venezuela e Guiana Francesa). Possui 20%
de toda a água doce do planeta, mais de 20 mil km de
vias navegáveis, 68 mil MW de potencial
hidroenergético (53% do total brasileiro), 350 milhões
de hectares de florestas virgens, exuberante potencial
pesqueiro (mais de três mil espécies) e agrícola (25
milhões de hectares de várzeas), além de uma
extraordinária biodiversidade e da maior reserva
mineral do planeta (ferro, bauxita, sal-gema, manganês,
calcário, cobre, cassiterita, estanho, chumbo, níquel,
ouro, nióbio, petróleo, gás, etc.). A Amazônia é,
respectivamente, o segundo e o terceiro maior produtor
de gás natural e petróleo do país. Só a reserva de
Urucu (Coari, Amazonas) é suficiente para abastecer
toda a região (GLP e matriz energética) por mais de 30
anos. Tem água e sol em abundância, ou seja, detém os
pressupostos para a criação de energia e vida em
qualquer parte do planeta.
Nessa região vivem em torno de 20 milhões de
habitantes, dos quais aproximadamente 200 mil são
índios, o que representa a maior população nativa do
país. De maneira geral a maior parte dessa população
está concentrada em áreas urbanas, o que significa
dizer que a densidade demográfica na área rural é
bastante rarefeita – em alguns casos abaixo de 0,5
hab/km2 –, o que propicia grande facilidade de “movimentação”
de “agentes sociais” de qualquer natureza.
Ademais, na Amazônia, ocorreram em diferentes períodos
históricos três grandes movimentos armados, de
caráter revolucionário (Cabanagem, 1835/40; “Revolução
Acreana”, 1903 e Guerrilha do Araguaia, 1968/1974),
que fez com que essa região passasse a merecer “tratamento
especial” por parte das Forças Armadas, as quais se
constituem hoje, sem dúvida, na presença mais
ostensiva do governo federal em toda a Amazônia.
Eis porque, em resumo, a Amazônia tem caráter
estratégico e por que tantos a cobiçam.
Variadas táticas do imperialismo para ocupar essa
região estratégica
Em decorrência de seu extraordinário potencial
biológico e mineral, a Amazônia sempre foi vista como
reserva estratégica do imperialismo, que, ao longo dos
séculos, fez várias investidas contra a região,
variando a tática e o discurso, mas mantendo o objetivo
central: internacionalizar a Amazônia. Assim, a tática
variou entre a frustrada tentativa de transformar a
Cabanagem num movimento separatista até a atual
ofensiva militarista do Plano Colômbia, passando pela
teoria da gestão compartilhada – a tática da
soberania limitada, a conversão de dívidas por
floresta e a teoria do bloqueio, dentre os de mais
relevo.
Já pela época da Cabanagem (1835/1840), os ingleses
tentaram “aliciar” Eduardo Angelim (um dos
governadores Cabanos) para separar a Amazônia do
Brasil, oferecendo-lhe não apenas proteção militar
como também financiamentos para o “novo” país. Na
mesma linha, os norte-americanos criam, em 1901, o
Bolivian Sindicate com o objetivo de “arrendar” o
que hoje é o Estado do Acre.
Sob pretexto de desenvolver pesquisas científicas a
UNESCO, em 1945, propõe a criação do Instituto da
Hiléia Amazônica, controlado por um conselho
supra-nacional, onde o Brasil só teria um voto.
A teoria da “conversão de dívidas por floresta”
vem desde os acordos de Washington (1927) – com os
quais o governo norte-americano condicionava
empréstimos à troca de latifúndios para assentamento
de grandes projetos, como Fordlandia (PA) – até a
versão atual, onde igualmente a redução da dívida
está condicionada à permuta por áreas de
preservação.
Nesse final/início de século, porém, a “teoria do
bloqueio” parece ser a mais sofisticada arma do
imperialismo na sua pretensão secular de se apropriar
dessa região. Sem que o Congresso Nacional e/ou
qualquer Assembléia Legislativa da região tivessem
sido oficialmente informados, está em pleno andamento
um projeto do Banco Mundial que tem como meta criar um
“corredor ecológico” de aproximadamente 1,5 milhão
de Km2 no epicentro da Amazônia brasileira. Toda e
qualquer atividade econômica nessa área só poderia
ser executada mediante autorização do “conselho
gestor do corredor” onde o Banco Mundial, “coincidentemente”,
tem poder de veto.
Recentemente chegou pelo meu correio eletrônico a
página 76 de um livro de geografia norte-americana,
cujo autor seria David Norman na qual consta um mapa com
toda a Amazônia global destacada como área sob o
controle das Nações Unidas. A ONG WWF acaba de
apresentar suas idéias para a Conferencia Internacional
de água doce (Bonn, Alemanha), destacando que “a
biodiversidade de água doce está em condições muito
piores do que a de florestas e de ecossistemas costeiros”.
Em seguida sugere a gestão integrada de rios que cortem
mais de um país, como o rio Amazonas, por exemplo.
A desenvoltura com que ONG’s estrangeiras formulam
propostas para “salvar” a Amazônia decorre da
convicção das mesmas de a Amazônia ser um patrimônio
da humanidade e não do povo brasileiro.
E dentro da crescente concepção militarista dos EUA, o
governo norte-americano vai estendendo seus tentáculos
sobre a Amazônia através do Plano Colômbia, sob o
pretexto de combater o narcotráfico e – acrescentaram
recentemente – a guerrilha liderada pelas Farc
(Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia). Os
norte-americanos, efetivamente, querem impedir uma
eventual vitória das Farc – que representaria um
obstáculo à implantação da política norte-americana
na Colômbia – e, ao mesmo tempo, arrumar um pretexto
para executar algo que tem sido uma pretensão secular
dos Estados Unidos: a ocupação da Amazônia
brasileira.
Grandes polêmicas sobre a Amazônia –
aprofundar e uniformizar nossa opinião
Como se pôde ver no capítulo anterior, não há
unidade entre as diversas correntes no que diz respeito
à Amazônia. De nossa parte necessitamos, igualmente,
de um mínimo de “uniformização” acerca das
questões mais polêmicas e sobre as quais nossa
militância é chamada a opinar e se manifestar com
certa regularidade. Eis algumas dessas grandes
polêmicas:
A Amazônia é patrimônio da humanidade? Não. Essa “tese”
aparentemente inofensiva e de caráter altruísta
esconde, na verdade, a visão de que o Brasil não deve
ter soberania sobre a região.
Devemos defender a demarcação de terras indígenas?
Sim. Não são eventuais grandes áreas indígenas que
inviabilizam o desenvolvimento da região. Devemos
ressaltar, porém, que o Estado brasileiro terá total
autonomia e soberania sobre essas áreas, como, aliás,
ocorre hoje.
É possível explorar racionalmente a floresta
amazônica? Sim. Hoje, experimentos demonstram ser
possível um corte seletivo e rotativo, de tal sorte que
uma área cortada só volte a ser explorada 20/25 anos
depois.
Qual a contribuição real da Amazônia para o
equilíbrio do clima mundial? É grande, especialmente
considerando que a Amazônia funciona como sorvedouro de
gás carbônico.
O desmatamento pode levar à desertificação da
região? Não há dados científicos que possam definir
com rigor essa questão. Sabe-se, por exemplo, que 50%
das chuvas sobre a região decorrem da própria
evapo-transpiração da floresta. O nível de
desmatamento da Amazônia não é uniforme. Varia de
menos de 2% (Amazonas, Amapá) a mais de 70%
(Maranhão).
O que significa a preservação de grandes áreas na
Amazônia? Esse mecanismo, conhecido como “teoria do
bloqueio”, tem motivações distintas. Do ponto de
vista dos ambientalistas coerentes significa evitar o
desmatamento irracional. Do ponto de vista do
imperialismo significa “reservar áreas”
estratégicas para o futuro.
Um projeto alternativo para a Amazônia
Desenvolver um projeto econômico e social
alternativo para essa região, baseado em suas próprias
potencialidades e sem abdicar dos avanços já
conquistados deve ser o centro do enfoque de todos os
que pensarem a Amazônia sem a eterna dependência dos
“grandes projetos”.
As premissas desse projeto passam, necessariamente, pelo
aprofundamento do conhecimento científico sobre a
região, especialmente quanto à biodiversidade e à sua
planície mineral. E, com base neles, promover a
industrialização da matéria prima regional (peixes,
biotecnologia, minérios, manejo florestal sustentado,
etc.). As informações científicas disponíveis
evidenciam que a Amazônia pode ser um grande centro
industrial de “química fina”, de biotecnologia, de
siderurgia, de petroquímica, etc., uma vez que dispõe
de toda matéria prima necessária.
Tirar proveito de sua exoticidade e de sua “marca”
para explorar o seu potencial turístico e captar
recursos internacionais, a fundo perdido, especialmente
pelo seu papel de sorvedor de gás carbônico, pode e
deve ser outra forma de pensar a Amazônia
estrategicamente.
O desafio da construção de um partido
revolucionário nas condições amazônicas
A construção de um partido revolucionário nas
condições amazônicas encerra desafios e
condicionantes próprios de uma região complexa. As
grandes distâncias, dificuldades de transporte e
comunicação, baixo nível de organização social,
fragilidade do movimento popular, comunidades
(seringueiro, castanheiro, índios) que vivem num
estágio “pré-capitalista” e sob uma grande
influência de ONG’s estrangeiras “santuaristas”
sobre essas comunidades, são alguns desses
condicionantes.
Por outro lado, a região, até por conta de seu
isolamento, tem um histórico recorrente de movimentos
insurgentes. Tal aspecto, associado a uma extensa área
fronteiriça – precisamente onde se concentram as
menores taxas de densidade demográfica do país –,
confere caráter estratégico a essa região também do
ponto de vista geopolítico. Daí porque a presença de
ONG’s estrangeiras das mais distintas colorações e
objetivos, tem sido uma constante na Amazônia. Assumem,
em muitos casos, o papel do Estado e, por decorrência,
exercem forte influencia sobre as populações “assistidas”,
procurando ganhá-las politicamente para a concepção
de a Amazônia ser um patrimônio da humanidade.
Assim, está colocado na ordem do dia, para todos nós,
o desafio de construir um partido revolucionário que
seja capaz não apenas de disputar com os “santuaristas”
a influência sobre os povos da região, mas de
igualmente se credenciar como interlocutor preferencial
do movimento popular e assumir o desafio, a tarefa, de
formular um projeto econômico e social alternativo para
a Amazônia, baseado em suas próprias potencialidades
– sem abdicar dos avanços já conquistados –
enfatizando a premissa de uma “Amazônia brasileira
para os brasileiros”.
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