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  9ª Conferência | Notícias

10º Congresso do PcdoB
 
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A atuação do Partido junto ao proletariado 
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Informe especial sobre a desnacionalização
Haroldo Lima
Nova etapa da construção partidária
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Forjar a corrente socialista através da participação do PCdoB nos governos municipais e estaduais
Luciano Siqueira
Juventude e militância política socialista
Ricardo Abreu - Alemão
Avaliação do trabalho parlamentar do PCdoB
Inácio Arruda
Amazônia: uma região estratégica
Eron Bezerra
A política de finanças
Ronald Freitas
Perspectivas da propaganda comunista
Pedro De Oliveira
Acerca da questão nacional na perspectiva do socialismo
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A questão de gênero e o PCdoB
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Sobre o trabalho ideológico do Partido
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"Um partido vitorioso"
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 Intervenções Especiais do 10º Congresso
Amazônia: uma região estratégica
Eron Bezerra
As visões básicas sobre a Amazônia

Em tese todos estão preocupados com o desenvolvimento da Amazônia e, conseqüentemente, com a proteção de sua extraordinária biodiversidade. Em tese, porque na prática as concepções mais difundidas acerca do “desenvolvimento” da região são francamente conflitantes. As principais “visões” sobre a Amazônia são a Teoria Desenvolvimentista, a Teoria do Santuário e a Teoria do Desenvolvimento Sustentado.

Teoria Desenvolvimentista
Com o fim do ciclo da borracha a Amazônia experimenta um longo período de recessão econômica. Nesse período a atividade econômica se restringe basicamente ao extrativismo de subsistência. Tal situação criou a base objetiva para que na década de 70 a “tese Desenvolvimentista” ganhasse força e adeptos, esposando a bandeira de substituir “a mata por pata de boi”. A base ideológica dessa teoria é o Plano de Integração Nacional (PIN) e a sua verbalização prática a construção de grandes rodovias, dentre elas a Transamazônica que, segundo o pensamento oficial da época, seria o instrumento para “assegurar terras sem homens para homens sem terra”, numa referência ao vazio demográfico da região e o “excedente” populacional do Nordeste. Muito em moda na década de 70, hoje, essa “tese” está completamente isolada e, por isso mesmo, poucos se apresentam publicamente como defensores da mesma, embora se saiba ser essa a visão predominante entre a maioria do empresariado e dos políticos conservadores.

Teoria do Santuário

Os estragos ambientais provocados pela “Teoria Desenvolvimentista”, sem maiores ganhos sócio-econômicos para a população nativa, são a base objetiva sobre a qual se constrói a “teoria do santuário”. Esse pensamento, muito em “moda” na década de 80, esposado principalmente por ONG’s estrangeiras, defende a “tese” de que a Amazônia não suporta pisoteio humano e, portanto, deveria ser integralmente preservada como reserva estratégica para toda a humanidade, pois trata-se de um “patrimônio da humanidade” e não apenas do povo brasileiro. Raras são as pessoas que atualmente assumem publicamente essa “tese”, embora muitos sejam os seus adeptos, especialmente entre as ONG’s estrangeiras.

Teoria do Desenvolvimento Sustentado

O entrechoque dessas duas concepções faz surgir no final da década de 80 a “tese” de que é preciso conciliar crescimento econômico com conservação ambiental, para que esse crescimento se torne perene e se converta efetivamente em desenvolvimento. Hoje, praticamente todo mundo se proclama adepto dessa concepção, embora, efetivamente, poucos, ao verbalizarem o seu ponto de vista sobre a Amazônia, deixem transparecer qualquer vestígio dessa teoria. Mesmo entre os realmente adeptos há muitas divergências práticas e teóricas sobre essa teoria. Também aí se escondem muitos “santuaristas” e, principalmente, a maioria dos “desenvolvimentistas”.

O processo de ocupação da Amazônia

A ausência de um plano estratégico de desenvolvimento sócio-econômico para a região amazônica, por parte do governo central, faz com que essa região viva de “surtos” de crescimento, ancorados nos chamados “grandes projetos”, intercalados por períodos de longa depressão econômica. A única presença oficial na Amazônia tem sido as Forças Armadas. Sinteticamente poderíamos dizer que essa “ocupação” se deu através de três processos: a colonização portuguesa, a “teoria do adensamento” defendida pelos militares através dos chamados “grandes projetos”.

A colonização portuguesa

A partir de 1669 os Portugueses ocuparam a região. Com a presença portuguesa na Amazônia não houve progresso e nem desenvolvimento para a região. A prática de saque, dilapidação e extermínio, já praticada em outros locais, foi a característica básica desse invasor. Entretanto, diferentemente de outras regiões, onde a mão de obra predominante era escrava, nesta os portugueses utilizaram a indígena – parte escravizada – na atividade basicamente de extrativismo e agricultura de subsistência. A resistência dos índios – um povo habituado à caça, à pesca e à livre migração como modo de vida – a esse novo “modo de ser” dos portugueses foi violenta, caracterizando-se por lutas sangrentas entre as várias etnias locais contra o invasor português. A mais memorável dessas lutas de resistência foi liderada pelo chefe Ajuricaba que, finalmente vencido, preso e acorrentado, se jogou às águas do rio Amazonas, pois “preferia a morte do que a escravidão”.

A presença militar – “teoria do adensamento”

A Amazônia, desde o início da sua colonização, recebeu uma forte presença militar, o que corresponde à visão estratégica das Forças Armadas para a região, segundo a qual o adensamento populacional desse imenso território é pressuposto para a sua defesa e integração nacional. Seguindo a lógica desse pensamento estratégico os portugueses estabeleceram, ao longo dos séculos XVII, XVIII e XIX, nada menos que 37 fortificações militares. Esse processo posteriormente foi intensificado através de várias unidades, dentre as quais se destacam: Colônia Militar Rio Araguari, AP (1840); 26º BC, Belém, PA (1842); Colônia Militar, São João do Araguaia, MA (1850); Colônia Militar, São Pedro de Alcântara, MA (1853) e Colônia Militar de Óbidos, PA (1854).
No início do século passado surgem os primeiros grandes comandos, denominados “REGIÕES DE INSPEÇÃO PERMANENTE”, com sedes em Manaus, Belém e São Luiz. Cria-se, também, o 27º BC em Manaus e pelotões em Tabatinga, Cucui, Ipiranga, Vila Bittencourt (AM), Boa Vista (RR) e Clevelândia (AP); 8ª Região Militar, Belém (PA); Comando de Elementos de Fronteira de Manaus (AM).
De 1950 a 1986 os militares desenvolvem uma nova ofensiva; desta feita com o deslocamento de grandes contingentes e o desenvolvimento de ações que fogem do modo tradicional de operação das Forças Armadas brasileiras. Nesse período foram implantadas as seguintes unidades militares: Comando Militar da Amazônia, Manaus, AM; 12ª Região Militar, Manaus, AM; Colônia Militar de Tabatinga, AM; Colônia Militar do Oiapoque, RR; Companhias Especiais de Fronteira em Tabatinga (AM), Boa Vista (RR), Macapá (AP), Rio Branco (AC), São Gabriel da Cachoeira (AM) – atuais Batalhões Especiais de Fronteira; Pelotões de Fronteira em Bonfim, Normandia e BV8 (RR); Colégio Militar de Manaus; CIGS – Centro de Instrução de Guerra na Selva – Manaus (AM); 1º e 2º BIS – Batalhão de Infantaria de Selva (Manaus e Belém); Batalhões de Selva em Marabá, Altamira e Itaituba (PA) e Imperatriz (MA) – fruto da Guerrilha do Araguaia; 23ª Brigada de Selva em Marabá (PA); 17ª Brigada de Infantaria de Selva em Porto Velho (RO);
Recentemente ocorreu o deslocamento da Brigada de Santo Ângelo (RS) para Tefé, no epicentro da Amazônia Ocidental, como reflexo direto do fim da “guerra fria” e a crescente convicção entre os militares de que o “inimigo” vem do Norte – no caso, os norte-americanos.

A fase contemporânea

O ciclo da borracha, (1839/1940)
Configura um período em que toda a economia da região esteve alicerçada na produção de borracha, destinada no fundamental à exportação de forma “in natura”, sem qualquer agregação de valor. A extração do látex de forma mais ou menos intensa ocorreu por um longo período (1839 a 1940). O período “áureo”, entretanto, que convencionou-se chamar de “Ciclo da borracha” vai de 1880 a 1911, tendo seu ápice em 1910. Entre 1901 e 1910 (auge do ciclo) a Amazônia exportou aproximadamente 12 bilhões de dólares em borracha, sendo que apenas no ano de 1910 as exportações atingiram algo em torno de 2 bilhões de dólares. A imensa riqueza oriunda da borracha produziu uma casta de abastados numa ponta e, como sempre, uma legião de miseráveis no outro extremo, composta de seringueiros que trabalhavam em regime de semi-escravidão e que freqüentemente eram assassinados para não receberem o saldo que eventualmente obtinham na venda de seus produtos para o seringalista. Esta casta de abastados, cujos filhos estudavam em Coimbra e Sorbonne, se caracterizava por um comportamento perdulário e extravagante, dentre eles alguns prosaicos, como tomar banho com água mineral francesa importada.
É deste período a construção de duas belas obras arquitetônicas: o Teatro da Paz, em Belém e o Teatro Amazonas, de Manaus, considerado um dos mais belos e suntuosos do mundo. Nessa época, também foi criada a Escola Universitária Livre de Manaus (1908), a primeira universidade brasileira. Com o fim do ciclo da borracha a região entra numa crise prolongada, cujos reflexos se estendem até hoje.

Fase Desenvolvimentista (1940/1960)
Caracteriza-se por uma “ofensiva” do governo no sentido de “adensar” a Amazônia. É desse período a rodovia Belém-Brasília, Porto Velho-Cuiabá, e também órgãos de fomento e pesquisa, como BASA e SUDAM (criados com outro nome), CPRM, INPA, Zona Franca, etc. Junto com a visão “Desenvolvimentista” ocorreram as queimadas, a agressão ao meio ambiente, a grilagem, a pistolagem, a substituição da mata pela “pata do boi”, sem que isso contribuísse para melhorar os indicadores sociais da região. A prática de saque das riquezas da região – iniciada com os portugueses –, sem contrapartida efetiva para os amazônidas, prosseguiu nessa fase e até se intensificou.

Surto Ecológico
A agressão sistemática e violenta aos recursos naturais da região deteriorou sobremaneira o meio ambiente, sem que isso representasse, pelo menos, alguma melhora no padrão de vida da população. Por isso mesmo parte das décadas de 70 e 80 se caracterizou pelo surgimento de um intenso movimento ambientalista como uma reação natural a essa prática criminosa e irracional. É desse período, por exemplo, o “Movimento da Defesa da Amazônia” (MDA), que não se limitava à defesa meramente ecológica, colocando a questão da soberania da Amazônia como bandeira central de suas preocupações. Nem todo movimento ambientalista, naturalmente, tinha essa visão estratégica do MDA. Muitas organizações esboçavam a idéia de a Amazônia ser intocável (a “teoria do santuário”) e restringiam suas plataformas à defesa de uma espécie animal e/ou vegetal em particular, permitindo que grosserias como “eles querem salvar as borboletas e matar o caboclo de fome”, cunhadas por “amazonólogos” do porte de Gilberto Mestrinho, fizessem certo sucesso.
Outras passaram a questionar até mesmo a “capacidade” de a Amazônia suportar “pisoteio” humano, defendendo não só a idéia do “santuário” como também a “teoria” segundo a qual a Amazônia, pela sua complexidade e importância no equilíbrio ambiental, deveria ser vista como patrimônio da humanidade e não do povo brasileiro. É a tese da soberania limitada, que tanto anima os imperialistas do mundo inteiro e os norte-americanos em particular. Como se pode ver há muito contrabando travestido de defesa ambiental.

Teoria do desenvolvimento sustentável
A contradição radical entre os defensores do “desenvolvimentismo” e os adeptos da Amazônia como “santuário” levou as correntes mais progressistas a desenvolverem um conjunto de idéias que busca conciliar a necessidade objetiva que os povos dessa região têm por alimentos, desenvolvimento tecnológico e exploração de seus recursos naturais, sem que isso represente a degradação e a destruição do ecossistema. É o reconhecimento óbvio de que a defesa da Amazônia só será efetiva se a população dessa região for finalmente beneficiada pela extraordinária riqueza da região, especialmente os milhares de ribeirinhos, indígenas, castanheiros, seringueiros, etc., que até hoje continuam marginalizados em razão dos vários surtos de “desenvolvimento” que a Amazônia experimentou. É uma polêmica em aberto, especialmente no que diz respeito a determinadas atividades, como exploração de madeira – mesmo com manejo e com “certificado verde” dos organismos internacionais.

Os grandes projetos – traço dominante na ocupação da Amazônia
Como nos referimos anteriormente, a falta de um planejamento estratégico por parte do governo central, no que diz respeito ao desenvolvimento da Amazônia e à sua conseqüente preservação, tem feito com que a região seja submetida, sistematicamente, a “grandes projetos”, cuja eficiência além de duvidosa tem, como regra geral, caráter transitório, a exemplo da Zona Franca de Manaus com data predeterminada para acabar. Tais “grandes projetos” têm sido um traço predominante no processo de ocupação da Amazônia. Dentre eles se encontram, evidentemente, alguns dos principais projetos econômicos da região, inclusive aqueles que se notabilizaram pelo fracasso.
Numa ordem mais ou menos cronológica poderíamos destacar os seguintes: construção da estrada de ferro Madeira-Mamoré (RO), em 1903/13; plantio de seringueiras, 1928/46, na região de Fordlândia/Belterra (PA); exploração da Serra do Navio (AP), a partir de 1954; construção, em 1958/60, da rodovia Belém-Brasília; implantação em 1967 da Zona Franca de Manaus; construção, em 1971, da rodovia Transamazônica, com valor superior a 12 bilhões de dólares; em 1971, o projeto Javi, no Pará; o projeto Trombetas, em 1973, com investimentos da ordem de 390 milhões de dólares; construção da hidrelétrica de Tucuruí, em 1977; em 1978, o projeto Albrás – Alunorte , com investimentos na ordem de 2,5 bilhões de dólares; o Grande Carajás (1980), com investimentos da ordem de 3,5 bilhões de dólares; garimpo de ouro de Serra Pelada (1981); o Pólo-noroeste (1981/87); conclusão, em 1981, da rodovia BR-364 que liga Rio Branco (AC) a Cuiabá (MT); início da exploração comercial da bacia petrolífera de Urucu (AM), pela Petrobrás em 1985; o Calha Norte, 1985; início da construção dos 1570 km da Ferrovia Norte-Sul, 1988; início do Projeto SIVAM, 1995; o LBA – Experimento Escala da Biosfera e Atmosfera na Amazônia, coordenado pela NASA, 1998; em 1999, dentro da lógica da “teoria do bloqueio”, o governo tem sinalizado com a implantação dos corredores ecológicos e admitido publicamente que aceita discutir uma velha proposta norte-americana de converter parte da nossa dívida em favor da preservação de florestas.

Por que a Amazônia tem caráter estratégico

A Amazônia hoje é, sem dúvida, a “marca” brasileira mais conhecida no exterior. Para grande parte dos brasileiros, todavia, o secular interesse que a Amazônia desperta no exterior decorre meramente de sua exoticidade. Não é verdade. O grande interesse que essa região desperta no mundo inteiro – menos na quase totalidade dos governantes brasileiros – está diretamente ligado ao caráter estratégico dessa região, sob todos os aspectos.
A motivação básica desse interesse repousa numa área da ordem de 5 milhões de km2 (60% do território nacional) distribuída em 9 estados (Acre, Amapá, Amazonas, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima, Tocantins e a maior parte do Maranhão) e que faz fronteira com 7 países (Bolívia, Colômbia, Guiana, Peru, Suriname, Venezuela e Guiana Francesa). Possui 20% de toda a água doce do planeta, mais de 20 mil km de vias navegáveis, 68 mil MW de potencial hidroenergético (53% do total brasileiro), 350 milhões de hectares de florestas virgens, exuberante potencial pesqueiro (mais de três mil espécies) e agrícola (25 milhões de hectares de várzeas), além de uma extraordinária biodiversidade e da maior reserva mineral do planeta (ferro, bauxita, sal-gema, manganês, calcário, cobre, cassiterita, estanho, chumbo, níquel, ouro, nióbio, petróleo, gás, etc.). A Amazônia é, respectivamente, o segundo e o terceiro maior produtor de gás natural e petróleo do país. Só a reserva de Urucu (Coari, Amazonas) é suficiente para abastecer toda a região (GLP e matriz energética) por mais de 30 anos. Tem água e sol em abundância, ou seja, detém os pressupostos para a criação de energia e vida em qualquer parte do planeta.
Nessa região vivem em torno de 20 milhões de habitantes, dos quais aproximadamente 200 mil são índios, o que representa a maior população nativa do país. De maneira geral a maior parte dessa população está concentrada em áreas urbanas, o que significa dizer que a densidade demográfica na área rural é bastante rarefeita – em alguns casos abaixo de 0,5 hab/km2 –, o que propicia grande facilidade de “movimentação” de “agentes sociais” de qualquer natureza.
Ademais, na Amazônia, ocorreram em diferentes períodos históricos três grandes movimentos armados, de caráter revolucionário (Cabanagem, 1835/40; “Revolução Acreana”, 1903 e Guerrilha do Araguaia, 1968/1974), que fez com que essa região passasse a merecer “tratamento especial” por parte das Forças Armadas, as quais se constituem hoje, sem dúvida, na presença mais ostensiva do governo federal em toda a Amazônia.
Eis porque, em resumo, a Amazônia tem caráter estratégico e por que tantos a cobiçam.

Variadas táticas do imperialismo para ocupar essa região estratégica

Em decorrência de seu extraordinário potencial biológico e mineral, a Amazônia sempre foi vista como reserva estratégica do imperialismo, que, ao longo dos séculos, fez várias investidas contra a região, variando a tática e o discurso, mas mantendo o objetivo central: internacionalizar a Amazônia. Assim, a tática variou entre a frustrada tentativa de transformar a Cabanagem num movimento separatista até a atual ofensiva militarista do Plano Colômbia, passando pela teoria da gestão compartilhada – a tática da soberania limitada, a conversão de dívidas por floresta e a teoria do bloqueio, dentre os de mais relevo.
Já pela época da Cabanagem (1835/1840), os ingleses tentaram “aliciar” Eduardo Angelim (um dos governadores Cabanos) para separar a Amazônia do Brasil, oferecendo-lhe não apenas proteção militar como também financiamentos para o “novo” país. Na mesma linha, os norte-americanos criam, em 1901, o Bolivian Sindicate com o objetivo de “arrendar” o que hoje é o Estado do Acre.
Sob pretexto de desenvolver pesquisas científicas a UNESCO, em 1945, propõe a criação do Instituto da Hiléia Amazônica, controlado por um conselho supra-nacional, onde o Brasil só teria um voto.
A teoria da “conversão de dívidas por floresta” vem desde os acordos de Washington (1927) – com os quais o governo norte-americano condicionava empréstimos à troca de latifúndios para assentamento de grandes projetos, como Fordlandia (PA) – até a versão atual, onde igualmente a redução da dívida está condicionada à permuta por áreas de preservação.
Nesse final/início de século, porém, a “teoria do bloqueio” parece ser a mais sofisticada arma do imperialismo na sua pretensão secular de se apropriar dessa região. Sem que o Congresso Nacional e/ou qualquer Assembléia Legislativa da região tivessem sido oficialmente informados, está em pleno andamento um projeto do Banco Mundial que tem como meta criar um “corredor ecológico” de aproximadamente 1,5 milhão de Km2 no epicentro da Amazônia brasileira. Toda e qualquer atividade econômica nessa área só poderia ser executada mediante autorização do “conselho gestor do corredor” onde o Banco Mundial, “coincidentemente”, tem poder de veto.
Recentemente chegou pelo meu correio eletrônico a página 76 de um livro de geografia norte-americana, cujo autor seria David Norman na qual consta um mapa com toda a Amazônia global destacada como área sob o controle das Nações Unidas. A ONG WWF acaba de apresentar suas idéias para a Conferencia Internacional de água doce (Bonn, Alemanha), destacando que “a biodiversidade de água doce está em condições muito piores do que a de florestas e de ecossistemas costeiros”. Em seguida sugere a gestão integrada de rios que cortem mais de um país, como o rio Amazonas, por exemplo.
A desenvoltura com que ONG’s estrangeiras formulam propostas para “salvar” a Amazônia decorre da convicção das mesmas de a Amazônia ser um patrimônio da humanidade e não do povo brasileiro.
E dentro da crescente concepção militarista dos EUA, o governo norte-americano vai estendendo seus tentáculos sobre a Amazônia através do Plano Colômbia, sob o pretexto de combater o narcotráfico e – acrescentaram recentemente – a guerrilha liderada pelas Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia). Os norte-americanos, efetivamente, querem impedir uma eventual vitória das Farc – que representaria um obstáculo à implantação da política norte-americana na Colômbia – e, ao mesmo tempo, arrumar um pretexto para executar algo que tem sido uma pretensão secular dos Estados Unidos: a ocupação da Amazônia brasileira.

Grandes polêmicas sobre a Amazônia –
aprofundar e uniformizar nossa opinião

Como se pôde ver no capítulo anterior, não há unidade entre as diversas correntes no que diz respeito à Amazônia. De nossa parte necessitamos, igualmente, de um mínimo de “uniformização” acerca das questões mais polêmicas e sobre as quais nossa militância é chamada a opinar e se manifestar com certa regularidade. Eis algumas dessas grandes polêmicas:
A Amazônia é patrimônio da humanidade? Não. Essa “tese” aparentemente inofensiva e de caráter altruísta esconde, na verdade, a visão de que o Brasil não deve ter soberania sobre a região.
Devemos defender a demarcação de terras indígenas? Sim. Não são eventuais grandes áreas indígenas que inviabilizam o desenvolvimento da região. Devemos ressaltar, porém, que o Estado brasileiro terá total autonomia e soberania sobre essas áreas, como, aliás, ocorre hoje.
É possível explorar racionalmente a floresta amazônica? Sim. Hoje, experimentos demonstram ser possível um corte seletivo e rotativo, de tal sorte que uma área cortada só volte a ser explorada 20/25 anos depois.
Qual a contribuição real da Amazônia para o equilíbrio do clima mundial? É grande, especialmente considerando que a Amazônia funciona como sorvedouro de gás carbônico.
O desmatamento pode levar à desertificação da região? Não há dados científicos que possam definir com rigor essa questão. Sabe-se, por exemplo, que 50% das chuvas sobre a região decorrem da própria evapo-transpiração da floresta. O nível de desmatamento da Amazônia não é uniforme. Varia de menos de 2% (Amazonas, Amapá) a mais de 70% (Maranhão).
O que significa a preservação de grandes áreas na Amazônia? Esse mecanismo, conhecido como “teoria do bloqueio”, tem motivações distintas. Do ponto de vista dos ambientalistas coerentes significa evitar o desmatamento irracional. Do ponto de vista do imperialismo significa “reservar áreas” estratégicas para o futuro.

Um projeto alternativo para a Amazônia

Desenvolver um projeto econômico e social alternativo para essa região, baseado em suas próprias potencialidades e sem abdicar dos avanços já conquistados deve ser o centro do enfoque de todos os que pensarem a Amazônia sem a eterna dependência dos “grandes projetos”.
As premissas desse projeto passam, necessariamente, pelo aprofundamento do conhecimento científico sobre a região, especialmente quanto à biodiversidade e à sua planície mineral. E, com base neles, promover a industrialização da matéria prima regional (peixes, biotecnologia, minérios, manejo florestal sustentado, etc.). As informações científicas disponíveis evidenciam que a Amazônia pode ser um grande centro industrial de “química fina”, de biotecnologia, de siderurgia, de petroquímica, etc., uma vez que dispõe de toda matéria prima necessária.
Tirar proveito de sua exoticidade e de sua “marca” para explorar o seu potencial turístico e captar recursos internacionais, a fundo perdido, especialmente pelo seu papel de sorvedor de gás carbônico, pode e deve ser outra forma de pensar a Amazônia estrategicamente.

O desafio da construção de um partido
revolucionário nas condições amazônicas

A construção de um partido revolucionário nas condições amazônicas encerra desafios e condicionantes próprios de uma região complexa. As grandes distâncias, dificuldades de transporte e comunicação, baixo nível de organização social, fragilidade do movimento popular, comunidades (seringueiro, castanheiro, índios) que vivem num estágio “pré-capitalista” e sob uma grande influência de ONG’s estrangeiras “santuaristas” sobre essas comunidades, são alguns desses condicionantes.
Por outro lado, a região, até por conta de seu isolamento, tem um histórico recorrente de movimentos insurgentes. Tal aspecto, associado a uma extensa área fronteiriça – precisamente onde se concentram as menores taxas de densidade demográfica do país –, confere caráter estratégico a essa região também do ponto de vista geopolítico. Daí porque a presença de ONG’s estrangeiras das mais distintas colorações e objetivos, tem sido uma constante na Amazônia. Assumem, em muitos casos, o papel do Estado e, por decorrência, exercem forte influencia sobre as populações “assistidas”, procurando ganhá-las politicamente para a concepção de a Amazônia ser um patrimônio da humanidade.
Assim, está colocado na ordem do dia, para todos nós, o desafio de construir um partido revolucionário que seja capaz não apenas de disputar com os “santuaristas” a influência sobre os povos da região, mas de igualmente se credenciar como interlocutor preferencial do movimento popular e assumir o desafio, a tarefa, de formular um projeto econômico e social alternativo para a Amazônia, baseado em suas próprias potencialidades – sem abdicar dos avanços já conquistados – enfatizando a premissa de uma “Amazônia brasileira para os brasileiros”.

Sobe

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