É possível transformar o Brasil em um
país verdadeiramente independente, em uma sociedade
democrática, avançada e socialmente progressista para
abrir caminho ao futuro socialista? Pensamos que sim.
Mas a resposta implica em desafios. Alguns já velhos
conhecidos das jornadas democráticas e patrióticas de
nossa história; outros, novos, surgidos de mudanças
recentes e profundas no cenário mundial.
As transformações ocorridas no mundo – das quais a
queda do muro de Berlim e a desarticulação da
ex-União Soviética ficaram como símbolos –
ampliaram a intensidade e a velocidade da chamada
globalização neoliberal, outro nome para a atual fase,
agressiva e voraz, do desenvolvimento do capitalismo em
sua etapa imperialista.
O fim do Estado-nação e de tudo o que ele possa
representar – soberania nacional, mercado nacional,
cultura nacional, identidade nacional, projeto nacional
– apresenta-se como a idéia chave da ideologia
neoliberal globalizante. Essa ideologia vem acompanhada
de um programa completo voltado para a abertura dos
mercados nacionais, a privatização dos ativos
estatais, a desregulamentação dos sistemas financeiros
nacionais, a desarticulação das forças armadas, a
fragilização da identidade nacional, o fim da
soberania jurídica dos estados nacionais.
Os Estados Unidos lideram a ofensiva imperialista e dela
colhem os benefícios. Controlam a maior economia e o
maior fluxo de comércio e capitais; detêm o monopólio
da força militar em escala mundial; concentram as mais
avançadas pesquisas científicas e ganhos
tecnológicos. Com o domínio sobre os satélites
estabelecem um controle virtual sobre as comunicações
do planeta. A indústria cultural norte-americana e suas
poderosas empresas de entretenimento exercem uma
padronização empobrecedora e unilateral sobre a
diversidade cultural dos povos e nações.
A representação ideal desse mundo é uma espécie de
governo único conduzido por organismos como o Banco
Mundial, FMI, OMC (Organização Mundial do Comércio),
coordenados pelos Estados Unidos. Este governo teria
sustentação de uma força armada internacional cujo
núcleo seria norte-americano. O mercado, naturalmente,
proveria o sistema de crenças, valores e opiniões.
Os fatídicos acontecimentos que atingiram as torres
gêmeas de Nova Iorque e o Pentágono, em setembro de
2001, desencadearam a fúria e a agressão dos Estados
Unidos com vistas à manutenção de seu domínio sobre
o mundo. A vingança contra os supostos autores dos
atentados semeia rastros de ódio por onde passa.
Ampliou-se a militarização dos mares e continentes. A
insegurança, a intimidação e o terror infestam o
ambiente internacional.
A agressão contra o Afeganistão e a escalada
repressiva de Israel contra os palestinos anunciam
tempos sombrios para os povos. O bombardeio inclemente
do Afeganistão é o paradigma do atual conflito
mundial: um dos países mais pobres do mundo,
tecnicamente desarmado, face a face com a maior
potência econômica e militar do universo. E a isso os
propagandistas do império têm a desfaçatez de chamar
de guerra.
Se a guerra for a continuação da política por outros
meios, a guerra proclamada pelos Estados Unidos tem por
finalidade impedir o declínio de sua influência e
bloquear o aparecimento de forças regionais,
econômicas e militares, capazes de rivalizar com a
presença norte-americana. Os EUA temem e querem evitar
a multipolaridade. Desconfiam da Europa e do Japão,
mantêm Rússia, Índia e Brasil sob permanente
vigilância e preparam-se para uma longa disputa com a
China.
A América Latina é arrastada para a dança sinistra
sem a chance de escolher o par e a música. O Consenso
de Washington formulou o programa de todos, entre todos
os países da região, a exceção de Cuba e, agora, da
Venezuela. A dolarização das moedas, as
privatizações selvagens, a desindustrialização, o
empobrecimento, a violência e o tráfico de drogas
descrevem a tragédia das experiências neoliberais
entre nós.
A substituição da moeda equatoriana, o Sucre, pelo
Dólar norte-americano, ilumina com seu exemplo a
desventura. Antônio José de Sucre, artífice da
independência da Bolívia e libertador do Equador,
morreu emboscado em 1830, no desfiladeiro de Berruecos,
a caminho de Quito. Em sua homenagem, a capital
constitucional da Bolívia, em 1840, e a moeda nacional
do Equador, em 1884, foram batizadas de Sucre. No dia 10
de setembro de 2000, o Sucre, a moeda equatoriana
durante 116 anos foi substituída pelo Dólar e
enterrada simbolicamente em um cemitério de Quito, no
túmulo do prócer José Maria Velasco Ibarra. A
primeira morte de Sucre foi obra de José Maria Obando,
opositor de Simon Bolívar e partidário dos
colonizadores espanhóis. A segunda foi obra do
ex-presidente Jamil Mahuad Witt e seus seguidores,
partidários do FMI e dos neocolonialistas de
Washington.
O projeto de integração denominado Área de Livre
Comércio das Américas – Alca, propõe reunir sob as
regras do império os países do hemisfério à
exceção de Cuba, o que constituiria uma verdadeira
anexação dos mercados e das economias do continente ao
poderoso mercado dos Estados Unidos. A resistência
contra a Alca é o divisor de águas do destino do
Brasil e da América latina.
O Brasil está situado na América do Sul, considerada
pelos Estados Unidos região de sua ascendência
geoeconômica e geoestratégica. Os estrategistas do
Norte usam sua esfera de influência sul-americana para
se credenciar nas demais áreas do globo. É como se
aqui fosse seu quintal, na antiga expressão de um
dignitário dos Estados Unidos ao caracterizar as
relações de seu país com o sul do hemisfério.
A América do Sul era a única área do mundo livre da
presença militar estrangeira. Não é mais. Os Estados
Unidos construíram uma base militar no Equador e
circulam rumores de que pretendem erguer outra na
Argentina. Já se fazem presentes na Guiana e no Peru. O
Plano Colômbia é a declaração aberta da
militarização da Amazônia, configurando graves
constrangimentos para a segurança do Brasil.
Atualmente, especialistas norte-americanos espalham a
notícia da suposta presença de bases de apoio ao
terror nas três fronteiras (Brasil, Paraguai,
Argentina), com o objetivo insidioso de gerar
desconfiança entre os vizinhos e quem sabe envolvê-los
na vergonhosa campanha contra os povos árabes e
palestino.
O Brasil é o maior país da América do Sul em
território, população e economia. Temos 15.719 km de
fronteiras com dez países e 7.367 km de litoral. Não
registramos reivindicação ou disputa territorial com
qualquer país. As imensas bacias do Pantanal e da
Amazônia oferecem infindáveis recursos para
navegação e biodiversidade. A grande reserva de solo e
subsolo completa um quadro de disponibilidades materiais
alvissareiras para o país. A unidade lingüística, a
ausência de conflitos antagônicos de natureza étnica,
racial e religiosa, formam a base espiritual para
mudanças profundas e duradouras nas estruturas
econômica e social. Eis por que os Estados Unidos
receiam um desenlace favorável ao Brasil e aos
brasileiros na encruzilhada que atravessamos.
A aspiração da nação e do povo ao desenvolvimento
independente, politicamente avançado e socialmente
equilibrado tem sido historicamente sabotada e
negligenciada pelas elites, agentes contemporâneos do
bloqueio neocolonial a que o país vem sendo submetido
na última década. A centralidade da questão nacional
no processo social brasileiro nasce da exigência de se
deter a regressão material e espiritual da nação.
Não se trata mais, nem apenas, de focalizar a questão
nacional como uma das chaves da tática e da estratégia
num país de desenvolvimento capitalista dependente e
desigual, subordinado à cadeia imperialista mundial. A
defesa da nação passa para o primeiro plano na
condição de reivindicação democrática central no
processo em curso no país.
A elevação da consciência nacional do povo brasileiro
é passagem obrigatória para a formação de uma
consciência democrática e socialista. A defesa da
causa nacional nos marcos da ofensiva neocolonial
empurra os patriotas para as trincheiras da democracia
avançada e do socialismo.
Se a queda do muro de Berlim e a débâcle da União
Soviética produziram em círculos concêntricos o
afastamento de setores da esquerda para o
centro-esquerda, da centro-esquerda para o centro e
assim por diante, o enfrentamento da ofensiva
neocolonial e a defesa da nação produzem o efeito
inverso, atraindo para as forças avançadas amplos
setores patrióticos e democráticos engajados na tarefa
comum.
A luta em defesa da nação desmascara a demagogia
imperialista e neoliberal de defesa da democracia e dos
direitos humanos. Isola os protagonistas internos,
janízaros do capital financeiro. Ao assumirem a defesa
da nação com amplitude e destemor os comunistas
compõem uma ampla força social que desperta os
trabalhadores, a juventude, a intelectualidade,
religiosos, militares e empresários da cidade e do
campo. Devemos defender com vigor os direitos materiais
e espirituais de nosso povo: o emprego, o salário, a
saúde, a educação, a moradia; mas também e com
semelhante entusiasmo, a cultura, o esporte nacional, as
manifestações religiosas, o folclore, as tradições
nacionais, a língua nacional, a nossa história, rica
em exemplos de perseverança e bravura.
Deve-se, porém, ter em conta o longo e árduo caminho a
percorrer. Consideráveis segmentos dos trabalhadores,
das camadas médias e da intelectualidade mantêm-se
ainda distantes de perceber a importância da questão
nacional. Notadamente em São Paulo, o principal estado
do país, a tradição exportadora e a presença maciça
do capital estrangeiro conformou em parcelas do
movimento sindical e da atividade acadêmica certa
indiferença aos graves riscos a que está submetida a
nação brasileira.
Nas forças armadas, onde historicamente cultivou-se
sentimento patriótico, mesmo que em alguns períodos
separado de conteúdo democrático e progressista, a
pressão imperial preconiza transformar esta importante
reserva do país em estamento burocratizado, esvaziado
de verdadeiro espírito nacional, apêndice policial dos
Estados Unidos para o continente.
Por longos períodos, e até os dias atuais,
significativos círculos democráticos e de esquerda,
amalgamados com o pensamento liberal e um marxismo
europeizado, cavaram um abismo entre as aspirações dos
trabalhadores e os interesses nacionais. Houve,
inclusive, quem em plena ditadura argumentasse que a
questão nacional dividia a frente democrática e
enfraquecia o esforço pela redemocratização.
O antiimperialismo é, hoje, a forma do
internacionalismo. A defesa da nação é a forma
nacional do antiimperialismo. O imperialismo é a maior
ameaça ao futuro da humanidade e, portanto, ao
socialismo. O neocolonialismo e seus sócios locais
constituem a maior ameaça ao futuro da nação
brasileira, que vislumbramos independente e socialista.
A nação e o povo brasileiro reunirão as forças
materiais e espirituais para enfrentar e derrotar as
adversidades. Buscarão a inspiração e a confiança no
exemplo de nossos ancestrais. Somos orgulhosos de nossa
civilização predominantemente mestiça, tolerante e
generosa, mesmo quando o infortúnio invade nossos lares
e nossos corações. Mas, quando necessário, fizemos
escrever em letras de fogo nos montes dos Guararapes, no
Quilombo dos Palmares, nos combates de Pirajá e de
Jenipapo, nos campos dos Farroupilhas, no sertão de
Canudos, nos Dezoito do Forte de Copacabana, nos campos
da Itália e nas florestas do Araguaia, as páginas mais
sublimes de amor à pátria e à liberdade.
|