Renato Rabelo, presidente nacional do PCdoB, considera a eleição de 4 de novembro, nos EUA, como “a mais importante desde a Segunda Guerra Mundialâ€, por ocorrer na maior crise econômica desde 1929, e pelo significado da provável eleição de Barack Obama(foto). Renato falou ao portal Vermelho (www.vermelho.org.br) uma semana antes da votação; a Classe Operária reproduz, aqui, os principais trechos da entrevista.
A palavra de ordem “Mudança,
acredite nisso!†vai ao encontro
de um sentimento profundo nos EUA
Arealidade que os EUA vivem - O surgimento do Barack Obama na disputa presidencial dos EUA, neste ano, demonstra uma realidade polÃtica e social que os Estados Unidos vivem. Não é por acaso esse ascenso da figura de Obama. Não podemos explicar isso simplesmente pelo carisma. Isso decorre da situação objetiva dos EUA. Mostra que existe ali um anseio muito grande de mudança. Que, aliás, é a palavra de ordem de Obama: “Mudança, acredite nisso!â€. Você veja que isso foi ao encontro de um sentimento profundo. Um sentimento que reclama mudanças na sociedade americana e defende que o status quo deve ser removido.
Relação com a juventude e os operários - A base, o catalizador desse processo foi a juventude. Quem me disse foi o Mangabeira Unger (ministro extraordinário de Assuntos Estratégicos), que aliás conhece bem os EUA. Ele acha que na Europa isso hoje está adormecido, os jovens ficam naquelas conversas nos cafés, diletando, enquanto nos EUA existe um espÃrito crÃtico forte, exigindo transformações. O fato é que a campanha eleitoral vai mostrando uma divisão profunda na sociedade dos EUA: é um segurando a bandeira do status quo e o outro com o anseio da mudança, mudança que não se sabe bem ainda qual é. Obama simboliza uma série de anseios progressistas, avançados. Vi lÃderes operários americanos, negros e também brancos, dizendo que ele significa um avanço para o movimento dos trabalhadores. Ele congrega tudo isso.
Obama é do sistema - O desenvolvimento da campanha acontece num paÃs que é o centro do sistema capitalista mundial, com uma oligarquia fortÃssima. Como ela aceitaria um candidato expressando um sentimento de mudança tão grande? Eles tinham que se contrapor. O candidato me parece que levou em conta essa realidade, de um sistema, do qual ele faz parte. Ele procurou adaptar o discurso, equilibrar o discurso com a existência desse sistema e dessa correlação de forças. Barack Obama ainda é parte de um sistema. Não tenhamos a ilusão de que ele não represente o sistema.
PolÃtica externa - Vamos pegar um ponto nodal como é o de Cuba. Ele é um pouco mais flexÃvel, mas não há uma grande diferença, mesmo em relação ao bloqueio. O outro (John McCain) não, é impositivo, arrogante. Mas no conteúÂdo não há uma grande diferença. O mesmo se pode dizer em relação ao Oriente Médio. E à América Latina. Não há diferenças de fundo. Obama também tem que mostrar que não transige com o terrorismo.
A crise econômica - Agora, ultimamente, surge um fato novo, que acho que vai se juntar a essa tendência mudancista, a essa sensação de que há algo de podre na sociedade norte-americana: é o espocar da crise. A fase aguda da crise só vai surgir agora, mostrando as suas dimensões, os seus contornos: uma crise profunda, com problemas maiores que os de 1929; uma crise financeira, como eles gostam de dizer, mas também do sistema, como eles próprios reconhecem porque não têm como encobrir. É por isso que o presidente francês, Nicolas Sarkozy, propõe agora uma ‘refundação’ do capitalismo.
Isso deu mais força ainda à campanha do Obama, que já catalizava o anseio por mudança. Por isso ele tem hoje mais condições de vencer.
A própria proposta dele para enfrentar a crise tem mais credibilidade que a do outro. Sei que ela está mais voltada aos problemas concretos dos trabalhadores, dos pobres. O programa proposto por Obama tem mais sensibilidade para os problemas da maioria do povo. Ele se opõe a resolver o problema dos bancos sem resolver o dos cidadãos inadimplentes, e isso é algo que parece ter encontrado audiência.
A força do conservadorismo - Agora, você vê também o papel e a força do conservadorismo nos EUA. Há uma contenção muito grande, Obama não está na crista da onda. Vai haver um Ãndice muito grande de comparecimento e uma baixa abstenção, inclusive porque o outro lado quer conter Obama e vai votar. Por isso o resultado da eleição é imprevisÃvel. Para mim, é a eleição mais importante nos EUA desde a 2ª Guerra Mundial. E é a primeira com uma polarização tão forte da sociedade.
The New York Times: Barack Obama para presidente
Com este tÃtulo o diário The New York Times, principal jornal dos EUA, publicou um editorial, no dia 24 de outubro, declarando apoio a Obama. Os trechos abaixo foram retirados dele.
“O exagero é a moeda de campanhas presidenciais, mas neste ano o futuro do paÃs é realmente incerto. Os EUA estão exauridos e à deriva após oito anos de uma liderança capenga do presidente George W. Bush. Ele vai transmitir a seu sucessor duas guerras, uma imagem global manchada e um governo desprovido de sua capacidade de proteger e ajudar seus cidadãos – estejam eles fugindo de enchentes, procurando assistência à saúde ou batalhando para manter suas casas, empregos e pensões em meio a uma crise financeira anunciada e evitávelâ€. (...)
“Obama é claro em que a estrutura fiscal precisa ser modificada para se tornar mais justa. Isso significa que os ricos – beneficiados desproporcionalmente pelos cortes de impostos de Bush – terão de pagar mais. Os americanos trabalhadores, que viram seu padrão de vida cair, se beneficiarãoâ€.