brasil
“O que parecia ser um edifÃcio sólido quebrou. Eu erreiâ€.
Alan Greenspan, ex-presidente do FED (BC dos EUA), de 1987 a 2006, defensor da liberdade de mercado.
Reflexos
A crise chegou. Qual seu tamanho?
Os sinais da turbulência se multiplicam. E o governo quer fortalecer o mercado interno e os investimentos para enfrentá-la
MANTEGA enviou ao Congresso proposta de Medida Provisória contra a crise
A chegada da crise financeira no Brasil causa forte debate entre governo e oposição. O governo quer evitar que ela seja profunda ou demorada. A oposição neoliberal parece apostar no “quanto pior melhor†para melhorar seu cacife para sucessão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A chegada da crise era esperada, mas não se sabe quais serão suas conseqüências.
Lula defende o fortalecimento do mercado interno e obras de infra-estrutura
Ainda não há quebra de empresas ou bancos. A taxa de desemprego em setembro foi de 7,65%, uma das menores dos últimos anos. Mas muitas empresas adotaram medidas preventivas, como mostra um estudo da Confederação Nacional da Indústria, com 27 setores da economia, divulgado em outubro. Algumas conclusões são preocupantes. Por exemplo, 13 setores têm estoques acima do planejado, um sinal de dificuldades nas vendas e, assim, de crise. Mas outros 11 setores estão em situação melhor, com estoques pequenos.
Aumentou o número de empresas com falta de dinheiro e problemas com juros altos. Isto significa que o crédito bancário não está chegando até elas, podendo afetar a produção e levar à demissão de trabalhadores. Mas, até agora, dos 27 setores, só dois (madeiras e couros) tiveram queda na produção.
Outro sinal da crise são as férias antecipadas. Com vendas em queda, as empresas produzem menos e dão férias para os funcionários. Em outubro, um setor atingido por esta situação foi o metalúrgico. A General Motors deu férias em três unidades, em São Paulo. Em Manaus (AM), várias fábricas fizeram o mesmo, como a Honda. Aliás, em Manaus o número de demissões vem crescendo. Em 2007 ocorreram 13 mil demissões (média de 1.083 por mês). Este ano, até setembro, já são 12 mil (média de 1.330 por mês). Finalmente, na Volkswagen de São José do Pinhal (PR) também houve férias antecipadas.
Na área financeira, os sinais da crise são mais nÃtidos. A Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) registra perdas há cinco meses seguidos; desde maio, já perdeu 49,3%. E, no inÃcio de novembro, os bancos Itaú e Unibanco anunciaram sua fusão, sinalizando a união de forças para enfrentar a crise.
O fato é que a crise chegou, e o governo anunciou medidas contra ela: o ministro da Fazenda Guido Mantega enviou ao Congresso uma MP que autoriza os bancos oficiais a comprarem bancos e empresas em dificuldades. Depois, liberou até 50 bilhões de dólares para evitar a desvalorização do real. O BNDES anunciou medidas para apoiar as exportações. E o Banco Central deixou mais dinheiro com os bancos, para evitar problemas de crédito, e decidiu parar de subir as taxas de juros.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva manifesta a disposição de enfrentar a crise aumentando a produção, e não diminuindo – como recomenda o receituário neoliberal. Lula defende o fortalecimento do mercado interno, obras de infra-estrutura e o aumento do comércio com paÃses como China, Ãndia, Ãfrica do Sul, México, Oriente Médio, além dos parceiros do Mercosul. No começo de novembro Lula garantiu que é “uma questão de honra†para seu governo manter todas as obras do PAC.
Os otimistas
Há uma ala de economistas e autoridades otimistas com a capacidade de o Brasil enfrentar a crise. Uma é a ministra da Casa Civil Dilma Rousseff. Ela lembrou que pela primeira vez, o Brasil não quebra em uma crise: “o governo não está quebrado, nós temos reservas, não recorremos ao FMI, não temos que aceitar nenhum receituário recessivo para enfrentar a criseâ€.
Marcio Pochmann, presidente do Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada (IPEA) por sua vez, acredita que o Brasil pode crescer entre 2,8% e 3% em 2009, e até chegar a 4%, “se não houver recessão mundialâ€. Luciano Coutinho, presidente do BNDES, tem a mesma opinião: “vamos crescer 5,5% este ano, e entre 3,5% e 4% em 2009â€. Já a respeitadÃssima economista Maria Conceição Tavares (foto) é prudente. Para ela, o Brasil pode estar blindado contra a recessão até 2009; pode diminuir uns dois pontos (ficando, assim, por volta de 3%). Mas, adiante de 2009, disse, “não se enxerga mais nadaâ€, disse.
Torcendo pelo pior
Outra ala de polÃticos e economistas, porém, parece torcer pelo pior. Um deles é o ex-governador paulista Cláudo Lembo (DEM) que vê na crise uma chance para a volta da direita ao governo. “A crise vai conduzir o Serra a ser candidato à presidência†e “pautar a sucessão de Lula. Esta crise terá longa duraçãoâ€, disse ele, sem disfarçar a torcida de que a convulsão financeira pode pavimentar um caminho para a volta da dupla PSDB/DEM ao Palácio do Planalto.
FHC (foto), num artigo publicado no inÃcio de novembro, foi na mesma linha. “Dizer que essa crise não afetará nossa economia é brincar com fogoâ€, garantiu. “Haverá, sim, retração, pela diminuição do crédito e pelo enconlhimento do mercado internacional e, em menor proporção, do mercado internoâ€, enfatizou, torcendo pela queda no crescimento da economia que, disse, “será significativamente menor em 2009 e, provavelmente, em 2010â€.