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Povo nas ruas é imprescindível para
impulsionar o novo projeto
1 - A vitória de Luis Inácio Lula da Silva para a Presidência
da República abre um novo ciclo histórico e político no Brasil –
não se tratando de uma simples alternância de governo. Esse
desfecho parte de causas objetivas e subjetivas. Na última
década agravou-se sobremodo o impasse histórico brasileiro, em
razão da aplicação do projeto de molde ultraliberalizante e
desnacionalizante, intensificando o movimento de ampliação do
endividamento externo. O efeito cumulativo de ciclos de
dependência cada vez mais profundos e de extrema concentração de
renda gerou a crise atual manifestada pela contradição entre
duas tendências: uma definida pelo anseio de soberania nacional
e progresso social, respaldada em crescente aspiração
democrática e popular, e, outra, definida pelo projeto
neoliberal, consumado pelo pacto de setores da classe dominante
tradicional que se submeteram às imposições do sistema de poder
do império hegemônico e dos círculos financeiros centrais. A
campanha eleitoral do ano passado exprimiu-se pela luta entre
essas duas tendências, consagrando uma ampla vitória da oposição
desde o primeiro turno. Tal êxito foi concretizado por uma
frente política liderada por Lula – forma de manifestação da
primeira tendência –, com mais de 60% dos votos válidos no
último turno das eleições. Confirmaram-se, assim, as análises
feitas pelo 10º Congresso do Partido em dezembro de 2001. Agora,
o Brasil passa a viver uma nova fase política, surgindo pela
primeira vez em sua história a possibilidade da consecução de um
projeto democrático, nacional-desenvolvimentista de cunho
progressista, dirigido por novas forças políticas e sociais,
democráticas e populares.
2 - A dimensão da vitória vai além dos marcos do plano nacional
porque impôs um revés político sobre a atual agenda programada
pelo imperialismo hegemônico e a oligarquia financeira para a
América do Sul, ensejando, assim, a abertura de uma via
alternativa à fórmula única dominante da neoliberalização
capitalista em um grande país.
A realidade mundial contemporânea – sua complexidade e a
busca de alternativas
3 - O cenário mundial marcado pela intensificação da
internacionalização econômica, sob a égide da liberalização
financeira, aguçou como nunca a lógica de aumento da
centralização da riqueza e do agigantamento do capital fictício,
especulativo, rebaixando acentuadamente o investimento na esfera
produtiva. Esse padrão moderno de reprodução do capital, surgido
em meados da década de 70, vem demonstrando que o modo de
produção capitalista vigente há mais de três séculos atravessa
em sua evolução uma etapa descendente, caracterizada por uma
crise que vai se tornando crônica, de tensão permanente,
atingindo o sistema de forma integral. A presente tendência
recessiva nos países capitalistas centrais provoca desemprego
crônico e massivo e elevado endividamento de governos, de
empresas, da população. Isso, em grande medida, decorre do
estouro da “bolha” inflada pela hipertrofia dos mercados
financeiros. Nos últimos três anos, os investidores perderam
13,9 trilhões de dólares nas principais bolsas do mundo, somente
comparável ao período da grande crise de 1929, 1930. Grandes
bancos, e conglomerados empresariais, chegaram à falência ou
amargaram prejuízos enormes.
4 - A crise é produto da dimensão do impasse do sistema
capitalista atual, manifestação exacerbada das contradições do
mundo contemporâneo. A natureza do regime
capitalista-imperialista não mudou sua essência. Para esse
sistema, a saída da crise estrutural, historicamente e em última
instância, tem sido a exacerbação da sua política de força, a
provocação de focos de tensão, até a deflagração da guerra.
Desde o 11 de setembro de 2001, o imperialismo norte-americano
encontrou pretexto, na luta contra o terrorismo, para impor seu
intento guerreiro, diante da grave crise, ameaçando a soberania,
a democracia, a paz e o próprio destino da humanidade. Ele já
definiu seu plano de guerra global e “infinita”, que se iniciou
no Afeganistão – e agora é a vez do Iraque, ao mesmo tempo em
que fabrica grande provocação na península coreana e segue em
seu alvo de ataque localizado naquilo que denominam eixo “do
mal”. Os Estados Unidos assumiram uma crescente ação unilateral
avocando para si a condição de poder hegemônico no mundo e
tentam chantagear a ONU impondo os seus desígnios. A despesa
orçamentária desse país para este ano destina US$ 399,1 bilhões
(17,9% dos gastos totais) ao crescimento do arsenal bélico; a
maior comparada à de qualquer outro período da sua história.
5 - É preciso considerar que o grau de irracionalidade a que
chegou a política externa do imperialismo norte-americano
implica em grande ameaça ao próprio processo de civilização
alcançado pela humanidade. A decisão de guerra da superpotência
norte-americana vem desencadeando no mundo amplos e massivos
movimentos pela paz, contra a guerra imperialista; e a sua
intensificação guerreira exacerba antigas contradições, acentua
a divisão no campo imperialista e provoca novos antagonismos. A
luta pela paz contra a guerra na atualidade tem um sentido
antiimperialista e revolucionário, adquire uma dimensão nova por
sua extensão mundial, contribui para o desmascaramento dos
verdadeiros intentos do império norte-americano, abrindo
passagem para um acúmulo mais favorável à mudança do atual
quadro de forças no mundo. As grandes manifestações no mundo
contra a guerra ao Iraque, no dia 15 de fevereiro último, foram
consideradas sem precedentes na história da luta pacifista.
6 - Nos marcos da globalização, as políticas
ultraliberalizantes provocaram grandes estragos sociais e
retrocessos econômicos nos países ditos periféricos,
condicionando uma situação de profunda crise estrutural; cavando
mais fundo a desigualdade econômica que separa esses países e os
de capitalismo avançado. Onde essas políticas foram aplicadas os
países pagaram custos altíssimos, ficando à mercê da livre
movimentação do capital financeiro; e multiplicaram-se os seus
endividamentos, tornando-se mais vulneráveis e empobrecidos e
produzindo uma coleção de fracassos, segundo o próprio
economista norte-americano Joseph Stiglitz, ex-vice-presidente
do Banco Mundial. As crises vêm se sucedendo: primeiro, em 1994
no México; depois, no Sudeste asiático em 1997; na Rússia em
1998; no Brasil em 1999; na catástrofe que atingiu a Argentina,
alcançando as economias centrais, com o estouro da “bolha” nos
Estados Unidos; e com a semiestagnação mais recente na Europa e
no Japão (onde já dura doze anos), vincando uma tendência
recessiva que atingiu a economia mundial.
7 - Ao mesmo tempo, um crescente e amplo movimento contra as
políticas neoliberais se estendeu no âmbito internacional e em
cada país. O III Fórum Social Mundial realizado em Porto Alegre
deu uma amostra da dimensão e extensão alcançada por essa
resistência antineoliberal e antiimperialista em todo o mundo.
Na América Latina desencadeou-se extenso clamor por mudanças
entre os povos dessa região, manifestado na América do Sul
através de importantes conquistas políticas das forças
democráticas, populares e progressistas – com os governos de
Chávez, na Venezuela; Lula, no Brasil; Gutierrez, no Equador; o
rápido crescimento eleitoral dessas forças avançadas na Bolívia
e no Uruguai; e a elevação da consciência antineoliberal e do
movimento de massas na Argentina. Torna-se importante destacar
nesse contexto atual a luta de Estados nacionais soberanos
contra as ingerências imperialistas; o êxito de países asiáticos
no retorno à rota do desenvolvimento, que seguiram caminho
próprio, renegando o receituário do FMI; e o sucesso que vêm
conquistando no desenvolvimento econômico e social os países que
mantiveram a perspectiva socialista, principalmente o crescente
papel político e econômico desempenhado pela China no mundo.
Todos esses fatos e fenômenos positivos indicam que a
resistência ao neoliberalismo está entrando em um novo momento
de seu desenvolvimento.
8 - Entretanto, no exame do quadro geral perdura um balanço de
forças adverso à mudança do sistema de poder
capitalista-imperialista dominante. A crise do socialismo do
final do século passado e a derrocada da URSS e dos países do
Leste da Europa provocaram uma derrota estratégica de grande
monta para o movimento revolucionário e de libertação dos povos
em todo o mundo, que ainda não reúnem condições para uma
ofensiva em busca do êxito atual de novo empreendimento
socialista. Hoje, a realidade de grave crise, exacerbada com os
preparativos de guerra, cria uma situação propícia ao
crescimento da luta dos povos e ao acúmulo de forças de sentido
antiimperialista, mas, de modo geral, não inverte a tendência
dominante da ordem imperialista atual e de uma situação
contra-revolucionária. Mantém a predominância política e
ideológica do regime neoliberal, apesar de seus fracassos,
obstaculizando uma saída fora dos marcos da sua vigência.
9 - Por outro lado, é importante acentuar que o plano guerreiro
de domínio mundial da superpotência norte-americana incitará em
maior grau a luta dos interesses geopolíticos contraditórios.
Embora imediatamente possa provocar um cenário de sofrimentos
para toda humanidade, essa investida hegemonista pode apressar o
fracasso da ordem imperialista unipolar atual, abrindo novo
passo para as forças progressistas e revolucionárias. Ao mesmo
tempo, no cenário do nosso continente sul-americano, o
crescimento da resistência, produto da crise estrutural,
permitiu em três países a vitória de governos contrários ao
legado neoliberal, abrindo uma nova fase de luta – continuidade
ou mudança, ou seja, o desafio governamental de construir a
alternativa à vigência neoliberal. A luta pela mudança se
estende por todo o continente – apesar do elevado grau de
fragmentação e dificuldades de coesão frentista das forças
antiimperialistas em muitos países –, empunhando as bandeiras da
democracia, soberania e desenvolvimento, trabalho e direitos
sociais, integração da América do Sul, contrária à proposta da
Alca apresentada pelos Estados Unidos e, agora, unindo-se à luta
mundial pela paz, contra a guerra imperialista. O movimento
político mudancista tem desembocado em eleições realizadas
dentro dos limites institucionais vigentes e suas
forças-dirigentes principais têm caráter democrático radical,
nacionalista, influenciadas em maior ou menor grau por uma
perspectiva social-democrata.
10 - Essa realidade de paradoxos e
contradições no mundo e na América do Sul revela o estágio da
batalha política em desenvolvimento, seu alvo e forças motrizes,
seus limites e os novos desafios para seu avanço – tendo em
vista a construção de uma nova ordem mundial democrática e
solidária e de Estados nacionais que superem os regimes atuais
de dependência externa, extrema desigualdade e crescente perda
de direitos sociais –, abrindo caminho para projetos
alternativos ao neoliberalismo. As correntes políticas mais
conseqüentes estão diante de um quadro geral de defensiva à
consecução do objetivo
estratégico transformador, revolucionário, traduzindo-se no
âmbito nacional em pesadas restrições políticas e
ideológicas e econômicas internas e externas ao
desenvolvimento econômico e ao progresso social;
determinando, diante disso, diferenciado e prolongado
processo de acumulação de forças. Hoje, esse processo
cumulativo consiste na definição das tarefas políticas de
formação de uma frente mundial pela paz, contra a guerra
imperialista; na unidade dos povos e países por sua
integração política e econômica contra as injunções
hegemonistas do imperialismo; e no desenvolvimento da luta
em cada país pelo êxito de um projeto emancipador e
democrático.
As novas condições da luta do povo brasileiro
11 - A vitória de Lula emerge desse contexto geral de crise
profunda e resistência, que toma sua feição própria na situação
específica do impasse brasileiro e das suas contradições.
Inaugura uma nova fase de luta do nosso povo, pelo fato de se
ter constituído no êxito das forças políticas e sociais, líderes
da frente vitoriosa, identificadas com os interesses
democráticos, progressistas e populares. Novas forças
encontram-se agora diante de um desafio mais complexo e difícil:
governar um grande país dando o passo histórico da sua
emancipação contemporânea. Ou seja, superar hoje os marcos
impostos pelo domínio imperial e pelas exigências predominantes
dos círculos financeiros centrais, construindo um projeto
democrático, nacional-desenvolvimentista de base popular.
12 - O novo governo, produto de ampla frente política consumada
no 2º turno do último pleito eleitoral, foi levado, diante do
quadro de forças estabelecido pós-eleição, a estender a
diversidade de sua composição, representando seu ministério uma
frente de múltiplas forças de esquerda e de centro do espectro
político brasileiro, sob a plena hegemonia do Partido dos
Trabalhadores e de sua corrente majoritária. Os comunistas
participam no primeiro escalão do novo governo, pela primeira
vez na história do Brasil.
13 - A nova realidade, inaugurada pelo governo Lula, consiste
de componentes objetivos e subjetivos que definem o atual
estágio da correlação de forças em desenvolvimento, que se
configura pelo seguinte: 1) O novo governo resultou de uma
expressiva vitória eleitoral alcançando mais de 60% dos votos
válidos, tendo apoio de ampla frente oposicionista, conduzida
pelo PT; 2) o governo goza de amplo respaldo das forças
populares organizadas, da simpatia de contingentes
representativos das camadas médias e de importantes setores da
burguesia; e 3) a derrota dos partidos conservadores levou à sua
maior fragmentação e dispersão a base política que sustentava o
governo FHC. Agindo em sentido contrário a essa tendência
renovadora, pode-se considerar que: 1) As correntes
conservadoras, apesar da derrota na disputa pela Presidência da
República, mantiveram posições importantes nos governos
estaduais e no Congresso Nacional, dificultando a formação da
maioria absoluta para o governo Lula; e 2) a engrenagem que
modela o quadro institucional vigente e sua estrutura econômica
– herança dos governos da década de 90 –, segundo interesses de
setores ainda dominantes (internos e externos), apesar do
desgaste atingido, mantém-se intacta. A resultante mais
importante desse balanço de forças é que as novas correntes
vitoriosas chegaram ao governo nacional, alcançaram posições e
postos políticos fundamentais; porém, ainda não conquistaram o
poder real de forma plena. Pelo exposto, pode-se sugerir que em
decorrência da correlação de poder existente, o governo Lula
ainda não reúne as condições necessárias para a ruptura imediata
com o rumo dominante precedente.
14 - O novo governo, com esses limites de poder político, tem a
incumbência de realizar mudanças no sentido de um modelo de
desenvolvimento voltado para o crescimento da economia, a
afirmação da soberania nacional e a melhoria das condições de
vida do povo; e de transformar um país que vive constantemente
sujeito a pressões e crises de natureza cambial e financeira
recorrentes (em 2002 o Real se desvalorizou 52,3% frente ao
dólar), que diante do risco constante da insolvência,
conseqüência da sua extremada vulnerabilidade externa, tornou-se
prisioneiro do receituário imperativo do FMI. A política
conduzida pelo governo FHC de abertura irrestrita dos mercados e
desregulamentação financeira, propiciando livre movimentação do
capital forâneo, tanto no regime de câmbio fixo como no de
flutuante, provocou uma situação de semiestagnação em mais uma
década de nossa história econômica, elevando dívidas e déficits
públicos a um patamar inédito. Mesmo a estabilidade monetária
conseguida com custos elevadíssimos para a nação, através da
adoção dessa política ultraliberalizante, foi sendo erodida,
alcançando a inflação um patamar elevado, diminuindo mais ainda
a renda dos assalariados.
15 - O agravamento da situação em 2002, reflexo da crise
estrutural, provocou o surgimento de um conjunto de problemas
emergenciais – déficits, juros astronômicos, inflação, crise do
setor energético. A isto se acrescenta a urgência assumida pelo
agravamento sem precedentes das condições de vida do povo. A
inquietação frente ao crescente desemprego e à insegurança
provocada pelo avanço da criminalidade cria na população um
sentimento de grande instabilidade. Os dados são contundentes. O
ano se inicia com o desemprego atingindo 11,5% da População
Economicamente Ativa (PEA), segundo o IBGE. Em 2002, o
rendimento médio real dos trabalhadores ocupados sofreu uma
retração de 12,7% em relação a 1998. Um país que ocupa o 70º
lugar quanto ao Índice de Desenvolvimento Humano - IDH,
necessita de investimentos públicos urgentes num cenário que
pode se tornar mais difícil com a deflagração de guerra ou a
expansão da tendência recessiva mundial.
16 - As contas públicas estão profundamente desequilibradas
como resultado dos persistentes déficits externo e interno. O
passivo externo brasileiro – soma da dívida externa com o
capital estrangeiro aqui investido – se aproxima dos US$ 400
bilhões. O custo e a amortização desse passivo estão na casa dos
US$ 50 bilhões anuais ou US$ 1 bilhão por semana. A dívida
pública (interna e externa) atingiu em dezembro último a cifra
de R$ 893,3 bilhões, que representa 55,89% do PIB. Numa projeção
poderá ultrapassar R$ 1 trilhão em 2003. Nada menos que 83,21%
dessa dívida estão indexados à taxa de juros do dia (over/selic)
e ao dólar. Os encargos da dívida pública em 2003 estão
calculados em R$ 300,1 bilhões, apontando para um agravamento da
situação. Em 2002, a despesa com os encargos da dívida pública
já havia consumido R$ 194,73 bilhões dos cofres públicos,
gerando um déficit no conceito nominal de 4,38% do PIB, o que,
apesar do pesadíssimo superávit primário de 4,06% do PIB, nesse
ano, obrigou o governo passado a um novo acordo com o FMI,
instituição da qual sacou – sob duras condicionalidades – US$
11,48 bilhões em 2002. Como isso ainda não fosse suficiente, o
governo lançou mão das reservas internacionais do país que
fecharam o ano passado, em termos líquidos, em US$ 13,6 bilhões,
um recuo de 41,4% em relação a 2001.
17 - O governo encontra um país envolto em gravíssima
dificuldade, segundo afirmativa do Presidente Lula, sem dispor
de meios imediatos para uma solução eficaz, premido por um
orçamento herdado, comprometido substancialmente com o pagamento
dos encargos da dívida pública. Deve-se considerar seriamente a
gravidade da situação – legado de crise estrutural e conjuntural
que se soma à ameaça de guerra imperialista – que constrange
sobremodo a retomada do desenvolvimento, criando difíceis
obstáculos à abertura do caminho alternativo, democrático, de
reconstrução nacional e progresso social. Portanto, a luta para
as forças interessadas na mudança se desenvolve ainda num quadro
de poder limitado, em uma conjuntura interna e externa adversa.
18 - O governo recém-instalado se define por um caráter
democrático e progressista reunindo todas as forças avançadas do
país, interessadas na emancipação nacional, instaurando fóruns
de consulta no intento de estabelecer amplo pacto político para
governança; assume de imediato o combate à fome, procurando
definir a “inclusão social” como o norte do desenvolvimento; e
tenta estabelecer uma política externa ativa e afirmativa,
reforçando o papel de liderança principal do Brasil na
integração da América do Sul com ampla reativação do Mercosul e
posição de defesa da paz, contra a guerra. Em contraste,
permanece preso à política econômica conservadora anterior,
seguindo os compromissos já assumidos desde a campanha
eleitoral, na “Carta aos Brasileiros”, diante da crise
financeira e cambial vivida pelo país. O novo governo revela
assim, neste começo – como efeito exposto do nível da correlação
de forças –, uma feição contraditória: assume um caráter
democrático e dá seguimento ao mesmo tempo à política econômica
anterior.
19 - O novo cenário da luta política define-se pelo nível da
batalha em curso – limites de poder, herança constrangedora, a
guerra em curso –, podendo se depreender disso, então, que
apesar da dificuldade imediata em se reunir condições para a
ruptura com o modelo neoliberal, o que está posto é como se pode
e se deve mudar o rumo dominante, definindo com nitidez desde já
os objetivos, as metas e o processo de construção de uma
estratégia nacional de desenvolvimento, considerando-se a
evolução da situação interna e externa. Por isso, é necessário
que o novo governo transmita à sociedade a sua agenda em relação
ao rumo mudancista a ser seguido, “um gesto inaugural” (na
expressão da sensibilidade de Luiz Fernando Veríssimo),
estimulando um amplo movimento de diálogo e mobilização. Dessa
forma, as dificuldades presentes serão compreendidas melhor e o
apoio se tornará duradouro porque se moverá em função de uma
perspectiva determinada.
20 - Como ficou evidenciado, o governo Lula resultou do
desenvolvimento da contradição entre duas tendências objetivas:
a manutenção do caminho seguido pelo governo passado ou a busca
de uma outra via, a mudança do quadro predominante. Essa
tendência tomou forma concreta, alcançando a vitória, por meio
de uma política acertada, de uma afirmação maior da liderança
popular de Lula e de uma ampla aliança de forças. Estabelecido o
novo governo, essa contradição não desapareceu; ao contrário,
tomou maior dimensão e tende a se acirrar, porque agora surge a
possibilidade da aplicação da nova política, que se choca com
poderosos interesses internos e externos – o hegemonismo do
imperialismo norte-americano na América Latina e a centralidade
da oligarquia financeira na condução econômica –, protegidos por
instituições implantadas numa estrutura econômica que impede a
mudança.
21 - A luta entre as duas políticas –
a velha e a nova a ser concretizada – está presente no âmbito
governamental e na sociedade, não estando definido de antemão o
desfecho desse embate. Inaugura-se, assim, uma nova fase de luta
para as correntes revolucionárias, democráticas e patrióticas, que consiste na construção
efetiva da alternativa de superação da hegemonia neoliberal,
reunindo
amplas forças políticas e sociais para tanto e fazendo
vingar o projeto nacional, democrático e popular.Os
movimentos dos trabalhadores, das camadas populares e
médias, dos estudantes e setores empresariais, através de
suas organizações, poderão ser as forças-motrizes
fundamentais para a mudança. Essa luta pela transição da
situação presente à nova realidade, na qual predomine o novo
projeto, é que caracteriza a fase atual da luta política em
nosso país.
A luta pela mudança de rumo
22 - Em conseqüência dos compromissos assumidos na campanha, em
face da crise financeira e cambial, dos poderosos interesses dos
“agentes econômicos” e dos entraves das pesadas restrições
internas e externas herdadas, o novo governo encontra-se diante
de um paradoxo: assegurar os contratos firmados no período
Fernando Henrique Cardoso ou mudar o projeto aplicado pelo
governo passado. Essa dualidade revela as pressões para o
continuísmo, que podem se avolumar diante do peso da inércia das
instituições, da ausência de uma convicção estratégica
transformadora a ser seguida e ainda diante da falta de uma
mobilização popular maior. O centro da questão está em que não
haverá mudança efetiva sem alteração dos fundamentos econômicos
até aqui prevalecentes e sem a recomposição do Estado nacional.
Ao contrário do que afirmava Fernando Henrique na sua prédica
diversionista, o Brasil não está preparado para crescer. A sua
política produziu maior vulnerabilidade externa, estagnação
econômica, provocou retrocesso no nível da renda e do emprego do
trabalhador e rebaixou sua condição de trabalho.
23 - Neste momento, o pensamento predominante no governo é de
reafirmar o compromisso de mudança profunda, embora conclua que
o país não consegue fazer uma virada rápida de política
econômica, mantendo uma posição defensiva diante do temor da
fragilidade externa, de uma retaliação dos “mercados”, da
iminência de guerra, levando à manutenção “emergencial” do
regime de juros altos e de superávits primários escorchantes. No
limite, pode-se entender essas medidas como contingenciais e
transitórias. Porque é falsa a idéia de que a política
macroeconômica do governo anterior pode ser mantida por um ou
dois anos para então ser substituída. O mais provável é que,
isso acontecendo, a crise poderia se agravar “empurrando” para
uma saída mais difícil, ou se conseguiria um crescimento contido
– como sempre –, voltando-se a conviver com o mesmo círculo
vicioso de crise financeira e cambial.
24 - A verdade é que as exigências impostas para se manter a
“confiança do mercado” – interesses dos círculos financeiros
centrais – vão se tornando cada vez mais contraditórias com as
necessidades da ampla maioria da sociedade, que abarca desde os
trabalhadores até as camadas populares e médias, e incluindo
empresários de vários portes. Assim acontecendo, ao fim e ao
cabo, o governo perderá a confiança tanto do povo quanto do
mercado financeiro. A recente experiência histórica demonstra
que a aplicação das políticas neoliberais enterrou a
possibilidade de desenvolvimento, levando os países
“periféricos” a pagarem um preço muito alto, tornando-os mais
vulneráveis e empobrecidos. Em legítima fundamentação, o
economista Luis. C. Bresser Pereira chega à conclusão de que no
caso brasileiro ao invés de fazer o país crescer, o capital de
fora – tomado como principal financiador da economia – só teria
contribuído para o subdesenvolvimento econômico. Em
contrapartida, onde se conseguiu romper, pelo menos em parte,
com as rígidas regras liberalizantes começou a se colher
resultados favoráveis ao desenvolvimento e ao emprego, como em
alguns países da Ásia.
25 - Por tudo isso, se a mudança não pode ser abrupta, o cerne
do problema reside em como se deve definir e explicitar a nova
estratégia nacional de desenvolvimento em face das condições
presentes, indicando uma nova agenda com objetivos e metas no
prazo de vigência do atual governo, encaminhando o processo de
mudança. Essa sinalização de rota em termos concretos elevará a
confiança da grande maioria interessada em contribuir e
participar do novo empreendimento da mudança. As reformas em
discussão se não forem apontadas no rumo da ampliação da
democracia, dos direitos sociais e de uma nova estratégia de
desenvolvimento, se confundirão com a agenda do governo passado,
ficando à mercê da disputa de múltiplos interesses. Embora os
acordos e contratos anteriores tenham de ser considerados, o
PCdoB tem afirmado que apesar disso, seguindo novos objetivos de
desenvolvimento, pode-se e deve-se questionar e revisar tais
compromissos – como, por exemplo, os termos do acordo com o FMI
que absolutiza as metas de estabilidade fiscal em detrimento de
metas de crescimento econômico e desenvolvimento social e se
desdobra em reformas voltadas para a fragilização do Estado e a
quebra dos direitos sociais, e o padrão de montagem das Agências
Reguladoras – porque os mesmos não têm caráter pétreo podendo
até ser anulados, tendo como axioma a soberania nacional.
Matéria de relevante importância é a que trata das modificações
relativas ao Banco Central do Brasil. O BC deve ter como sua
principal função o apoio ao desenvolvimento nacional. Para isso
deve estar sob controle público amplo, tanto do Executivo quanto
do Legislativo. Sua independência desses poderes se colocaria em
sentido contrário aos interesses do Brasil e do povo brasileiro.
26 - Nas circunstâncias presentes, apesar das naturais
controvérsias quanto à alternativa ao projeto neoliberal, também
o Partido Comunista tem participado do debate em questão. A par
da necessidade de uma série de medidas sociais emergenciais,
como o Programa Fome Zero, o Partido tem defendido que a chave
para deflagração e andamento do curso da mudança da política
neoliberal no atual estágio da luta requer a construção de uma
nova maioria política, que tenha como objetivo a retomada do
desenvolvimento econômico, a ampliação da produção, o
crescimento do emprego e a valorização do trabalho. Hoje, a
elevação do índice de desenvolvimento econômico e de aumento dos
postos de trabalho passou a ser um problema político decisivo.
27 - Em primeiro lugar, a formação da nova maioria política
está em consonância com duas componentes inter-relacionadas:
manutenção e consolidação do apoio da vasta maioria da nação ao
governo Lula e aglutinação de todas as correntes políticas
interessadas em abrir um novo rumo para o país. Nesse sentido,
se destaca a necessidade da formação de uma base parlamentar a
mais ampla possível, de sustentação do governo, porque a
fragmentação da oposição conservadora é momentânea. Mas, o êxito
na criação dessas componentes políticas corresponde à capacidade
de as novas forças construírem a estratégia desenvolvimentista,
sintonizada com as reais necessidades da grande maioria da
população, que está objetivamente em disjunção com as exigências
do mercado financeiro. Por isso, é preciso insistir que as
formas de discussão ampla nos conselhos para consultas, em
diversos fóruns e na mobilização das organizações e movimentos
de massa, são imprescindíveis para composição de pactos
majoritários em prol da mudança.
28 - Em segundo lugar, a retomada do desenvolvimento em nível
superior e crescente se insere num quadro que altera a lógica
dos dogmas neoliberais vigentes. Desse modo, a deflagração de um
amplo movimento nacional por desenvolvimento, produção e
emprego, que mobilize trabalhadores, empresários e grandes
parcelas do povo, pode ser um começo da saída da camisa-de-força
prevalecente na situação atual. É indubitável que o
desenvolvimento proposto deve ter como eixo a transformação
social. Existe hoje uma realidade e um clamor que podem criar
uma vasta onda em torno dessas bandeiras, porque expressam
sentimento amplamente majoritário. Tal iniciativa abriria a
passagem para o debate da inversão das metas consagradas pelo
modelo predominante: a meta central a ser defendida seria o
índice de desenvolvimento do Produto Interno Bruto nesses
próximos quatro anos, e tudo mais – metas de inflação,
percentual de superávit primário, etc – se submeteria a esse
alvo central. Deslocaria-se, assim, o eixo da definição das
metas prioritárias atuais, que é a relação dívida/PIB, para as
metas de crescimento do PIB e de geração de emprego. Essa
questão coloca em cena o debate acerca dos meios próprios,
nacionais, para financiar o crescimento, ainda subestimado,
porque o centro de gravidade do financiamento repousa no capital
de fora.
29 - Por conseguinte, estaria em foco também o esquema da
engrenagem dos juros altos, que tem funcionado como tratamento
indubitável de combate à inflação, ao tempo em que deprime de
forma crônica a economia. Há vasta literatura e experiências
concretas sobre outros meios para se fazer o necessário combate
à inflação. Pela receita monetarista neoliberal, o remédio da
elevação dos juros atua sobre o sintoma – a subida dos preços –,
que pode até conseguir certo êxito em conseqüência do
estancamento do desenvolvimento econômico, mas engorda as burras
dos rentistas e produz o nefasto efeito colateral da estagnação
produtiva e do desemprego. Juros mais baixos são uma necessidade
para o financiamento de um novo ciclo de desenvolvimento, pois
facilitam o crédito e diminuem a pressão sobre o endividamento
do Estado.
30 - Em terceiro lugar, o êxito da construção da nova
estratégia nacional de desenvolvimento está intimamente ligado à
recomposição do Estado nacional e à reconstrução da soberania do
Brasil no plano mundial, e da América Latina. O Estado
brasileiro perdeu sua capacidade de planejamento e o seu papel
de artífice e indutor do crescimento. O esforço de reverter esse
quadro é parte fundamental para o encontro da alternativa à
situação predominante. Nisso se enquadra a necessidade de
realizar adaptações na legislação vigente, tanto em nível
constitucional como infraconstitucional, recuperando o caráter
de uma Constituição que seja um diploma legal, orientador da
construção de um Brasil soberano, democrático e progressista. Na
política externa que vem sendo moldada pelo governo Lula é
preciso reforçar seu caráter afirmativo e estimular sua
atividade integradora da América do Sul e de reativação do
Mercosul. Importância capital assume a tomada de posição pelo
governo que resguarde a independência do país diante da guerra
imperialista e que assegure os interesses da nação em face da
proposta da Alca – o novo “consenso norte-americano”, baseado na
sua estratégia de domínio para as Américas.
O papel e a nova tática do Partido diante da nova
realidade política
31 - Em seu 10º Congresso realizado no final de 2001, o Partido
já afirmava: “A oposição reúne condições históricas excepcionais
para alcançar a vitória nas eleições gerais de 2002”. O PCdoB se
empenhou nesse sentido, confirmando também a sua assertiva de
que somente uma frente de esquerda não seria capaz de tal êxito.
Essa previsão e o esforço para a vitória oposicionista tinham um
sentido estratégico definido – barrar a evolução neoliberal e
procurar abrir um novo rumo para o Brasil. Isso, porque o
caminho para se aproximar do objetivo estratégico – transição ao
socialismo – passa necessariamente, nas condições
contemporâneas, pela derrota da orientação neoliberal.
32 - O desfecho da eleição presidencial de 2002 abriu, assim,
um novo ciclo político em nosso país e representou um importante
passo na rota da nossa estratégia. Porém, esse resultado
descortina a possibilidade do início da caminhada ao novo rumo
democrático-popular, mas não está assegurado antecipadamente o
êxito nesse sentido. Então, nessa nova fase da nossa luta
política, o norte estratégico se reafirma na definição de uma
nova tática partidária que consiste em laborar para a vitória do
programa mudancista, democrático, nacional-desenvolvimentista,
conduzido pelo novo governo. Essa vitória seria o sucesso da
nossa estratégia na atualidade. Por isso, se afirma justamente
que o êxito do governo Lula nesse rumo terá um significado
histórico de grande transcendência.
33 - O novo governo é uma obra da luta das forças políticas
mais avançadas do nosso país, dos trabalhadores e camadas
populares, médias e empresariais, nas condições atuais, e o
PCdoB foi importante artífice e protagonista desse
empreendimento, constituindo-se essa ação partidária no ponto
nodal da sua orientação estratégica e tática. As mutações e os
caprichos da vida produziram o governo concreto. Afinal, o
governo Lula que veio a ser constituído é expressão de alargada
frente política, assumindo uma fisionomia democrática, plural,
progressista, sob a hegemonia do PT. O governo resultante
exprime a correlação de forças do estágio atual da luta
política.
34 - Essa nova realidade brasileira tornou imprescindível a
participação do PCdoB no novo governo, como parte integrante,
resguardando sua independência ideológica e política. O nosso
Partido compõe principalmente com o PT, desde 1989, no período
da transição democrática, o núcleo de forças precursoras que é
responsável por esse resultado sem paralelo na nossa história
política. Por isso, pela primeira vez, os comunistas no Brasil
participam no primeiro escalão de um governo da República e
também, a convite do Presidente eleito, aceitam liderar a
bancada do governo na Câmara Federal. A nossa participação na
liderança do governo é uma indicação que corresponde e
representa o ambiente de esperança em que vivemos. È também um
esforço para estimular o sentido de frente única do nosso
Governo. O presidente Lula é aclamado pela grande maioria da
nação, que deposita em seu governo grande confiança.
35 - O governo recém-instalado reflete em seu seio, expressando
a realidade de um período de começo de transição, a convivência
entre a velha e a nova situação e luta entre a continuidade
neoliberal – já estruturada e definida por poderosos interesses
ainda dominantes, apesar de pesado desgaste –, e a mudança
democrática e progressista – a ser delineada concretamente e
aplicada pelas forças vitoriosas. Por isso, o governo ainda vive
neste início uma feição contraditória: tem marca democrática e
reafirma o compromisso da mudança, mas ao mesmo tempo, é levado
a manter ainda compromissos com a política econômica
conservadora anterior. A tática do Partido deve levar em conta
os avanços e recuos que a originalidade da situação comporta e a
necessária perspicácia e agilidade para que em cada momento se
descubra o elo de desenlace da situação. O tempo que esse quadro
pode demandar para uma solução duradoura e progressista depende
de um conjunto de fatores e não pode ser fixado de antemão.
36 - Não podemos perder de vista que o centro da nossa tática
política atual, tendo presente o sentido estratégico já
referido, é atuar pelo êxito do governo Lula na condução das
mudanças que consistem no aprofundamento da democracia e na
adoção de um projeto nacional de desenvolvimento voltado para a
defesa da soberania do país e o progresso social. Por isso, a
ação política decorrente traduz-se em dois movimentos
inseparáveis: 1) no esforço conjunto de concretizar a saída da
engrenagem neoliberal para o começo do novo projeto; 2) ao mesmo
tempo em que deve reunir forças populares, democráticas,
patrióticas, renovadoras para o sucesso desse propósito. Como
parte integrante do novo governo, o Partido deve colocar essa
condição a serviço do fortalecimento da convicção e da
consecução da nova linha transformadora por meio de amplo
trabalho de debate e mobilização política. A tática do PCdoB é
principalmente propositiva e também crítica no sentido da
consolidação da perspectiva mudancista do governo. Passa por uma
estreita combinação entre a ação institucional – no parlamento e
cargos executivos – e a mobilização política das massas
populares.
37 - O nosso Partido tem bem presente a grandeza do desafio, o
tamanho de sua responsabilidade. Na situação atual do mundo e do
Brasil não se reuniram ainda condições para o alcance de uma
hegemonia revolucionária na condução de uma alternativa ao
neoliberalismo, e na transição ao socialismo. O fracasso das
políticas liberalizantes tem permitido o surgimento de múltiplos
movimentos contrários a essas políticas, que em muitos locais
deram lugar a vitórias eleitorais dirigidas por forças de
esquerda, democráticas e progressistas. Em nosso país, apesar do
PCdoB ser uma força protagonista da vitória política, que abriu
a possibilidade de concretizar uma alternativa ao
neoliberalismo, ele faz parte de ampla frente política e não é a
força dirigente principal. Vencer essa orientação dominante do
capitalismo atual requer uma luta de dimensão nacional e mundial
que tem sentido antiimperialista.
38 - Portanto, diante da adversidade para a mudança, em função
do quadro de forças reinante e pelos limites das forças
dirigentes principais envolvidas nesses empreendimentos, a
experiência tem demonstrado que depois da vitória eleitoral
pode-se permanecer no mesmo quadro da estrutura dominante, com a
derrota das forças renovadoras, ou manter o essencial do modelo
vigente, fazendo certa reciclagem. O passo adiante para a
superação dos marcos da estrutura institucional e econômica
neoliberal não tem sido plenamente conseguido, numa ordem
mundial predominantemente unipolar e da globalização financeira.
39 - Do nosso ponto de vista estratégico, o êxito será completo
somente com a superação da política neoliberal e a consecução do
projeto alternativo. Para isso, por não ser o Partido a força
hegemônica do novo processo político que se instala, a nossa
tática, entretanto, deve considerar a nova possibilidade de
grande dimensão democrática e liberdade política que se abre,
para acumular maiores forças no seio do povo e do governo, que
consiste nas seguintes tarefas: fortalecer em todos os níveis o
Partido e expandir sua influência política; reforçar e ampliar
uma vanguarda, que seja consciente da exigência de superação
histórica do sistema capitalista, que vá além dos marcos do
Partido; unir-se com as forças antagônicas e críticas ao modelo
neoliberal e com aquelas que podem, mesmo que limitadamente,
contribuir para a mudança e renovação; unir os trabalhadores
impedindo a sua fragmentação, trabalhando para se constituírem
em força motriz fundamental da mudança para o novo projeto; no
mesmo sentido, reunir amplas camadas populares e médias; e
procurar participar dos conselhos e fóruns de consulta,
instalados pelo governo, fortalecendo as posições da mudança da
política neoliberal.
40 - Nessa nova fase da luta política inaugurada pela vigência
do governo Lula, as palavras-de-ordem e as formas mobilizadoras
das amplas camadas do povo constituem os meios fundamentais para
fazer prosperar a onda pela mudança. A grande maioria da nação
deposita grande esperança no novo governo. Fruto da nova
realidade, o êxito do governo Lula depende da participação e
mobilização da maioria da população. As consignas que orientem e
indiquem o sentido de uma mudança profunda devem considerar a
dimensão nacional, mundial e latino-americana da luta
transformadora atual. Desse modo, fazer prosperar a alternativa
ao neoliberalismo passa hoje pela defesa da paz, contra a guerra
imperialista; e pela sustentação da integração da América do
Sul, fortalecimento e ampliação do Mercosul, denunciando os
verdadeiros intentos dos Estados Unidos.
41 - No âmbito do nosso país as consignas que propomos para
discussão devem estar relacionadas com os nossos objetivos
centrais de defesa do Brasil, da democracia e do trabalho, hoje
traduzidos na definição e aplicação de uma estratégia nacional
de desenvolvimento voltada para a transformação social. Por
isso, podem ganhar amplitude as bandeiras de desenvolvimento já
– produção e trabalho –, que refletem forte anseio da ampla
maioria da sociedade, e que se articulam também com o lema de
fome zero, reforma agrária, recuperação dos salários e
valorização do salário mínimo. Razão pela qual as reformas em
pauta – previdenciária, tributária, trabalhista e política –,
propostas pelo governo devem ter como norte na sua definição a
retomada do desenvolvimento, a distribuição de renda e a
ampliação democrática, apesar das pressões que vêm sofrendo de
sentido conservador, neoliberal. Reformas, portanto, em rumo
distinto daquelas do governo de Fernando Henrique Cardoso que
fragilizaram o Estado, a soberania nacional e os direitos dos
trabalhadores.
42 - No atual contexto da luta
política as organizações sindicais, populares, estudantis, e
demais formas representativas do povo na sociedade, podem ser um
esteio do processo da mudança e da consecução do novo projeto,
contribuindo para o êxito do governo Lula, se elas realmente
empunharem essas bandeiras da transformação nacional e social e
da ordem mundial articuladas com suas
reivindicações próprias. As organizações e movimentos de
massa na nova situação não devem se confundir com o governo,
mantendo sua autonomia porque essa é a forma de o próprio governo conhecer de
modo organizado as reais aspirações do povo. As formas de
organização e mobilização devem ocupar importante papel
nessa nova quadra, como por exemplo, a formação do Fórum
Nacional dos Trabalhadores e outros para concertação de
plataformas comuns, lutando por: PAZ, DESENVOLVIMENTO E
TRABALHO. As novas formas surgem como fruto da realidade em
curso e não simplesmente como vontade de uma ou outra
organização. Tudo isso deve compor essa nova etapa de luta.
Novo ciclo de acumulação estratégica para o PCdoB
43 - O fortalecimento do PCdoB se coloca como condição
primordial e resultante a perseguir na luta por tornar vitorioso
esse curso político. Na fase de luta que se inaugura abrem-se
novas potencialidades para o crescimento da força política e
estruturação do PCdoB. A vitória eleitoral alcançada em nosso
país demonstrou elevação da consciência política do povo,
propiciando ambiente muito mais favorável para isso. O PCdoB
conquistou expressiva vitória, com 9,3 milhões de votos para
seus candidatos, cumprindo no essencial os objetivos eleitorais
traçados no 10º Congresso. Aumentou seu prestígio e presença na
luta política e social. Vive uma experiência inédita nestes 81
anos de existência participando do governo central, o que coroa
todo um período de lutas que vem desde a ditadura, tendo
atravessado 18 anos de legalidade. Encara as novas exigências
como um impulso renovador para as suas tarefas, funções e
feições, um grato desafio para a militância. Abre-se, portanto,
uma mudança de fase, nova etapa na acumulação de forças do
Partido. Está em jogo com que velocidade e profundidade nós
seremos capazes de responder à nova dinâmica política e social
no país e de perseguir o reforço do instrumento estratégico para
a luta transformadora, que é o Partido Comunista.
44 - Tal fortalecimento é uma exigência do papel estratégico
que estamos chamados a cumprir. Invoca a questão de um novo
processo de acumulação de forças para a construção da hegemonia
política e ideológica no movimento transformador, nas condições
concretas em que ele se desenvolve na atualidade, sintetizada na
orientação política traçada. Isso exige pôr em relevo o nosso
projeto político próprio; coloca-nos a urgência de elevar o
trabalho na esfera ideológica; e, por fim, nos exige superar
condicionamentos que limitam o crescimento de nossas fileiras
militantes. Nas novas condições em que atuamos, portanto,
devemos deslindar os elos que articulam, em outro patamar e em
novas condições, os componentes políticos, ideológicos e
organizativos na estruturação partidária.
A construção partidária e seu projeto político
45 - O centro desse novo impulso de fortalecimento, que preside
a construção partidária no novo quadro, é a luta por tornar
vitoriosa a orientação política traçada. Ela se define tendo por
centro o êxito do governo Lula na condução do processo das
mudanças de caráter democrático, nacional e desenvolvimentista.
Para isso, essencialmente, precisamos desenvolver maior
protagonismo na luta política e social. O PCdoB, em todos os
escalões, precisa agir com mais descortino político, fazer com
que seu coletivo se aproprie da orientação política e lhe
confira dimensão de massa mais ampla. Além disso, a orientação
política precisa assumir caráter propositivo, ser capaz de
influenciar realmente os rumos das políticas de governo e do
Estado. O Partido é um instrumento de ação política, não um fim
em si mesmo. Precisa falar mais largamente para a sociedade e
abordar, no movimento real, seu projeto político próprio com
maior visibilidade, diferenciá-lo política, eleitoral e
ideologicamente na sociedade. Está estabelecido, assim, um
período de grandes exigências para os comunistas, no sentido de
elaboração política em todos os campos.
46 - Esse desenvolvimento político é indissociável de maior
atenção à luta de idéias. A luta pela alternativa precisa estar
assentada num amplo movimento de idéias avançadas.
Decididamente, precisamos colocar a luta de idéias em outro
patamar de preocupações e ações. A sociedade brasileira, na
presente luta para superar o legado neoliberal, vai conhecer
intenso debate sobre as saídas e perspectivas. O que está em
curso no país motiva re-elaborações teóricas de alguma
envergadura no concernente ao projeto para o Brasil. Vamos
dispor maior energia para esse esforço, aproximar o PCdoB de
parcela significativa dos que pensam estrategicamente o Brasil e
os desafios de sua transformação, para buscar polarizar a
sociedade e infundir maior confiança nos rumos da luta. Também
no que se refere ao desenvolvimento de nosso pensamento tático
nas novas condições, exige-se alimentar a elaboração política
com esforço teórico, para um maior domínio da realidade
concreta. O reforço do trabalho teórico do Partido e a
intensificação da formação teórica dos militantes são um
componente indispensável para o fortalecimento de seu papel e
força.
47 - Na nova situação política devemos lutar, em especial, para
mergulhar os comunistas no movimento social, adentrar a dinâmica
da realidade profunda da situação dos trabalhadores e do povo,
na inteira complexidade da sociedade brasileira. A militância
precisa aumentar o protagonismo no movimento social real,
construir uma agenda própria e renovada para o movimento de
massas, em ligação com sua orientação política, como instrumento
decisivo para impulsionar a estruturação partidária. Nossa
orientação política confere papel essencial à mobilização
popular em apoio às mudanças que o país elegeu. Esses movimentos
viverão novos desenvolvimentos, em substituição à prolongada
fase de resistência vivida nos anos 90. Além disso, na atuação
do movimento operário e de massas reside um aspecto fundante da
natureza e caráter do Partido Comunista. Trata-se, enfim, de um
elemento fundamental para a construção de uma hegemonia avançada
das forças populares, em primeiro lugar dos trabalhadores – a
base social que decide os destinos de nosso projeto político
próprio. Somos críticos, e auto-críticos, com relação à
participação e às energias que empenhamos nessas frentes.
Trata-se de esforço que precisa ser levado à esfera do
pensamento e direção política. O PCdoB precisa lançar campanhas
próprias de massas, precisa fazer mais ação de massas, de todos
os tipos e magnitudes, como forma de expressão cotidiana do
trabalho da militância e condição de sua visibilidade na
sociedade. Devemos recuperar essa característica tão marcante de
nossa identidade no cotidiano da condição de militantes,
resgatar o sentido que isso encerra de elevação da consciência e
organização do povo, e de pedagogia para o militante comunista.
O mergulho no movimento operário e social é fator indispensável
da nova acumulação de forças do Partido, inclusive de seu
incremento eleitoral. É a fonte principal de onde emanarão os
novos contingentes militantes.
48 - A participação institucional dos comunistas em cargos e
funções de governo significa uma nova dimensão de possibilidades
na esfera política. Além do governo central, participamos de
governos em mais de uma dezena de Estados e capitais, além de
centenas de municípios do interior. Alcança a mesma magnitude de
cargos eletivos que o PCdoB detém. Nossa ação política tem,
nessa esfera, importante instrumento para a acumulação de
forças. Entretanto, a presença em governos, por ser recente, não
tem tido a mesma atenção das esferas de direção e não se
sistematiza essa experiência. Diferentemente de mandatos
eletivos, que reforçam a voz independente dos comunistas,
participações em governos são mandatadas pelos chefes de
Executivos, o que faz com que os quadros que assumem essas
funções tenham autonomia apenas relativa. Por isso, tais
participações precisam se acompanhar de um claro esforço
político para não comprometer a identidade e independência
partidária; e de íntima ligação entre essa participação e os
nossos objetivos políticos. Trata-se, então, de formular
projetos políticos bem definidos para nortear essa participação
em cada situação concreta, sujeitando-a ao controle político do
Partido; particularmente, encontrar uma justa combinação e
equilíbrio entre a atuação institucional e a luta social. Será
necessário inovar na definição do trabalho de direção,
constituindo secretaria própria para esse fim, a partir da
direção nacional.
49 - São esses, portanto, os impulsionadores da nova fase:
maior protagonismo na luta política; mais intensa atuação na
luta de idéias; o mergulho nos movimentos sociais; e a
participação institucional. Não desconhecemos que as
potencialidades de nosso desenvolvimento estarão intimamente
vinculadas aos rumos do governo Lula, e ao papel que cumpriremos
– dentro e fora do governo –, para seu êxito. Para isso, nossa
orientação política precisa ser base para construir espaços
próprios do Partido, marcas distintivas, perseguir seu
fortalecimento, conferir-lhe uma base social mais ampla,
impulsioná-lo em seu crescimento eleitoral. Trata-se da questão
da independência política e ideológica dos comunistas,
indispensável nas condições de participante do novo governo.
Isso nos exige conferir maior visibilidade ao projeto político
dos comunistas, pois a afirmação partidária se dá em meio a
ambiente de forte disputa, nos marcos de uma convivência
prolongada com uma organização política de tendência
social-democrata, hegemônica política, cultural e socialmente
entre os trabalhadores.
50 - Por isso, a nova tática precisa
se desdobrar também em um projeto eleitoral para 2004 e 2006. O
Partido tem sido demarcadamente uma força independente do ponto
de vista político e ideológico. Forças mais clarividentes
enxergam nele uma política de cunho mais avançado e um rico
pensamento tático. Isso é um grande trunfo de sua trajetória.
Entretanto, a força estruturada dos comunistas condiciona a
tática eleitoral e, nesse âmbito, depende muito das coligações.
A diferenciação e visibilidade do PCdoB têm na tática eleitoral
um fator saliente. Aos olhos de grande parte
da população o Partido é co-participante do consórcio
eleitoral petista, reduzindo sua visibilidade política. É
necessário partir para um projeto eleitoral ampliado, incluindo
candidaturas próprias do PCdoB ao nível de Executivos e
Legislativos municipais, alargando o âmbito das candidaturas
comunistas e permitindo maior divulgação do próprio Partido.
Eleições municipais são momento propício para lançar as
bases para essa extensão ao mesmo tempo em que devem ser
vistas como um momento de consolidação do governo Lula e de
seu projeto mudancista. Deve-se articular isso com o esforço
para formular uma proposição concernente à reforma política,
capaz de derrogar as cláusulas de barreira já estabelecidas.
Novas exigências na esfera ideológica para a estruturação
partidária
51 - O desenvolvimento partidário reclama maior atenção ao
nosso trabalho de educação ideológica. O 10º Congresso afirmou
que a base de nossa construção ideológica é a convicção
revolucionária, aliada a uma política transformadora e à íntima
ligação com o movimento real dos trabalhadores. Centrou o
combate ao espontaneísmo quanto à sua construção. Entretanto,
nas condições de intensiva institucionalização da atividade
política, crescem as pressões burocratizantes, tendentes ao
rebaixamento estratégico do papel do Partido e ao
comprometimento de sua independência. Por isso, precisamos
reforçar nas fileiras comunistas o debate do projeto político do
Partido, e intensificar o cultivo de valores, traduzido em
normas e atitudes de compromisso militante. O enfraquecimento de
órgãos de direção, o abarrotamento da pauta de trabalho com um
sem número de questões do cotidiano de executivos e parlamentos,
o desatamento da pressão dos anseios e carreiras, expõem-nos à
pressão de cooptação, e à diminuição dos vínculos com a ação de
massas. A baixa organicidade do trabalho militante na base, e
até mesmo nos comitês, e o descompromisso com a sustentação
material, enfraquecem nossa luta. São fatores que precisam
encontrar-nos firmes no propósito de perseverar no caráter
revolucionário e classista do Partido.
52 - Organizações revolucionárias marxistas não estiveram – e
nem estão – imunes à burocratização, à institucionalização, à
acomodação e à conciliação de classes. Seria pueril considerar
inevitável tal desfecho, à margem dos desenvolvimentos políticos
concretos, tanto quanto desconsiderar as pressões reais – essas
sim objetivamente inevitáveis –, que se verificam nesse rumo,
principalmente quando se intensifica a institucionalização do
processo político. Os comunistas precisam aprofundar os laços
com o movimento real, em suas diversas variantes de causas, de
formas de luta e organização. O Partido é o portador de um
projeto político com o qual vai disputar corações e mentes desse
amplo contingente militante. Para isso, a construção partidária
se assenta em seu projeto político, mas também em valores, a
partir do próprio critério de militância, fator distintivo de um
Partido transformador. Os comunistas devem intensificar o
cultivo da disciplina consciente, da crítica e auto-crítica dos
métodos e estilos de atuação entre as massas. Não aceitamos
conviver com diferentes correntes no interior de nossas
fileiras, nem com a formação de estruturas de poder internas à
margem dos órgãos eletivos, a sobreposição de interesses de
lideranças ao coletivo, porque são questões que enfraquecem o
projeto e a unidade partidária. Isso é, aliás, parte de nossa
identidade, que buscamos valorizar politicamente no diálogo com
a sociedade.
53 - A esfera ideológica abarca, ainda, o próprio tema partido
e sua indispensabilidade como polêmica central e aguda no atual
debate teórico, ideológico e prático do movimento social. Há uma
retomada da consciência crítica, patenteada em múltiplos
movimentos, e uma infinidade de manifestações, formas de luta e
organização, da qual o Fórum Social Mundial é a expressão mais
visível. Nele, a consigna de que “Um Outro Mundo é Possível”
opõe-se à globalização neoliberal e imperialista, e
crescentemente constrói uma consciência anticapitalista, dando
margem à nova disposição de luta por parte de amplos
contingentes sociais em todo o mundo. Isso demonstra um espírito
de luta, uma nova onda militante, de variados matizes, formas e
conteúdos. Nele, avulta a rejeição ao atual estado de coisas,
sem, todavia, ter produzido uma estratégia de ação clara e
unitária para a superação do capitalismo.
54 - Destaca-se nessa questão a relação entre partido e
movimentos sociais. As questões postas neste debate são a
necessidade da luta pelo Poder político, da conquista da força
do Estado para promover as mudanças necessárias; a centralidade
do proletariado na luta anticapitalista; a possibilidade e a
necessidade de superação do capitalismo. O “movimento dos
movimentos”, como estratégia, assenta-se na negação da
centralidade e exigência de um partido político para a
transformação social anticapitalista. Movimentos têm caráter
setorial, parcializado, causas específicas. Ademais, a pregação
em torno dos movimentos muitas vezes camufla a real intenção de
erigir o próprio movimento em organização política, com normas e
projetos próprios. Esse embate nos confronta com o terceirismo –
nem capitalismo nem socialismo –, no plano ideológico, e o
possibilismo – reformar o capitalismo –, no plano político,
marcantes ainda no cenário da luta social protagonizada pelos
movimentos. Eles não alcançam cumprir o papel essencial da
política: a disputa do poder de Estado que pode impulsionar nova
forma de organização social. Contribuem, assim, para rebaixar o
papel estratégico de um partido revolucionário e rebaixar o
próprio papel da política, como forma mais elevada da
consciência social na formação de novos contingentes militantes.
55 - É nesse quadro que se repõe a contenda da centralidade da
questão partido, como instrumento articulador das exigências da
luta anticapitalista, partido de vanguarda do proletariado,
centro estratégico definidor da luta pelo poder político de
Estado, indispensável ao processo transformador. Combatemos a
crítica aos partidos revolucionários marxistas, e a tendência
por substituí-los pelos movimentos sociais. Estando em retomada
a consciência crítica, mais que nunca se necessita de um
instrumento político como o PCdoB, insubstituível para a luta
por um projeto global de transformação social, que supere o
sistema capitalista. Não devemos retroceder aos primórdios da
luta de classes, se já generalizamos a experiência histórica e
erigimos uma teoria do partido revolucionário, que está em
desenvolvimento permanente. Um partido de vanguarda do
proletariado, marxista e transformador, de ação de massas,
dotado de unidade de ação construída democraticamente,
alimentada pela consciência, estruturada sobre os critérios de
militância. Partido para alcançar o poder político e empreender
a transformação social no rumo do socialismo. Um novo impulso na
vida do PCdoB demanda participar dessa confrontação
enriquecedora de idéias e práticas, reafirmando o primado da
exigência e centralidade de um Partido Comunista, marxista e
leninista, de vanguarda, moderno. Isso nos exige ao mesmo tempo
a compreensão dialética desses fatores, confrontando-os com a
realidade contemporânea e suas práticas e formas de consciência
sociais.
56 - No debate ideológico, o combate realizado aos partidos
marxistas e leninistas se assenta, essencialmente, no estigma
que se constituiu sobre essa concepção: organizações
centralizadas burocraticamente, que sobrepõem a consciência ao
movimento espontâneo instrumentalizando os movimentos sociais e
que poriam a questão do poder de Estado como questão primária e
anterior à práxis da transformação social. Práticas deformadas
da experiência socialista do século XX e a constante propaganda
anticomunista forneceram base para esse estigma. É
indispensável, ao lado da reafirmação do primado do partido de
tipo leninista, atualizar tais concepções, para superar
limitações quanto à abordagem da realidade social de hoje e
ampliação do nosso diálogo com a sociedade e interação com os
movimentos sociais. Essencialmente, impõe-se o contínuo
desenvolvimento do leninismo, rejeitando qualquer leitura
mecanicista e reducionista de seu conteúdo, descondicionando os
conceitos teóricos da experiência particular de determinados
períodos históricos. Trata-se, então, de reafirmar de maneira
atualizada essa concepção e refutar os estigmas.
57 - É da compreensão dialética do leninismo que o movimento
espontâneo é fonte indispensável da luta e alimentação da causa
transformadora. O espontâneo é um momento primário do
consciente; espontâneo e consciente se articulam
necessariamente. O movimento espontâneo contra a exploração do
capital só se desenvolve, e se afirma, articuladamente com um
projeto político transformador viável – que exige a mediação do
consciente, vale dizer, da ciência social crítica. Essa teoria é
o marxismo – desenvolvida por Lênin –, notadamente quanto à
teoria do partido revolucionário. O consciente não se sobrepõe
mecanicamente ao espontâneo na prática da luta social – deve
fundir-se com ele para dar-lhe qualidade nova. Um não nega o
outro; filosoficamente, o consciente é a negação da negação do
espontâneo, superação dialética. Por isso, se exige do partido
revolucionário mediações adequadas, visando a construir sua
hegemonia. Daí o papel pedagógico dos comunistas no seio dos
movimentos, e dos movimentos para a experiência do militante
comunista. Daí a exigência de profunda ligação com o movimento
real e a exigência de um projeto político transformador viável.
Os temas partidos e movimentos se imbricam dialeticamente;
contradições entre eles existem, sem serem antagônicas. Exige-se
essa relação dialética, articulando unidade e luta na relação
entre o Partido e as diversas formas de movimentos sociais da
atualidade. Burocratização se afirma quando se nega essa
dialética, passa-se a compreender a organização como um fim em
si mesma, e esta se desliga do movimento real, das aspirações e
anseios da massa de trabalhadores e do povo, cumprindo um
pretendido papel de vanguarda, auto-proclamada. O Partido é o
portador de um projeto revolucionário; aspira infundir
consciência ao movimento real dos trabalhadores e das massas,
construir a hegemonia dos trabalhadores no processo
transformador, conquistar o poder político de Estado para erigir
nova sociedade.
58 - Por isso, o Partido defende o caráter autônomo dos
movimentos sociais, busca desenvolver seu caráter unitário em
torno dos interesses fundamentais dos trabalhadores e do povo,
esforça-se por politizá-lo no rumo da luta transformadora. Os
comunistas, que desenvolvem a consciência teórica da luta,
buscam alimentar-se da prática desses movimentos, e visam a
infundir-lhes, com mediações adequadas, o seu projeto político
transformador. É uma relação dialética de duas mãos, pedagógica
e organizativa, prolongada e perseverante, principalmente nestes
tempos de defensiva estratégica e de retomada da luta. O
objetivo essencial é elevar o grau de consciência e organização
do povo, e fortalecer as convicções militantes, no seio do que
pode vingar e fortalecer a luta pelo projeto político
transformador do Partido e sua maior estruturação orgânica.
59 - Ao lado disso, tem centralidade também nesse debate a
questão dos chamados sujeitos históricos fundamentais da
transformação. Várias correntes negam abertamente o papel do
proletariado, com base na fragmentação e na precarização reais
criadas pela reestruturação produtiva capitalista e a ofensiva
do pensamento único neoliberal. Temos afirmado que segue sendo
central o papel histórico potencial do proletariado. É nele que
reside, enquanto classe, a possibilidade histórica da
transformação social rumo a um novo regime, socialista.
Entretanto, em meio a uma sociedade fragmentada e anômica, novas
contradições emergem na vida social. Consciência transformadora
se desenvolve em outros sujeitos participantes de causas
variadas, expressas em movimentos de distintos matizes e formas.
Isso não pode ser negação do partido e do papel do proletariado;
mas exige dele sensibilidades e mediações novas, para não se
desligar do movimento real e para buscar repor a centralidade
dos trabalhadores como base social essencial à vitória da causa
transformadora. Exige, particularmente, um projeto político que
reflita as aspirações e anseios da massa de trabalhadores, que o
assuma como seu, em aliança com amplas massas populares, com a
juventude e a intelectualidade avançada. É a luta tenaz pela
construção de uma hegemonia avançada que possibilite retomar a
onda transformadora.
O fortalecimento orgânico do PCdoB
60 - O crescimento das fileiras do
PCdoB precisa ser levado a um patamar superior, se efetivamente
falarmos de nova fase de desenvolvimento. A batalha pela legalização foi travada de modo muito
prolongado, ao longo de quase dez anos, para se afirmar
integralmente. Agora, nossas respostas precisam ser mais
efetivas e rápidas. O Partido precisa ser massivo em sua
força orgânica, com uma militância ampla, numerosa, extensa.
Isso é o que atende às características de nossa sociedade,
aos caminhos da luta transformadora e ao papel político que
precisa ser desempenhado por ele na atualidade. É parte da
batalha pela construção da hegemonia. Isso nos propõe um
novo estirão de crescimento partidário. As novas condições
políticas do país permitem projetar esse salto.
61 - O crescimento realizado nos últimos anos
chegou a um teto provisório e há um claro movimento de
entra-e-sai nesse contingente. Falta organicidade à vida
partidária nas bases e em numerosos comitês intermediários e
é muito reduzida nossa base material e financeira. São
fenômenos que expressam a atual maturação de nossa corrente
de pensamento e ação na sociedade brasileira. A hora é de
ousadia para abrir nossas portas, fazer crescer o número de
militantes, superar práticas estagnadas nesse terreno,
estruturar mais larga e profundamente as organizações
partidárias, conferir-lhes funcionamento mais permanente,
principalmente nos níveis dos grandes municípios do país. A
base desse esforço é ampliar o volume de nossa força militante. O
PCdoB pode atrair numeroso contingente de pensadores e
ativistas, que nele enxergam o portador de um rico pensamento
sobre o Brasil e de transição ao socialismo, combinação ausente
em qualquer outra formação política do país. Atrairá também os
que despertam para a luta social e política, encorajados pelo
novo ciclo aberto no país. Muitos outros o buscarão como legenda
honrada para ingressar na vida pública. Podemos polarizar
parcela significativa das forças avançadas do país, e com isso
atrair aderentes em estratos da intelectualidade, dos militares,
dos trabalhadores do mundo da ciência, tecnologia e cultura,
interessados em abrir caminho a um novo Brasil.
62 - Isso se dará em meio à forte competição, principalmente do
PT, que aparece aos olhos da sociedade como partido da esquerda
e busca acentuar sua marca ligada aos trabalhadores. Situa-se aí
uma disputa estratégica, de mais ou menos larga duração, que nos
exige permanentemente um esforço ativo de vincar marca
classista. Os eixos fundamentais do crescimento estabelecidos no
10º Congresso permanecem válidos: esforço prioritário junto aos
trabalhadores, à juventude e à intelectualidade avançada, nos
grandes centros do país, a partir dos maiores municípios em cada
Estado.
63 - Articula-se à esfera das exigências políticas e
ideológicas superar gargalos organizativos, que é a esfera que
materializa nosso papel e a luta pelo nosso projeto político.
Aqui também se faz necessário retomar reflexões de fundo. Quanto
mais madura se faz uma indagação de um caminho próprio para a
transformação social em nosso país, tanto mais deve maturar a
resposta sobre a adequação do Partido e as formas organizativas
que assume. Nossa experiência será original, sem cópia de
modelos. Nós a vimos perseguindo desde o 8º Congresso, na
análise crítica da experiência de construção do socialismo no
século XX e nos ensinamentos dela extraídos, recusando os
modelos únicos e fixos de socialismo e de organização. Afirmamos
o caminho de construir um PC marxista-leninista, de princípios,
e moderno. Organizativamente, ele precisa se estruturar como um
PC de massas. Isso nos exige hoje dar mais passos no sentido de
desobstruir avanços. Subjetivamente, o Partido precisa saber se
imaginar maior, descondicionar pensamentos que entravam a noção
de uma organização política mais ampla e estruturada. Adequações
organizativas são necessárias para atender essa necessidade.
64 - Precisamos diversificar o perfil e o caráter da militância
comunista, tendo em consideração a sociedade atual e suas
relações de conflito, para um diálogo mais aberto entre o
Partido e ela, e para vincar mais fortemente a corrente
comunista no cenário político, social e cultural do país.
Militância não deve ser supressão de inclinações e
potencialidades pessoais. O militante é um cidadão, ou cidadã,
com sua vida pessoal, familiar, profissional, acadêmica,
subjetiva; e seu papel social é enriquecedor da militância
política. Ser militante é, mais precisamente, infundir os
valores e o projeto político do Partido à vida e luta sociais
nas quais se atua, em quaisquer graus e níveis. Visamos a manter
o valor central da opção militante: o compromisso de estar de
acordo com o Programa e Estatutos, de cumprir as decisões
tomadas coletiva e democraticamente, pertencer a uma de suas
organizações e contribuir com a sustentação do Partido. Devemos
debater como incorporar efetivamente cada militante nas decisões
dos rumos coletivos, com os distintos níveis de envolvimento
individual, e adequar-nos a esse mosaico militante, segundo o
nosso projeto político em cada situação concreta.
65 - Em correlação a isso, devemos diversificar o perfil e o
caráter de nossas Organizações de Base, de modo a refletir mais
proximamente a complexidade da sociedade, suas relações de
conflito social, e as potencialidades da ação de cada militante.
O 10º Congresso sistematiza algumas das características da
relação social na atualidade. Em nosso país continental, são
muito variadas as experiências de relação e luta social. Nossa
experiência de atuação na juventude, por intermédio da UJS, já é
uma originalidade própria do PCdoB. Infere-se que as
organizações do Partido pela base devem refletir essa
diversidade e exigências. São, ao lado do perfil e caráter da
militância, matérias que se sugere estudar para levar ao 11º
Congresso, com as eventuais adaptações estatutárias e
regimentais que reclamem.
66 - Ponto central da estruturação orgânica partidária, ainda
na atual fase, é a consolidação de órgãos dirigentes,
principalmente nos grandes municípios do país e os comitês
estaduais, no sentido de colocar o Partido à altura dos desafios
do momento. Será fruto de uma nova acumulação de forças
militantes, mas exigirá também romper com práticas limitadas que
são características de outros tempos e outras exigências. O
essencial é compreender que direções capazes e respeitadas são
uma construção do coletivo, e demonstração de consciência
política avançada quanto ao caráter de nossa luta. Exige-nos
também concepções, métodos e estilos adequados à extensão dos
papéis, funções e feições que o Partido precisa desenvolver.
Direções partidárias precisam ser colegiadas. Nas condições
atuais, é falsa a dicotomia entre dirigentes e lideranças
públicas. As lideranças partidárias não devem se sobrepor às
direções, mas sim integrá-las, com iguais direitos e deveres
entre todos. As funções e papéis dos dirigentes executivos
precisam ser valorizados e adquirirem dimensão pública, tendo
apoio de trabalho auxiliar, como é verificado na atividade
parlamentar. É necessário fortalecer e respeitar a
institucionalidade, aprimorando a democracia e o centralismo da
vida partidária. O centro de gravidade do trabalho de direção
precisa ser levado à esfera dos plenos dos comitês e suas
respectivas comissões políticas. O trabalho das secretarias é
indispensável no nível executivo, mas deve integrar e não se
sobrepor ao processo político de direção. Vamos instituir
alternância formal nas funções dirigentes, para superar práticas
atrasadas de dirigentes quase vitalícios. Deve ser combatida a
tendência a um papel excessivamente centralizador de um, ou
poucos, dirigentes, na condição de “provedores-gerais” do
trabalho de direção, que acabam conduzindo a um trabalho de
direção estreito, enfraquecido, acomodado, conciliador ou
burocratizado. São sobrevivências de noções estreitas de núcleos
dirigentes, próprias de outro tempo, que muitas vezes estiolam a
atividade. Devemos revigorar a vida interna partidária, zelando
pelo funcionamento desde a base, sobretudo entre os
trabalhadores, construindo uma dinâmica institucionalizada,
pondo os rumos do Partido efetivamente nas mãos do coletivo.
67 - A política de quadros precisa ser atualizada, em sintonia
com essas exigências. Quadros não são apenas os que atuam em
tempo integral em atividades dirigentes. O Partido precisa de
todos os quadros formados no seu pensamento, quer estejam à
frente de atividades dirigentes executivas, quer estejam na
atividade parlamentar ou de governo, na vida científica, técnica
ou profissional, ou com outros condicionamentos. Particularmente
nesta fase, ele precisa de uma infinidade de quadros técnicos,
assessores, consultores. Por sua vez, tais quadros precisam
encontrar as formas de integrar-se mais ao projeto partidário,
para cumprirem o papel de intelectuais orgânicos. Exige-se
largueza de visão de parte a parte para considerar o aporte que
podem trazer. Assim, deve-se superar o falso antagonismo da
contradição entre as exigências e a disposição, ou
disponibilidade, dos quadros. Haverá quadros profissionalizados
em tempo parcial, em tempo determinado, quadros
semiprofissionalizados, e quadros não profissionalizados também
indispensáveis. Isso exige a mediação de projetos políticos
concretos – para cada caso – numa orquestração de esforços por
cumprir o projeto político dos comunistas em cada situação,
dinamicamente definida. Tais quadros precisam ser trazidos à
esfera dos comitês dirigentes, visando a intensificar essa
relação dialética. De outra parte, os quadros dedicados
integralmente ao trabalho partidário, os funcionários
revolucionários, seguem sendo indispensáveis. Mas eles também
precisam renovar sua formação, atuar mais intensamente nos seus
papéis sociais. A política de profissionalização precisa ser
re-equacionada, de modo a conferir horizontes mais estáveis –
material e politicamente –, à atividade desses quadros e,
também, a produzir definição mais demarcada de condições de
tempo e projeto nessas situações, conferindo alternância na
atribuição desses papéis de profissionais.
68 - A situação reclama desenvolver as bases de sustentação
material do Partido. Na questão do sistema de contribuição
militante, essa extensão deve assumir marcadamente um caráter
político: vincular direitos militantes ao cumprimento do dever
de sua contribuição ao Partido. Essa é uma batalha prolongada,
pedagógica e ideológica, feita por etapas, cuja mediação é
essencialmente política: convocar a militância a definir e
realizar o projeto partidário. Não se vencerá essa batalha sem
persistência das instâncias dirigentes, e sem reforçar a
organicidade pela base. É um dos maiores fatores de atraso na
vida partidária, que expressa o grau de maturidade de nossa
corrente de pensamento e ação, e que condiciona o
desenvolvimento de nosso papel no cenário político. Ao lado
disso, é também de ordem política o desafio de pôr a questão da
sustentação material em primeiro plano de nossas atividades
dirigentes. Sustentação material é fruto de nossa atividade
política, das amplas bases sociais mobilizadas por nossa
orientação política na presente luta que travamos. Precisa ser
alvo de esforços especializados, concentrados e cotidianos,
buscando viabilizar projetos do Partido, política e
realisticamente definidos. Essa é uma das principais
deficiências de nossas atividades dirigentes e da atividade
política de nossas lideranças. Expressa uma visão idealizada e
espontaneísta da luta em que estamos envolvidos. É possível e
necessário equacionar o gargalo material de nossa atividade sem
abrir mão de nossos princípios e valores.
69 - Na esfera da comunicação, precisamos promover a mais ampla
democratização das informações partidárias, bem como a
divulgação, para milhões, das idéias e bandeiras de nosso
projeto político. O caminho é fortalecer um sistema nacional de
comunicação que tem seu instrumento mais dinâmico no Portal do
PCdoB; porém, requer também o relançamento d’A Classe Operária
enquanto órgão central do PCdoB, projeto jornalístico de
vanguarda, formador de consciências, orientador do Partido e das
massas, com os recursos, periodicidade – num primeiro momento
passando de mensal para quinzenal – e um sistema de distribuição
compatível com este caráter. Compreende também a combinação de
iniciativas regionais de agitação e propaganda e as cadeias
nacionais e estaduais de rádio e TV, campanhas publicitárias; o
fortalecimento da revista teórica Princípios; e a utilização de
outros instrumentos ligados a nosso trabalho parlamentar,
institucional, de massas e outros. O Partido precisa falar mais
com a sociedade, amparado em pesquisas sobre a sua imagem na
sociedade.
70 - O PCdoB tomará iniciativas no sentido de desenvolver
práticas comuns e criar espaços de debate político e ideológico,
num espírito de unidade e camaradagem, com os camaradas do PC
Brasileiro. A divisão dos comunistas brasileiros em duas
legendas na década de 60 do século passado é fato que pertence à
história do movimento comunista. As razões que a motivaram
radicam nas irrepetíveis circunstâncias que condicionaram o
movimento comunista mundial e a vida interna do Partido
Comunista no Brasil na segunda metade do século passado. Estamos
convencidos de que esses entendimentos e essa aproximação
conduzirão ao fortalecimento do movimento revolucionário em
nosso País.
71 - Os Planos de Estruturação seguem sendo a tática atual para
abordar a questão do fortalecimento do Partido. Tais planos
tinham duas dimensões: 1) superar as defasagens verificadas na
esfera ideológica e organizativa; e 2) superar o espontaneísmo
na sua construção, erigindo o planejamento como mote. Na
prática, são cinco anos de esforços. Permanece, com força, a
dimensão “plano” e enfraqueceu-se a dimensão “superação das
defasagens”. Isso confere às discussões sobre o PEP um caráter
administrativista e até burocrático, distanciado de seu papel
essencial. Para a etapa imediata, em curso, a centralidade está
no papel político e crescimento militante do PCdoB, sobretudo
entre os trabalhadores e o povo, consolidando comitês nos
maiores municípios do país, mais uma vez colocando o vetor
político no centro de sua aplicação. Devemos retomar e acelerar
os planos formulados no IV PEP em cada Estado. Entretanto, em
razão das novas condições, cabe à esfera da direção nacional
impulsionar a nova potencialidade que se abre para o seu
desenvolvimento. É na sua capacidade realizadora que se centra o
principal do novo estirão a perseguir na atividade partidária.
Nesse sentido, são objetivos imediatos: estruturar a Escola
Nacional; lançar o papel do IMG como instrumento da luta de
idéias; dar novo impulso ao Portal e relançar A Classe Operária
quinzenal; organizar campanha pela sede própria nacional;
realizar pesquisa nacional sobre o Partido; instituir novo
sistema informatizado nacional que permita o recadastramento
geral da militância; e modernizar o gerenciamento partidário,
instituindo técnicas de planejamento estratégico. O centro da
atual etapa, cumprindo o final do IV PEP, é a realização exitosa
desta Conferência Nacional, envolvendo o conjunto da militância
na definição dos rumos do Partido. No curso de seus debates,
devemos dar um balanço crítico nos desempenhos desses planos ao
longo dos últimos 5 anos, e decidir as bases, oportunidade e
formas que pode assumir um novo Plano, a ser formulado no âmbito
das Conferências Ordinárias Estaduais deste ano.
72 - O PCdoB cumpre seu 81º ano de existência, 41º de
reorganização, tendo alcançado vitória expressiva na consecução
dos objetivos traçados em seu último Congresso. Nesta fase, o
Partido precisa ser ainda mais ativo na luta política e teórica,
bem como na luta social. Quer, por isso, se defrontar com a
necessidade de ser um partido mais forte e estruturado, com uma
musculatura mais desenvolvida, que se expressa numa militância
mais numerosa, bases mais extensas, comitês mais estruturados
pelo país adentro. São os desafios da atual etapa. Precisamos
estar à altura de vencê-los. |