Lúcio Petit (Beto)

Lúcio Petit --

Militante do PCdoB
Lúcio Petit da Silva, apelido Beto. Cor: branca. Idade: 31 anos Sexo: masc. Peso: Cabelo: cast.esc./liso Barba: preta/cerrada. Bigode: preto. Data e local de nascimento: 01/12/43, em Piratininga/SP. Filiação: José Bernardino da Silva Júnior/Julieta Petit da Silva.

Biografia

"Cursou o primário em Amparo e o ginasial em Duartina (SP). Devido às dificuldades financeiras, começou a trabalhar muito cedo. Foi viver com um tio em Itajubá, onde terminou o colegial e o curso superior no Instituto Eletrotécnico de Engenharia. Fez parte do Diretório Acadêmico de sua Escola, iniciando aí sua militância política, encarregando-se do setor de cultura. Participou das atividade do Centro Popular de Cultura (CPC) da UNE. Escrevia para o jornal "O Dínamo", do Diretório Acadêmico, poemas e crônicas sobre os problemas sociais brasileiros. Em 1965 iniciou sua vida profissional em São Paulo. Foi engenheiro da Light, Engemix e Cia. Nativa, em Campinas.

Em meados de 1970, abandonou o trabalho e a cidade para continuar a luta política no campo. Foi para o Araguaia, onde já se encontrava sua irmã Maria Lúcia. No campo, destacou-se como excelente mateiro. Fez vários poemas e literatura de cordel que eram recitados pelos camponeses da região e nas sessões de terecô (religião local). Pertencia ao Destacamento Helenira Resende e foi promovido a vice-comandante, com a morte do comandante José Carlos, em 14/10/73.Está desaparecido desde o dia 14/01/74, após forte tiroteio com o inimigo."

Homenagens

Nome de rua em São Paulo - DOM 27/06/92 - dec. 31.804 de 26/06/92. Nome da antiga Rua Quinze, no Bairro Visconde do Rio Branco, em Belo Horizonte - Dec. N.º 6436 - 03/11/93 (Rua Viva - Homenagem aos mortos e desaparecidos políticos mineiros - pag. 324). Nome da antiga Rua 14, no Residencial Cosmo I, em Campinas, com início na antiga Rua 03 e término na antiga Av. 04 Cid. Sat. Íris - Lei nº 9497, de 20/11/97.
"Por iniciativa da professora de fotografia Theresa Braz Rosa, em parceria com a atual diretoria do Diretório Acadêmico da EFEI (Escola Federal de Engenharia de Itajubá), o ex-aluno Lúcio Petit da Silva recebeu uma homenagem no Bar Cultural (Centro Cultural Jaime Petit), na Sexta-feira, 3/08. Theresa Rosas era amiga de Lúcio e conviveu com as atividades culturais do homenageado. Para lembrar a atuação literária do então aluno da EFEI, a professora divulgou uma foto e alguns escritos de Lúcio Petit.

Dos trabalhos que ele deixou escrito, apenas duas crônicas foram encontradas publicadas no jornal do DA-EFEI O Dínamo. Segundo informações que a professora obteve no DA, os demais exemplares do jornal acadêmico, onde havia publicações mais significativas do estudante "foram apreendidas pelo Batalhão de Itajubá" nos anos sessenta. Para marcar o evento, Theresa deixou em cada mesa cópia da biografia e de duas crônicas de Lúcio Petit".

Dados referentes a prisão, morte e/ou desaparecimento:
Citado no Manifesto dos familiares dos mortos e dasaparecidos na guerrilha do Araguaia, no II Congresso Nacional Pela Anistia, novembro/79 - Salvador/BA, publicado no Diário Oficial do Estado do Rio de Janeiro de 11/04/80, ano VI, nº 69, parte II. ? Citado na Relação de pessoas dadas como mortas e/ou desaparecidas devido às suas atividades políticas, da Comissão de Direitos Humanos e Assistência Judiciária da Ordem dos Advogados do Brasil - seção do Estado do Rio de Janeiro - outubro de 1982. Relatório Arroyo: " Dia 14 (14/01/74), acamparam próximo a uma capoeira abandonada e onde a casa do morador havia sido queimada pelo Exército. Ao amanhecer do dia 14, dois companheiros foram ver se conseguiam alguma mandioca. (...)
Às 9h30, quando estavam preparando uma refeição, ouviram um barulho estranho na mata. Ficaram de sobreaviso, com as armas na mão. Viram então os soldadoos que vinham seguindo o rastro e passaram a uns dez metros de onde os companheiros se encontravam. Os soldados atiraram, ouviram-se várias rajadas. J., Zezim e Edinho [Hélio Luiz Navarro] escaparam por um lado. Não se sabe se os outros três - Piauí, Beto e Antônio - também escaparam."

Relatório do Ministério Exército:
Filho de José Bernardino da Silva Júnior e de Julieta Petit da Silva, sem data e local de nascimento. Engenheiro, militante do PCdoB, em 1970 foi deslocado para a região do Araguaia, onde utilizava os codinomes Beto e Roberto. É considerado desaparecido desde 29 Nov. 73, quando teria travado tiroteio com uma patrulha do Exército [Pode ser o seu irmão Jaime, que desapareceu em 22/11/73 após um tiroteio, poderia ter sido preso em 22/11 e morto no dia 29/11/73].

Relatório do Ministério da Marinha:
- Jul./72 - fez abertura da reunião do PCdoB na casa do irmão mais velho Jaime Petit, para discutir sobre documentos do partido. - Nov./74 - relacionado entre os que estiveram ligados à tentativa de implantação de guerrilha rural, levada a efeito pelo comitê central do PCdoB, em Xambioá. - Morto em Mar 74.

Relatório do Ministério da Aeronáutica:
Militante do PCdoB e guerrilheiro do Araguaia. Segundo o noticiário da imprensa nos últimos 18 anos e documentos de entidades de defesa dos direitos humanos, teria sido morto ou desaparecido no Araguaia. Não há dados que comprovem essa versão. Arquivos do DOPS/SP: tem documentos sobre sua militância Informações e depoimentos obtidos através da imprensa ou dos familiares: Foi dos últimos a serem presos. Eu vi o Beto e o Valdir, presos no helicóptero. Eles fingiam que não conheciam a gente e baixavam os olhos - depoimento de Adalgisa Morais da Silva, julho/96. "Seu Antônio, por sua vez, não esquece do dia em que um helicóptero do exército tirou com vida, os últimos três guerrilheiros capturados na região: Valdir, Beto e Antônio foram presos e transportados no dia 21 de abril de 1974, ironicamente, o dia de Tiradentes.

Seu Tota (...) servi como guia do Exército, não podíamos falar nada, nem pras nossas esposas. Eu vi quando pegaram o Valdi, o Beto e o Antônio e levaram embora num helicóptero. Eles estavam vivos e o Valdi com um "lexo"(ferida em estado grave) [ferida de leischimaniose] na perna, que não podia nem andar. Mesmo assim ele ouvia uma música num rádio que tocava e alegre batucava com a perna, mesmo sabendo que ia morrer. Foi no dia 21 de abril de 1974, recorda em voz baixa. "... que "Valdir" e "Zé Carlos" foram capturados na região do Saranzal; que "Valdir" tinha um hematoma na perna e era conduzido por "Zé Carlos" ; que viu "Valdir" e "Zé Carlos" ao passarem por sua casa presos por Nonato, com destino à Bacaba; que "Zé Carlos", parece, era marido de "Dina", uma moça morena, que exercia um cargo elevado na Vale do Rio Doce na Bahia; que possivelmente "Zé Carlos" era um ex-terceiro-sargento do Exército no Rio de Janeiro..." [Essa historia está um pouco confusa; as informações parecem corretas mas com erro de datas e troca de algumas pessoas. Zé Carlos pode ser Lúcio] "Desaparecido, segundo moradores da região, no dia 21 de abril de 1974, juntamente com Antônio Alfaiate e Uirassu Batista (Valdir). Preso, provavelmente levado para Bacaba."

"Sra. Margarida Ferreira Félix, (...) que no dia 21 de abril de 1974, os três últimos guerrilheiros foram presos na casa do Manezinho das Duas, quando eles vieram pedir um pouco de sal; que os guerrilheiros eram o Beto (Lúcio Petit da Silva), Antônio (Antônio Ferreira Pinto) e Valdir (Uirassu de Assis Batista); que os soldados do Exército enganaram os guerrilheiros, simulando que estavam pousando um helicóptero na casa da declarante, mas na verdade uma equipe de soldados foi para a casa do Manezinho das Duas, e lá prenderam os três; que o marido da declarante ajudou a embarcar os três guerrilheiros vivos em um helicóptero do Exército; (...)"

"Maria Nazaré Ferreira Brito (...) que além de Alice, conhecia também Zé Carlos, Joca, Maria, Luiz, Cid, Mauro, Beto, Regina (esposa do Beto) e Alandrino; que em caso de doença, as pessoas eram sempre socorridas pelos paulistas; (...)que tempo após a mudança, não sabendo precisar quanto, soube, através de um vizinho, chamado João Cardoso, que o Exército buscava os paulistas porque este eram acusados de terroristas; (...) que antes da declarante deixar a sua casa na Faveira, Alice, Zé Carlos e Beto foram até a casa da declarante para avisar se algumas pessoas do Exército lhe perguntassem alguma coisa que era para falar a verdade sobre os fatos e que a declarante não poderia acompanhar os paulistas porque a declarante estava grávida (...)".

"Sr. José Moraes Silva, (...) que oferecido para reconhecimento do declarante as fotografias dos desaparecidos políticos da Guerrilha do Araguaia, reconheceu Beto (Lúcio Petit da Silva), Zé Carlos (André Grabois), Landinho (Orlando Momente), Sônia (Lúcia Maria de Souza), Fátima (Helenira Rezende Nazareth), Tuca (Luiza Augusta Garlippe), João Araguaia (Dermeva; da S. Pereira), Rosa (Maria Célia Correa) e Osvaldão (Osvaldo Orlando da Costa)".

"Sr. Lauro Rodrigues dos Santos, (...) que a partir do ano de 1970 começou a manter contatos com as pessoas conhecidas como guerrilheiras, a saber, Osvaldão (Osvaldo Orlando da Costa), Zé Carlos (André Grabois, Alice (Criméia Alice Schmidt), dona Maria (Elza Monnerat), Joca (Libero Jean Carlo Castiglia), Luis (Guilherme Gomes Lund), seu Mário (Maurício Grabois), Sônia (Lúcia Maria de Souza), Zezinho (Marcos José de Lima), Alandrino (Orlando Momente), Cid (João Amazonas), seu Beto (Lúcio Petit da Silva) e sua companheira Regina (Lúcia Regina de Souza Martins), Goiano (Divino Ferreira de Souza); (...)".

"Sr. Pedro Moraes da Silva, (...) que, oferecido para reconhecimento do declarante, as fotografias dos desaparecidos políticos da Guerrilha do Araguaia, reconheceu Sônia (Lúcia Maria de Souza), João Araguaia (Dermeval da S. Pereira), Zé Carlos (André Grabois), Landinho (Orlando Momente) que usava um chapéu de couro de macaco da noite com rabo; Tuca (Luiza Augusta Garlipe), Beto (Lúcio Petit da Silva), Rosinha (Maria Célia Correa), Dina (Dinalva Oliveira Teixeira), Cristina (Jana Moroni Barroso) que ia sempre aos sábados lavar a roupa na casa do declarante e se escondia no mato, esperando até que a roupa secasse, Nunes (Divino Ferreira de Souza), Fátima (Helenira Resende de Souza Nazareth), com quem o declarante se perdeu no mato, de noite, quando foi buscar um remédio para Sônia, que estava fazendo o parto de seu mãe quando nasceu a Valderice; Duda (Luis Renê Silveira e Silva), cujo corpo foi jogado em castanhal na Região Gameleira, (...)".

Sr. Antônio Félix da Silva, (...) que é conhecido na região como seu Tota; que, chegou na Região do Araguaia em 16.07.1972, mais precisamente na região do Caçador; (...); que o declarante foi obrigado a servir de guia para os militares na região de Água Boa, Caçador e Borracheiro, (...); que os militares pousaram em uma clareira perto de sua casa e foram a pé até a casa de Manezinho das Duas e se esconderam em um bananal próximo da casa; que no dia seguinte, pela manhã, o declarante foi até a casa do Manezinho das Duas, conforme determinação dos militares; que lá chegando, por volta das 7 horas da manhã, do dia 21.04.1974, o declarante viu Antônio, Valdir e Beto sentados em um banco na sala da casa, com os pulsos amarrados para trás com uma corda fina, parecendo ser de nylon; que o declarante viu um militar se comunicando pelo rádio; que, por volta das 9 horas da manhã, chegou o helicóptero que levou os militares e os três prisioneiros; que o declarante apenas percebeu que Valdir estava ferido, parecendo ser um lecho na batata de sua perna, que atingia metade da mesma, tendo dificuldade para andar até o helicóptero; (...)que mostradas as fotografias dos desaparecidos políticos da Guerrilha do Araguaia, reconheceu Zé Carlos, ...; Nelson, Valdir, ... , Beto, Antônio, Orlandinho, que usava um chapéu de macaco da noite com rabo". "Sra. Adalgisa Moraes da Silva, (...); que os guerrilheiros haviam colocado fogo em uma ponte na Transamazônica, no Município de São Domingos; que a Rosinha, a Sônia, o Nelito, o João Araguaia, o Nunes, o Orlandinho, o Beto, o Alfredo, o Zé Carlos, o Edinho e Valdir e o Zebão colocaram fogo na ponte para impedir que os carros passassem; que eles atacaram um posto da polícia militar e colocaram um soldado para ir à pé até Marabá, vestindo apenas uma cueca, pegaram as armas, as facas, o Alfredo vestiu a roupa do sargento, e passaram logo após na casa da declarante, vestindo roupa da Polícia Militar; que eles passaram na casa da declarante um dia após os fatos; que eles queimaram a ponte numa 6a feira, atacaram o posto da Polícia Militar no Domingo e estiveram na casa da declarante na 2a feira seguinte; (...) que a declarante viu o Valdir e o Beto vivos, no dia em que um avião chegou trazendo os dois, que ficaram dentro do avião para comer no acampamento da Bacaba; que a declarante ficou muito triste ao vê-los no avião; (...) ".

"Pedro Matos do Nascimento, vulgo Pedro Mariveti (...) Em outra oportunidade o depoente estava na lavoura quando viu e cumprimentou Valdir, Landinho, Beto, Nunes e Alfredo. Mais tarde eles retornaram e disseram que tinham assaltado o Posto Policial. O depoente deixou eles descansarem um pouco e sua casa e depois eles partiram foi a última vez que os viu. (...)".

"Sinvaldo de Sousa Gomes (...) que o filho do Sargento Santa Cruz, presente na ocasião, sugeriu que seu pai revelasse os fatos ocorridos naquela época, inclusive que mostrasse diversas fotos que registram a prisão de guerrilheiros e a ação do Exército; que o declarante, Paulo Fontelles e o filho do Sargento Santa Cruz, que parece se chamar Belchior, foram até a cidade de Paraupebas para ver as fotografias; que as fotografias estavam na casa do filho do Sargento Santa Cruz, cujo endereço não sabe informar, mas que fica na parte central da cidade e que pode indicar pessoalmente a residência; que o declarante viu diversas fotografias, cujas imagens estavam em 'monóculos'; que as fotos registravam o seguinte: foto 1 - um helicóptero conduzindo o guerrilheiro Beto, que estava amarrado; (...)".

Texto do Dossiê dos mortos e desaparecidos políticos a partir de 1964, editado pelo governo de Pernambuco no governo Arraes