Luís Renê Silveira (Duda)

Luís Renê--

Militante do PCdoB
Apelidos: Duda, Pedro.
Cor: branca Altura: 178 cm Idade: 23 anos Sexo: masc. Peso: 65 Kg. Cabelo: cast.esc./liso Sapato: 40. Data de nascimento: 15/07/51, no Rio de Janeiro. Filiação: Renê do Oliveira e Silva/Lulita Silveira e Silva. RG: 2 301 793 exp. pelo Inst. Felix Pacheco. Alistamento militar: 914 839. Título de eleitor: 134 528 - 7 ª Zona Eleitoral /RJ.
Ficha antropométrica: - canhoto - daltônico - nunca teve fraturas - tinha bronquite alérgica desde os 6 meses de idade - abreugrafia 24/03/70 - dentista: Dr Hélio Cunha - rua Visconde de Pirajá, 82/1003 - tel. 021- 227 5901 - extraiu dois dentes para dar espaço, pois a arcada era pequena - dentes largos - encavalados e tortos, na arcada inferior - possuía blocos de ouro em alguns dentes molares.

Biografia

"Cursou o primário e o secundário no Instituto La Fayette. Em 1970, ingressou na Escola de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro, abandonando o curso no ano seguinte. Contava apenas 20 anos quando tomou a decisão de ir para o Araguaia. Com seu jeito calado, estava sempre atento aos relatos dos companheiros mais experientes. Reclamava sempre mais a sua participação nos trabalhos mais difíceis. Apesar de ter cursado apenas o 1º ano de medicina, dedicava-se bastante ao estudo, pois, como dizia sempre, se não me formei na cidade, serei médico formado na 'Universidade do Araguaia'. Compreendia que os conhecimentos de saúde ser-lhe-iam importantes. Mas sua dedicação ao estudo não se restringia somente a esta área; gostava de estudar as questões políticas e econômicas e não era raro vê-lo lendo jornais velhos que serviam de papel de embrulho.
Está desaparecido desde janeiro de 1974."
"Ele era um idealista, um garoto de 19 anos, que só pensava em consertar o mundo. Tinha 20 anos quando abandonou a escola de medicina, no 1º ano, e decidiu ir para o Araguaia. Ele era do PCdoB. Disse que iria para o interior fazer um trabalho de campo e o que havia aprendido de medicina era o bastante, porque as doenças do campo são as verminoses. O objetivo dele era dar assistência às pessoas e mostrar-lhes os direitos que elas têm. O que eu quero não é indenização nenhuma ... Queria era poder descansar do lado de meu marido (ele morreu sem nenhuma esperança de saber se o filho estava realmente morto ...) e do meu filho!" [Depoimento de Lulita Silveira e Silva, mãe de Luiz René].

Homenagens:
Nome da antiga Rua 18, no Residencial Cosmo I, em Campinas, com início na antiga Av. 03 Cid. Sat Íris e término na antiga Av. 04 Cid. Sat. Íris - Lei nº 9497, de 20/11/97.

Dados referentes a prisão, morte e/ou desaparecimento:
Citado no Manifesto dos familiares dos mortos e dasaparecidos na guerrilha do Araguaia, no II Congresso Nacional Pela Anistia, novembro/79 - Salvador/BA, publicado no Diário Oficial do Estado do Rio de Janeiro de 11/04/80, ano VI, nº 69, parte II.
Citado na Relação de pessoas dadas como mortas e/ou desaparecidas devido às suas atividades políticas, da Comissão de Direitos Humanos e Assistência Judiciária da Ordem dos Advogados do Brasil - seção do Estado do Rio de Janeiro - outubro de 1982.
Relatório Arroyo: 30/12/73 - Estava vivo. No dia 19/01/74, Ângelo e Zezinho se separaram de Luiz Renê Silveira e Hélio. Hélio e Luiz Renê nunca mais foram vistos.

Relatório do Ministério Exército: Filho de Renê de Oliveira e Silva e de Lolita Silveira e Silva, nascido em 15 Jul. 51, no Rio de Janeiro/RJ.
Militante do PCdoB, participou ativamente da guerrilha do Araguaia em 1971, onde integrava o Destacamento A, utilizando-se dos codinomes Pedro e Duda.

Relatório do Ministério da Marinha: - Set./73 - foi deslocado para o "campo" durante guerrilha rural/PCdoB.
- Mar 74 - foi morto em combate em Xambioá.

Relatório do Ministério da Aeronáutica: Militante do PCdoB e guerrilheiro do Araguaia. Segundo o noticiário da imprensa nos últimos 18 anos e documentos de entidades de defesa dos direitos humanos, teria sido morto ou desaparecido no Araguaia. Não há dados que comprovem essa versão.

Arquivos do DOPS/SP:
Informações e depoimentos obtidos através da imprensa ou dos familiares:
Meados de 1974 -Duda foi preso com a perna quebrada por projétil de arma de fogo e levado para a base militar de Bacaba - primeiras informações recebidas por sua mãe, através de Cirene Barroso. (Júlia Gomes Lund e outros - Ação Ordinária - Processo 108/83 - Justiça Federal.)

"Conheci o "Nelito", a "Cristina", o "Duda", o "Antônio", o "Nilo", a "Rosinha", o "Zé Carlos", o "Lino", o "Waldir", o "João Araguaia", a "Fátima", a "Sônia"e o "Edio". Eles convidavam o povo para a libertação. ...Nelito e Zé Carlos foram mortos na localidade do Caçador, pegaram o Édio vivo, o Duda teve a perna quebrada; a Rosinha eu vi ser presa, encontrei-a na Vila São José e ela pediu para a gente rezar por ela, pra não morrer." (Depoimento de Maria Raimunda Rocha).
"Ainda assim, alguém se disporia a dar o seu depoimento. E mencionando ainda mais inúmeros guerrilheiros que foram pegos vivos e feitos prisioneiros. José da Luz Filho, lavrador, que teve seu pai preso durante sete meses em Marabá, contou que:
Conheço o Nelito, Cristina, Piauí, Edinho, Duda, Valdir, Manoel, Mário, Zé Carlos, Daniel, Paulo, Dina, Sônia, Josias, Nilo. Eles quase não sabiam trabalhar. Ensinei eles a fazer tudo, e trabalhei muito pra eles. Eles andavam muito, pra cima e pra baixo (...).
O Duda também foi entregue em São Geraldo. Depois o Piauí se entregou também. O João Araguaia também se entregou na casa da minha madrinha Nazaré Rodrigues de Souza. O Exército ficou com eles vivos...
José da Luz Filho explicaria ainda que o 'se entregar' consistia na busca de contato com lavradores, que estavam com suas casas guarnecidas por tropas. De todos os citados, propriamente apenas 'Duda' talvez haja realmente se entregado ao Exército.
(...)

Mas de tantas interrogações, uma deixou-nos varados de angústia. Onde estão os que foram presos, vivos? Dina, Áurea, Daniel, Rosinha, Lia, Nelito, Cristina, Josias, Duda, João Araguaia, dezenas talvez, onde estão?"
"Um mês depois, quando guiava o mesmo pelotão às margens do Igarapé do Gameleira, Vanu presenciaria as cenas descritas por ele como as mais violentas que viu em toda a sua vida: um helicóptero aterrisou trazendo três prisioneiros: Antônio de Pádua, o Piauí, Luís Renê da Silva, o Duda, e Maria Célia Corrêa, a Rosinha. Um oficial ordenou que os presos, todos com os olhos vendados, saíssem do avião e andassem cinco passos em direção ao rio, com as mãos na cabeça. Em seguida, centenas de tiros foram disparados contra eles.
- Foi horroroso: as cabeças dos guerrilheiros ficaram totalmente destruídas, cheias de miolos e sangue expostos - lembrou Vanu, ressaltando que desta vez os próprios soldados enterraram os corpos em valas próximas à cabeceira do rio, onde hoje fica o lote de Antônio Branco."

"O próprio Zé da Onça diz conhecer uma senhora, cujo nome não revelou, que sabia onde estão as ossadas de Nelson Piauhy Dourado (Nelito), comandante do B, Luiz Renê Silveira e Silva (Duda) e do camponês Pedro Carretel, todos mortos no mesmo dia. Zé da Onça também afirma que na localidade de Santa Cruz foram enterrados outros guerrilheiros. 90 [Nelson e Pedro Carretel podem ter morrido no mesmo dia, mas Duda não, porque foi ele que contou a Angelo Arroyo sobre o tiroteio havido no dia 02/01/74, que provavelmente tenha atingido Nelito e que desde então desapareceram Maria Célia, Jana e Pedro Carretel].
"Desaparecido em meados de março de 1974, juntamente com Hélio Navarro (Edinho). Sua sepultura encontra-se na região do Castanhal Brasil-Espaha, Município de São Domingos."
Tinha dentes de ouro - depoimento de Adalgisa Morais da Silva, julho/96.

Edinho e Duda foram presos juntos e levados para Bacaba. Edinho foi baleado e o Duda não - depoimento de Peixinho, julho/96.
O Duda ou o Valdir foi morto na Fazenda Brasil Espanha. Eles jogaram muitas bombas em cima deles - depoimento de Agenor Morais da Silva [este depoimento é contraditório com outro em que ele diz que não sabe quem é o morto que viu enterrado na Fazenda Brasil Espanha].

Preso em São Geraldo em casa de um camponês - depoimento de José da Luz Filho. (Revista da OAB - anos X/XI - Vols. XII/XIII - set. a dez. de 1980 e jan. a abril de 1981 - nºs 27/28.)
1974, preso com ferimento por tiro, na perna. (Depoimento de Elza Monerat à Comissão de Representação Externa do Congresso.)
"Maria Nazaré Ferreira Brito (...) que além de Alice, conhecia também Zé Carlos, Joca, Maria, Luiz, Cid, Mauro, Beto, Regina (esposa do Beto) e Alandrino; (...) ".

"Sr. Pedro Moraes da Silva, (...) que, oferecido para reconhecimento do declarante, as fotografias dos desaparecidos políticos da Guerrilha do Araguaia, reconheceu Sônia (Lúcia Maria de Souza), João Araguaia (Dermeval da S. Pereira), Zé Carlos (André Grabois), Landinho (Orlando Momente) que usava um chapéu de couro de macaco da noite com rabo; Tuca (Luiza Augusta Garlipe), Beto (Lúcio Petit da Silva), Rosinha (Maria Célia Correa), Dina (Dinalva Oliveira Teixeira), Cristina (Jana Moroni Barroso) que ia sempre aos sábados lavar a roupa na casa do declarante e se escondia no mato, esperando até que a roupa secasse, Nunes (Divino Ferreira de Souza), Fátima (Helenira Resende de Souza Nazareth), com quem o declarante se perdeu no mato, de noite, quando foi buscar um remédio para Sônia, que estava fazendo o parto de seu mãe quando nasceu a Valderice; Duda (Luis Renê Silveira e Silva), cujo corpo foi jogado em castanhal na Região Gameleira, que hoje é a Fazenda Brasil-Espanha; que viu Duda, quando passou em frente da casa do Vanu no tempo em que declarante lá morava, amarrado e seguido por mais ou menos 20 soldados do Exército, fardados; que os pulsos de Duda já estavam sem pele em razão das cordas que o amarravam; que reconheceu a ossada de Duda, em virtude da camisa esticada em cima de uma árvore e pelos ossos da perna que eram compridos por ser Duda muito alto; que o declarante pegou no crânio e viu um buraco de bala no meio da testa; (...)".
"Srª. Rocilda Souza dos Santos (...) que a declarante e seu marido conheciam Nelito, Rosa, Sônia, Cristina, João Araguaia, Paulo, Edinho, Londrin, Duda, os quais diziam serem guerrilheiros, entretanto o Exército dizia que eles eram terroristas; (...)".
"Sra. Adalgisa Moraes da Silva, (...)que a declarante se recorda de uma vez em que caiu um pau (árvore) na cabeça do Sertão, que já morreu, ferindo-lhe muito, e a Sônia, a Cristina, o Duda e o Nunes trataram dele (...) ".

"Sr. Agenor Moraes Silva, (...); que o Duda foi pego na região do Chega com Jeito; que o declarante foi chamado na Bacaba, ao que se recorda no final de 1973, e viu o Duda preso, algemado, dentro de uma sala; que o Duda foi levado para a mata, porque descobriram que ele teria um encontro com a Cristina; que o declarante foi liberado da Bacaba e foi para sua casa; que sua casa ficava próxima do local onde Cristina e Duda iriam se encontrar, na Fortaleza; que o declarante ficou sabendo que a Cristina foi morta naquele dia; (...)que o declarante foi guia do Exército e acompanhou uma turma até o rio Jacu, onde ocorreu um tiroteio, e uma turma de soldados conduzida por seu cunhado Vanu já se deslocava na mesma direção; que o tiroteio ocorreu na cabeceira do rio Jacu, na Fazenda São Raimundo, perto de Chega com Jeito; que o declarante sabe que ninguém morreu ou ferido no tiroteio, e que o Comandante de uma das turmas disse que era para pegar as mulheres vivas; que o declarante viu um corpo na floresta, 15 dias depois do tiroteio, na mesma região, na tranqueira de uma castanheira, em estado de decomposição, porém não conseguiu reconhecer com certeza de quem era, mas que achava ser de Duda, não tendo certeza; que o corpo encontrado era semelhante com Duda por ser alto, mesma cor da pele e jovem; que o cadáver tinha marcas de sangue, com sinais de que havia sido atingido no lado direito do peito e havia muitas marcas de tiros de metralhadora; que o declarante chegou a ouvir de sua casa rajadas de metralhadora, provavelmente foram disparadas no local em que ele achou o corpo, porque era próximo de sua casa; que no dia em que ouviu as rajadas de metralhadora, os militares estavam acampados próximo da casa do declarante, na OP2; que após oito dias do tiroteio, o declarante ao caminhar pela mata encontrou o referido cadáver; que o declarante viu diversos militares do Exército chorando com medo de entrar na mata; que viu Duda sentado no Bacaba, que estava numa sala, com as mãos algemadas para trás; que um empregado do restaurante do Bacaba disse que iriam levar o Duda ao encontro de Cristina e outros guerrilheiros, já que os guerrilheiros tinham encontro marcado entre eles de 15 em 15 dias, para planejar novas ações; (...)".
"Manoel Leal de Lima (...) conhecido como Vanu (...) que o declarante morava na localidade perto de Chega com Jeito, onde hoje é a Brasispânia; que conhecia os guerrilheiros mas não mantinha contato com eles; (...) que lembra do Piauí, Zé Carlos, Fátima, Sônia, Cristina, Rosinha e Duda; (...) que chegou a ver presos o Piauí, o Duda e o Pedro Carretel; que esses três foram transformados em guia; que esses três foram mortos no final da guerra no Bacaba; que o depoente acompanhou a equipe mas se separou antes deles serem mortos, só ouviu os tiros e uns quinze dias depois viu os corpos numa toca e nunca mais viu nenhum dos três; que esses três não ficavam no mesmo alojamento que os outros guias e sabe que um mateiro, que não se lembra se era Muniz ou Trosoba estava com os soldados quando foram mortos os três guias; (...)".

"Raimundo Nonato dos Santos, vulgo Peixinho, (...)Uma vez encontraram os guerrilheiros Edinho e Duda; houve confronto e Edinho levou três tiros do capitão Salsa, também conhecido como Aníbal e do soldado Ataíde. Não houve confronto, pois Edinho e Duda não atiraram nos soldados. (...) depois da prisão nunca mais viu Duda ou Edinho, que apesar de baleado estava vivo e foi posto numa padiola e levado num helicóptero. O confronto foi na cabeceira da Borracheira, na direção da Fortaleza. O Duda estava desarmado, mas o Edinho carregava uma espingarda feita pelos próprios guerrilheiros, que tinha o apelido de Zezina. (...) Esclarece que a morte da Cristina ocorreu cerca de dois meses após a prisão de Duda e Edinho.(...).

Texto do Dossiê dos mortos e desaparecidos políticos a partir de 1964, editado pelo governo de Pernambuco no governo Arraes