
Maria Lúcia Petit |
Militante do PCdoB
Cor: branca Altura: 160 cm Idade: 22 anos Sexo: fem.
Cabelo: cast./escuro/liso/curto. Data e local de nascimento: 20/03/50, em Agudos/SP. Filiação: José Bernadino da Silva Júnior/ Julieta Petit da Silva. RG: 4 570 149 - expedido pela SSP/SP (FD V 3333 - V 3222).
Biografia
"Iniciou seus estudos em Duartina/SP, concluindo o curso normal em 1968, no Instituto de Educação Fernão Dias, na capital. Participava ativamente do movimento secundarista. Em 1970, com apenas 20 anos, mudou-se para a região de Caianos, no Araguaia, com o propósito de dar continuidade a seu trabalho político. Em Caianos, além do trabalho na roça, Maria Lúcia dedicou-se ao magistério, conquistando grande simpatia dos moradores da redondeza.
Foi morta durante a 1ª Campanha das Forças Armadas, realizada entre os meses de abril a julho de 1972."
Foi assassinada pelas forças governamentais, no dia 16/06/72 e enterrada no cemitério de Xambioá. Exumada em 29/04/91, seus restos mortais foram identificados em 14/05/96, pelo Departamento de Medicina Legal da UNICAMP. Seus restos mortais foram trasladados finalmente para o jazigo da família em Baurú, em 16/06/96, 24 anos após a sua morte.
Homenagens
Nome de escola primária na Freguesia do Ó, em São Paulo.
Nome da antiga Rua Dois, no Bairro Visconde do Rio Branco, em Belo Horizonte - Dec. N.º 6436 - 03/11/93 (Rua Viva - Homenagem aos mortos e desaparecidos políticos mineiros - pag. 331).
Nome de rua em Campinas - Lei nº 9497, de 20/11/97.
Dados referentes a prisão, morte e/ou desaparecimento:
Citada no Manifesto dos familiares dos mortos e dasaparecidos na guerrilha do Araguaia, no II Congresso Nacional Pela Anistia, novembro/79 - Salvador/BA, publicado no Diário Oficial do Estado do Rio de Janeiro de 11/04/80, ano VI, nº 69, parte II.
Citada na Relação de pessoas dadas como mortas e/ou desaparecidas devido às suas atividades políticas, da Comissão de Direitos Humanos e Assistência Judiciária da Ordem dos Advogados do Brasil - seção do Estado do Rio de Janeiro - outubro de 1982.
Relatório Arroyo: "Em meados de junho, três companheiros dirigidos por Mundico [Rosalindo Souza] procuraram um elemento de massa, João Coioió, para pedir-lhe que fizesse uma pequena compra em São Geraldo. Coioió já tinha ajudado várias vezes os guerrilheiros com comida e informação. Ficou acertado o dia em que ele voltaria de São Geraldo para entregar as encomendas. À noitinha desse dia aproximaram-se da casa Mundico, Cazuza [Miguel Pereira dos Santos] e Maria [Maria Lúcia Petit] mas perceberam que não havia ninguém. Cazuza afirmou que ouvira alguém dizendo baixinho: "pega, pega". Mas os outros dois nada tinham ouvido. Acamparam a uns 200 metros. Durante a noite ouviram barulho que parecia de tropa de burro chegando na casa. De manhã cedo, ouviram barulho de pilão batendo. Aproximaram-se com cautela, protegendo-se nas árvores. Maria ia na frente. A uns 50 metros da casa, recebeu um tiro e caiu morta. Os outros dois retiraram-se rapidamente. Dez minutos depois, os helicópteros metralhavam as áreas próximas da casa. Alguns elementos de massa disseram, mais tarde, que Maria fora morta com um tiro de espingarda desfechado por Coioió. Este logo depois desapareceu com toda a família."
Relatório do Ministério Exército: Filha de José Bernardino da Silva Júnior e de Julieta Petit da Silva, natural de Agudos/SP.
Militante do PCdoB, em 1970 deslocou-se para a região de Caianos, no Araguaia, onde utilizava o codinome de "Maria".
Relatório do Ministério da Marinha: - Jun./72 - morta durante enfrentamento na tarde do dia 16/06 próximo a Pau Preto.
Relatório do Ministério da Aeronáutica: Militante do PCdoB e guerrilheira no Araguaia. Segundo o noticiário da imprensa nos últimos 18 anos e documentos de entidades de defesa dos direitos humanos, teria sido morta ou desaparecida no Araguaia. Não há dados que comprovem essa versão.
Arquivos do DOPS/SP:
Fichas entregues ao jornal O Globo em 1996: foto do cadáver.
Relatório das Operações contraguerrilhas realizadas pela 3ª Bda Inf. no Sudeste do Pará - Ministério do Exército - CMP e 11ª RM - 3ª Brigada de Infantaria - Brasília/DF, 30 out 72; assinado pelo General de Brigada - Antônio Bandeira - Cmt da 3ª Bda Inf.: - Nesta fase das operações, que cobriu o período de 27 Mai 72 a 07 Jul 72, foram obtidos os seguintes resultados:
Morte de três terrorista
Bergson Gurjão Farias (Jorge) - morto a 02 Jun 72, em Caiano - pertencia ao Destacamento C - era chefe do grupo 700.
Maria Petit da Silva (Maria) - morta a 16 Jun 72, em Pau Preto I - pertencia ao Grupo 900 (Destacamento C)
Kleber Lemos da Silva (Carlito) - morto a 29 Jun 72, em Abóbora - pertencia ao Grupo 900 (Destacamento C)
A primeira identificada
Depoimentos obtidos através da imprensa ou dos familiares:
"... que na prisão viu chegarem os corpos de alguns guerrilheiros ... Maria Lúcia Petit, es-estudante no Rio..." [Depoimento de José Genoino Neto].
"Nesse período também morre a Maria Lúcia Petit. ..." [Depoimento de José Genoino Neto].
"Maria Petit da Silva, abatida ao se aproximar de uma casa de camponeses." [Depoimento de Elza Monerat].
"Nesse período, também morre Maria Lúcia Petit, estudante secundarista do interior de Minas, que tinha dois irmãos na guerrilha, o Jaime Petit e outro de que não lembro o nome. Depois de morta, eles vão violar o corpo dela para saber se era virgem ou não." 149
"Mas nem sempre o cadáver de um guerrilheiro era dividido em duas fotos. Havia fotos de corpo inteiro. Em Brasília, no quartel do PIC - Pelotão de Investigações Criminais - foram exibidas as fotos do velho comunista Francisco Chaves, Maria Lúcia Petit, Idalício, Ciro Flávio..."
"A expectativa dos parentes de desaparecidos políticos é de que os legistas da Unicamp identifiquem as ossadas como pertencentes a Maria Lúcia Petit da Silva, militante do PCdoB, morta aos 21 anos, entre abril e junho de 1972, e a José Francisco Chaves, operário naval morto em combate no dia 20 de setembro de 1972, aos 62 anos."
"Ainda assim, Criméia Schmidt considerou a viagem produtiva. O fato de localizarem a ossada que pode ser de Maria Lúcia Petit da Silva embrulhada em tecido de pára-quedas e amarrada com cordas de nailon, "levanta muitas suspeitas", afirmou. A ossada apresentava uma perfuração a bala na nuca e foi enterrada junto com um cartucho de espingarda calibre 20. Além disso, a etiqueta contendo o nome do fabricante do pára-quedas, que poderia identificar seu proprietário, foi cortada, possívelmente antes que o equipamento fosse usado como mortanha."
"Além de Haas, lá estariam Bergson Gurjão Farias, Áurea Valadão, Daniel Callado e Maria Lúcia Petit. Com base nessa suposição, uma equipe da qual faziam parte Piveta, o legista Fortunato Badan Palhares, da Unicamp, e Sônia Haas, irmã de João Carlos, deslocou-se até a região, há uma semana.
Em lugar da ossada de Haas, como era esperado, encontrou-se a ossada de uma jovem, com ferimento no crânio, envolta num pára-quedas, cujo número de identificação foi cuidadosamente retirado. Esse detalhe sutil fez com que se levantasse a hipótese de a ossada ser de uma guerrilheira, possivelmente Petit. Mas a morta tinha cabelos castanhos e Petit cabelos pretos, segundo uma das suas amigas, a ex-guerrilheira Regilena Carvalho Leão."
"A revelação de Ernane de que, na primeira etapa da repressão à guerrilha, os militantes mortos eram enterrados em buracos no próprio local do confronto, poderá explicar o sumiço de pelo menos cinco guerrilheiros: Bergson Gurjão Farias, Idalício Soares Aranha, Cleber Lemos da Silva, Lourival Paulino e Maria Lúcia Petit da Silva."
"São 66 páginas, anotadas a caneta: 12 com detalhes sobre a organização da guerrilha e 54 com a descrição dos participantes. Fotografias mostram Maria Lúcia Petit e Kléber Lemos da Silva mortos pelos militares. Maria Lúcia foi reconhecida na foto, semana passada, por sua irmã Laura Petit e por três sobreviventes da guerrilha: Criméia Almeida, Regilena Carvalho Leão de Aquino e Luzia Reis. Regilena e Luzia também identificaram Kléber. Os dois são dados como desaparecidos.
(...)
Ela [Regilena] esteve com Maria Lúcia até véspera de sua morte, em 16 de junho de 72.
Segundo moradores do Araguaia, Maria Lúcia foi fuzilada ao se dirigir à casa de um camponês para buscar alimentos. A foto pode sanar a dúvida a respeito da única ossada até hoje exumada. Legistas da Unicamp que a examinam há cinco anos não chegaram a uma conclusão. Como os ossos foram encontrados envoltos numa lona de pára-quedas e com o crânio coberto com um saco plástico - circunstâncias idênticas às da foto - tudo leva a crer que se trata de Maria Lúcia. (...) "
"Laura Petit chegou ao velho casarão onde funciona a União de Mulheres de São Paulo, no bairro da Bela Vista, aflita, após o telefonema que levantava a possibilidade de a foto de uma moça morta na guerrilha do Araguaia ser de sua irmã, Maria Lúcia. Vinha em busca de uma resposta que há 24 anos torturava sua família: as circunstâncias do desaparecimento da caçula da casa, que foi para o Araguaia com mais dois irmãos - Jaime e Lúcio - no início dos anos 70 e, como eles, nunca mais voltou. Ela não tinha dúvidas de que a irmã estava morta e a família até já recebeu o atestado de óbito. Mas, como o de todos os outros desaparecidos na guerrilha, o documento veio em branco, trazendo apenas o nome e a data da morte.
Laura tinha o olhar daqueles que buscam algo que temem encontrar. Pegou as fotos, ajeitou-se na cadeira, pôs os óculos e, com a voz baixa, mas firme, e uma expressão de dor, afirmou:
- É a Maria Lúcia. (...) É ela. Tinha essa sombra nos olhos porque usava óculos. Antes ela tinha um cabelo comprido, depois cortou bem curtinho. Olha só esse queixo partidinho, o nariz arrebitado.
Depois chorou, de mansinho, com a dor de quem acaba de perder a irmã. (...) Pela primeira vez ela tinha um corpo para chorar. Vieram as lembranças, não só da 'Pituquinha', como a irmã era chamada - descrita por Laura como dona de um sorriso largo e enorme alegria de viver - mas também dos outros dois irmãos. Contou histórias deles, da vida em família, das personalidades. Lúcia, a mais nova, era professora, tinha 22 anos quando foi para o Araguaia. Lúcio, 24, e Jaime, 26, eram estudantes de engenharia.
- Acho que o Lúcio foi o último a morrer. Ele era o mais forte. O Jaime era muito emocional. Um colega deles da guerrilha contou que quando soube da morte da irmã ele sofreu tanto ... (...) Quando minha filha morreu, abracei seu corpinho. Mas não era só o corpo dela que eu abraçava. Era o de Maria Lúcia, o de Jaime, o de Lúcio. Aí eu chorei tanto, chorei por minha filha e pelos meus irmãos. Estavam todos ali, no corpo de minha filha. Meu Deus, eu queria tanto ter abraçado a Maria Lúcia. Ninguém, governo algum, pode impedir que a família abrace e agasalhe seus mortos. Eles nunca devolveram os corpos dos meus irmãos. Isso é uma maldade sem tamanho.
Laura soube primeiro da morte de Lúcia através de um relato do também guerrilheiro, e hoje deputado, José Genoíno, no fim de 72. Mas preferiu não dizer nada à mãe. Guardou o segredo até 79, quando veio a anistia:
- A minha mãe dizia: "Agora, com a anistia, eles vão poder voltar para casa". Ela esperava que entrassem a qualquer momento. Então, contei da morte da Lúcia. A dos outros nós tivemos a confimação no ano passado, quando nos deram o atestado de óbito. Você não sabe a aflição que é estar sempre achando que se vai dar de cara com um irmão a cada esquina. Mesmo sabendo que está morto, sem o corpo e a revelação das circunstâncias da morte, sempre resta uma esperança de que estejam vivos. Com aquelas carinhas que tinham aos 20 anos. Aí meu Deus, que saudade ..."
"Laura vai entrar em contato ainda hoje com a equipe de legistas da Unicamp, que não conseguiu identificar, há cinco anos, a ossada de uma moça com idade entre 20 e 24 anos encontrada no local da guerrilha. Ela acredita que há grandes chaces de o corpo ser o de Maria Lúcia.
- Na foto ela aparece em circunstâncias semelhantes às do corpo encontrado naquela época, com o rosto envolto em um saco plástico. Vou entrar em contato também com a comissão dos familiares dos desaparecidos políticos e conversar com minha mãe e meu irmão. Tenho esperança de que as novas revelações sejam apenas a ponta do iceberg que ainda vai vir à tona - disse."
"O mistério que envolve o desaparecimento de Maria Lúcia Petit parece estar chegando ao fim. Suzana Lisboa, representante das famílias dos desaparecidos na Comissão Especial, vai exigir a análise de uma ossada encontrada há cinco anos em Xambioá e que desde então estão num laboratório da Unicamp. Segundo Suzana, a fotografia publicada na edição de domingo do Globo não deixa mais dúvidas sobre a sua identidade. (...) Os despojos encontrados em Xambioá guardam características idênticas às reveladas na foto do cadáver de Maria Lúcia: o crânio estava coberto por um saco plástico e todos os despojos foram envoltos numa lona de pára-quedas. No dia 15 de junho de 1972, segundo relato de moradores, Maria Lúcia usava calças compridas de brim cinza e camisa caqui e cinto de couro. Tinha uma ferida de leishmaniose na mão.
- O legista Fortunato Badan Palhares não usou nenhum procedimento científico para afirmar que a ossada não era a de Maria Lúcia. Aqueles restos nunca foram efetivamente analisados. Agora, com essas revelações, vou pedir à comissão que exija a análise definitiva - disse Suzana. (...)
Suzana indica outro detalhe que contribue para firmar sua convicção: o fecho do cinto dos restos mortais de Xambioá era igual a um da Maria Lúcia. Segundo ela, Badan Palhares não tem agora como se recusar a proceder a investigação científica daquela ossada. Na ocasião, imaginou-se que a ossada deveria ser de Maria Lúcia ou de Áurea Elisa Pereira.
- Badan Palhares não procedeu investigações profundas porque o ex-guerrilheiro Dower Cavalcante sugeriu tratar-se dos restos da filha de um dentista da região, metralhada por não atender a uma ordem de um militar - afirmou Suzana."
"O legista Fortunato Badan Palhares, ... afirmou ontem que as fotos da guerrilheira Maria Lúcia Petit publicadas pelo GLOBO coincidem em diversos pontos com os despojos recolhidos por pesquisadores da Unicamp em Xambioá, em 1991. Segundo o legista, a fivela do cinto, detalhes da blusa e o tecido que aparece sob o corpo são bastante semelhantes aos objetos encontrados na sepultura de Xambioá. No entanto, Palhares afirmou que as fotos, apesar de ajudarem muito não são suficientes para um laudo científico sobre a ossada.
- As fotos são fantásticas e trazem dados que ignorávamos. É um grande passo que demos desde a exumação e nos levará a reestudar o caso - afirmou.
Cauteloso, Palhares disse também que, apesar de informativas as fotos exigem testes complementares para se traçar um laudo científico sobre a ossada. Segundo o legista, o fato de o crânio estar fragmentado não permite sobreposição de imagens, mas em compensação será possível medir o tamanho dos membros e, através de análises de computador, compará-los com os ossos recolhidos.
Palhares disse que o material será enviado à Universidade Federal de Minas Gerais, onde serão feitas as análises de DNA; e pediu que a família localizasse o mais rapidamente possível o dentista que tratou de Maria Lúcia pouco antes de ela partir para a guerrilha. Junto com os ossos e os restos de roupas, foram encontrados pedaços da arcada dentária com coroas e incrustações.
Ontem, pela primeira vez desde que os despojos foram retirados de Xambioá, os parentes de Maria Lúcia viram o que foi recolhido há cinco anos. (...) Até então ela [Laura Petit] só conhecia os objetos por meio de relatos dos parentes dos desaparecidos que participaram da exumação. (...)
Alegando não querer criar expectativas que não possam ser confirmadas no futuro, Palhares não permitiu que os jornalistas vissem ou registrassem o material guardado na Unicamp.
- Não queremos dar margem a especulações que prejudiquem a análise científica dos ossos ...
A retomada das análises da ossada foi anunciada em meio a constrangimentos e protestos. Membros da Comissão de Familiares de Desaparecidos Políticos afirmaram que Palhares fez pouco caso das ossadas e das informações por eles coletadas há cinco anos. De acordo com Maria Amélia de Almeida Teles, membro da comissão, os legistas da Unicamp tinham uma série de indícios que lhes permitiam desconfiar de que o corpo fora enterrado em circunstâncias suspeitas e não prosseguiram as investigações. Os parentes acusam os técnicos da Unicamp de não se empenhar nas pesquisas.
- Como que uma ossada encontrada enrolada em um pára-quedas, com roupas pouco comuns na região, com uma bala de arma de uso exclusivamente militar pode ser confundida com o cadáver de uma camponesa? Esses elementos não são suficientes para se desconfiar de alguma coisa? - protestou
Segundo Criméia de Almeida, irmã de Maria Amélia e que participou da guerrilha no Araguaia, os indícios eram tantos que ainda estão vívidos em sua memória. Para ela, do cemitério teriam sido removidos objetos suficientes para os legistas se empenharem mais.
- Era muita coisa, um material completamente diferente do habitual na região. O próprio Palhares ficou exultante na época, mas aos poucos passou a afirmar que as provas eram insuficientes - afirmou Criméia.
Relembrando o dia 29 de abril de 1991, Criméia afirmou que chegou até a discordar da forma como a exumação foi conduzida, segundo ela pouco cuidadosa. Foram encontradas várias ossadas de homens, mulheres e crianças até que, em determinado ponto da escavação, localizou-se o que seria um pedaço de plástico. A parti daí veio, o que segundo ela, foi a descoberta: restos de um corpo enrolado em dois gomos de um pára-quedas e amarrado com corda de nylon.
- A cabeça estava envolta em um saco azul. O resto estava mais ou menos preso pela corda e o pano do pára-quedas. O pacote foi arrancado com certo descuido da cova e levado para perto de uma lápide, onde foi aberto - afirmou Criméia.
Dentro havia ossos e roupas, muitas delas intactas. A camiseta de 'banlon', a fivela do cinto - idêntica à da foto, segundo Criméia - um par de meias xadrez, masculinas, de nylon escuro, a sola de borracha de uma bota e uma calcinha do tipo biquini de renda de nylon. Na hora, as informações de Palhares, segundo Criméia, era de que se tratava de uma mulher jovem, entre 24 e 25 anos, morta há cerca de 20 anos. Ela deveria estar usando provavelmente uma calça jeans ou de brim, dada a marca da ferrugem dos rebites na calcinha. Tinha 1,62 metro de altura e calçava sapatos número 35 ou 36. Perto do osso da bacia, encontrou-se um cartucho não deflagrado de uma arma calibre 20, segundo Criméia, para quem o cartucho deveria estar no bolso esquerdo da frente da calça.
Palhares argumentou que os parentes não tinham qualquer informação sobre as circunstâncias da morte que corroborassem os ossos e objetos encontrados em Xambioá. O pequisador justificou não ter meios para encomendar os testes de DNA das 1049 ossadas que estão nos laboratórios e almoxarifados da Unicamp. (...) Outro fator que desencorajou estudos mais apurados, segundo o legista, foi a informação do ex-guerrilheiro Dower Cavalcante de que o corpo poderia ser de uma jovem morta por um soldado do Exército num crime passional na mesma época.
- Na época não tínhamos essas fotos. Elas mudam tudo, são um argumento para justificar exames mais dispendiosos - afirmou Palhares."
"Segundo os depoimentos de Adélia Azevedo de Sousa, Osvaldo Rodrigues, Raimundo Bandeira, que era coveiro no início dos anos 70, e Joaquina de Sousa, no cemitério da cidade foram enterrados em três covas os corpos de oito guerrilheiros do PCdoB: João Carlos Haas Sobrinho, Antônio Carlos Monteiro da Silva, Lourival de Moura, Bergson Gurjão Farias, Maria Lúcia Petit da Silva, Áurea Elisa Valadão e Daniel Ribeiro Callado.(...)
A descrição da comerciante é confirmada pelo ex-coveiro Osvaldo Rodrigues, que garante ter visto outro coveiro do cemitério - que já morreu - enterrar no mesmo lugar descrito por Adélia o corpo de Haas e de quatro outros guerrilheiros. Segundo Joaquina Pereira, os outros corpos eram de Antônio Carlos Monteiro da Silva, Lourival de Moura, Maria Lúcia Petit da Silva e Áurea Elisa Valadão. (...)."
"Em São Paulo, o dentista e o protético que cuidaram dos dentes da guerrilheira Maria Lúcia Petit, morta em 1972 no Araguaia, deverão se encontrar com o legista Fortunato Badan Palhares, da Unicamp, na próxima semana. (...) O dentista Jorge Tanaka e o protético Benedito Bueno de Moura deverão analisar os fragmentos dentários da ossada encontrada em Xambioá, em 1991, que se supõe ser de Maria Lúcia. Entre os fragmentos está uma coroa dentária ainda em bom estado de conservação que poderia facilitar a identificação. (...)
O legista [Fortunato Badan Palhares] reconheceu uma grande semelhança da blusa e da fivela do cinto que Maria Lúcia usava com os restos encontrados na ossada. Além do reconhecimento dentário, a ossada deve passar, também, por testes de DNA na Universidade Federal de Minas Gerais, em Belo Horizonte." 63
"Uma das fotos também permitiu encerrar uma dúvida de 24 anos. Mostra o rosto de uma mulher jovem, olhos esbugalhados, estirada sobre uma lona, com um saco plástico atrás da cabeça. Outra foto mostra a mesma mulher, dos joelhos para cima, suas roupas e seu cinto. A mulher das fotos é a paulista Maria Lúcia Petit da Silva, que aos 20 anos trocou uma carreira de professora primária pela guerrilha. Maria Lúcia morreu com uma bala na cabeça no dia 16 de junho de 1972, dois anos depois de chegar ao Araguaia.
Tanto a roupa como o cabelo indicam que é a mesma pessoa cujos restos mortais estão depositados, desde 1991, no departamento de medicina legal da Universidade Estadual de Campinas, aos cuidados do legista Fortunato Badan Palhares, que até havia paralizado os trabalhos de identificação por falta de indícios consistentes. Com as fotos, ficou fácil. "Elas trazem fortes elementos conclusivos para a identificação", afirma o legista. (...)
Se Maria Lúcia Petit for identificada, será o primeiro nome da guerrilha do Araguaia a sair de uma lista de 59 desaparecidos, - até agora, nenhuma pessoa morta teve seus ossos identificados. (...) os ossos de Maria Lúcia Petit foram encontrados no cemitério de Xambioá, onde familiares andaram procurando restos de desaparecidos, há cinco anos. Na semana passada, entidades de direitos humanos programavam novas buscas na região. É um trabalho difícil, que exige perícia e também paciência. A busca de corpos sem indicações precisas é um um trabalho árduo e com poucas chances de êxito.(...)." 65
"A vala comum, onde quatro homens e uma mulher integrantes da Guerrilha do Araguaia teriam sido enterrados envoltos em plástico, foi mostrada por Adélia de Souza, uma moradora da cidade. Em julho de 1972, Adélia estava no cemitério preparando a missa de sétimo dia de seu pai quando viu os militares jogarem os corpos no buraco. (...)
Em 1993 [1991], Criméia e familiares de outros guerrilheiros desaparecidos, como Sônia Haas, desenterraram duas ossadas de covas localizadas do outro lado do mesmo cemitério em Xambioá. Uma delas era de mulher. Pelas fotos de guerrilheiros assassinados publicadas há duas semanas pelo jornal O Globo, era provavelmente a de Maria Lúcia. Na foto, Maria Lúcia usava uma roupa semelhante à que foi encontrada junto à ossada e tinha a cabeça envolta em um saco plástico." 71
"Após se colher o depoimento oral de Adélia Azevedo de Souza, a Comissão demarcou a área de 16 metros quadrados, juntamente com a colaboração do antropólogo argentino, Luis Fondebrider. (...) Podem estar enterrados neste local cinco das seguintes pessoas: Bergson Gurjão Farias, Maria Lúcia Petit da Silva (mais provavelmente, o corpo de Maria Lúcia deve estar na UNICAMP, a espera de identificação pelo médico legista Fortunato Badan Palhares, uma vez que, em 1991, foi feita a exumação de um corpo no mesmo cemitério), Kléber Lemos da Silva ("Quelé", "Carlito"), Idalísio Soares Aranha Filho ("Aparício"), Miguel Pereira dos Santos ("Cazuza"), José Toledo de Oliveira ("Vítor"), Francisco Manoel Chaves ("Chico", "Velho"), Ciro Flávio Salazar Oliveira ("Flávio"), João Carlos Haas Sobrinho ("Juca") e Manoel Nurchis ("Gil", "Gilberto", "Guilherme"). (Fonte: Criméia Alice Schmidt de Almeida.)" 77
"...encontramos um corpo envolto por tecido sintético, todo amarrado. Com muito cuidado retiramos os corpo, protegendo-o com um plástico preto e passamos a estudá-lo.
Os ossos do crânio revelaram-se fragmentos e com múltiplas áreas de fraturas e disjunções. Ao nível do parietal, lado esquerdo, haviam características de haver orifício de saída de projétil de arma de fogo. Os ossos apresentavam bem frágeis ... Os demais ossos longos também estavam bastante frágeis, quebrando ao simples toque. A grande maioria deles estavam semi-íntegros. Alguns dentes e fragmentos da mandíbula também foram recolhidos para estudo.
Medimos o ângulo isquiático do fragmento esquerdo que ainda se apresentava parcialmente preservado "in locu", ... sendo forte indicativo de ser de pessoa do sexo feminino.
Não encontramos qualquer elemento de identificação, vestia uma blusa de gola olímpica alta, tipo Banlon cor branca ou amarelo clara, não usava soutien, pois não encontramos fivelas de ferro ou plástico. Usava calcinha de boa qualidade, com tecido sintético e renda marginal. Aderida à mesma fragmentos de metal compatível com botões metálicos ou rebites, botas de couro clara com salto de borracha preto, tamanho de mais ou menos 35/36. Foi encontrado ainda junto com estes ossos um cartucho com munição chumbinhos calibe '20', além de um projétil de arma de fogo do tipo disparado por fuzil militar, 7.62. Encontrou-se, também, uma fivela de metal aderido a um pedeço de cinto de lona verde.
(...)
Os fragmentos ósseos restantes e do paraquedas foram devolvidos à sepultura original, pois não haviam um único fragmento ósseo que estivesse inteiro."
"Em certa ocasião, a Sra. Laura Petit, irmã de Maria Lúcia Petit da Silva esteve no Departamento de Medicina Legal, mas pouco acrescentou com relação aos elementos que tínhamos colhido e as informações que ela podia prestar sobre sua irmã. Solicitamos que tentasse um contato com o destista da família que poderia auxiliar. Nenhuma nova informação apareceu e assim os restos mortais, bom como alguns pertences, ficaram guardados no Departamento de Medicina Legal a espera de informações novas ...
Este material permaneceu guardado até que em fins de abril de 1996, quando o Jornal O Globo publicou uma matéria sobre os desaparecidos políticos no "Araguaia" em que fotos da ocasião, que estavam em poder de membros do Exército Brasileiro, foram apresentadas e publicadas. Uma das fotos, foi reconhecida pela família de Maria Lúcia Petit da Silva que imediatamente nos avisou. (...)
Ao examinarmos as fotos apresentadas, não tivemos dúvida que se tratava do mesmo caso por nós exumado; no entanto, para evitar uma fala apressada que pudesse ter outras consequências, solicitamos à família e só a família, que nos acompanhasse até os nossos laboratórios e lá expusemos o material e demos as devidas explicações sobre o que achávamos.
Fizemos eles entenderem que seria prudente termos o dentista da família que havia atendido Maria Lúcia, pouco tempo antes dela ir para o "Araguaia", que seguramente, muito nos auxiliaria na efetiva identificação e enquanto ele não comparecesse, que nada fosse divulgado e assim procedeu-se. (...)
No dia 15/05/1996, eles deveriam retornar com o detista e o protético.
Neste intervalo, tivemos a oportunidade de montar todo o material, o Dr. Monteiro, conseguiu montar, artificialmente, todas as estruturas ósseas dos maxilares e mandíbula, de sorte que tivemos uma arcada dentária refeita com os dentes presentes posicionados, o que facilitou muito o trabalho do dentista da família.
Na montagem dos fragmentos dos ossos do crânio conseguimos refazer boa parte do crânio, incluindo parte da face. Ficou nítido o ferimento encontrado no osso parietal esquerdo, típico da passagem de projátil de arma de fogo, que teve direção de baixo para cima, de trás para a frente, e, da direita para a esquerda. Como não encontramos os ossos da base, do lado direito, não foi possível pesquisar o sinal de Benassi, que nos indicaria a proximidade do disparo ou não. ( grifo nosso)
(...)
Os achados de exumação, aliados as informações de familiares e amigos, além das fotos publicadas recentemente pelo Jornal O Globo, nos levam concluir que existem inúmeras provas materiais, particularmente os achados odontológicos, que nos autorizam afirmar que estes restos mortais pertencem à Maria Lúcia Petit da Silva."
"Entre os militantes do PCdoB as "quedas" são maiores: 12 mortes e oito prisões. Entre os mortos são citados Lourival Moura Paulino, Bergson Gurjão Araújo Farias, Maria Lúcia Petit, Kléber Lemos da Silva, Idalísio ..., Helenira Rezende, João Carlos Haas Sobrinho, Ciro Flávio Salazar de Oliveira, José Manoel Nurchis, José Toledo, Antônio Carlos Monteiro, Zé Francisco e Cazuza." 95
"Maria Creuza Rodrigues dos Santos (...) que conheceu naquela época as pessoas de nome Maria e Lena; que Lena era casada com uma pessoa de nome Jaime e que Maria tinha um irmão de nome Joaquim; que só veio saber que eles eram guerrilheiros após o primeiro ataque, quando numa determinada noite acerca de 06 (seis) pessoas, militares (estavam a paisana), chegaram em sua residência e intimaram o seu companheiro para que os levassem até a casa de Maria e Lena; que quando lá chegara, os habitantes da casa correram e os militares tocaram fogo na casa; (...); que ela acha que quem assassinou o seu companheiro foi o pessoal do "mato"(guerrilheiros), devido o mesmo ter ido levar os militares até a residência de Maria e Lena; que ouviu falar que Jaime, Maria e Joaquim foram mortos;..."
Exumação e Identificação: exumada do cemitério de Xambioá em 29/04/91 e identificada pelo Departamento de Medicina Legal da UNICAMP, em 14/05/96.
Texto do Dossiê dos mortos e desaparecidos políticos a partir de 1964, editado pelo governo de Pernambuco no governo Arraes
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