Nelson Piauí Dourado (Nelito)

Nélson Piauí--

Militante do PCdoB

Apelido: Nelito
Cor: branca Altura: cm Idade: 33 anos Sexo: masc. Cabelo: cast./escuro/liso Data e local de nascimento: 03/05/41, Jacobina/BA. Filiação: Pedro Piauhy Dourado/Anita Lima Piauhy Dourado. RG: 408 301, expedida em 14/08/61
- identificação policial sob número 135 418, em 07/02/66 pelo Inst. de Ident. e Técnica Policial de Vitória/ES. Carteira de isenção de Serviço Militar: 775 653 - série C - 21/12/65, da 17ª CR - Salvador /BA.

Ficha antropométrica:
Biografia: "Foi funcionário da Petrobrás até ser obrigado a abandonar o emprego por perseguições políticas. Indo para o interior, residiu inicialmente no norte de Goiás e, mais tarde, na localidade denominada Metade, onde residiam outros companheiros. Aí conheceu Jana Moroni com quem se casou.
Com o início da luta guerrilheira, ingressou no Destacamento A onde era chefe de grupo.

Foi morto no dia 2/01/74, após tiroteio com o inimigo."
Esteve na China onde fez alguns cursos.
"Luiz Martins, camponês que lutou ao lado dos guerrilheiros, foi preso, torturado e virou guia. Martins, um dos primeiros moradores da região a entrar na luta armada, passou 22 dias na selva com uma patrulha da guerrilha, sob comando de Nelito (Nelson Dourado, marido de Cristina)".

Homenagens:
Nome da antiga Rua 12, na Vila Esperança, em Campinas, com início na antiga Rua 09 e término na antiga Rua 14 - Lei nº 9497, de 20/11/97.
Dados referentes a prisão, morte e/ou desaparecimento:
Citado no Manifesto dos familiares dos mortos e dasaparecidos na guerrilha do Araguaia, no II Congresso Nacional Pela Anistia, novembro/79 - Salvador/BA, publicado no Diário Oficial do Estado do Rio de Janeiro de 11/04/80, ano VI, nº 69, parte II.

Citado na Relação de pessoas dadas como mortas e/ou desaparecidas devido às suas atividades políticas, da Comissão de Direitos Humanos e Assistência Judiciária da Ordem dos Advogados do Brasil - seção do Estado do Rio de Janeiro - outubro de 1982.

Relatório Arroyo: "Os grupos eram cinco. Um chefiado por Osvaldo (que retornou a sua área); outro por J.; outro pelo João; outro pelo Nelito; e o outro pelo Landim.
Dia 30 pela manhã, os cinco grupos tomaram seus destinos. (...) No dia 2 de janeiro, ouviu-se ruído de metralhadora para o rumo em que seguia Nelito. (...)No dia 18, J., Zezim e Edinho encontraram Duda, do grupo do Nelito. Ele contou que os tiros do dia 2 tinham sido sobre o grupo em que ele estava. Disse que, depois do almoço desse dia, Nelito e Duda estavam juntos e que Cristina [Jana Morone Barroso] e Rosa [Maria Célia Corrêa] haviam se afastado por um momento. Carretel estava na guarda. Na véspera, Duda e Carretel tinham ido à casa de um morador. A casa estava vazia. Quando se retiravam viram que vinham chegando os soldados. Avisaram Nelito. Imediatamente afastaram-se do local. Mas caminharam em trechos de estrada, deixando rastros. Dia 2, Nelito tinha ido a uma capoeira apanhar alguma coisa para comer. Trouxe pepinos e abóbora numa lata grande que lá encontrara. A lata fez muito barulho na marcha de volta. Às 13:30 hs ouviram-se rajadas. Os tiros foram dados sobre Carretel, que saiu correndo. Nelito não quis sair logo. Se entrincheirou, talvez pensando nas duas companheiras. Mas os soldados se aproximavam. Então ele correu junto com Duda, mas foi atingido. Assim mesmo, ainda se levantou e correu mais uns vinte metros. Foi novamente atingido e caiu morto. Duda conseguiu escapar. Não sabe o que houve com as duas companheiras, nem com Carretel."
Relatório do Ministério Exército: Filho de Pedro Piauhy Dourado e de Anita Lima Piauhy Dourado nascido no dia 03 Mai. 41, em Jacobina/BA.
Militante do PCdoB, utilizava os codinomes "Nelito", "Salvador" e "Nelson". No dia 13 de Set. 68, viajou para a China, onde realizou curso de guerrilha na Escola Militar de Pequim.

Relatório do Ministério da Marinha: Nov. 74 - relacionado entre os que estiveram ligados à tentativa de implantação de guerrilha rural, levada a efeito pelo comitê central do PCdoB, em Xambioá.
- Morto em 02 Jan. 74.

Relatório do Ministério da Aeronáutica: Militante do PCdoB e guerrilheiro no Araguaia. Segundo o noticiário da imprensa nos últimos 18 anos e documentos de entidades de defesa dos direitos humanos, teria sido morto ou desaparecido no Araguaia. Não há dados que comprovem essa versão.
Arquivos do DOPS/SP: tem documentos sobre sua viagem a China.

Informações e depoimentos

Obtidos através da imprensa ou dos familiares:
É citado por JMS na reportagem de Fernando Portela, estava vivo.
"Conheci o "Nelito", a "Cristina", o "Duda", o "Antônio", o "Nilo", a "Rosinha", o "Zé Carlos", o "Lino", o "Waldir", o "João Araguaia", a "Fátima", a "Sônia" e o "Edio". Eles convidavam o povo para a libertação. ...Nelito e Zé Carlos foram mortos na localidade do Caçador, pegaram o Édio vivo, o Duda teve a perna quebrada; a Rosinha eu vi ser presa, encontrei-a na Vila São José e ela pediu para a gente rezar por ela, pra não morrer." (Depoimento de Maria Raimunda Rocha).
"Ainda assim, alguém se disporia a dar o seu depoimento. E mencionando ainda mais inúmeros guerrilheiros que foram pegos vivos e feitos prisioneiros. José da Luz Filho, lavrador, que teve seu pai preso durante sete meses em Marabá, contou que:
Conheço o Nelito, Cristina, Piauí, Edinho, Duda, Valdir, Manoel, Mário, Zé Carlos, Daniel, Paulo, Dina, Sônia, Josias, Nilo. Eles quase não sabiam trabalhar. Ensinei eles a fazer tudo, e trabalhei muito pra eles. Eles andavam muito, pra cima e pra baixo. (...) A Cristina e o Nelito foram presos e levados pra Bacaba.
(...)
Mas de tantas interrogações, uma deixou-nos varados de angústia. Onde estão os que foram presos, vivos? Dina, Áurea, Daniel, Rosinha, Lia, Nelito, Cristina, Josias, Duda, João Araguaia, dezenas talvez, onde estão?"
"O próprio Zé da Onça diz conhecer uma senhora, cujo nome não revelou, que sabe onde estão as ossadas de Nelson Piauhy Dourado (Nelito), comandante do B, Luiz Renê Silveira e Silva (Duda) e do camponês Pedro Carretel, todos mortos no mesmo dia. Zé da Onça também afirma que na localidade de Santa Cruz foram enterrados outros guerrilheiros." 90 [Nelson e Pedro Carretel podem ter morrido no mesmo dia, mas Duda não, porque foi ele que contou a Ângelo Arroyo sobre o tiroteio havido no dia 02/01/74, que provavelmente tenha atingido Nelito e que desde então desapareceram Maria Célia, Jana e Pedro Carretel].

"Desaparecido no dia 02 de janeiro de 1974. Possivelmente sua sepultura encontra-se na região do Castanhal Brasil-Espanha. Não sabemos precisar se Nelito encontra-se com Hélio Navarro e Luiz Renê [provavelmente não foram enterrados juntos com Nelito porque morreram tempos depois]. Porém, cremos, que localiza-se na região referida acima."
Luiz Martins, camponês que lutou ao lado dos guerrilheiros, foi preso, torturado e virou guia. Martins, um dos primeiros moradores da região a entrar na luta armada, passou 22 dias na selva com uma patrulha da guerrilha, sob comando de Nelito (Nelson Dourado, marido de Cristina). Ele disse que a partir de certo momento o Exército ordenou que os guerrilheiros tivessem as cabeças cortadas.(...)".

"Sra. Margarida Ferreira Félix, (...)que o primeiro encontro com estas pessoas, foi em 1972, pelo mês de outubro, quando às 21:00 hs, algumas pessoas chegaram na casa da declarante; que eram duas pessoas, uma chamada Sônia e a outra Rosinha, e posteriormente chegou um terceira pessoa chamada Nelito; que a declarante ficou muito desconfiada, mas que as pessoas procuraram acalmar a declarante; que somente após a chegada de Nelito a declarante ficou mais calma, pois a declarante já o conhecia de Augustinópolis-GO (hoje Tocantins), local onde residia anteriormente, e onde Nelito era um farmacêutico conhecido, e ninguém sabia de nada sobre sua atividade clandestina; (...)"

"Sr. Pedro Moraes da Silva, (...) oferecido para reconhecimento do declarante, as fotografias dos desaparecidos políticos da Guerrilha do Araguaia, reconheceu Sônia (Lúcia Maria de Souza), João Araguaia (Dermeval da S. Pereira), Zé Carlos (André Grabois), Landinho (Orlando Momente) que usava um chapéu de couro de macaco da noite com rabo; Tuca (Luiza Augusta Garlipe), Beto (Lúcio Petit da Silva), Rosinha (Maria Célia Correa), Dina (Dinalva Oliveira Teixeira), Cristina (Jana Moroni Barroso) que ia sempre aos sábados lavar a roupa na casa do declarante e se escondia no mato, esperando até que a roupa secasse, Nunes (Divino Ferreira de Souza), Fátima (Helenira Resende de Souza Nazareth), (...); Duda (Luis Renê Silveira e Silva), cujo corpo foi jogado em castanhal na Região Gameleira, que hoje é a Fazenda Brasil-Espanha; (...) que reconhece a foto de Nelito (Nelson Lima Piauhy Dourado); (...)".
"Srª. Rocilda Souza dos Santos (...) que a declarante e seu marido conheciam Nelito, Rosa, Sônia, Cristina, João Araguaia, Paulo, Edinho, Londrin, Duda, os quais diziam serem guerrilheiros, entretanto o Exército dizia que eles eram terroristas; (...)".

"Sr. Antônio Félix da Silva, (...) que é conhecido na região como seu Tota; que, chegou na Região do Araguaia em 16.07.1972, mais precisamente na região do Caçador; (...); que o declarante foi obrigado a servir de guia para os militares na região de Água Boa, Caçador e Borracheiro, (...)que mostradas as fotografias dos desaparecidos políticos da Guerrilha do Araguaia, reconheceu Zé Carlos, ...; Nelson, Valdir, ... , Beto, Antônio, Orlandinho, que usava um chapéu de macaco da noite com rabo".

"Sra. Adalgisa Moraes da Silva, (...) que os guerrilheiros haviam colocado fogo em uma ponte na Transamazônica, no Município de São Domingos; que a Rosinha, a Sônia, o Nelito, o João Araguaia, o Nunes, o Orlandinho, o Beto, o Alfredo, o Zé Carlos, o Edinho e Valdir e o Zebão colocaram fogo na ponte para impedir que os carros passassem; que eles atacaram um posto da polícia militar e colocaram um soldado para ir à pé até Marabá, vestindo apenas uma cueca, pegaram as armas, as facas, o Alfredo vestiu a roupa do sargento, e passaram logo após na casa da declarante, vestindo roupa da Polícia Militar; que eles passaram na casa da declarante um dia após os fatos; que eles queimaram a ponte numa 6a feira, atacaram o posto da Polícia Militar no Domingo e estiveram na casa da declarante na 2a feira seguinte; (...)".

"Srs. Luiz Martins dos Santos e Zulmira Pereira Neres, (...) que conheceu os seguintes guerrilheiros: Sônia, Nelito, que eram os mais próximos dos declarantes, (...) que a comida foi acabando porque as casas dos lavradores que davam comida, munição e remédio ao povo da mata foram queimadas; que, devido a escassez de alimentos, Nelito disse ao declarante e aos demais lavradores: "nós já estamos no sufoco, se é de morrer vocês, que morra só a gente, porque vocês têm famílias"; que o declarante e os demais lavradores decidiram procurar suas famílias; que, por medo do Exército, o declarante e o povo da mata não podiam atirar, apesar de haver caça passando na frente; que a comunicação era por assobio, sempre através de 3 assobios, e as conversas eram de pé de ouvido; que o declarante matou um tatu com o cano de sua espingarda, o que fez com que os grupo comesse naquele noite, já que o helicóptero não voava durante a noite e se podia fazer fogo; que Nelito repartia sempre tudo o que tinha com os demais integrantes do grupo; que cada pessoa levava um pouco de farinha na boroca; que, quando a farinha acabou, comiam massa de coco de babaçu; que o declarante deu o último fumo que tinha a Nelito e aos demais; que próximo da região de Fortaleza o grupo já estava sem munição quando Nelito disse ao declarante colocar mão em um pau ocado; que no local havia um saco plástico com medicamentos (benzetacil, agulha de cirurgia) e 5 quilos de munição (chumbo, espoleta e pólvora); que o grupo inteiro era constituído de 9 pessoas, sendo que Nelito era o único representante do povo da mata; (...) que o primeiro companheiro a ser interrogado, José dos Santos, que compunha o grupo de Nelito na mata, saiu da casa puxado pela orelha; (...) que, na ocasião do interrogatório, o declarante se lembrou de que Nelito havia mandado dizer a verdade, caso fosse preso, e falou toda a verdade; (...) que na Bacaba soube por um companheiro que o Nelito chegou baleado em um helicóptero; que Nelito estava com uns tiros no peito, e que fizeram uma operação lá na Bacaba, mas Nelito não resistiu; que não sabe se Nelito foi enterrado na Bacaba ; (...)".
"Sr. Agenor Moraes Silva, (...)que o declarante conheceu os 4 grupos de pessoas que viviam na mata, mas o declarante tinha mais intimidade com o grupo do Chega com Jeito, integrado pela Sônia, Fátima, José Carlos, Mauro Borges (a Sônia dizia que era o pai dela), Nelito e outros que não lembra o nome direito; (...)".

"Raimundo Nonato dos Santos, vulgo Peixinho, (...) Contou que Pedro Carretel - outro camponês que havia aderido a guerrilha - foi preso por uma equipe que andava com Zé Catingueiro e ferido por um tiro do próprio Zé Catingueiro. Na mesma ocasião, Nelito, outro guerrilheiro, foi naufragado, ou seja, morto. Zé Catingueiro contou para o depoente que Pedro Carretel lhe teria ameaçado de morte quando fosse solto; dessa forma Zé Catingueiro foi reclamar junto ao Comandante, que teria determinado a morte de Pedro Carretel. Não soube informar qualquer lugar de sepultura, pois tudo era mantido em sigilo. A operação que resultou na morte de Nelito e prisão de Pedro Carretel foi comandada pelo capitão Rodrigues. (...).
"Pedro Matos do Nascimento, vulgo Pedro Mariveti (...)Quando estava preso na Bacaba, conversou com Babão, que era um guia do Exército, que disse que haviam matado o Ari e cortado a cabeça dele. O Babão disse ainda que na cabeceira da pista de pouso na Bacaba haviam ocorrido vários sepultamentos. Lembra de Babão ter dito que Nelito e uma Japonezinha estariam enterrados lá.(...)".

Texto do Dossiê dos mortos e desaparecidos políticos a partir de 1964, editado pelo governo de Pernambuco no governo Arraes