Paulo Marques (Amauri da Farmácia)

Paulo Marques--

Militante do PCdoB
Paulo Roberto Pereira Marques, apelido: Amauri da Farmácia)
Cor: Branca Altura: 1,80 cm Idade: 24 anos Sexo: masc. Peso: 70 Kg
Cabelo: castanhoescuro/crespo (ondulado). Sapato: 42. Calça: 40 Camisa: 2. Data e local de nascimento: 14/05/49, Pains/MG.. Filiação: Sílvio Marques Canelo/Maria Leonor Pereira Marques.

Ficha antropométrica: "Era chamado de "pé de pato" porque pisava para dentro. O joelho direito foi apertado em uma porteira, ficando com o que chamavam de "água no joelho", tinha mais ou menos 9 anos na época. Depois se recuperou. Tratou-se com Dr Afonso Arinos, na cidade de Pompeu.
Tinha sinusite. Dentes tratados, inclusive canais. Seus dentes eram serrilhados, tanto os superiores como os inferiores, eram certos, se projetavam para frente e os incisivos não eram muito juntos.
Fumava muito e roia o canto das unhas." - informações fornecidas por sua irmã Maria de Fátima Marques Macedo.

Biografia
"Aos 15 anos, mudou-se para Belo Horizonte e, posteriormente, para Acesita, onde terminou o Curso Científico, estudando à noite. Nessa época, era bancário e trabalhava no Banco de Minas Gerais. Participou ativamente da greve da categoria em 1968, sendo por isso demitido e enquadrado na Lei de Segurança Nacional. Em 1969, foi viver na região do Gameleira, no Araguaia.
Amauri dedicou-se ao atendimento de saúde da população local. Montou uma pequena farmácia e, em pouco tempo, era conhecido em toda a região. Era um jovem alegre, sempre disposto a tocar no violão canções que ele mesmo compunha. Suas músicas falavam de seus ideais de libertação de nosso povo.
Está desaparecido desde o ataque à Comissão Militar de 25/12/73."
"Seu último contato com a família foi em 1972, quando já participava da guerrilha do Araguaia. Ele enviara uma carta à sua mãe, pedindo que ela não se preocupasse com ele, porque - segundo escreveu - estava lutando pelo bem do país."
Foi denunciado no Proc. 11/70, incurso nos art. 43 e 45, itens I e II do Decreto-lei nº. 898/69, na Auditoria da 4ª Circunscrição Militar Judiciária.
Terminou o segundo grau no Colégio Lúcio dos Santos em Belo Horizonte e trabalhou no Banco de Minas Gerais. A noite fazia cursinho no Pitágoras. Em 1968 participou da greve dos bancários como um de seus dirigentes, apesar de contar apenas 18 anos. Pertencia ao destacamento B e vivia na localidade de Palestina, onde tinha uma farmácia.

Homenagens:
Nome da antiga Rua L, no Bairro Braúnas em Belo Horizonte - Dec. N.º 6392 - 16/09/93 (Rua Viva - Homenagem aos mortos e desaparecidos políticos mineiros - pag. 57).
Nome da antiga Rua 02, no Residencial Cosmo, em Campinas, com início na antiga Avenida 03 Cid. Sat. Íris e término na Rua 20 - Lei nº 9497, de 20/11/97.

Dados referentes a prisão, morte e/ou desaparecimento:
Citado no Manifesto dos familiares dos mortos e dasaparecidos na guerrilha do Araguaia, no II Congresso Nacional Pela Anistia, novembro/79 - Salvador/BA, publicado no Diário Oficial do Estado do Rio de Janeiro de 11/04/80, ano VI, nº 69, parte II.
Citado na Relação de pessoas dadas como mortas e/ou desaparecidas devido às suas atividades políticas, da Comissão de Direitos Humanos e Assistência Judiciária da Ordem dos Advogados do Brasil - seção do Estado do Rio de Janeiro - outubro de 1982.

Relatório Arroyo: "Foi com Walquíria ao local onde Vandick e Dinaelza haviam ido buscar "Raul" (Antônio Teodoro de Castro), "Lourival" (Elmo Corrêa) e "Zezinho", que já haviam chegado (isto é, perto do local do tiroteio do dia 17/12/73). Deveriam retornar no dia 28, ao local onde houve tiroteio no dia 25/12. Desaparecidos desde então."

Relatório do Ministério Exército: Filho de João Marques da Silva e de Judith Pereira da Silva, nascido no dia 21 Jun. 49, em Senhor do Bonfim/BA.

Relatório do Ministério da Aeronáutica: não existem registros sobre pessoa com esse nome.

Arquivos do DOPS/SP: tem informações sobre sua militância, mas não faz referência as atividades no Araguaia, nem a morte.

Fichas entregues ao Jornal O Globo, em 1996:
Relatório da Manobra Araguaia/72, de nov./72: no ítem 'ações não confirmadas', diz que teria sido morto, juntamente com outro companheiro, pelas forças da repressão em 14ou15/09/72.

Informações e depoimentos
Obtidos através da imprensa ou de familiares:
"Amauri salvou muitas crianças. Quando eles saíram de lá, se estima que em menos de um ano faleceram mais de 100 crianças. Ele também salvou muitas mães de família, porque na região da Palestina se estima que mais ou menos 20% das mulheres morrem no primeiro parto ou resguardo - descalcificação, falta de vitaminas, todas essas coisas; então o Amauri salvou muita gente passando as noites nas cabeceiras.
Ele era muito silencioso. Flávio era mais expansivo, mais alegre; então foi compadre de muita gente, e quando os militares chegaram lá, teve um rapaz que deu o nome de todos os compadres - foram os primeiros presos e os primeiros torturados."

"Flávio [Ciro Flávio] e Amauri [Paulo Roberto Pereira Marques], que se estabeleceram com uma farmácia no lugarejo de Palestina e que, se o doente não tivesse dinheiro para pagar o remédio, levava de graça ..."

É citado como morto na reportagem de Fernando Portela, com o nome de Amauri.
"O depoimento do comerciante Manuel Ferreira do Nascimento, de Augustinópolis (TO), poderá ajudar os peritos da equipe argentina de antropologia forense a identificar os restos mortais encontrados ontem no Cemitério Municipal de Xambioá.
... O comerciante diz ter visto o assassinato do guerrilheiro, que montou uma farmácia no povoado de Santa Cruz, no município de São Geraldo.
- Ele estava armado com dois revólveres e uma espingarda quando foi cercado por oito soldados do Exército. Ele tentou correr, mas foi atingido - disse, acrescentando que um dos tiros atingiu o lado esquerdo do crânio do guerrilheiro, provocando uma fratura semelhante à existente na ossada encontrada ontem.
O comerciante diz que o guerrilheiro foi denunciado por um morador interessado em receber recompensa de CR$ 3 mil, que acabou não sendo pagada. Nascimento conheceu Amauri em 1972.
- Durante oito dias ele foi diariamente a minha casa almoçar. Estava faminto, fraco e dizia só que tinha uma farmácia, às margens do Rio Araguaia - contou.
Nascimento disse ainda, que o assassinato de Amauri aconteceu em junho de 1972. [Este dado não confere com o do Relatório Arroyo]. Foi nessa mesma época que a comerciante de Xambioá, Adélia Milhomen disse ao GLOBO ter visto os militares enterrarem no cemitério da cidade cinco corpos de guerrilherios."

"O comerciante Manuel Ferreira Nascimento que mora em Augustinópolis (TO), disse por telefone à Agência Folha ter visto um grupo de oito soldados do Exército cercar e matar Marques na mata em 1972.
Segundo Nascimento, que na época trabalhava em uma madeireira, Marques usava sempre uma calça de tergal azul. O corpo encontrado vestia restos de uma calça de tecido sintético azul.
A ossada encontrada tem marcas de traumatismos na perna e na cabeça. O comerciante disse que Marques levou tiros na cabeça."

"Nunca pensamos que Paulinho tivesse tanta coragem para se meter na selva e participar de uma guerra - lembrou Maria de Fátima [irmã]...
Ele morava na cidade de Santa Cruz e era uma espécie de curandeiro do local. Só sabia seu codinome, Amauri, porque ninguém contava o verdadeiro nome. A gente brincava muito e paquerava as camponesas. Eu morava numa casinha vizinha à dele - lembra Genoíno, que viu Paulo Roberto pela última vez, dois dias antes de ser preso, na noite de 16 de abril de 1972.

No ano em que saiu de casa, 1969, Paulo Roberto enviou à família seus únicos sinais de vida: duas cartas. Na primeira, enviada por um portador em meados do ano, Paulo Roberto explicava apenas que estava lutando por um país melhor e pedia à irmã Maria de Fátima que ajudasse à mãe, viúva, a cuidar dos irmãos. Na segunda mensagem, que chegou às vésperas do Natal, ele contava que no momento em que escrevia a carta ouvia a música "Apesar de você", de Chico Buarque, e fez dois pedidos à mãe: que mandasse, pelo portador, seu doce preferido, pé-de-moleque, e seu microscópio."
Morreu na fazenda da Cardinha, hoje pertencente ao Sr. Hermógenes e foi enterrado lá mesmo - depoimento de Conceição Batista da Silva, filho de Albertino Batista da Silva, morador em Santa Cruz, em maio/96.
Foi morto no dia 23/06/72 [a data não é confiável], por volta de 13:30 hs, num acampamento da Madeireira Marcilinense. Era alto, muito alvo, cabelos claros, idade aproximada de 40 anos [não confere]. Ficou no acampamento da madeireira durante mais ou menos uma semana. Foi entregue por um guia de mais ou menos 60 anos, com tatuagem no corpo e que trabalhava na madeireira. Foi morto por uma patrulha do Exército composta de um major e mais oito militares. O primeiro a atirar foi o major. Amauri também estava armado com dois revólveres e uma espingarda. Levou muitos tiros, na perna direita, na região frontal esquerda, braços e peito. Ele tinha farmácia na beira do rio, em Canabrava - depoimento do Sr. Manoel Ferreira Nascimento de Augustinópolis, ao jornal O Globo, em julho/96.
"Sr. Cícero Saraiva da Silva, conhecido por Generoso (...) que dos guerrilheiros, conheceu Flávio, Amauri, Zequinha e Osvaldo".
"Sr. Pedro Vicente Ferreira, conhecido por Pedro Zuza, (...), que Flávio e Amauri eram donos de farmácia e atendiam a população; (...)que serviu de guia durante 2 meses na região do Embaubal; que o declarante voltava para a casa nos fins de semana e buscavam a turma do Osvaldão e já tinham matado o Amauri e o Zé Goiano;(...)".
"A análise preliminar de um dos corpos indica que trata-se de alguém do sexo masculino que foi enterrado com as mãos para trás. Pode ser o corpo do guerrilheiro Paulo Roberto Marques, codinome Amauri. Os familiares dele têm informações de moradores que o teriam visto ser enterrado no cemitério de Xambioá".
"O grupo de familiares de guerrilheiros que acompanha a expedição suspeita que uma das ossadas seja de Paulo Roberto Pereira Marques".
"Não há vestígios dos ossos dos punhos e das mãos da primeira ossada. Quanto à outra, acreditávamos que ela havia sido enterrada em pé, mas apenas o crânio foi enterrado, disse o médico-legista José Eduardo Reis, diretor do Departamento de Antropologia do IML (Instituto Médico Legal) de Brasilia".
"Tenho 99% de certeza de que é ele, afirma Maria de Fátima, que também aguarda os exames de DNA para chegar a seu objetivo final: ter certeza absoluta de que se trata da ossada de Paulo Pereira.
De posse do documento oficial dos legistas, os familiares dos dois guerrilheiros mortos pretende, além de enterrar os corpos, buscar a retificação do atestado de óbito emitido há cinco anos pelo governo federal com base na Lei dos Desaparecidos".
"Maria Leonor acredita que a iniciação política de Paulo ocorreu em Timóteo, onde morou durante algum tempo na casa de um tio. Ao retornar a Belo Horizonte, participou de uma greve dos bancários. Foi demitido por causa disso.
Em seguida, mergulhou de cabeça na política. Sua casa era palco de reuniões constantes de militantes do PC do B. Ao pressentir que seria preso, voltou para Timóteo. Depois que policiais do antigo Departamento de Ordem Política e Social (Dops) estiveram sem sua casa, foi orientado por familiares a se esconder. A partir daí, passou para a clandestinidade.
Após deixar Belo Horizonte, Paulo Pereira encontrou-se apenas uma vez com os familiares. Foi no Rio de Janeiro onde passou uma tarde com Maria de Fátima. Todos os outros contatos foram através de cartas, que eram entregues por emissário do partido. Em uma delas, escrita em 71, Paulo Pereira comunicou que estava no Araguaia. A partir daí, nenhuma outra notícia foi enviada, o que só contribuiu para aumentar a preocupação dos familiares".


Texto do Dossiê dos mortos e desaparecidos políticos a partir de 1964, editado pelo governo de Pernambuco no governo Arraes