Partido Comunista do Brasil
80 anos de luta
É comum, em livros que ensinam história nas escolas, o registro de que, no ano de 1922, aconteceu a Semana de Arte Moderna. Referem-se, também, ao Levante do Forte de Copacabana. E nada mais de relevante teria ocorrido no ano da celebração do centenário da Independência. De fato, é absolutamente verdadeiro que esses dois "levantes", o dos intelectuais e o dos tenentes, marcaram 22. Mas além desses significativos episódios, houve um acontecimento extraordinário. Exatamente em 25 de março de 1922 ocorre a fundação do Partido Comunista do Brasil. Ele brota das lutas da nascente classe operária brasileira, inspira-se na revolução socialista de Outubro de 1917 e levanta a bandeira vermelha do socialismo em nossa terra. De lá para cá, parafraseando o poeta Ferreira Gullar, o Partido Comunista não se tornou a maior agremiação do Brasil; mas quem se referir à história brasileira sem mencioná-lo, ou não conhece a história ou está ocultando parte importante dela.
Mas, se a historiografia oficial deturpa e omite, o povo festeja. É da cultura de nossa gente festejar quando as colheitas são boas. E quanta fartura de lutas e realizações há nesses 80 anos de existência do Partido Comunista do Brasil! Os trabalhadores, os democratas, são todos bem vindos às comemorações deste acontecimento histórico, a fundação do mais antigo partido de nosso país. Que, sendo o mais antigo, é também o mais jovem porque sua vida tem sido talhar nas rochas brutas e ásperas do presente o futuro radioso que virá. Atos de alegria e confraternização irão ocorrer por todo este país continental, de Norte a Sul. De formas diversas, mas com semelhante regozijo, irão se manifestar entre os operários e trabalhadores; entre os sertanejos e os camponeses; entre a juventude, as mulheres, os intelectuais; enfim, entre o povo brasileiro de toda parte! Cada um, ao seu modo, irá fazer ecoar o legado dos comunistas, tão bem sintetizado num poema de Pablo Neruda. O poeta chileno diz que o Partido deu voz, boca e ação aos humildes e oprimidos. Com o Partido, "o escravo sem voz nem boca,/ o extenso sofrimento,/ se fez homem, se chamou Povo,/ Proletariado, Sindicato,/ ganhou pessoa e postura." É justamente isto que tem feito o Partido nestas oito décadas de existência.
Sua trajetória assemelha-se à de um rio que nasceu num terreno escarpado e difícil. Para ganhar volume e vida quantos obstáculos tem enfrentado! O principal deles: o conservadorismo e a violência das classes dominantes. Num país marcado por longos períodos de ausência de democracia, não tem sido fácil a sua atuação política e organizativa. Os comunistas foram alvo preferencial desse mal crônico. Em julho de 22, quatro meses após sua fundação, o Partido é posto na ilegalidade. Sua sede foi invadida e seus dirigentes presos - uma dolorida e dramática rotina em boa parte dos seus dias. Na galeria dos heróis e mártires de nosso país, é grande o número de comunistas. Militantes padeceram longos anos nas prisões. Na carne e na alma foram vítimas de torturas atrozes. Só no último período de ditadura militar, mais de uma centena de comunistas foram assassinados. Porém, o Partido jamais se intimidou, nunca renunciou ao seu papel histórico. E para exercê-lo teve, na expressão de Jorge Amado, de atuar nos "subterrâneos da liberdade". Teve, muitas vezes, de ser um tubérculo rico e nutritivo, oculto no solo da pátria. Sempre brotando, às vezes até com folhagens camufladas, para alimentar a luta dos trabalhadores.
Sua edificação não descreve um percurso linear. Pela sua natureza, que abarca teoria, ideologia, política e combate, sua construção passou por crises e sobressaltos. A mais importante levou à sua reorganização em 18 de fevereiro de 1962. Este ato, empreendido por um conjunto de lideranças comunistas - que tiveram a sagacidade e a coragem de tomar uma decisão de longo alcance histórico -, foi decisivo para que ele continuasse trilhando o caminho revolucionário.
Pelas contingências da história nacional, o PCdoB é um partido forjado no combate a ditaduras e na defesa da soberania, da democracia e dos direitos do povo. Enfrentou o autoritarismo da República Velha e do Estado Novo. Lutou contra o regime dos generais de 1964. Pela democracia, organizou a Guerrilha do Araguaia. No sul do Pará, os comunistas, contando com a participação e o apoio dos camponeses da região, protagonizaram a mais importante resistência armada à ditadura militar. Até hoje germinam as sementes plantadas pelos guerrilheiros nas selvas da Amazônia - sementes de coragem e de amor ao povo e ao Brasil.
João Amazonas, presidente de honra do PCdoB, sublinha que o Partido, mesmo duramente perseguido, deu importantes contribuições, em todos os âmbitos da vida nacional, para que o Brasil conquistasse o seu atual grau de desenvolvimento. Foi a primeira agremiação a defender a reforma agrária. Vinculado à classe operária, liderou inúmeras greves e lutas que resultaram em importantes conquistas sociais.
Foi um dos principais responsáveis pela criação de sindicatos em todo o país e pela criação de uma central única classista e combativa para unificar a luta operária e popular. Capitaneou o movimento contra o nazi-fascismo. Impulsionou a campanha O Petróleo é Nosso que resultou na criação da Petrobrás. Desencadeou o movimento em defesa da Amazônia. Na Constituinte de 1946 sua bancada de parlamentares assegurou importantes direitos sociais, incluindo a liberdade religiosa. Em 88, os constituintes comunistas proporcionaram conquistas populares e avanços democráticos. O Partido esteve na linha de frente da campanha pelas Diretas Já e da luta pelo Fora Collor, quando as ruas foram tomadas pelo vigor dos carapintadas. Na atualidade participa, dentre outras lutas, da resistência aos cortes dos direitos trabalhistas garantidos na CLT e do movimento contra a ameaça da Alca.
Grande feito deu-se no início dos anos 90. Nele se enfrentou a colossal campanha anticomunista desencadeada pelo imperialismo, aproveitando o desmoronamento da União Soviética e a queda do Leste europeu. Pelo mundo afora, governos, partidos, estátuas, verdades, dissolveram-se. Mas o PCdoB resistiu - por ter raízes no povo brasileiro e por sua capacidade de elaboração crítica. Já na década de 60 havia percebido o desvio daqueles países da rota revolucionária. Fortaleceu-se, em meio à crise, porque reafirmou o socialismo sob um estudo crítico. Defendeu o legado do socialismo à humanidade, mas, ao mesmo tempo, apontou erros e insuficiências da primeira experiência do socialismo no mundo. Tudo isso deu base para o Partido apontar para o Brasil - em 1995 - uma proposta de socialismo renovado, enriquecido pelo crivo crítico da história. Proposta elaborada segundo a cultura de nosso povo e a realidade nacional.
Ao completar 80 anos o Partido Comunista do Brasil, nas palavras de seu presidente, Renato Rabelo, vive uma das fases mais férteis de sua história. É uma agremiação unida e em expansão. O seu 10º Congresso, encerrado em dezembro último, foi um retrato disso. Da plenária final participaram mais de 800 delegados e observadores de, praticamente, todos os estados da Federação. Trinta e dois partidos e organizações revolucionárias de vários continentes estiveram presentes, o que ressalta o prestígio do Partido no movimento comunista internacional, seu compromisso com a solidariedade entre os povos e o combate ao imperialismo.
O PC do Brasil usufrui a confiança do povo e a credibilidade das agremiações da esquerda, no campo democrático e popular. Realiza intensa atividade política. Sua bancada na Câmara Federal, constituída por dez parlamentares, desenvolve frutífera articulação política e se destaca pela combatividade e coerência na defesa do país e seu povo. O Partido exerce responsabilidades administrativas em várias instâncias de governo. Participa com destaque das lutas dos trabalhadores, da juventude e das mulheres. Seus militantes têm dado grande contribuição para o fortalecimento das entidades e movimentos de importância nacional. Abraça - e neles se insere - movimentos culturais, ambientalistas e a luta anti-racista. Mantém e cultiva seus princípios revolucionários, buscando atualizar e enriquecer o marxismo. É uma organização que se moderniza e se revigora com constantes filiações de talentos e lutadores do povo brasileiro.
Esta atual fase de florescimento é fruto do labor realizado nestes 16 anos de legalidade - o mais longo de toda a sua história. O Partido não se amoldou à institucionalidade burguesa nem se acomodou. Ao contrário, tem procurado aproveitar cada segundo da liberdade conquistada, mesmo que ela ainda seja tênue e frágil.
O Partido também tem consciência de suas lacunas e debilidades - de quanto foi construído e da complexidade do trabalho por realizar. Muito tem a avançar no domínio, desenvolvimento e difusão do marxismo. Tendo reafirmado o papel de vanguarda do proletariado, grande esforço precisa empreender para conquistar a adesão dos trabalhadores ao projeto socialista e incorporá-los às suas fileiras. Enraizado em uma formação social singular, construída pelo convívio e miscigenação de povos de origens diversas ao longo de sucessivas gerações, necessita ampliar a luta em defesa do Brasil - valorizando as particularidades progressistas de seu povo.
O PCdoB comemora os seus 80 anos envolto na grande tarefa de unir o povo e a oposição. Só esta unidade será capaz de barrar a continuidade da nefasta era neoliberal de FHC e de instaurar um governo de reconstrução nacional - que mude os rumos do país.
Mais do que nunca é preciso um PCdoB forte e influente. E ele só irá adquirir essas características se mais e mais receber a incorporação de pessoas que desejam mudar os rumos do Brasil. Suas fileiras são avenidas abertas a todos que queiram integrar-se a este honroso coletivo dos que querem transformar nosso país. Um partido de presença tão rica na história é imprescindível ao Brasil e ao seu povo - no presente e no futuro.
Oitenta anos! Tantas lutas, quanta ação. O Partido marcou a história brasileira com suas bandeiras. Presente no cotidiano das lutas do povo; impregnou-se das qualidades de nossa gente. Adquiriu a força e a bravura dos sertanejos, enaltecidas por Euclides da Cunha. Não perdeu a ternura, como aconselhou Guevara. E armou-se da persistente teimosia de um povo que não abre mão de ser feliz. O que será plenamente possível, no Brasil soberano, democrático e socialista que nossas mãos unidas irão conquistar.
São Paulo, março de 2002
o Comitê Central do PCdoB
| Lições da história do Partido: Os 80 anos do PCdoB |
![]() Protesto em Brasília contra o governo FHC |