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10/06/2019

Os olhares de Olavo Bilac e Caetano Veloso sobre a Língua Portuguesa 

Neste 10 de junho, Dia da Língua Portuguesa, o Prosa, Poesia e Arte publica um ensaio especial do professor e poeta Everaldo Augusto sobre duas das mais belas composições a respeito de nosso idioma: o poema Língua Portuguesa, de Olavo Bilac, e a música Língua, de Caetano Veloso. Segundo Everaldo – que é também mestre em Literatura Brasileira pela Universidade Federal da Bahia –, Caetano e Bilac “partilham a mesma admiração e deslumbramento em relação à Língua Portuguesa”. Confira o ensaio.

Bilac, Caetano: Olhares sobre a Língua Portuguesa

Por Everaldo Augusto*

Sonho às vezes, à noite, quando fico sozinho, com os meus pensamentos, com a inquietação de minha alma, com os meus sustos e as minhas esperanças de brasileiro, um grande poema, o poema que um grande poeta escreverá daqui a cem ou duzentos anos sobre o Brasil. A nossa pátria, a nossa língua, a nossa raça terão um dia a sua epopeia definitiva, complemento dos Lusíadas
(Olavo Bilac, Últimas Conferências e Discursos, 400 anos do descobrimento)

No ano de 2000 o Brasil comemora, além da passagem do século e do milênio, quinhentos anos do seu descobrimento. Claro que, a rigor, o novo século começa em 2001, mas as comemorações — e as fantasias supersticiosas — terão lugar na noite do dia 31 de dezembro de 1999 para o dia 1º de janeiro de 2000. É um acúmulo de significados para a data não compartilhado com nenhum outro país do mundo. A sobrecarga de presságios desencadeada por uma tal conjunção combina bem com a psicologia de uma nação falhada que encontra razões para envergonhar-se de um dia ter sido chamada de país do futuro. 
(Caetano Veloso, Verdade Tropical, 500 anos do descobrimento)

Os dilemas de uma nação em busca de identidade marcaram o Brasil do fim do século 19 e fim do século 20. Esses dilemas perpassam a produção cultural desses períodos e estão presentes na obra de Olavo Bilac e Caetano Veloso. Para estes dois autores convergiram as influências do seu tempo, expressas nos dois textos aqui estudados e no conjunto da obra de cada um. Todavia, tanto em um caso como em outro, a obra não está dissociada da postura política e do engajamento do artista enquanto ser social.

É claro que as atitudes de Bilac e Caetano se diferem por uma questão de perspectiva. O conceito de fim de século em Olavo Bilac é marcado cronologicamente, traduzindo uma obsessão em construir uma nação segundo paradigmas pré-estabelecidos pelas elites letradas do País, vinculadas ao status quo de então. Já em Caetano Veloso, vamos encontrar um conceito cultural de construção da nação no final do século 20, no qual todos os modelos e paradigmas estão em aberto e não foram sistematizados necessariamente na virada do século.

Os debates contemporâneos acerca da nacionalidade, que envolvem as questões relacionadas à cultura, aos modelos de nacionalismo, às dicotomias teóricas do marxismo e ao capitalismo atual, foram abordados por Caetano Veloso, a rigor, desde o início do Tropicalismo, ainda no final dos anos 60. Neste caso, vale o conceito de momento histórico de Silviano Santiago para definir a periodização.

Homens de época

Diferenças conceituais à parte, pode-se dizer que Olavo Bilac e Caetano Veloso são intelectuais emblemáticos dessas épocas distintas da vida brasileira. O tensionamento do fim do Império, a consolidação da República e os debates daí decorrentes sobre os rumos do País envolveram Olavo Bilac por inteiro e marcaram sua produção artística e militância política em favor da construção de uma grande nação dos trópicos.

Ao lado da produção literária, vamos encontrar Olavo Bilac mergulhado na defesa das causas patrióticas, utilizando o texto e o reconhecimento público, como intelectual, para defender seus pontos de vista nos diversos meios de comunicação disponíveis na época. Podemos dizer, guardadas as devidas proporções, que Olavo Bilac foi um homem de mídia no seu tempo, dedicando-se à militância jornalística no Rio de Janeiro e em São Paulo, participando ativamente de conferências e debates nos mais diversos lugares do País e na Europa, na Academia Brasileira de Letras, editando livros e se transformando em um dos principais polemistas de então.


Bilac (à dir.), ao lado do jornalista José do Patrocínio: um intelectual em defesa das causas patrióticas
 
Essas polêmicas lhes renderam um duelo de capa e espada com o poeta Pardal Mallet, além de prisões, exílio e perseguições no governo Floriano Peixoto. Nessas ocasiões, utilizava-se da sátira e da paródia, na imprensa e no teatro, para defenestrar a seus adversários. O presidente da República e o gabinete ministerial eram seus alvos prediletos.

A capacidade de Olavo Bilac em balançar as estruturas do poder estabelecido também está presente em Caetano Veloso. Desde 1967, quando lança as bases do movimento tropicalista, ele ocupa a cena cultural brasileira propondo aplicar e atualizar “num contexto de massa, a filosofia antropofágica do modernista Oswald de Andrade, que propôs o reprocessamento de informações estrangeiras para a criação de uma arte brasileira e original”.

A forma iconoclasta e o conteúdo inovador do Tropicalismo levaram Caetano Veloso ao centro do debate cultural nos meios de comunicação de massas, no qual ficou evidente o choque da sua proposta com os modelos de análise da intelectualidade da esquerda tradicional. Entretanto, era o elemento contestatório do Tropicalismo à ordem estabelecida que mais chamava a atenção e que transformou Caetano Veloso no alvo da repressão da ditadura militar. Ele foi preso, com Gilberto Gil, duas semanas após a edição do AI-5 (Ato Institucional nº 5), em dezembro de 1968. Posteriormente foi exilado, só retornando ao País em 1971.

Ao longo da sua trajetória, Caetano Veloso constrói uma produção artística trazendo temas da contemporaneidade – como sexualidade e racismo – para a música popular, assim como incorpora, na sua produção, temas e artes até então tidos como símbolos da baixa cultura, a exemplo do folclore e de gêneros musicais estigmatizados como brega ou romântico, do samba e de autores até então excluídos do mercado cultural. Dessa forma, o projeto estético do cantor é parte integrante de um projeto político que expressa uma visão multifocal de País.

Textos singulares

Em entrevista à revista Cult, em 2001, Caetano Veloso afirma que a canção Língua nasceu da vontade de usar os procedimentos do rap como veículo: “Eu planejava então explorar um novo filão de textos declamados sobre base rítmica (mas uma base inventada por mim e meus amigos músicos, não uma reprodução do que faziam os americanos), seria um modo de ter mais liberdade para a poesia na música. E o tema de gostar de falar apareceu logo, o que me levou a celebrar a Língua Portuguesa, sugerindo reflexões sobre ela”.

De fato, a canção de Caetano Veloso infere diversas reflexões sobre o idioma português por parte de um artista cujo lugar de fala é o Brasil. A primeira definição de si mesmo é uma declaração sincera – “sou brasileiro” –, que não rejeita as contribuições históricas e culturais para a nossa identidade como nação, mas que faz questão de se rebelar contra a imposição de quaisquer modelos de civilização que queiram nos impor. Contudo, Caetano faz questão também de declarar que não tem filiação orgânica a um projeto predeterminado de nação.

Essa postura permite a ele ver o idioma como um mosaico de falas dos mais diversos lugares, como resultado de um deslocamento histórico do Lácio ao Sambódromo. Consoante com essa postura, Língua evoca a produção canônica personificada na figura de Luís de Camões e Fernando Pessoa, mas, ao mesmo tempo, dialoga com essa produção, às vezes, com ironia, outras vezes com gracejo, ao criar confusões de prosódias e profusões de paródias. A canção é uma viagem pelos dois lados do Atlântico, pela Lusamérica, para se constituir num coral de vozes onde cabem, além de Luís de Camões, Fernando Pessoa e Guimarães Rosa, também os cantores populares, os dialetos de surfistas e sintaxes das mais variadas.


Quadro Camões Lendo Os Lusíadas: poeta português é citado por Olavo e Caetano

Há, na atitude de Caetano Veloso de entender a língua como um coral, um deslocamento de vozes que partem dos mais variados lugares para além dos espaços geográficos. Nesse sentido, a língua é também o teatro, o cinema, a poesia, os meios de comunicação de massas e a própria música popular. A língua é um arco policêntrico em construção, no qual a palavra não é portadora de significados únicos – elas furtam cores como camaleões.

Cem anos antes da canção de Caetano Veloso, Olavo Bilac fez um poema intitulado Língua Portuguesa, também considerado uma celebração ao idioma. O texto de Olavo Bilac destaca a excepcionalidade de uma língua originária do latim, que viceja num ambiente exótico e, ao mesmo tempo, agreste. Da mesma forma que o texto de Caetano Veloso, o poema de Olavo Bilac sugere reflexões sobre a língua e fornece pistas acerca do olhar do autor sobre a nacionalidade.

Celebrar a língua é uma intenção que está registrada no conjunto dos textos, em particular na invocação do ícone de Camões. A reverência ao principal poeta da Língua Portuguesa demonstra que em ambos está presente o que se tornou um estigma em Caetano Veloso – o sentimento de narcisismo, de sentir prazer em valorizar o que é próprio de si.

Essa postura de valorizar o que temos de original também é visível nos dois textos através da citação da nossa paisagem. Para ambos, este é também um dos elementos de nossa originalidade. Nos dois poemas, vamos ter alguns retratos que se tornaram símbolos do Brasil do século 19 e do século 20, “das virgens selvas e de oceano largo ao Pão de Açúcar”.

Caetano Veloso e Olavo Bilac partilham a mesma admiração e deslumbramento em relação à Língua Portuguesa, demonstrados por este último no poema. Não só o texto da canção demonstra isso, mas também os depoimentos do cantor em várias oportunidades, como na já citada entrevista à revista Cult, na qual ele fala das suas leituras, das referências a autores como Miguel Unamuno e do livro Viagens por Terras de Portugal e Espanha, narrativa do filósofo espanhol que enaltece a Língua Portuguesa. Caetano Veloso procura demonstrar sempre o seu prazer em apreciar as singularidades sonoras e semânticas do português, que, para ele, o distingue de outros idiomas.

Olhares diferentes

Em que pesem as semelhanças dos dois autores comoo intelectuais que têm semelhante atitude de insubordinação diante do status quo, que deixaram transparecer nas suas produções essa insubordinação, cuja inserção nos meios de comunicação está sempre associada à contestação, vamos encontrar dois olhares diferentes sobre a língua e do que ela traz em si como componente de nacionalidade.

No texto de Caetano Veloso, temos uma reflexão sobre a língua como resultado da herança da civilização brasileira, na qual o elemento europeu, em contato com a cultura tropical e africana, se transforma e se apresenta como algo original através dos falares diversos. Já no texto de Olavo Bilac, a originalidade está presente apenas no meio geográfico, sobre o qual a língua se impõe, dissociada das contribuições dos falantes. Para Caetano Veloso, a língua é um coral de vozes, constituído da diversidade de falares e de falantes, e no qual a música popular torna-se um ponto de articulação.

Essa concepção da música popular como um lugar de contato e atrito cultural é próprio da contemporaneidade, como afirma Silviano Santiago: “Em lugar de separar e isolar vivências e experiências, em lugar de introjetar o rebaixamento cultural que lhe é imposto para se afirmar pelo ressentimento dos excluídos, a música popular passa a ser o espaço ‘nobre’, onde se articulam, são avaliadas e interpretadas as contradições socioeconômicas e culturais do País, dando-nos portanto seu mais fiel retrato”.

De modo contrário a Caetano Veloso, Olavo Bilac vê o idioma como um modelo para o povo, que o conserva e reforma. No entanto, o ponto de articulação dessa transformação não está nas instâncias de vivência da língua, muito menos na arte popular. Para ele, o lugar de legitimação da língua é a literatura reconhecida e oficializada pelo cânone – e cuja instância de definição são os especialistas, os bem letrados: “O povo, depositário, conservador e reformador da língua nacional, é o verdadeiro exército da sua defesa, mas a organização das forças protetoras depende de nós, artífices da palavra. Devemos ser os primeiros defensores, a guarnição de fronteiras da nossa literatura, que é toda civilização”.

Projetos

Diante desses olhares distintos sobre o mesmo tema, é pertinente investigar as possíveis razões da diferença nas ideias predominantes na época de cada um dos autores e o modo próprio de ambos pensarem e sentirem a realidade. As ideias que predominaram no Brasil do fim do século 19 propugnavam a construção de uma grande nação de progresso, a partir da ação de uma elite bem formada, instruída e capacitada a dirigir a população ignara.

Essas ideias centrais do positivismo iluminista davam à intelectualidade a tarefa de distribuir o conhecimento ao povo segundo modelos definidos, aprioristicamente, pelas elites, condição essencial para que este estivesse predisposto a se tornar construtor da pátria, num quadro de ordem social. Tais pressupostos, que se encontram presentes na pregação patriótica de Olavo Bilac, tornam possível compreender por que o seu poema é uma celebração à língua, no que ela tem de belo e de singular na sua estrutura, mas descolada da realidade social do país.


Ao falar sobre nação, Caetano Veloso lança múltiplos olhares em diversas direções

Se em Olavo Bilac temos um olhar voltado para uma direção única, em Caetano Veloso, o olhar do autor tem um ponto de partida, que é o seu lugar de artista brasileiro contemporâneo, mas a ausência de um modelo a priori de nação faz com que ele tenha múltiplos olhares em diversas direções. Caetano se coloca no lugar de quem acolhe a herança cultural do País, põe essa herança em contato com o presente, dialoga com as diferenças da língua e traz para o texto poético a originalidade da nação, que está, sobretudo, em perceber, acolher e conviver com as diferenças.

Neste país dos trópicos, até mesmo as negatividades e as influências de fora, em contato como o meio cultural mestiço, se apresentam como algo original e belo. Esse sentimento de Brasil, algo original e belo, é uma imagem recorrente em Caetano Veloso. Em Verdade Tropical, ele fala diversas vezes sobre o assunto: “O nome do Brasil não apenas me parece, por todos os motivos, belo, como tenho dele desde sempre uma representação interna una e satisfatória”.

No entanto, essa postura de acolhimento cultural é acompanhada de acentuado senso crítico em relação aos modelos pré-estabelecidos. É por demais conhecida a declarada rejeição de Caetano à aceitação acrítica dos valores difundidos pela globalização, assim como a sua rejeição ao discurso ufanista das elites brasileiras, impregnado da imagem do Brasil, como grande nação do futuro.

Nesse sentido, podemos dizer que a canção é um diálogo com o poema numa mesa redonda em que livros, discos, vídeos à mancheia apresentam suas vozes, parodiando Olavo Bilac. É como se Caetano Veloso estivesse a dizer que a contemporaneidade frustrou a vontade do poeta Bilac de ter um poema da epopeia definitiva da pátria brasileira, porque a epopeia para Caetano está em permanente construção. E deixa que digam, que pensem, que falem.

* Everaldo Augusto, professor e poeta, é mestre em Literatura Brasileira pela UFBA (Universidade Federal da Bahia). Foi idealizador e coordenador do Selo Editorial Castro Alves. Em Salvador (BA), foi vereador e é presidente municipal do PCdoB.

[Este ensaio é baseado em texto publicado originalmente na revista Inventário, do Instituto de Letras da UFBA]


Língua Portuguesa
(Olavo Bilac, 1914)



Última flor do Lácio, inculta e bela,
És, a um tempo, esplendor e sepultura:
Ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela...

Amo-te assim, desconhecida e obscura.
Tuba de alto clangor, lira singela,
Que tens o trom e o silvo da procela,
E o arrolo da saudade e da ternura!

Amo o teu viço agreste e o teu aroma
De virgens selvas e de oceano largo!
Amo-te, ó rude e doloroso idioma,

Em que da voz materna ouvi: “meu filho!”,
E em que Camões chorou, no exílio amargo,
O gênio sem ventura e o amor sem brilho!


Língua
(Caetano Veloso, 1984)



Gosto de sentir a minha língua roçar a língua de Luís de Camões
Gosto de ser e de estar
E quero me dedicar a criar confusões de prosódias
E uma profusão de paródias
Que encurtem dores
E furtem cores como camaleões
Gosto do Pessoa na pessoa
Da rosa no Rosa
E sei que a poesia está para a prosa
Assim como o amor está para a amizade
E quem há de negar que esta lhe é superior?
E deixe os Portugais morrerem à míngua
Minha pátria é minha língua
Fala Mangueira! Fala!

Flor do Lácio Sambódromo Lusamérica latim em pó
O que quer
O que pode esta língua?

Vamos atentar para a sintaxe dos paulistas
E o falso inglês relax dos surfistas
Sejamos imperialistas! Cadê? Sejamos imperialistas!
Vamos na velô da dicção choo-choo de Carmem Miranda
E que o Chico Buarque de Holanda nos resgate
E (xeque-mate) explique-nos Luanda
Ouçamos com atenção os deles e os delas da TV Globo
Sejamos o lobo do lobo do homem
Lobo do lobo do lobo do homem
Adoro nomes
Nomes em ã
De coisas como rã e ímã
Ímã ímã ímã ímã ímã ímã ímã ímã
Nomes de nomes
Como Scarlet, Moon, de Chevalier, Glauco Mattoso e Arrigo Barnabé
E Maria da Fé

Flor do Lácio Sambódromo Lusamérica latim em pó
O que quer
O que pode esta língua?

Se você tem uma ideia incrível é melhor fazer uma canção
Está provado que só é possível filosofar em alemão
Blitz quer dizer corisco
Hollywood quer dizer Azevedo
E o Recôncavo, e o Recôncavo, e o Recôncavo meu medo
A língua é minha pátria
E eu não tenho pátria, tenho mátria
E quero frátria
Poesia concreta, prosa caótica
Ótica futura
Samba-rap, chic-left com banana

(Será que ele está no Pão de Açúcar?
Tá craude brô
Você e tu
Lhe amo
Qué queu te faço, nego?
Bote ligeiro!
Ma'de brinquinho, Ricardo!? Teu tio vai ficar desesperado!
Ó Tavinho, põe camisola pra dentro, assim mais pareces um espantalho!
I like to spend some time in Mozambique
Arigatô, arigatô!)

Nós canto-falamos como quem inveja negros
Que sofrem horrores no Gueto do Harlem
Livros, discos, vídeos à mancheia
E deixa que digam, que pensem, que falem