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09/06/2019

Maria Aparecida Dellinghausen Motta: Quem acordou despenteada? 

O Prosa, Poesia e Arte publica o conto infantil Quem acordou despenteada?, da escritora Maria Aparecida Dellinghausen Motta. A história gira em torno de uma lagarta que só comia e não falava, para espanto e desconfiança geral. Até que...

Quem acordou despenteada?

Por Maria Aparecida Dellinghausen Motta

No jardim da Dona Mariquinha todos caçoavam da lagarta estufada.

Ela comia folhas e folhinhas sem parar; apreciava mesmo as mais tenras. Ingeria o que encontrava pela frente, perfurando as folhagens mais belas, e ia ficando até esverdeada de tanta clorofila.

Os outros insetos que dividiam o mesmo espaço a chamavam de gorducha e preguiçosa. Pois, nada fazia além de comer o dia inteiro e deixava cair cacas por onde passava. ECA!!! Era uma preguiçosa mesmo.

Seus colegas pensavam até que era muda. Mas, qual! Ela não dava ouvidos a ninguém.

O gafanhoto, que era também insaciável, não tolerava aquele mutismo, porque a boca da amiga estava sempre ocupada na comilança. Ele, sim, devorava plantas, mas era elegante, esguio...

A formiga dizia que nem a cigarra (que só cantava!) a incomodava tanto quanto a lagarta com aquele seu jeito abobado de ser.

O grilo, que era falante à noite, não se conformava com esta lagarta, grande, balofa, muda e chata.

Nem mesmo o caracol – tão tímido, o coitado – gostava dela.

No jardim, ninguém a apreciava. E Dona Mariquinha, que tanto cuidava das flores, jurava que um dia iria pegá-la e deixá-la em pedacinhos.

Só a aranha, que era paciente e habilidosa no seu crochê, falava aos demais:

– Essa lagarta parece sorrateira! Ela deve guardar algum segredo... ora, por que não dá ouvidos a ninguém? Um dia ainda nos surpreenderá! E eu quero ficar atenta para quando este dia chegar...

– Ora, amiga, não sejas tola! Essa boboca só pensa em comer e pode até explodir. Nem vaidade tem a coitada! – dizia-lhe a joaninha, tão soberba em seu casaco vermelho pintado de bolinhas.

– Deixem-me observar – retrucou a aranha aos insetos do jardim que ouviam a conversa entre as duas. Esperem só! Aí tem!...

Até que um dia a tal lagarta se fechou ao mundo, ensacando-se dentro de um casulo misterioso, do qual ninguém sabia explicar a origem.

E, maliciosamente, comentava a formiga aos demais:

– Coitada! Creio que por desilusão tornou-se uma enclausurada. Ah, vejam, pode ser depressão. Acho que a desprezamos em demasia, não acham? Sinto até remorso...

Todos se calaram.

O casulo ficou dias fechado, pendurado no ramo da roseira.

Os companheiros passavam de lá para cá, e nada da lagarta.

Um belo dia, a aranha, que tudo observava, fez um alvoroço:

– A comilona das plantas da Dona Mariquinha está se mexendo dentro daquele saco! Afinal, despertou a pobre... deve estar faminta. Não morreu a coitada!

Todos olhavam atentos. O casulo abria-se – Mas, onde foi parar aquela lagartona? Perguntavam-se. Mas...quem será esta que está acordando tão despenteada?!

Mas, não. As asas vão desdobrando-se, meio amassadas de início e, depois, libertas. E eis que voa! E que elegância!...

– Bom dia, amigas e amigos! Como estão? Tirei uma longa soneca, e agora vim vê-los! Passei por uma delicada metamorfose...

As multicores asas farfalhavam leves... até já causavam inveja!

E os companheiros zombeteiros abaixavam suas cabecinhas. E depois, boquiabertos, viam o vôo real daquela estranha criatura que conheciam há dias atrás. Agora linda. Linda!!!

Diante deles, livre e sonhadora, ela completa:

– Agora vim só beijar as flores de Dona Mariquinha. Viram como esse ar primaveril faz bem à minha beleza? Ah, é maravilhoso estar viva!

Dona Mariquinha desce ao jardim, tudo observa e percebe o silêncio de seus insetos barulhentos. De repente, depara-se com o casulo aberto. “Ah! Aquela lagartona...” E deslumbrada fica a contemplar, acenando com as asas sobre suas flores, a borboleta mais linda que já vira...

– Ah, por isso a lagarta sumiu... – disse consigo mesma. E sorriu.

– A beleza do meu jardim agora está completa!...

* Maria Aparecida Dellinghausen Motta, filósofa e escritora, é coordenadora da Ciranda de Letras – Editora Autores Associados