Vermelho

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14/03/2019

Brexit e a Carta de Macron: Ou vai ou racha…

 Esta semana ocorrem várias votações que determinarão o desfecho do processo de saída do Reino Unido da União Europeia (este artigo foi redigido antes dessas votações). Nas últimas semanas a propaganda ideológica e a pressão, centrada na chantagem política e econômica, não conheceram limites.

Por Ângelo Alves, no Avante

 O objetivo foi tentar até ao fim perverter e reverter a decisão do povo britânico, transformar a sua decisão soberana num terrível “pecado”, e colocar na lista da sacrossanta “União” o Mandamento “não sairás”. Coube a Donald Tusk verbalizar a excomunhão dos “promotores do Brexit” ao afirmar que para esses estará reservado “um lugar no inferno”.

Com vários elementos da crise do processo de integração capitalista a aprofundarem-se e a conjugarem-se, a manipulação, os apelos à irracionalidade e o populismo encharcam os discursos oficiais que procuram conter resistências, condicionar as escolhas das próximas eleições e tentar sair do pântano por via de mais uma fuga em frente. É disso recente exemplo a “Carta” de Emanuel Macron “aos cidadãos da Europa”.

Num texto eivado das velhas táticas do medo e do inimigo externo e interno, Macron desenvolve um misto de manipulação, dramatização e populismo para repetir os chavões da tese de “mais Europa” (leia-se mais União Europeia) para fazer face aos “perigos” de que “o Brexit é o símbolo”.

Contudo, o texto de Macron tem uma virtude: diz no concreto ao que vem, e ao fazê-lo acaba por ele próprio desmontar a propaganda enganosa. Macron quer “defender a liberdade”, para isso propõe criar a “agência europeia da proteção das democracias”, ou seja, aquilo que poderia ser uma espécie de Troika ideológica para impor as “democráticas” regras da União Europeia, controlar a internet, definir como se financiam todos os partidos políticos da Europa e “banir discursos de ódio e de violência”, sem definir o que são tais discursos.

Quer “proteger o continente”, para isso propõe um “tratado” e um “conselho europeu de segurança”, o aumento das despesas militares, e uma “cláusula de defesa mútua operacionalizada”, ou seja, amarrar-nos a todos à estratégia militarista e intervencionista do eixo franco-alemão, nomeadamente na grande prioridade de Macron – África – fazendo jus às melhores tradições colonialistas. Propõe ainda que seja Bruxelas a “punir ou proibir as empresas estratégicas que prejudicam os nossos interesses”, impedindo os Estados de desenvolver as suas próprias políticas externas no plano econômico e comercial.

Quer “resgatar o espírito de progresso”. No concreto propõe que quem passe a definir os nossos salários, incluindo o SMN (Salário Mínimo Nacional – N.R.), seja a União Europeia, “adaptados a cada País”. Quer ainda criar um “banco europeu do clima”, uma “força sanitária europeia”, uma “supervisão europeia das grandes plataformas digitais” e um “novo Conselho europeu da inovação” com “um orçamento comparável ao dos EUA”. Apetece deixar a pergunta: Governos nacionais para quê?!

Macron quer mais, “mais depressa” e “sem Tabus, nem mesmo a revisão dos tratados”. Se for necessário, que seja a “ritmos diferentes”. Ou seja, na conhecida expressão lusa, “ou vai ou racha”. Mas o sonho imperial de Macron tem um problema: chama-se POVOS. E pode rachar… e partir!