Vermelho

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28/02/2019

Arquibancada como espaço de resistência e luta

Disse Sócrates – o filósofo da bola, não o grego: “Esses movimentos (de torcedores e torcedoras) estão no nascedouro e têm a ver com mudanças na sociedade, é mais profundo do que futebol”.

Por Penélope Toledo*

Com estas palavras, profetizou a transformação da arquibancada de um mero espaço de espectadores passivos/as, em uma arena de resistência e luta. E é à luz da consciência de que torcida faz parte do espetáculo e tem força política para conquistar direitos dentro e fora dos estádios, que movimentos sociais como os Torcedores e Torcedoras Pela Democracia (TpD) surgiram.

O ano era 2016, período que antecedeu o golpe de Estado impetrado contra a então presidenta Dilma Roussef. Convocadas às pressas por um grupo de torcedores/as engajados na luta pela democracia, cerca de 200 pessoas se reuniram, sob o sol ardente do Rio de Janeiro, em frente à estátua do Belini, no Maracanã, ostentando no peito o escudo do seu clube do coração. Ali nascia, mais do que um movimento social como tantos outros, um coletivo empenhado em derrubar o senso comum de que futebol e política não se misturam.

Pautas relacionadas à democracia dos clubes, federações e sociedade têm sido levadas às ruas e à arquibancada num canto uníssono. Este movimento, assim, como muitos outros análogos que se multiplicam pelas bancadas do país, felizmente, empunham, além dos pavilhões de seus clubes, bandeiras de luta como o direito de torcer, ingressos a preços populares, contra o monopólio de transmissão dos jogos, democratização das gestões, transparência nas contas das entidades e instituições do futebol e fora dele, combate ao racismo/machismo/homofobia, incentivo ao futebol feminino, retomada do Maracanã pelo povo e horários das partidas que atendam às/aos torcedoras/es, este, juntamente com o coletivo Futebol, Mídia e Democracia (FMD).

Dentre as ações e iniciativas, destacam-se as panfletagens nos estádios; a subversão dos cartazes levantados nos jogos, sobretudo durante as Olimpíadas; o fortalecimento dos coletivos de esquerda, antifascistas e afins; golzinhos como ocupação dos espaços públicos; debates com ex-atletas e líderes de torcidas sobre a arquibancada popular, e forte presença em manifestações públicas em favor de direitos e conquistas sociais.

Nestes três anos de existência do TpD, tal qual acontece com o clube da gente, alternaram-se vitórias e derrotas, conquistas épicas e fracassos moralmente demolidores, jogadas de entrosamento refinado e caneladas, campanhas incontestáveis e outras nem tanto, gente que entrou e bate um bolão e gente que saiu desfalcando o time. E entre suor, lágrimas, batimentos cardíacos acelerados, gritos de euforia ou de dor, garra, raça, entrega e muito amor à camisa, os torcedores e torcedoras que acreditam na arquibancada como espaço de resistência e luta seguem a sua partida infindável em defesa da democracia. Ainda tem muito campeonato pela frente e o nosso time está vivo no jogo!