Vermelho

www.vermelho.org.br

10/02/2019

Maurício Dias: Bolsonaro isola Mourão 

Não é mesmo, como parece, um simples jogo político combinado entre Jair Bolsonaro e Hamilton Mourão. Já se fala, mas não se sabe como e por que o conflito começou.

Por Maurício Dias, na CartaCapital

O fato é que, neste curto tempo de governo, o presidente da República tem falado pouco e o vice-presidente, muito. Com discordâncias de um e de outro. Talvez haja uma data. A última vez na qual se falaram foi “durante as eleições”. É o que tem revelado Mourão em entrevistas abertas, seja para a mídia local, seja para a internacional.

Mourão carimbou a frase que ouviu de Bolsonaro, dirigida a ele: “Você não entende de política, então vai por mim que vai bem”. Soa como um puxão de orelhas dado por um capitão a um general.

Não se sabe também de qualquer visita ou, ao menos, um telefonema de Mourão para o Hospital Albert Einstein, onde o presidente se recupera de uma operação. Explicação não há. Chame-se a isto de descortesia de superior ao subordinado que se tornou presidente. Ou será efeito da medição do valor de quatro estrelas no mundo civil?

O presidente sacrificou a saúde para voltar rapidamente a Brasília. Por esta razão foi isolado das visitas. Inclua-se o general. São poucos os vices que contiveram a vontade de trair.

Esse ensinamento foi lançado por Tancredo Neves. Aprendeu na conspiração contra Getúlio Vargas, que, com seu suicídio levou o vice Café Filho ao poder, sucessor aliado a Getúlio. Na sequência emergiu Aureliano Chaves, na ditadura. Rompeu cedo com o presidente João Figueiredo. O País saiu para uma dita redemocratização. Collor caiu e seu vice, Itamar Franco, ascendeu com posturas bem diferentes daquelas do antecessor.

Aqui, porém, não se trata disso. É curioso saber até onde irão Bolsonaro e o governo dele. Até 2022? Mourão coça a cabeça todas as manhãs em que, confinado no Palácio do Jaburu, onde mora e trabalha, pode sentir-se isolado.

Além do mais, não há camaradagem entre o general e o séquito presidencial civil do presidente capitão.

* Maurício Dias é editor especial da CartaCapital