Vermelho

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16/04/2018

Movimentos sociais fazem homenagem a Marielle Franco em Buenos Aires

Cerca de 500 pessoas compareceram ao ato pelos 31 dias do assassinato de Marielle e Anderson em Buenos Aires neste sábado (14). Convocado por mais de 50 organizações de direitos humanos, além da comunidade brasileira e outras organizações políticas, o lugar escolhido para a atividade foi o emblemático Parque da Memória - Monumento às Vítimas do Terrorismo de Estado.

Quase 100 organizações também aderiram à Declaração de Buenos Aires, um documento conjunto que exige justiça para Marielle e celebra sua forma de fazer política e a transversalidade de lutas que promovia. Um dos trechos diz que “seu assassinato é um grave atentado à democracia brasileira e às lutas da América Latina. Faz parte de um aprofundamento da ruptura institucional implementada pelo Congresso em 2016, quando destituiu a presidenta Dilma Rousseff, e com a intervenção cada vez maior das forças armadas na condução de assuntos internos do país. Além disso, o papel da justiça é essencial para entender a grave situação do Brasil”.

No evento, mulheres representantes das diferentes organizações convocantes leram o documento, entre elas Lita Boitano, presidente do grupo Familiares de Desaparecidos y Detenidos por Razones Políticas, e Vera Jarach, da Madres de Plaza de Mayo Línea Fundadora, que finalizou a leitura puxando gritos de “Marielle Presente!” e “Lula livre!”.

Música, dança afro, poesia, capoeira e uma saída de tambores de candombe fizeram da parte da programação ao longo da tarde, que também contou com uma partida de futebol feminino entre times da periferia de Buenos Aires.

A manifestação terminou com uma dinâmica em que as organizações trocaram entre si suas pautas de luta, como símbolo da disposição à interseccionalidade: enquanto uma militante do movimento negro 8 de noviembre exigia “Chega de homofobia!”, um militante da organização Maricas y Bisexuales “Não ao racismo!”. No pôr do sol, ao som de um tambor, os manifestantes jogaram flores para Marielle e Anderson no rio da Prata.

Leia íntegra do manifesto por justiça a Marielle:

Marielle Presente - Declaração de Buenos Aires

No dia 14 de abril completou-se um mês do assassinato da vereadora brasileira Marielle Franco e do motorista Anderson Pedro Gomes.

Marielle representava o que há de mais novo e promissor na política atual. Mulher negra, feminista, favelada, bissexual, mãe solteira e filha de migrantes, ela trabalhou intensamente em defesa dos direitos humanos e contra a discriminação racial, sexual e de gênero.

Como coordenadora da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, deu assistência pessoalmente a vítimas de violência institucional nas favelas. Também deu início a um trabalho pioneiro de atendimento às famílias de policiais mortos. Foi a quinta vereadora mais votada em sua primeira candidatura, em 2016, pelo Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), depois de uma campanha que restaurou a fé na política em muitos e diferentes grupos da sociedade. Em menos de dois anos de mandato, já era presidente da Comissão da Mulher e mantinha uma ampla agenda, que ia da questão racial, a visibilização lésbica e o combate ao ódio contra gays, lésbicas, bissexuais e trans, até creches noturnas para mães solteiras, proteção para vítimas de violência sexual e o desenvolvimento cultural e social das favelas.

Marielle criticou reiteradamente a violência policial e miliciana, que se tornaram ainda mais frequentes no contexto da intervenção militar que ocorre no Rio de Janeiro, decretada no dia 16 de fevereiro de 2018 pelo presidente ilegítimo Michel Temer. Duas semanas antes de sua execução, ela havia sido nomeada relatora da comissão que monitora as ações dessa intervenção. A intervenção ilegal foi condenada pela ONU e pela Comissão Interamerica de Direitos Humanos. Em um comunicado conjunto, expressaram preocupação pelas violações dos direitos humanos que a ação potencializa, sobretudo contra os mais pobres e os afrodescendentes.

Seu assassinato é um grave atentado à democracia brasileira e às lutas de toda a Nossa América. O homicídio de Marielle é parte do aprofundamento da ruptura institucional implementada pelo Congresso em 2016, quando destituiu a presidenta Dilma Rousseff, e com a intervenção cada vez maior das Forças Armadas na condução dos assuntos internos do país. Além disso, o papel da Justiça é crucial para se entender a grave situação no Brasil.

A judicialização da política é a lógica predominante na perseguição dos e das líderes sociais. Os processos de investigação de casos de corrupção estão sendo levados a cabo sobre bases jurídicas frágeis e procedimentos questionáveis. Desse modo, foram capazes de prender o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva meses antes das eleições de 2018, sendo ele um dos principais candidatos. Além disso, o general Eduardo Villas Bôas difundiu mensagens claras sobre o ex-presidente na noite anterior à decisão do Supremo Tribunal Federal de Brasil sobre a possibilidade do mandado de prisão.O comandante afirmou que repudia a impunidade e que “o exército se mantém atento às suas missões institucionais”. A propagação do medo e dos discursos de ódio avançaram drasticamente no Brasil e na região, haja vista os recentes tiros dados contra a caravana de Lula em 28 de março.

A comoção internacional que a morte de Marielle gerou esteve, por outro lado, acompanhada de uma absurda campanha de difamação contra sua figura por parlamentares e membros do poder judiciário. O governo ilegítimo do Brasil tentou se apropriar de sua morte ao considerá-la inicialmente parte das estatísticas da violência urbana e, em seguida, ao distorcer seu sentido para justificar a mesma medida a que Marielle se opunha radicalmente: a intervenção militar em curso.
Porém, aqueles que pensaram que, com a eliminação de seu corpo, calariam a voz de Marielle e sua luta, enganaram-se. Sua execução despertou uma crescente mobilização popular no Brasil e em várias lugares do mundo, e promoveu em poucas semanas importantes iniciativas de articulação e pontes entre diferentes setores populares.

Marielle era a personificação daquilo que ela chamava de "política com afeto", e este é seu maior legado. Ela transitava por diferentes espaços sem perder a radicalidade da defesa dos direitos humanos, e sua história pessoal de resistência e de liberdade são o exemplo concreto do que ela defendia: a transversalidade de lutas. Resta a nós honrar suas ideias e garantir que esse legado permaneça vivo.

Hoje temos uma referente que encarna a história de nossa região. Cada dia que passa, Marielle se torna mais gigante. Seu sorriso carismático, sua atitude desafiadora e suas palavras ganharam o mundo.

De Buenos Aires, a comunidade brasileira, organismos de direitos humanos, movimentos sociais, organizações afro, LGBTIQ e das favelas nos reunimos para exigir justiça para Marielle Franco, uma investigação imediata e efetiva de seu assassinato e o esclarecimento dos fatos. Queremos, além disso, celebrar suas conquistas, suas lutas, sua história e sua passagem por este mundo que, sem dúvida, nos deixou uma marca, uma cicatriz e um caminho a ser percorrido.

Marielle presente!