Vermelho

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29/01/2018

Sucessão de erros facilitou expansão da febre amarela no Sudeste

A sucessão de casos de febre amarela expôs a críticas a agilidade e a eficácia da reação do país ao vírus. Entre os erros apontados por especialistas estão problemas de planejamento, tímida vigilância da cobertura vacinal e falta de senso de urgência diante de evidências de que o vírus se aproximava da região mais populosa do Brasil.

Segundo o Ministério da Saúde, desde julho de 2017 foram confirmados 130 casos de febre amarela no país. Na contagem do governo Geraldo Alckmin (PSDB), são 134 só em cidades paulistas desde janeiro de 2017, com 52 mortes. No Rio, são 26 pessoas infectadas só neste ano.
As capitais dos dois Estados não têm casos humanos autóctones da doença, só de pessoas infectadas fora. A preocupação, porém, é agravada porque elas não estavam na área de vacinação recomendada pelo ministério –e, portanto, têm elevado contingente desprotegido.

No interior de São Paulo e região metropolitana, nove em cada dez casos da doença ocorreram em locais fora do mapa de recomendação de vacina –além da capital, não há casos humanos no litoral.

A reportagem relata que em abril de 2017, São Paulo tinha registrado uma morte de macaco pela doença na cidade de São Roque, que fica a apenas 66km da capital. Enquanto isso, em julho já se sabia que o vírus avançava 2 km por dia.

Ou seja, era uma questão de tempo até que o vírus chegasse à cidade de São Paulo e às regiões metropolitanas, se tornando um grande desafio de saúde pública que poderia ter sido controlado antes. Principalmente porque já havia rumores de mortes de macacos em Mairiporã antes dos registros oficiais (2017), segundo informações de técnicos de saúde entrevistados pelo jornal.
O presidente da Sociedade Brasileira de Virologia, Maurício Nogueira, lembrou em conversa com a Folha que o conhecimento sobre o avanço territorial do vírus do Norte e Centro-Oeste em direção ao Sudeste é mais antigo que esses rumores. Prova disso é a ampliação gradual dos mapas de recomendação de vacinação desde 1997.

O problema, afirmou ele, é que esse mapa sobre o avanço do vírus não foi atualizado com a rapidez necessária nos dois últimos anos.

"A cidade de São Paulo é cercada de mata por todos os lados. Você acha que o vírus ia chegar em Campinas e Jundiaí e não em São Paulo? Teria que ter muita boa vontade e colaboração do vírus", disse o especialista ao jornal.

Para ele, a vacinação nos Estados de São Paulo e do Rio, mesmo que fracionada, deveria ter sido iniciada no ano passado. "Isso se o ministério tivesse vacina suficiente, o que não sabemos."
Enquanto isso, o Ministro da Saúde Ricardo Barros informa que há vacina para todos os brasileiros. Mas o que observamos são enormes filas em postos de saúde pelo estado e a chegada das doses fracionadas da vacina contra a febre amarela, tornando necessário tomar mais uma dose após 8 anos. No que se refere à proteção, a vacina fracionada tem 12 vezes mais imunogênicos que o necessário para se proteger, enquanto a padrão tem 60 vezes mais.

Apesar da campanha de vacinação fracionada ter começado na última quinta-feira (25), as longas filas permanecem. Além disso, neste mês a Organização Mundial de Saúde incluiu o estado de São Paulo como zona de risco.

Para a reportagem, o ministro da Saúde Ricardo Barros afirmou que não era possível "adivinhar" as áreas por onde o vírus da febre amarela circularia.

Segundo ele, o mapa de vacinação não foi expandido para o país todo por causa dos riscos de efeitos adversos graves da vacina. "Não há razão para colocar as pessoas em risco sem necessidade."