Vermelho

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27/01/2018

Honduras, a história sempre se repete duas vezes

Hegel dizia que todos os granes fatos (e personagens) da história universal aparecem duas vezes. Marx complementou, dizendo que uma vez como tragédia, a outra como farsa.

Por Katu Arkonada*

O que aconteceu em Honduras nos confirma a tese dos velhos filósofos de que a história sempre se repete duas vezes: o golpe de Estado contra Manuel Zelaya em 2009 como tragédia, e a fraude eleitoral de 2017 como farsa.

No 28 de junho de 2009, militares encapuzados tiraram o presidente Zelaya de sua casa, em pijamas, e o deportaram ilegalmente, depois de passar por uma base militar conjunta entre Honduras e Estados Unidos [1], à Costa Rica. Zelaya era acusado de tentar realizar um plebiscito para consultar a possível convocatória de uma Assembleia Constituinte, ainda que seu verdadeiro delito tenha sido mudar os postulados que o levaram ao governo como representante do Partido Liberal em 2006, para em 2008 fazer Honduras ingressar primeiro no Petrocaribe e depois na Alba, o que lhe permitiu nesse mesmo ano elevar o salário mínimo em 60%.

O ataque não era só contra um governo progressista, mas contra a ponta mais fraca da Alba, depois de uma década de crescimento dos governos de esquerda na região. Honduras, além disso, tem uma posição geopolítica chave na América Central, sendo utilizada pela CIA nos anos 80 como plataforma de treinamento nicaraguense, e convertendo-se em 2009 em um laboratório do smart power que defenderia Hillary Clinton, à época Secretária de Estado dos EUA; a combinação de hard power (golpe de estilo clássico, uso das Forças Armadas) com o soft power (impulso político a partir do Poder Judicial junto à manipulação midiática e apagão informativo).

Oito anos depois, o Libre (Partido Liberdade e Refundação) se apresenta nas eleições em uma Aliança de Oposição junto ao Partido Inovação e Unidade (Pinu) e o Partido Anticorrupção (PAC), levando o líder deste último, o conhecido apresentador de TV, Salvador Nasralla, como candidato à presidência. Do outro lado, Juan Orlando Hernández (JOH), candidato do Partido Nacional e presidente desde 2013, que tentava uma reeleição, algo proibido pela Constituição hondurenha no artigo 239 [2]. Por muito menos que isso, Manuel Zelaya foi objeto de um golpe de Estado.

Em 27 de novembro último, um dia depois das eleições, o Tribunal Supremo Eleitoral levou a público um informe onde 57% dos voto, já depois de uma recontagem, apontavam a vitória de Nasralla e a Aliança de Oposição mantinha uma vantagem de mais de 5% sobre JOH. Na maior parte dos sistemas eleitorais do mundo, uma vantagem de 5 pontos com mais de 50% dos votos, depois de uma recontagem, se considera uma tendência irreversível. Mas não em Honduras, onde depois de uma mais que suspeita queda do sistema eletrônico, que causou a não transmissão de 5 mil atas eleitorais, força-se uma nova recontagem onde JOH supera por 1,6% Nasralla. Tudo isso sob o toque de recolher decretado dia 1º de dezembro, que até agora deixou mais de 30 pessoas mortas por disparos das forças de segurança.

A fraude foi tão descarada que até a OEA, nada suspeita de simpatias pelos governos progressistas, cujo chefe de Missão Eleitoral era o boliviano Tuto Quiroga, ex-vice-presidente do ditador Hugo Banzer, se viu obrigada a emitir um informe [3] no dia 17 de dezembro, respaldado por um comunicado de imprensa [4] de sua Secretaria Geral que afirma: Intrusões humanas deliberadas no sistema eletrônico, eliminação intencional de rastros digitais, impossibilidade de conhecer o número de oportunidades em que o sistema esteve vulnerável, malas de votos abertas ou sem atas, improbabilidade estatística extrema a respeito dos níveis de participação dentro do mesmo departamento, cédulas de voto em estado de recente impressão e irregularidades adicionais, somadas à estreita diferença de votos entre os dois candidatos mais votados, tornam impossível determinar com a necessária certeza quem é o vencedor.

Um golpe de Estado que foi uma tragédia para o povo hondurenho e latino-americano, e um golpe eleitoral que tem sido uma farsa para toda a comunidade internacional. Aprendamos com a história, para não voltar a repeti-la.

Notas

1 - Honduras tem um acordo com os Estados Unidos desde os anos 50 que determina que o país vizinho pode utilizar livremente qualquer base militar ou aeroporto hondurenho. Só na base militar de Palmerola calcula-se que existam cerca de 500 fuzileiros navais norte-americanos.

2 – O cidadão que tenha desempenhado a titularidade do Poder Executivo não poderá ser presidente ou vice-presidente da República. O que quebrar esta disposição, ou propuser sua reforma, assim como aqueles que o apoiem direta ou indiretamente, serão imediatamente afastados de seus respectivos cargos e ficarão inabilitados por dez anos para o exercício de qualquer função pública.

3 - http://www.oas.org/fpdb/press/segundo-informe-preliminar-moe-honduras-18dic-final.pdf

4 - http://www.oas.org/es/centro_noticias/comunicado_prensa.asp?sCodigo=C-092/17