Vermelho

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31/10/2017

Os detalhes revelados nos documentos sobre o assassinato de Kennedy

Após 25 anos são liberados parte dos documentos mantidos em sigilo sobre o assassinato do presidente norte-americano John F. Kennedy, ocorrido em 1963. Apesar de até agora não provocarem reviravoltas na história e nas conclusões do caso, alguns fatos curiosos sobre o assassinato e detalhes vêm à tona; entre eles, os planos dos EUA contra diversos líderes mundiais, como Fidel Castro 

Por Alessandra Monterastelli *

John Fitzgerald Kennedy, o 35º presidente dos Estados Unidos, foi morto a tiros enquanto desfilava com a primeira-dama em uma limusine aberta no dia 22 de novembro de 1963, em Dallas, no estado do Texas.

No momento do tiroteio o então governador do Texas John Connally também foi ferido, mas sobreviveu. Uma hora depois, um policial texano foi morto a tiros, o que resultou na prisão de Lee Harvey Oswald, acusado de atirar no presidente de um edifício no trajeto do desfile.

Oswald, por sua vez, foi assassinado no dia seguinte no departamento de polícia de Dallas por Jack Ruby, dono de um bar local. Ruby foi condenado à morte pelo crime, mas morreu de câncer em 1967.

O assassinato é fonte de diversas teorias conspiratórias, já que ocorreu no auge da Guerra Fria. Contudo, apesar de até agora os novos documentos não apresentarem dados que mudam a história ou a investigação, mostram detalhes curiosos sobre estratégias de guerra do governo norte-americano e a alta desconfiança entre os líderes naquele momento.

A comissão Warren e suas conclusões

Após o crime, o presidente Lyndon B. Johnson mandou que fosse aberta a Comissão Warren para investigar o caso do assassinato de Kennedy.

Segundo a BBC, o relatório da comissão foi publicado em setembro do ano seguinte, e dizia que os tiros vieram da janela do 6º andar do Texas School Book Depository, um depósito de livros escolares que ficava na praça Dealey.

Ainda de acordo com os investigadores, os tiros foram realmente disparados por Oswald e "não havia provas de que Lee Harvey Oswald ou Jack Ruby fossem parte de qualquer conspiração, doméstica ou estrangeira". Isso porque uma das teorias conspiratórias acreditava que o assassinato de Kennedy teria sido planejado pela União Soviética ou por Cuba, o que nunca foi confirmado devido a insuficiência de provas cabíveis.

Ainda segundo a agência inglesa, nos anos seguintes especialistas continuaram a se debruçar sobre o caso. Em 1968, uma equipe de médicos "corroborou as conclusões médicas da Comissão Warren".

Em 1975, uma segunda comissão, a Rockefeller, disse não ter encontrado "provas aceitáveis de nenhum envolvimento da CIA" no assassinato do democrata. Outra teoria conspiratória seria a de que a CIA, o FBI e até Lyndon B. Johnson teriam colaborado no crime, o que também foi descartado devido a inexistência de provas.

E em 1979, um relatório do Comitê sobre Assassinatos da Câmara dos Deputados americana reiterou as conclusões da comissão Warren, mas afirmou que havia "uma alta probabilidade de que dois atiradores tenham alvejado o presidente Kennedy".

Nenhum fato novo foi divulgado até que, em 1992, foi aprovada a lei “JFK Act” pelo Congresso, que transferiu todos os registros secretos do caso que as anteriores investigações reuniram e criaram - cerca de 5 milhões de páginas - para o Arquivo Nacional dos EUA, liberando-os ao público. Tudo após o polêmico filme de Oliver Stone, “JFK: A Pergunta que não quer Calar” que, apesar de ser uma obra ficcional, gerou rebuliço com a ideia final: os americanos não podiam confiar em conclusões oficiais quando essas conclusões são registadas em segredo.

Desde então, cerca de 88% desses documentos são abertos, mas 11% tiveram "informações sensíveis" removidas e 1% são completamente confidenciais. Isso até a última quinta-feira (26).

De acordo com a lei, todos os documentos deveriam ser divulgados 25 anos depois de seu arquivamento, a não ser que o presidente americano em exercício o proíba. E Donald Trump aprovou a liberação de quase todos- o presidente norte-americano cedeu aos apelos da CIA e do FBI para manter alguns documentos ainda em sigilo, pelo menos até 2018. É comum, como diz o jornalista português Alexandre Martins, que as agências de espionagem e a polícia federal queiram preservar a identidade de certas pessoas e a exposição de determinados métodos de recolha de informação por mais algum tempo, até ficarem convencidas de que isso não poderá pôr em causa a segurança dessas fontes ou até a segurança nacional; essa seria a explicação para os apelos das agências de segurança nacional.

A liberação dos documentos que foram sigilosos não trouxe grandes reviravoltas até agora: a conclusão continua sendo de que Lee Harvey Oswald agiu sozinho. Contudo, alguns fatos interessantes vieram à tona.

Jornal britânico recebeu aviso

Numa revelação bastante peculiar, o FBI escreveu que um jornalista (não identificado) do jornal britânico Cambridge News foi avisado por telefone de que iria acontecer "uma grande notícia" e que deveria telefonar para a embaixada norte-americana em Londres. O telefonema ocorreu apenas 25 minutos antes do assassinato de John Kennedy.


Lee Harvey Oswald, assassino do presidente John F. Kennedy 


À procura de Oswald e o receio da URSS


Oswald já estaria sob o olhar do FBI antes do crime. Por meio de uma ligação interceptada na Cidade do México descobriu-se que Lee Oswald esteve na embaixada soviética no dia 28 de setembro de 1963 e falou com o vice-cônsul, Valeri Kostikov, identificado pela CIA como agente da KGB. Oswald teria voltado a ligar no dia 1º de outubro. Além disso, ele teria pedido cidadania soviética, que lhe foi negada.

Os dirigentes da União Soviética, no entanto, consideravam Oswald um "maníaco neurótico" que era "desleal" ao seu país, segundo um memorando do FBI sobre a reação soviética ao assassinato. Segundo o jornal português Público, fontes do Kremlin expressaram receio de que havia ocorrido uma conspiração organizada pela direita americana ou pelo homem que substituiria Kennedy na presidência, Lyndon Johnson –ou seja, estavam preocupados com uma nova liderança que pudesse decidir atacar a URSS com mísseis e ter atitudes violentas que dariam início ao confronto entre as potências, tanto temido por todo o globo na época da Guerra Fria.

Após o assassinato de Kennedy, o FBI avisou a polícia de Dallas de que existia uma ameaça para matar Lee Harvey Oswald. A informação está num memorando do então diretor da polícia federal, J. Edgar Hoover: “na noite passada, recebemos uma chamada de Dallas de um homem que falava num tom de voz calmo e que dizia ser membro do comitê organizado para matar Oswald", escreveu Hoover no dia 24 de Novembro. "[O chefe da polícia de Dallas] assegurou que lhe tinha sido dada proteção adequada. Mas isso não foi feito”.

Hoover ainda se mostrou preocupado, já naquela época, com o aparecimento de teorias da conspiração. “O que me preocupa realmente é ter alguma coisa para divulgar que possa convencer o público de que Oswald é o verdadeiro assassino”.

Os planos dos EUA contra Cuba e Fidel Castro

Não é novidade de que o governo norte-americano planejava diversos ataques à Cuba, país que foi na contramão do capitalismo mesmo diante da ameaça imperialista dos EUA. Contudo, os documentos divulgados revelaram com mais detalhes o que já se sabia.

Várias tentativas da CIA de assassinar líderes estrangeiros, sobretudo Fidel Castro, foram detalhadas nos documentos. Segundo o Exame, em um dos relatórios datado de 1975, a agência enviou um intermediário para que oferecesse 150 mil dólares para que um mafioso contratasse um matador de aluguel que iria para Cuba assassinar Castro. Outro plano envolvia cooperação de mafiosos para que levassem pílulas venenosas para ilha e as colocassem na bebida do líder cubano.

Em um memorando de 1975 menciona-se que a CIA tentou matar o congolês Patrice Lumumba e o Presidente indonésio Sukarno. Há recibos que mostram os custos das operações em Cuba, no Congo e no Vietname.

As autoridades norte-americanas estudaram ainda a possibilidade de realizar uma sabotagem agrícola contra Cuba para destruir as colheitas do país através de armas biológicas, segundo informações da agência Sputnik. O plano teria chamado de “Operação Mangusto”, e a reunião para discuti-la ocorreu no dia 6 de setembro de 1962. O general Carter teria sugerido “usar agentes biológicos disfarçados de substâncias de origem natural” para destruir colheitas cubanas.

Ainda segundo a agência russa, McGeorge Bundy, o assessor de segurança de John F. Kennedy, advertiu que não era adequado usar substâncias químicas ou similares se não fosse possível esconder todas as provas de sua utilização. O próprio Carter relembrou da vulnerabilidade de uma operação do tipo e de suas consequências terríveis, não por conta dos danos aos civis de Cuba, mas caso “aparecesse alguma prova evidente do envolvimento dos EUA”, como consta no documento.

O mesmo documento mostra também uma proposta de discutir um plano de "ataque contra os funcionários soviéticos que se encontram no território de Cuba", mas nos documentos revelados até agora não constam mais explicações sobre o plano.

O resto dos documentos deverão ser liberados até o dia 26 de abril de 2018.