Vermelho

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13/09/2017

Tereza Cruvinel: De quantas denúncias Temer precisa para renunciar?

Temer, o primeiro ocupante da presidência na História do Brasil acusado de comandar uma quadrilha, começa o dia de hoje reunindo-se com seus líderes aliados na Câmara. 

Por Tereza Cruvinel, no Brasil 247

Tivesse ele algum respeito pela instituição da Presidência, que usa como escudo, anteciparia aos líderes sua decisão de renunciar para estancar a sangria, não a dos investigados pela Lava Jato, mas a do país que se esvai numa crise política e econômica alimentada, principalmente, por sua vulnerabilidade. A reunião, sabemos todos, será para combinarem o enterro da segunda denúncia que está a caminho.

Afogado por uma maré de acusações nas últimas horas, Temer foi despojado do benefício de qualquer dúvida sobre a importância e a urgência de ser investigado e processado, e por decorrência afastado do cargo. E isso dependerá novamente da Câmara. A Polícia Federal o acusou de chefiar uma organização criminosa, o PMDB da Câmara, de ter recebido propinas relacionadas com a liberação de recursos do FI-FGTS da CEF, de ser o destinatário dos R$ 500 mil que a JBS entregou a Rodrigo Loures e ter ganhado R$ 20 milhões em contratos da Petrobrás/PAC SMS. Ele ganhou também em contratos para a construção da usina Angra 3, acrescentou o delator Lucio Funaro. O ministro do STF Roberto Barroso autorizou investigações sobre favorecimento à empresa Rodrimar com o decreto dos portos. Em resposta ele chamou de fascínoras os que o investigam ou delatam.

E hoje pela manhã, vai combinar com seus líderes o enterro de mais uma denúncia. É provável que tenha êxito, se der mais carne aos aliados, ampliando o rombo fiscal novamente. Enterrada a segunda, entretanto, a terceira denúncia poderá vir, subscrita por Raquel Dodge, a sucessora de Rodrigo Janot na Procuradoria Geral da República. O inquérito autorizado por Barroso, sobre o decreto dos portos, será concluído na gestão dela. Loures, antes de ser flagrado com a mala de dinheiro, tricotou a inserção de muitos interesses neste decreto. No mesmo bar em que se encontrou com Ricardo Saud, da JBS, marcou encontro com o enviado da Rodrimar. Dificilmente isso não terminará numa terceira denúncia.

Sepultada a segunda, o país continuará sangrando, à espera da terceira. O Congresso continuará travado e os agentes econômicos vão se manter tolhidos pela incerteza política. Se quisesse mesmo que o país recobrasse alguma estabilidade, até que as urnas relegitimem a Presidência, Temer faria ao Brasil o favor de renunciar.

Não haveria eleição direta, mas a escolha indireta de um presidente tampão. Seria alguém do bloco vitorioso no golpe, que tem a maioria parlamentar, mas, ainda assim, seria melhor que ter no Planalto um presidente carimbado como chefe de quadrilha.

Ele já não está no cargo para implementar a agenda que não foi aprovada pelas urnas de 2014, honrando o pacto com os que, para isso, derrubaram a presidente eleita Dilma Rousseff. A agenda avança no que depende apenas do Executivo mas já fracassou no que depende da aprovação do Congresso, como a reforma da Previdência. Usando a Presidência apenas para se defender e salvar a própria pele, Temer já deixou de ser útil até mesmo aos que o colocaram lá. Mas ele não vai renunciar, é claro, porque fora do cargo iria mais rapidamente fazer companhia a alguns de seus amigos que estão presos.