Vermelho

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12/06/2013

Irmão de professora desaparecida na ditadura critica USP

Diante das dificuldades enfrentadas para que a Universidade de São Paulo (USP) reverta a demissão por abandono de emprego da professora Ana Rosa Kucinski, desaparecida durante a ditadura militar, seu irmão, o jornalista Bernardo Kucinski, decidiu acionar a Comissão da Verdade do Estado de São Paulo.

A própria comissão já havia cobrado da USP esclarecimento sobre o caso, mas não encontrou, na visão de Kucinski, amparo no reitor João Grandino Rodas. “Penso que não iniciou bem o Magnífico Reitor sua participação no esforço nacional de busca da verdade”, afirmou o jornalista, em carta enviada ao deputado estadual Adriano Diogo.

No documento, Kucinski também criticou a omissão do Instituto de Química da USP, ao qual Ana Rosa era vinculada, e ainda lembrou que a comissão da verdade na USP “não iniciou suas sessões, não possui regimento interno e nem cronograma de trabalho”.

O jornalista lançou em 2011 o livro K. (editora Expressão Popular), em que narra a dramática busca empreendida por seu pai para encontrar Ana Rosa. Leia a seguir a íntegra da carta.


Ao Deputado Estadual
Sr. Adriano Diogo
Comissão da Verdade do Estado de São Paulo Rubens Paiva

Prezado deputado e demais membros da Comissão de Verdade da ALESP,

Lamento que a Reitoria da Universidade de São Paulo tenha considerado “inoportuna” a iniciativa dessa comissão de esclarecer as circunstâncias da demissão por abandono de função de minha irmã Ana Rosa Kucinski, “presa e desaparecida política”.

Considero subterfúgio a justificativa do magnífico reitor João Grandino Rodas de que foi instituída uma comissão da verdade na USP. Essa comissão não iniciou suas sessões, não possui regimento interno e nem cronograma de trabalho.

E o tempo urge. Meu irmão Wulf Kucinski, que tanto batalhou pela localização de minha irmã, faleceu ao ano passado aos 80 anos de idade, sem conhecer a verdade dos fatos. Eu já estou na casa dos 76 anos.

Lamento igualmente os inaceitáveis termos da declaração da Congregação do Instituto de Química, de 27 de setembro do ano passado, nos quais também se apoia o Magnífico Reitor, para justificar o seu não comparecimento. Diz a Congregação a certa altura que “se solidariza com a família, amigos de colegas que, na época, não souberam das reais circunstância do seu desaparecimento.

Ora, senhor deputado, o inusitado e escandaloso desse caso, sem paralelo na história da USP, está justamente no fato de que se sabia, sim, na época, e sobejamente, do caráter forçado e involuntário de seu não comparecimento ao trabalho.

Quando a Comissão Processante da Reitoria e a Congregação da Química decidiram pela demissão, em janeiro-fevereiro de 1975, já era amplamente conhecida a condição de desaparecida política de minha irmã, conforme documentos, testemunhos e até notícias de jornal, tudo isso juntado em apelo à comissão processante pelo nosso advogado, o falecido Dr. Aldo Lins e Silva, em 24 de janeiro de 1975, e denegado pela comissão (processo 17.499/74/RUSP).

Enquanto entidades como a Anistia Internacional e a Comissão Justiça e Paz da Arquidiocese de São Paulo já se empenhavam em denunciar a repressão política no Brasil, a Congregação da Química e a Reitoria dessa universidade optaram pelo caminho oposto de legitimar e dar cobertura ao ato criminoso do sequestro e desaparecimento de minha irmã. É disso que se trata.

Ao se fiar nessa declaração falsa do ano passado da Congregação da Química, penso que não iniciou bem o Magnífico Reitor sua participação no esforço nacional de busca da verdade. Anoto também que o longo parecer da Assessoria Jurídica da Universidade, emitido em julho de 95 em resposta ao meu pedido de anulação da demissão (Processo 74.1.17459.1.7), embora recomendasse ao Magnífico Reitor a aceitação do meu pedido, camufla e absolve por trás de uma obscura linguagem jurídica o nefasto papel de coadjuvantes de um crime, desempenhado pela instituição USP nesse episódio, em especial por essa mesma Assessoria Jurídica à época. Não há uma palavra de autocrítica.

Senhor Deputado e demais membros da comissão da Verdade Rubens Paiva: os procedimentos que culminaram na demissão de minha irmã não resultaram do colaboracionismo ou conivência isolada ou medo ou fraqueza de um ou outro funcionário ou professor. Constituíram um processo coletivo da USP como organismo social, envolvendo servidores e professores e instituições e formalismos de todos os escalões da Universidade desde sua assessoria jurídica até a Congregação da Química.

Entendo o constrangimento de ver tudo isso posto a nu, mas, sem o exame profundo de todos as etapas que levaram à lamentável decisão da Congregação da Química e do reitor à época, não mudará a cultura que permitiu que isso acontecesse.

Quando o magnífico reitor Flávio Fava de Moraes, atendendo requerimento meu e ao parecer acima mencionado da Assessoria Jurídica, emitiu, em 20 de julho de 1995, ordem para que fosse cancelada a demissão, e “restaurada a verdade histórica no prontuário e no processo de minha irmã”, ficou faltando a mesma restauração da verdade histórica no âmbito da burocracia e do sistema de poder universidade em si.

Se isso tivesse sido feito, a Congregação da Química não teria emitido mais de sete anos depois a lamentável declaração de que na época da demissão “ignorava as circunstâncias”, Termino reiterando minha disposição de comparecer a essa comissão, desde que assim o façam os dirigentes dos setores da USP envolvidos no caso e/ou com conhecimentos dos fatos.

Atenciosamente,
Bernardo Kucinski
 

Fonte: Carta Maior