Vermelho

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15/03/2019

Glauber Rocha, 80 anos: revolucionar a arte e a vida

O legado do genial criador de Terra em Transe e Deus e o Diabo na Terra do Sol foi o rompimento com a estética americanizada e o olhar agudo sobre as contradições nacionais

Por José Carlos Ruy

Faz 80 anos que nasceu o baiano Glauber Rocha (Vitória da Conquista, 14 de março de 1939 – Rio de Janeiro, 22 de agosto de 1981), expoente e teórico do Cinema Novo, autor de filmes antolólgicos que revolucionaram a arte cinematográfica e marcaram a cultura brasileira desde a década de 1960.

Glauber começou a filmar no final da década de 1950, tendo realizado o filme Pátio (1959) ainda no tempo de estudante. No clima político e intelectual efervescente do início dos anos 60, produziu os titulos que fizeram sua fama e legado, como Barravento (1962) e Deus e o Diabo na Terra do Sol (1963), seguidos pelos clássicos Terra em Transe (1967), que foi o manifesto de uma geração, diz a crítica Ivana Bentes, e O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro(1968).

Glauber foi o porta-bandeira de uma arte engajada e de uma estetética que, rompendo com a linguagem cinematográfica que copiava os modelos norte-americanos, fosse capaz de exprimir as contradições, complexidades e visões de mundo dos países pobres.

Depois de 1964, foi colocado, claro, na lista dos inimigos da ditadura militar (embora, no final dos anos 70, tenha reavaliado favoravelmente sua opinião sobre os militares). Com o endurecimento da ditadura a partir de 1968, as condições de trabalho ficaram cada vez piores.

Glauber, que havia sido preso em 1965, ficou novamente na mira da repressão. A prisão no final de 1970 da equipe de O Pasquim, do qual era colaborador, foi o estopim e, em 1971, partiu para um exílio quase permanente pelo resto de sua vida.

No exterior, seus filmes faziam um sucesso crescente. Barravendo foi premiado, em 1963, no Festival Internacional de Cinema da Tchecoslováquia; em 1964, Deus e o diabo na terra do sol recebeu o Grande Prêmio no Festival de Cinema Livre da Itália e o Prêmio da Crítica no Festival Internacional de Cinema de Acapulco.

Terra em Transe trouxe um reconhecimento internacional mais amplo, com várias conquistas: o Prêmio da Crítica do Festival de Cannes, o Prêmio Luis Buñuel, na Espanha, Prêmio de Melhor Filme do Festival Internacional do Cinema de Locarno (Itália), e o Golfinho de Ouro como melhor filme do ano no Rio de Janeiro. O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro também conquistou o prêmio de melhor direção no Festival de Cannes e também o Prêmio Luiz Buñuel.

Artista de vida intensa, dizia não temer a morte. Em Sintra, Portugal, onde morou nos últimos anos, chegou a dizer ao ator Patrick Bauchau, que lá estava com Wim Wenders para filmar O Estado das Coisas, que "para a média de idade de um latino-americano, aos 42 anos já vivi bastante".

O principal, para ele, era mudar o mundo, não só no plano da estética mas, também no plano da vida, da política, da sociedade. E, baiano do sertão mas criado em Salvador, conhecia a índole brasileira como poucos. "Nossa cultura é a Macumba e não a ópera. Somos um país sentimental, uma nação sem gravata", disse certa vez (esta frase, e as seguintes, foram coletadas por Ivana Bentes e publicadas no texto “Glauber Rocha”, em http://www.vidaslusofonas.pt/glauber_rocha.htm).

A mistura, em sua memória, das leituras da Bíblia na infância, das histórias sertanejas de matadores de cangaceiros e outras lendas do interior, foram férteis e, desde muito jovem, dizia que seria um escritor para escrever "sobre minha terra. Prefiro os escritores brasileiros aos europeus.” E, aliás, tinha uma identificação forte com os românticos brasileiros.

Certa vez pediu ao poeta e jornalista baiano João Carlos Teixeira Leite (o “Joca”, dono do Jornal da Bahia, que foi colega de escola de Glauber no Colégio Central e se tornou seu amigo íntimo): "Quando eu morrer escreva no Jornal da Bahia que, como Álvares Azevedo, foi poeta / sonhou / amou na vida".

Menino ainda, aprendeu a amar a poesia de Castro Alves, que via como um “amante das antíteses e das hipérboles”, como ele, próprio. “Sofro da mesma exaltação poética! Ao longo da minha vida, a admiração pelo poeta abolicionista só foi superada pela identificação com o cineasta russo Sergei Eisentein, fui até Moscou em 1976, para ver seus arquivos, e tenho verdadeira reverência por Bertold Brecht. Mas "a poesia e a política são demais para um só homem!"

Fiel ao lema que inventou – uma ideia na cabeça e uma câmara na mão -, apoiou a Revolução Cubana, filmou a Revolução dos Cravos em Portugal, em 1975, rodou o mundo para filmar as esperanças e as perplexidades dos povos, aproximou-se, em Paris, da Aliança de Libertação Nacional (ALN),encontrou-se com Luís Carlos Prestes em Moscou, em 1976. Deixou a vida jovem, com 42 anos de idade, deixando um legado de engajamento estético e político intenso, poucas vezes superado.

Veja abaixo trecho de Terra em Transe: