Vermelho

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29/12/2010

Urariano Mota:  Lula chora no Recife

Na última terça-feira deste ano, o Recife viveu momentos raros de encantamento. No marco zero da cidade, uma emocionada multidão parou enfeitiçada como se fosse uma só pessoa. Ali, o Presidente Lula, de camisa azul e sem cerimônia, despediu-se da presidência para os pernambucanos.

Antes de tentar descrever o feitiço, se é que feitiços podem ser descritos, é bom notar o que a imprensa falou desse momento no marco zero do Recife. Para a televisão, Rede Globo à frente, Lula chorou, chorou e chorou por três vezes na noite de 28 de dezembro. Ou mais precisamente isto, no Bom Dia Brasil: “O presidente Lula voltou a chorar em mais uma despedida pública, desta vez em Pernambuco...”. Chorão, chorão à toa, insinuou-se dizer. Nos jornais situados abaixo ou acima do Nordeste, as notícias destacaram o mais relevante, a saber, que o presidente chorou, chorou três vezes em seu adeus. O que dá margem nos sites para comentários do gênero, “chora porque vai ficar sem o poder”. E outras coisas mais ou menos chulas.

Na imprensa pernambucana, sob os ventos fortes do governo do estado que apóia Lula, os artigos e reportagens estiveram mais próximos, mais fieis, ao acontecido na última terça-feira. Apesar da tônica no choro. Como no Diário de Pernambuco:
No último discurso em Pernambuco antes de deixar a Presidência da República, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) chorou por três vezes e soluçou numa delas. “Se eu falhasse, quem falharia era a classe trabalhadora, os pobres que iriam provar que não teriam competência para governar”, disse Lula em festa promovida no Centro do Recife, enquanto enxugava as lágrimas e justificava a cobrança que se impôs após vencer a eleição de 2002. O momento de maior emoção de Lula deu ao lembrar-se do seguinte episódio narrado por ele: "Eu lembro que um dia, aqui, uma mulher falou que não ia votar em mim porque eu ia tirar tudo dela. O que eu ia tirar dessa mulher? Eu falei: 'Marisa, estou assustado, que eu fui num barraco e uma pessoa que não tinha nada, tinha medo de mim. Marisa (a primeira-dama) me dizia: 'Não desiste que um dia você vai convencer' e isso aconteceu em 2002`.

Em seguida, ouvia-se pelo microfone Lula contendo o choro. Na platéia, dezenas de ouvintes o copiavam. A fala de Lula durou 33 minutos. Cerca de oitenta mil pessoas estavam no Marco Zero, segundo o coronel Eden Vespaziano, da Polícia Militar; 300 policiais participaram do esquema de segurança. Ao escutar a rima do jovem poeta Antônio Marinho, um pouco antes, Lula já havia lacrimejado, passado a mão no rosto várias vezes e franzido a testa. Logo no início do discurso, mencionou a vergonha de chorar. "Uma coisa que admiro no povo é que o povo chora para fora, o povo 'cafunga', lacrimeja e político chora para dentro com vergonha". Com um rasgo de tempo, foi ele a 'cafungar'”.

E no Jornal do Commercio, que vinha mantendo até então uma orientação “editorial crítica” ao governo do estado:

Emoção e choro na despedida

Uma despedida emocionada, com ares de ‘até breve’, deu o tom da festa organizada pelo governador Eduardo Campos (PSB) para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), ontem à noite, no Marco Zero, Recife Antigo. Era de se esperar. Afinal, como disse o próprio homenageado em seu discurso, ‘lágrimas são feitas para serem derramadas’. E Lula não resistiu. Emocionado, chorou várias vezes. Ao ouvir a poesia declamada pelo sertanejo Antônio Marinho, ou ao som do repente dos violeiros Waldir Peres e João Paraibano. Chorou também ao escutar os emocionados agradecimentos do governador aliado – que o condecorou com a Grã-Cruz da Ordem do Mérito dos Guararapes – e, claro, chorou ao se despedir do público. ‘Deixo apenas a Presidência, mas não pensem que vocês vão se livrar de mim’, brincou.

No meio da multidão – cerca de 80 mil pessoas, segundo cálculos da Polícia Militar – muita gente, emocionada, acompanhou o pranto presidencial. Faixas e cartazes expressando gratidão e palavras de carinho se espalhavam pelo mar de gente, que suportou mais de duas horas de atraso para ouvir Lula fazer um balanço das ações executadas em Pernambuco durante seus dois mandatos. Mais uma vez dispensando o discurso previamente escrito, o petista fez o que gosta mais: falar de improviso. E foi assim que Lula, novamente, relembrou passagens da sua vida pessoal e episódios do início da carreira política, como as conversas com o ex-governador Miguel Arraes – ‘o primeiro a me apoiar em 1989’ –, sua experiência nas ‘Caravanas da Cidadania’ que percorreram o País e as várias eleições que precisou perder, antes de ganhar”.

Entendam, por favor, não é que não tenham aflorado lágrimas nos olhos do presidente. Mas isso longe esteve de ser o mais relevante da noite. Aqui, mais uma vez, a imprensa cumpre a frase magnífica de Mark Twain: “O jornal separa o joio do trigo. Publica o joio”. Isso quer dizer, para a noite de 28 de dezembro de 2010: houve emoção e verdade no reencontro de um homem com os seus atos políticos, de um presidente com a gente que o ama. E carinho e coragem e pulsar de afetos são coisas que mexem nos nervos até das pedras. Em lugar das lágrimas nos olhos do presidente, melhor seria que se destacassem fatos como no Blog do Planalto:

“Lula afirmou que sempre procurou viajar muito pelo Brasil para poder conhecer as pessoas, conversar com elas, olhando nos olhos e tocando, porque como disse ‘não há possibilidade do ser humano interagir se não houver um toque de mão, um abraço, um beijo, um carinho, um olhar olho no olho’. Disse ainda que aprendeu muito com as três derrotas que sofreu em eleições presidenciais (em 1989, 1994 e 1998). A lição principal: não é possível governar bem o País sem conhecer sua terra e sua gente:

‘Era preciso que o presidente tivesse um olhar total do seu País, para conhecer o seu povo, e poder governar distribuindo possibilidades para que todos tivessem condições de participar do desenvolvimento desse País. Foi a partir da descoberta das eleições de 1989, em que eu descobri que era falsa a disputa eleitoral, que um presidente da República pegar um avião em São Paulo, descer no aeroporto de Recife, subir num palanque, voltar para o aeroporto e voltar para São Paulo não lhe permitia o povo pernambucano, era preciso que ele conhecesse um pouco mais. (…) Foi a partir daí que resolvi fazer as caravanas da cidadania. E comecei fazendo a primeira caravana percorrendo o trajeto que a minha mãe percorreu com oito filhos, saindo de Caetés até a cidade de Santos, em São Paulo. Parando em cada cidade, conversando com as pessoas. Depois eu percorri 91 mil km de carro, de trem, de ônibus, de barco. Para conhecer a cara, o jeito, o contar da piada, da graça, o cantar do povo pernambucano, o sofrimento do povo brasileiro. E isso me deu uma dimensão do Brasil que eu queria governar’.”

E, na verdade, em toda imprensa, até mesmo no Blog do Planalto, se perde uma dimensão essencial para quem relata uma ação política: em vez de o foco ser o grande homem, o homem que está no poder em um foco único e exclusivo, maior significação teria se os olhos do repórter estivessem no público, nas pessoas fora do palco. Melhor seria que o repórter se fizesse um dos que estão do lado de cá, se a reportagem se fizesse por alguém que não entrou no céu, mas contempla o espetáculo. Lembro de outra vez, quando Lula visitou o bairro de Água Fria, no Recife, para inaugurar a primeira agência do Banco Azteca:

“Espremida no meio do povo, uma senhora aperta nas mãos uma folha de caderno dobrada, com um pedido para o Presidente do Brasil. Estamos do outro lado da cerca, formada por cavaletes de ferro que circundam todo o Largo de Água Fria. Repórteres passam e não se dignam a nos dirigir um olhar, a misericórdia de uma atenção. Como são conscientes de que a sua importância está na razão direta da distância desta massa! Dos periféricos, os que estamos do outro lado da cerca, espremidos entre pivetes e cavaletes. Uma repórter, muito jovem, se dirige a duas autoridades, isso devem ser, porque são gordos, altos, brancos, e vestem ternos de xadrez. A sua fotógrafa se aproxima, e como não pode ficar o tempo todo acompanhando uma conversa que não lhe diz respeito, dá-lhe as costas, vai caminhar em um diálogo com o seu celular. Belas fotos teremos...

Súbito há um estouro, não de fogos, nem de boiada. Há um rumor que cresce, que se torna incontrolável, que mais lembra um orgasmo coletivo. Sofrido, querido e esperado. É Lula! É Lula! Todos gritam. Os berros se fazem ouvir mais alto, ensurdecedores. Mulheres, meninos, homens chamam a atenção do Presidente, querem chamá-lo, e ele não sabe para que lado do cercado de cavaletes se dirija. Na hora uma idéia tenebrosa me ocorre: se caísse um raio aqui, todos morreriam felizes. Mas essa idéia não atinge palavras. Lula vem para o nosso lado. É ele. A minha mulher, fotógrafa, se esquece em absoluto de mim, o repórter, e avança para o círculo estreito onde todos lhe querem tocar a mão. Aos gritos. Aos prantos. Aos empurrões. À força, ainda que contidos e reprimidos pelos jovens rapazes de negro...”.

Assim como naquele dia, também nessa última terça-feira. Se os repórteres não vissem a multidão à distância, teriam visto cadeirantes pedido passagem, senhoras velhinhas apoiadas nos netos, indivíduos cegos a tatear com suas bengalas, jovens, muitos jovens, negros, muitos negros, negros na pele e no peito, que ouviam sérios, com absoluta atenção o presidente que lhes dizia, apontando para um menino da favela que toca violino: “Ele, Daniel, só queria uma oportunidade”. Teriam visto as pessoas se retirando do encontro, depois que Lula acabou a sua fala, a ponto de o locutor lhes pedir que ficassem, porque teriam ainda um show de Alceu Valença e Geraldo Azevedo. Inútil, porque ainda assim as pessoas se retiravam, porque o ápice do drama, nessa noite, já havia sido atingido: o presidente lhes falara que do seu destino um homem não desiste. Que nada pode ou não deve estar definido antes em razão de renda, lugar, sexo ou raça.

No final, muitos homens feitos lacrimejavam de felicidade. Choravam e sorriam um sorriso bom e não conseguiam parar de sorrir, em silêncio, enquanto se retiravam. Choraram mais de três vezes. Mas ninguém viu. Os chorões estavam todos do lado de cá, longe do palco.