Vermelho

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29/11/2010

A perversão mediática: impedir ou bloquear a consciência social

A situação dos media a que nos referiremos é diretamente a situação em Portugal (embora não se trate de uma situação especificamente portuguesa), e observam-se os seus traços tentando captar alguns da mais estrita atualidade.

Por Manuel Gusmão, no ODiario.info

A situação contemporânea dos media decorre no fundamental da propriedade dos grandes meios de comunicação social se encontrar concentrada nas mãos de uma fração das classes que dispõem do poder econômico e financeiro e, por conseguinte, do poder político.

Nas últimas duas décadas do século passado, acelerou-se um processo complexo que veio a traduzir-se numa brutal alteração da correlação das forças de classe a nível europeu e mundial, marcada pelas derrotas históricas do campo em que se iniciaram as primeiras tentativas de construção do socialismo, e por uma vitória do neoliberalismo no terreno das disputas ideológicas internas ao campo da burguesia internacional.

Esta situação determina que o exercício do poder na produção da comunicação utiliza não apenas meios técnicos em matéria de informação, entretenimento e conteúdos, mas também meios (repressivos) próprios da cadeia de comando de qualquer empresa capitalista.

Os objetivos próprios e específicos da gestão das empresas de comunicação social são conformes aos objetivos gerais da dominação das classes dominantes: a extorsão do lucro e a montagem de uma teia ou rede, ou de uma gigantesca tela destinado a influenciar ou a pressionar a reprodução do modo de viver social dominante.

Assim, visando a imposição de uma crescente fragilização dos seus trabalhadores, que os torne mais facilmente controláveis e obedientes perante a extorsão, promove-se uma crescente precarização das suas condições de trabalho.

Através dessa precariedade instalada e das formas de pagamento a recibo verde e à tarefa, da acumulação imposta de estágios não remuneradas, etc., a gestão dos media dominantes visa a maximização dos seus lucros e indissociavelmente, uma crescente compressão da autonomia relativa do trabalho intelectual (dos jornalistas e de outros profissionais intelectuais. A essa compressão pode acrescentar-se uma acentuada diferenciação social no interior desses grupos profissionais.

Uma realidade em rápida transformação

A situação e sobretudo o poder e a influência dos media que, como é fácil de compreender, são o poder e a influência política e ideológica dos seus proprietários é uma situação que ganha novas formas e realidade numa transformação rápida, que se acelera nas duas últimas décadas do séc. 20.

1. O impacto das inovações tecnológicas e a sua apropriação e gestão pelos proprietários dos media.

2. Os grupos econômicos e financeiros, a concentração da propriedade dos media e as condições de trabalho dos jornalistas. Em Portugal como o detalhou ontem Fernando Correia existem 5 grupos que dividem entre si a propriedade da imensa maioria dos media em Portugal.Como o tem também observado Fernando Correia é através destes grupos que o capital espanhol entra para o seu comando.

3. A apropriação pelo grande capital do desenvolvimento tecnológico e a concentração da propriedade dos media tem conduzido à criação de novos espaços informativos, a uma mercadorização crescente dos media e do seu produto: a informação, o “conhecimento”, a opinião, o entretenimento e os conteúdos.

4. Esta situação altamente complexa e contraditória leva à pluralização das expectativas dos diversos sujeitos sociais, mergulhados na noite urbana e ao esgotamento da resposta dos Media a essas expectativas.

Fernando Correia tem, entre nós, insistido nisso. Aproxima-se da realidade contemporânea dos media, por exemplo através da observação dessas expectativas: Para os jornalistas os media são um espaço de informação”, para os patrões são um produto; para os publicitários e anunciantes são um suporte de anúncios; para os dirigentes políticos e cada vez mais também para os desportivos, os media são um instrumento de luta pelo poder e de exercício do poder; para os cidadãos, os media tendem a constituir um espaço de participação. Para os trabalhadores, os sindicatos grupos minoritários (e outros) os media revelam-se um privilegiado espaço de reivindicação; para determinados sectores da intelectualidade, os media constituem uma instância de visibilidade e, por essa via, de legitimação e de credibilização (cf. Bourdieu). Fernando Correia adiantava que , nomeadamente num país como o nosso, os media são o principal ou mesmo o único instrumento de conhecimento; tudo o que sabem tendem a sabê-lo pela televisão.

Fabricar o consenso, impôr a obediência

A capacidade humana de linguagem é o fundamento e a condição de possibilidade da comunicação. Falar uma língua, produzir um discurso, comunicar é tendencialmente uma atividade dialogal e dialógica, eminentemente participativa e interaccional. Isso pode exprimir-se dizendo que uma frase é sempre dita pelo menos por duas pessoas: por aquele que a produz antecipando sua interprtação por um receptor e este que entende e responde a essa frase. O sentido dessa frase é sempre o resultado de uma negociação, o fruto de uma cooperação.

O Efeito do rio de águas caudalosas.

Nos media dominantes, tendencialmente, trata-se de produzir um discurso veloz, poderosamente redundante e que condiciona brutalmente as hipóteses de resposta. Só tolera a interação pobremente mimética, que repete o que já foi dito e fixa as regras de estilo e de modelação da notícia que só são aceites se inalteradas e inalteráveis. É um discurso que manifesta constantemente ligações não explícitas nem tematizadas, que jogam com preconceitos, valores e representações ideológicas profundamente depositados em estratos infraconscientes da consciência social.

Surgindo como transversal aos programas de informação, de opinião e entretenimento, esse discurso verdadeiramente totalitário torna impossível a referência a um fato histórico designado como “invasão do Vietnã do Sul” ou como a “agressão americana ao Vietnã do Sul”.

O Efeito de mosaico: a perplexidade induzida.

O alinhamento das notícias no telejornal pode ser manipulado, quer aproximando notícias em que se pretende ver uma relação, que não sendo explícita convoca precisamente estereótipos e preconceitos conservadores, quer afastando notícias que essas sim podem conter uma ligação que não se quer tornar patente. Aqui se inclui um procedimento muito frequente que consiste em dar-se uma notícia de tal forma que ela é incompreensível.

Ocultar o que se passa: mentir.

Exemplo: noticiar uma greve sem se dizer o que é que motiva os trabalhadores, o que é que eles reivindicam. Há casos deste tipo de manipulação grosseira, em que a notícia esconde ou mente sobre o motivo ou as razões precisas da luta. Recentemente as manifestações em França eram sistematicamente acompanhadas pela “informação” de que os manifestantes lutavam contra a passagem da idade da reforma dos 60 para os 62 anos. Entretanto nas imagens de um canal de televisão apareceu um trabalhador com uma bandeira onde se percebiam os números 60 e 67. Mas não só não foi apresentada, com base no cartaz, as verdadeiras razões da luta , como se persistiu na imprecisão mentirosa da notícia. Esta mentira apoia-se e explora a dificuldade de muitas pessoas em lerem com proficiência uma imagem que aliás passa velozmente.

Omitir e silenciar

Entretanto, para além destes casos de manipulação simples da notícia que ou é incompleta ou deformada, há uma outra estratégia provavelmente mais grave e perigosa, que pode produzir lacerações mais extensas e profundas na consciência social e política daqueles que se encontram expostos aos media. Esta estratégia procede pela ocultação e pelo silêncio feito sobre um determinado acontecimento, uma declaração, uma proposta ou orientação alternativa para resolver um determinado estado de coisas. Essa ocultação pode atingir um determinado tipo de sujeitos sociais ou políticos.

Como é compreensível, esta estratégia induz um efeito de invisibilidade daqueles que são o seu objeto ou as suas vítimas. É como se não existissem.

“Quem não aparece, esquece”.

Excluir: isto não pode ser pensado

Que a crise atual é uma crise do capitalismo, foi uma ideia que conseguiu ser expressa no princípio da crise. Parecia que o fato de se deixar formular assim o problema se devia a uma necessidade de partir de um mínimo de credibilidade, a uma vontade de assegurar uma disposição mínima para ouvir. Mas rapidamente os media procuraram que só o dissessem aqueles que apareciam como deputados e dirigentes políticos de uma esquerda anticapitalista e que assim eram desqualificados por três razões “óbvias” (?): 1) eram “políticos”, 2) tinham uma ideologia e 3) eram anticapitalistas. Sobretudo aconteceu que a partir daí, na fase em que se tratou de discutir as políticas para responder à crise e sai dela, os participantes foram ferozmente selecionados: passaram a ser necessariamente economistas conhecidíssimos ou perfeitamente desconhecidos, mas todos piamente crentes na mesma grande receita. Reparar-se-á que nem têm que combater ou contra-argumentar contra uma orientação marxista, porque isso já era perigosamente sugerir que uma outra orientação era possível e havia quem a argumentasse. Os media passaram a comportar-se como se uma alternativa fosse impensável, monstruosa ou portadora de um qualquer elemento misteriosamente patogénico. Podemos imaginar que se algum economista escapasse ao feroz controlo instalado uma das coisas que lhe poderia acontecer era passar por alguém fora de moda se não mesmo fora deste mundo, ou aparecer como alguém alucinado ou algo ridículo como uma visita de uma casa de gente fina que não sabe comportar-se à mesa ou na conversa de salão.

Em tais condições compreende-se se dissermos que não é preciso sequer que ninguém diga ou proponha como conclusão de um debate que o capitalismo naturalmente passará esta curva. Por que o que se visa com estes programas, em que a opinião não apresentada como tal, ou mesmo enganosamente apresentada como informação, é a inculcação de que o capitalismo é o estado natural das coisas.

Como se fosse o ar que respiramos: naturalizar a ideologia burguesa.

Tal como a ideologia burguesa é como o ar que respiramos. E porque o respiramos é que estamos vivos. QUOD ERAT DEMONSTRANDUM. A ideologia burguesa é aquela que rejeita ser uma ideologia, ser burguesa e ser de classe.

Uma nova cultura: a cultura mediática de massas

Hoje em dia, com o desenvolvimento das novas tecnologias de informação e de comunicação, com a concentração da propriedade dos media e a formação de grupos multimídia, os media contemporâneos tornaram-se uma plataforma em expansão, anexando atividades que, até à 2ª metade do século 20, apareciam como territórios culturais autônomos, dispondo nomeadamente de tradições próprias. Refiro-me ao conjunto das artes.

Poder-se-ia supor que essa anexação poderia ser descrita como o fornecimento às artes de um novo aparelho de distribuição, exibição e exposição dos seus artefatos. Veio contudo a acontecer quase inevitavelmente (uma vez que o referido processo se dá num campo dominado pela produção capitalista) que os media se tornaram agentes e fatores da produção artística.

Com isto, aquilo que parecia ser a lógica evolutiva interna das formas artísticas passa a ser subordinado à lógica mercantil, que domina a produção para o mercado, e à pressão do gosto das grandes audiências. Os dois principais modelos da produção e da recepção artísticas tornam-se assim o mercado e o espetáculo.

No mercado capitalista contemporâneo, as regras neste campo deixam de ser meramente econômicas para passarem a ser também ideológicas, e o espetáculo não é apenas o palco para as fantasmagorias da mercadoria, mas a instauração de uma distância que aliena a participação do espectador.