Jornalistas da AL analisam importância da reeleição de Lula

Dois importantes jornalistas da América Latina foram convidados pela Agência Carta Maior a escrever sobre uma eventual derrota do presidente Lula nas eleições de 1º de outubro.

Hugo Cores, do uruguaio La República, entende que o retorno do PSDB ao governo federal  significaria um enorme retrocesso para a integração latino-americana. Já para Luiz Hernández Navarro, do mexicano La Jornada, uma derrota de Lula jogaria no lixo todo o processo de mudança de correlação de forças iniciado na América Latina em favor de causas progressistas.



Confira abaixo os dois artigos:



América Latina sem Lula



Por Hugo Cores



Uma derrota eleitoral de Lula seria vivida como uma amarga derrota, pelo governo uruguaio e pela maioria dos partidários da Frente Ampla.



Em primeiro lugar, pelos laços históricos que aproximam o PT e a Frente Ampla, duas correntes populares e de esquerda, com muitos pontos de analogia ao longo de mais de 20 anos. Muitas das características do PT e da FA têm nas suas raízes as tradições democráticas, sindicais e políticas dos velhos partidos dos anos 60 e 70, submetidas aos processos de atualização doutrinária e ideológica impostos pelo novo século.



Em segundo lugar, a vitória de Lula no Brasil em outubro de 2002 deu início, simbolicamente, a um processo de consolidação e de novas vitórias eleitorais progressistas na América Latina.



A vitória do PT foi o primeiro impossível que se tornou possível. O primeiro triunfo das propostas de mudança que começaram a se construir na América Latina para atenuar os efeitos desastrosos que o neoliberalismo deixava na economia e nas nossas sociedades.



Em terceiro lugar, e para mim aí está o essencial, Lula encarna a possibilidade de um Brasil que participe ativamente num processo de integração real da América Latina. O contrário seria o agravamento da dispersão e da fraqueza.



O estreitamento das relações com a Argentina, assim como com o Uruguai, o Paraguai, a Bolívia e a Venezuela, e sobretudo a consolidação do Mercosul são fundamentais para começar a construir uma proposta de integração regional que permita o traçado de um caminho próprio, oposto ao imobilismo e à pobreza a que nos condena a nossa dependência em relação ao Império.



Essas linhas de ação no plano internacional e latino-americano, que avançaram lentamente e que não estão isentas de tropeços, são essenciais para o destino de nossos povos. Uma derrota de Lula zeraria tudo isso.


 


Ventos continuam à esquerda



Por Luiz Hernández Navarro



De acordo com o The Wall Street Journa,l o recente crescimento das intenções de voto em Alckmin nas pesquisas de opinião no Brasil “é um sinal de mudança nas tendências políticas na América Latina. As vitórias de um candidato centrista no Peru e outro conservador no México vieram depois de quatro anos de predomínio dos candidatos de esquerda nas urnas”. Essa mesma análise foi feita nas fileiras do PAN, Partido de Ação Nacional. Segundo ela, o triunfo de Felipe Calderón no México contrabalançou o pêndulo político, que antes se movia para o lado da eleição de candidatos de centro-esquerda na América do Sul.



O certo é que, apesar da moderação de seu governo, a vitória de Lula quatro anos atrás mudou drasticamente o mapa geopolítico da região. Para além das diferenças entre os processos políticos, a revolução bolivariana na Venezuela desfruta hoje de uma retaguarda política no Brasil que lhe faria falta, se neste país houvesse um governo de direita. O conflito com Evo Morales por causa do gás boliviano teria assumido um tomo muito mais beligerante do que o atual. O Mercosul seria um projeto mais limitado do que ainda é. A América Latina não seria, em suma, a fonte de preocupação crescente que ela é para os Estados Unidos.



Uma hipotética vitória dos opositores de Lula jogaria no lixo esse nada silencioso processo de mudança na correlação de forças regional em favor das causas progressistas. Não é em vão, portanto, o festim que faz a direita diante da possibilidade de um triunfo da direita no Brasil. Tampouco é um acaso que hoje ela o queira apresentar como o tipo do político messiânico, populista, autoritário, expressões com que a imprensa conservadora pretende desautorizar os políticos progressistas. Mas lamentavelmente para ambas, o movimento desse pêndulo para a esquerda não parece ter chegado ao fim. Ao contrário, na América Latina os ventos continuam soprando para a esquerda.