Em crise e sob críticas, TV Cultura reformula programação

“A programação que está no ar se assemelha muito a que foi esboçado no governo Maluf de 1969 a 1971, quando se aventou até a contratação pela TV Cultura da Hebe Camargo e do Chacrinha.”, dispara

Quem acompanha a programação da TV Cultura de São Paulo nota claramente uma mudança em sua programação nos últimos anos. Fundada em 1960 por Assis Chateubriand e adquirida pelo Estado em 1969 como parte do projeto de comunicação do regime militar, a emissora “abriu-se para o mercado”, como se diz correntemente.

A programação é cada vez mais entremeada por comerciais de bancos, carros, lojas, etc. Em princípio, manteve-se dentro dos parâmetros que poderiam ser delineados como “culturais”. Mas as mudanças logo se fizeram sentir. Começou a contar com apresentadores como Silvia Poppovic, que faz um programa nos mesmos moldes do que realizava em emissoras comerciais. A grade apresenta também o colunista social do jornal “O Estado de S. Paulo”, César Giobbi, e por pouco não abrigou uma atração com Gabriel Chalita, ex-secretário de Educação e autor de livros de auto-ajuda.

Tendo como maior acionista o poder público estadual, a emissora apresentou sempre uma programação de qualidade diferenciada — com direito a vários prêmios internacionais —, ao mesmo tempo em que era forçada a seguir determinadas diretrizes dos governos de turno. Nos últimos tempos, isso se traduziu num caráter cada vez mais comercial.

A polêmica gestão Mendonça
Ao completar dois anos na presidência da Fundação Padre Anchieta (FPA), mantenedora das rádios e TV Cultura, o empresário Marcos Mendonça afirma ter implementado um modelo de gestão “modernizante” — causa e conseqüência direta da prometida estréia da nova grade. Entre os trabalhadores, porém, há críticas referentes à descaracterização das funções educativas da emissora e à falta de critérios na escolha dos comerciais.

A FPA, entidade de direito privado, recebe cerca de 60% de verba originária do governo estadual. O Conselho Curador, órgão máximo da entidade, é composto por 46 membros, divididos entre cargos eletivos, natos, reitores das universidades estaduais paulistas, e apenas um representante dos funcionários, Maurício Monteiro. “Toda a política interna da TV Cultura deveria passar pelo Conselho, mas na maioria das vezes, o Conselho é apenas informado da medida”, critica Monteiro.

A Cultura sempre viveu às avessas com as crises financeiras e, sobretudo, identitárias. A falta de projeto de programação era tão evidente que uma irônica frase ganhou notoriedade nos primeiros anos de transmissão. “A TV Cultura é a emissora mais lida de São Paulo”. Foi com o discurso de reverter estas contradições que o ex-secretário de Comunicação do Governo Alckmin, Marcos Mendonça, chegou à presidência.

“A programação que está no ar se assemelha muito a que foi esboçado no governo Maluf de 1969 a 1971, quando se aventou até a possibilidade da contratação pela TV Cultura da Hebe Camargo e do Chacrinha.”, de acordo com Laurindo Leal Filho, da USP.

Mendonça rebate. “Quando assumi, em junho de 2004, a Cultura estava em grave crise financeira e administrativa. Hoje é uma situação absolutamente equilibrada, coloquei a casa em ordem”, diz.

De acordo com Mendonça, a programação da Cultura somava apenas três horas diária de produção própria. Quase 70% da grade era preenchida com reprises. A situação beirava o descompasso completo. Com um “planejamento mais adequado dos gastos e controle das compras”, foi atingida a marca de 14 horas diária de produção própria. Deste total, três horas são reservadas ao jornalismo, a principal fonte de polêmicas dentro da emissora. “Nosso jornalismo não é chapa-branca”, diz Mendonça.

Jornalismo
Osvaldo Martins, ombudsman da Cultura, é contratado exclusivamente para analisar o jornalismo produzido pela emissora. Primeiro e único ombudsman da televisão brasileira, detém mandato de 2 anos e não pode ser demitido. Esclarece que “a única realização de Marcos Mendonça no jornalismo foi a reformulação do cenário do Roda-Viva, em dezembro de 2004”. E prossegue: “A minha crítica principal é que realmente não acontecia nada. Houve novas estréias, mas no jornalismo nada”. Após diversos adiamentos, a direção finalmente apresentou a última novidade.

São três telejornais: "Cultura Meio-Dia", “resumo do noticiário do dia”, "Jornal da Cultura", de caráter “didático” e "Cultura Noite", “de caráter reflexivo”. Houve alteração de 50 minutos para três horas diárias dedicadas ao jornalismo. A emissora ainda terá colaboradores em Paris, Londres e Buenos Aires. Segundo o diretor de Jornalismo, Albino Castro, que assumiu o cargo há menos de três meses, o objetivo é “investir, cada vez mais, num jornalismo com qualidade e credibilidade, marcas já consagradas pela TV Cultura".

A faixa das 21 horas, porém, ganhou atenção especial. Os programas são voltados exclusivamente para o entretenimento, com Cartão Verde, Cultura Mundo, Vitrine, Silvia Poppovic e Planeta Cidade, de Cesar Giobbi, que convidou Hebe Camargo para ser a estrela do primeiro programa, em novembro de 2005. “Eles fazem parte de um projeto de enfoque generalista. Eu posso fazer um programa com a Silvia Poppovic discutindo comportamento e também assistir um documentário sobre meio ambiente da BBC. Por que não?”, indaga Mendonça.

A insatisfação dos telespectadores tradicionais da Cultura já provocou a queda de pelo menos um projeto de “enfoque generalista”. Mendonça nega a hipótese de que o programa de entrevistas idealizado por ele e que teria no comando o ex-secretário da Educação de São Paulo, Gabriel Chalita, tivesse conotação política. “Além de secretário de Estado, ele é um comunicador e a idéia era fazer um programa sobre educação. Como surgiram as críticas, resolvemos cancelar”.

Mais do mesmo
A estréia dos novos telejornais não contribuiu para arrefecer as críticas à cobertura da emissora. Para Nilton de Martins, do Sindicato dos Radialistas do Estado de São Paulo, devido à orientação política da direção-executiva e do atual governo do Estado, não é possível acreditar numa mudança de rumos no telejornalismo.

“A Cultura é, em tese, independente do Estado, mas necessita dele financeiramente. Apesar de ser uma fundação de direito privado, nasceu com uma concepção de ser mantida pelos cofres públicos, não voltada aos interesses do mercado, que são contrários aos interesses públicos” diz.

Nilton exemplifica a contradição originária das sucessivas crises surgidas, que segundo ele, impede transformações dentro do modelo vigente. “O discurso do governo é que a TV Cultura tem que andar com as próprias pernas. O que é isso se não jogar para o mercado?”

Para o ombudsman, o jornalismo da Cultura “melhorou”, mas ainda “falta ousadia”. “Não há ingerência nenhuma do PSDB, é um mito”, diz. Osvaldo Martins, ex-secretário de Comunicação do Governo do Estado de São Paulo entre 1999 e 2001, também relativiza a noção de “jornalismo público”, cunhado por Cunha Lima. O “jornalismo público” teoriza sobre um suposto jornalismo independente do “poder” e do “mercado”. “Todo jornalismo é público. Nunca entendi esse rótulo, é quase uma redundância. Os comerciais podem ajudar a TV pública a ser mais independente. O que acontece no brake não preocupa o jornalismo.”

Parcerias e patrocínios
As mudanças promovidas por Marcos Mendonça e sua equipe fazem parte de um amplo projeto de reorientação das atividades da TV Cultura, que modifica a relação com os parceiros tradicionais e incrementa a captação de recursos externos para melhorar a audiência. Um dos acordos já está no ar. 'Cultura Mundo', uma série de documentários que utiliza a dramaturgia como reconstituição dos fatos, 'Planeta Azul' , 'Testemunha Silenciosa' e 'Dupla Identidade' fazem parte da parceria assinada entre o presidente da Cultura e o diretor da BBC nas Américas, José Sánchez. O contrato prevê ainda um seminário internacional de TV pública previsto para ser realizado em setembro, em São Paulo.

Outra empresa beneficiada com as parcerias é a editora Abril. O projeto, ainda em debate, estipula que as revistas Capricho, Mundo Estranho, Superinteressante, Bizz e Flashback estarão diariamente na TV Cultura. Editadas pela Abril, o conteúdo das publicações de segmento jovem seria adaptado para a televisão. Além das parcerias, a Cultura investe na prestação de serviços, através da TV Justiça, TV Assembléia e TV Câmara. Também foi criada a Cultura Marcas, para o licenciamento de produtos próprios.

“Não recebemos nenhum tostão do governo federal em anúncios. Em outros países, há realmente verbas substanciais, porque acreditam no papel da televisão pública como formadora do cidadão. Nos sentimos discriminados”, protesta Mendonça. A TV Cultura teve, em 2005, verba publicitária de R$ 80 milhões vinda do governo de São Paulo e R$ 40 milhões provenientes de receita própria. Mendonça espera aumentar em 20% a receita própria de publicidade em 2006.