Radiografia do consumo quer desmontar mito do “Belíndia”

Um levantamento feito pela financeira francesa Cetelem e o instituto Ipsos sobre o mercado consumidor brasileiro pretende derrubar o mito criado pelo termo “Belíndia”, que mistura de Bélgica com Índia e sintetiza um Brasil polarizado entre os muito ricos

Nem rico nem pobre, este extrato social é considerado hoje o que possui o maior potencial de crescimento de consumo e contratação de crédito no Brasil. Não é à toa que os bancos, financeiras, varejistas e indústrias querem se aproximar desse contingente formado por 62,7 milhões de pessoas, com produtos específicos para este mercado. Para a Cetelem, por exemplo, o Nordeste é hoje a região onde a financeira francesa apresenta sua mais rápida taxa de expansão no Brasil. "Possuímos acordos com varejistas do Norte e Nordeste que provavelmente ninguém nunca ouviu falar por aqui (em São Paulo), mas que são importantes nos seus mercados locais", afirma Georges Régimbeau, diretor geral da Cetelem no Brasil.

No Nordeste, a financeira fechou parcerias com redes como a Jurandir Pires e a Hermol Magazine. No Norte, ela possui um acordo com a Ramson, a maior rede de informática de Manaus. "Só no Nordeste, existe uma centena de empresas com as quais estamos prospectando oportunidades de negócio", afirma Régimbeau, cujo alvo são redes que faturam entre R$ 500 milhões e R$ 800 milhões por ano. Enquanto a “classe A” encontra crédito nos bancos, as “classes” B e C buscam financiamento no varejo. As “classes” De E, porém, precisam recorrer às financeiras de rua e são o segmento mais problemático para a concessão de crédito.
Segundo o estudo, esse extrato não possui renda disponível para o consumo e já estaria com a sua capacidade de endividamento esgotada. Nesta camada da população, a conta não fecha no fim do mês, ficando negativa em R$ 16,5 (ver tabelas). "As classes D e E não têm como pagar as prestações", afirma Franck Vignard-Rosez, diretor de marketing da Cetelem. Estima-se que 40% dos empréstimos consignados sejam utilizados para rolagem de dívida. As pessoas tomam esses recursos, com juros mais baixos, para quitar dívidas mais caras e não para adquirir novos produtos.
Sofisticados

Na “classe C”, segundo o estudo, a renda disponível para o consumo é de R$ 122,34 por mês. "Há uma grande potencial de crescimento do crédito neste segmento com a queda das taxas de desemprego e aumento da renda", afirma Régimbeau. Na “classe AB”, o valor médio das prestações contraídas é de R$ 203,94, ou 8% da renda mensal. Na “classe B”, as prestações têm valor médio de R$ 150, correspondendo a 14% da renda mensal. As “classes” D e E gastam em média R$ 84,44 em parcelamentos, comprometendo 15% do orçamento.

Sobre os produtos consumidos por cada extrato, o estudo mostra que é um erro pensar que os sonhos de consumo da “classe C” são muito diferentes da “classes” A e B. "Na classe C, há um desejo por produtos mais sofisticados, que sejam motivo de orgulho para a família", afirma Régimbeau. A Cetelem e o Ipsos também fazem uma radiografia do mercado de consumo em outros países, como a França, Itália, Espanha, Portugal e Bélgica. Batizado de Observador, o levantamento permite comparar os hábitos em vários mercados, além de oferecer um mapa detalhado do consumo em cada um desses países. Esta é a primeira vez que a financeira faz esse estudo no Brasil, que hoje já é o quarto maior mercado da Cetelem no mundo.
Automóveis

Entre as varejistas com as quais a financeira já possui acordos no Brasil estão o Submarino, a rede de móveis Tok&Stok, a cadeia francesa de livrarias Fnac, a rede de material de construção Telhanorte e o Carrefour, de quem é sócia desde que chegou ao Brasil, em 1999. Segundo Régimbeau, é esperado que o Banco Central autorize a constituição do banco Carrefour ainda este ano. Dona dos cartões com a marca Aura, a financeira possui hoje mais de 1 milhão de plásticos no Brasil e uma carteira de crédito de cerca de R$ 2 bilhões. Régimbeau acredita que os setores mais promissores no varejo para parcerias são os magazines, redes de material de construção e de vestuário.

A Cetelem também quer entrar em segmentos em que ainda não atua, como o financiamento de automóveis, mercado em que é forte na Europa. Outro novo negócio que a financeira pretende explorar é a concessão de crédito pela internet. No mercado europeu, 15% das suas operações já são efetuadas através da rede. A Cetelem fechou recentemente um acordo com a varejista virtual Submarino, o que lhe abrirá a oportunidade de testar o mercado na internet.

Com informações do
jornal Valor Econômico