A apresentadora afastada por desrespeitar um estudante nos EUA

A apresentadora da Fox News, Laura Ingraham, foi afastada por uma semana após uma série de marcas patrocinadoras boicotarem seu programa. Tudo aconteceu depois que a jornalista zombou do estudante David Hogg, sobrevivente do massacre de Parkland. Os manifestantes mostram que juntos conseguem pressionar as grandes marcas pela causa do controle de armas. Mas, afinal, quem está contra os estudantes?

Por Alessandra Monterastelli *

David Hogg e Laura Ingham

Tudo começou quando Laura Ingraham, apresentadora no canal da Fox (uma das maiores emissoras nos Estados Unidos), decidiu compartilhar em seu twitter um artigo- de conteúdo pouco relevante e publicado por um site extremamente conservador, diga-se de passagem- sobre o fato de David Hogg, um dos sobreviventes do massacre que matou 17 pessoas em Parkland, ter sido rejeitado por quatro faculdades. A jornalista zombou do estudante ao twittar que ele estaria se “lamuriando” por não ter sido aprovado.

O artigo compartilhado pela jornalista tinha a clara intenção de descredibilizar David, provavelmente porque Hogg é um dos principais organizadores do movimento “Marcha pelas nossas vidas” ("March for our Lives"), que luta pela regulamentação da venda de armas de fogo nos Estados Unidos e que levou milhares de jovens às ruas de mais de 840 cidades nos EUA na semana passada.

O título do artigo refere-se ao estudante como “provocador do direito às armas”, e contém apenas a informação de que ele foi rejeitado pelas faculdades, com o intuito sensacionalista e vazio em termos de conteúdo de diminuir seu intelecto e consequentemente a sua capacidade de manifestar-se contra o controle de armas nos EUA. Uma informação foi ocultada (propositalmente): Hogg foi aprovado em outras três universidades.

Os supostos “lamentos” de Hogg, citados por Laura Ingraham, foram na verdade uma declaração de que no momento ele está ocupado com outras coisas, e também críticas quanto a forma de acesso ao sistema de ensino superior nos EUA. Hogg comentou com a equipe da TMZ que estava difícil focar nos estudos para o seu ingresso na universidade devido ao seu envolvimento intenso com o “Marcha pelas nossas Vidas”.


Slogan do "Marcha Pelas Nossas Vidas"

“Eu acho que há um monte de pessoas incríveis que não chegam à faculdade, não apenas porque estão fazendo coisas como eu, mas porque suas vozes não são ouvidas no tsunami de pessoas que concorrem todos os anos para faculdades dentro desse sistema educacional tão suscetível à economia que temos aqui na América, onde as pessoas têm que contrair dividas enormes apenas para frequentar a faculdade e obter educação”, criticou Hogg. E seu argumento não está nem um pouco distante da realidade.

Depois do tweet de Laura, Hogg entrou em contato com os anunciantes da apresentadora pedindo para que boicotassem seu programa. A TripAdvisor, Wayfair, Hulu, Nutrish, Johnson & Johnson, Nestlé e Stich Fix responderam afirmando que retirariam os seus anúncios.

Segundo reportou o Estado de São Paulo, algumas dessas marcas deram inclusive declarações à imprensa sobre o assunto. “Em nossa opinião, essas declarações tendo como alvo um estudante secundário ultrapassa a linha da decência”, comunicou a TripAdvisor; para a Wayfair, “a decisão de um adulto de criticar um estudante que perdeu colegas de classe de maneira atroz não condiz com nossos valores”.

Sabe-se que as marcas não cederam por “princípios”, mas sim por pressão: o Marcha pelas nossas Vidas e os protestos pelo controle de armas estão ganhando grande repercussão pelos Estados Unidos, chegando a conquistar voz na Casa Branca e a receber apoio internacional. Colocar-se contra esses estudantes, que conseguiram fazer tanto barulho por uma causa urgente e que vem comovendo o país não é do interesse de grandes marcas, que poderiam perder clientes com um posicionamento do tipo. Daí, é fácil perceber a enorme importância dessas manifestações.

Depois da perda de patrocínio, Laura Ingraham pediu desculpas “por qualquer perturbação que meu tuíte tenha causado a ele ou a qualquer uma das vítimas de Parkland”. David Hogg, questionado pela CNN sobre o caso, comentou o pedido de desculpas, segundo ele "previsíviel" dado o bloqueio de tantos patrocinadores. "É perturbador saber que alguém pode intimidar tantas pessoas e simplesmente se safar, especialmente no nível em que ela fez", disse ele à emissora. "Não importa quem sejaessa pessoa, não importa o quão grande ou poderoso possa parecer", disse, "é importante que você o enfrente". 

Durante a entrevista para a emissora, Hogg disse que o tuíte da apresentadora estava de acordo com suas outras declarações de bullying e preconceito que ela já fez em relação a outras pessoas, que incluem um conflito com gays enquanto ela estava em Dartmouth em 1984 e, recentemente, uma resposta às declarações políticas de LeBron James -que se manifestou contra o racismo nos EUA e contra o discurso de ódio promovido por Trump- dizendo que o astro da NBA deveria "calar a boca e driblar".

O artigo da Constituição dos Estados Unidos referente ao direito do cidadão de portar armas de fogo foi criado em um momento muito específico da história norte-americana: o país vivia a Guerra Civil, Norte x Sul. Os Estados viviam o caos e a violência poderia surgir a qualquer momento; as armas eram uma suposta maneira de defesa e segurança. Agora, essa lei já não faz mais sentido. Pelo contrário: os EUA possuem registros de índices altíssimos de mortes por armas de fogo, não somente por casos como o de Parkland (massacres como o da Flórida são comuns no país, e acontecem com frequência em boates, escolas, shows, igrejas e cinemas), mas também de suicídio. Se uma pessoa tem a intenção de se matar, o governo facilita o processo pela simplicidade com que as armas são vendidas, sem necessidade de nenhum requisito ou autorização. A mesma coisa ocorre quando uma pessoa tem a intenção de atirar para matar em um local público. E o mesmo ocorre se uma pessoa violenta e abusiva quer ter controle sobre outra. As situações podem ser muitas, mas o problema é o mesmo, e persiste há anos.

Na semana passada, o The Guardian publicou uma artigo que analisava como a direita norte-americana tem atacado os estudantes de Parkland com mentiras, fraudes e matérias manipuladas nas redes. “Os sobreviventes do tiroteio começaram uma onda de protestos e luta por todo o país pela regulamentação da venda de armas de fogo, tornando-se os principais alvos do ódio da direita”, dizia o parágrafo logo após o título. Mas é especialmente preocupante quando essa leva de sensacionalismo alcança figuras da grande imprensa que possuem grande poder persuasão sobre o público (uma vez que tem sua confiança), como é o caso da apresentadora Laura Ingraham.