Cultura

14 de fevereiro de 2018 - 15h55

O que os indicados ao Oscar têm a dizer sobre impasses do mundo atual?

Divulgação
As atrizes Sally Hawkings e Octavia Spencer em cena do filme 'A Forma da Água', de Guillermo del Toro As atrizes Sally Hawkings e Octavia Spencer em cena do filme 'A Forma da Água', de Guillermo del Toro

 O exercício requer um esforço extra, às vezes elástico, desde que a categoria principal passou a abrigar nove concorrentes – antes eram cinco. Mas a linha geral sempre acaba surgindo.

Ano passado, por exemplo, histórias sobre responsabilidade e abandono pareciam ligar dramas distintos como Manchester à Beira Mar e Moonlight, que no fim levou a estatueta de melhor filme. Ambos escancaravam a nossa incapacidade de cuidar uns dos outros.

Eram, sobretudo, enredos sobre pais e filhos – relações estraçalhadas pelo álcool, em um caso, e pelo crack, no outro. Um era a história do filho abandonado e abrigado pelo tráfico; outro, de um pai que falhou ao oferecer abrigo na própria casa, colocou tudo a perder e se transforma em morto-vivo.

Se não falava de pais e filhos, La La Land, recordista de indicações naquele ano, também traduzia, de alguma forma, a dificuldade de alguém abrir mão dos voos solos por alguém. Era a história de um casal interrompido pelos planos individuais.

Como uma polaroide, o cinema, representado em sua mais prestigiada celebração, tem se mostrado sensível às contingências de seu tempo, embora nas últimas premiações não tenha saído nenhum título com o selo de clássico.

E neste ano?

Das obras indicadas em 2018, a fotografia algo nebulosa de O Destino de uma Nação – não por acaso o título original é The Darkest Hour – parece desenhar um plano estético comum entre os concorrentes.

É como se, ao tematizar o passado, filmes como o dirigido por Joe Wright nos lembrassem que estamos novamente em um período de escuridão, encurralados como os soldados em Dunkirk, sem visualizar claramente as saídas como em The Post.

Tudo isso precede as tomadas de decisões, e elas vão determinar projetos de unificação global, rompimentos ou até o futuro dos conflitos armados. A Segunda Guerra Mundial, a areia movediça do Vietnã e mesmo a Guerra Fria, no caso de A Forma da Água, de fotografia igualmente sombria, são os impasses do passado enviando piscadelas para o presente.

Brexit, American First, muros nas fronteiras, retórica belicista, ameaça nuclear, nacionalismo, discursos segregacionistas, dissolução de lideranças, descrenças em instituições e nos projetos coletivos são hoje os inimigos a criar impasses e ameaçar, se não a estabilidade jamais alcançada, uma ideia de valores compartilhados e convívio de diversidades.

Ao colocar a criatura estranha ("do Sul") em uma espécie de tubo de ensaio, e criar naquele cativeiro uma história de amor de uma personagem muda que se comunica pela identificação, o diretor mexicano Guillermo Del Toro garantiu à sua obra um componente político poderoso no momento em que Donald Trump promete erguer muros para separar os EUA dos cidadãos indesejáveis do lado de lá da fronteira.

Mas provavelmente nenhum filme conseguiu delinear tão bem o que tem sido a Era Trump como Três Anúncios para um Crime, de Martin McDonagh. Com humor ácido, o filme investiga as corrosões das bases de confiança da sociedade americana.

Para isso, acompanha o dilema de uma mãe que perdeu a filha assassinada e resolve desafiar as autoridades locais. Na luta entre opressores e oprimidos, todas os estereótipos se confirmam até a segunda página; dentro de casa, cada um cada um guarda mais que um segredo: guardam sofrimentos e dignidades invisíveis no meio de tantas feridas supuradas.

Naquela terra de sofrimentos não-reconhecidos, a barbárie se assenta à medida que a comunicação se fragmenta em tuítes curtos, como as mensagens postadas em três outdoors em desafio ao xerife à beira da morte.

A ansiedade e a incapacidade de analisar fatos objetivos para além da opinião pré-moldada e dos apelos à emoção e crenças pessoais levam aqueles personagens a tomar decisões precipitadas, como as declarações de guerra particulares de cada dia. É a vida em rede recriada como uma alegoria de um faroeste contemporâneo.

Na lista deste ano, há espaço para histórias sobre relacionamentos e amadurecimento, como Me Chame pelo Seu Nome, o mais europeu dos indicados, e Lady Bird, de protagonistas e diretora mulheres que tentam obter seu lugar ao Sol na esteira dos movimentos igualitários e antiassédio em Hollywood. Não seria surpresa se este componente também político seja levado em conta durante a premiação.

Por fora correm dois thrillers psicológicos, Trama Fantasma e Corra!, este último um filme de terror alavancado por todas as investidas aparentemente amigáveis e altamente racistas ouvidas por um visitante negro em uma casa majoritariamente branca de classe média americana.

Naquela casa do interior, na sala particular de Churchill ou na redação prestes a desobedecer a ordem oficial para mudar o curso da guerra, não parece exagero pensar na praia de Dunkirk como a grande metáfora de um período pautado pelo desamparo, pelas agressões de aliados e inimigos e pela espera de um resgate. O cerco está em toda parte, e dessa história não sabemos o final.


*Matheus Pichonelli é jornalista e cientista social, escreve sobre cultura e comportamento no site de CartaCapital

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