Cultura

13 de fevereiro de 2018 - 15h47

Carnaval 2018 foi um dos mais politizados do Brasil

Zuma Press
Em uma das alas da Paraíso do Tuiuti, os passistas representavam os manifestantes que apoiaram o golpe contra Dilma em 2016 Em uma das alas da Paraíso do Tuiuti, os passistas representavam os manifestantes que apoiaram o golpe contra Dilma em 2016

Com um desfile chocante da Beija-Flor, o Brasil encerrou na madrugada desta terça-feira (13/02) um Carnaval fortemente marcado por críticas e reivindicações, num levante simbólico contra males como a violência e a corrupção, sem esquecer a intolerância e a discriminação.

As celebrações do Carnaval em todo o país ridicularizaram líderes locais e mundiais, pediram tolerância e desafiaram limites. A festa foi aproveitada por muitos brasileiros para fazer críticas num momento de intensa insatisfação com a classe política e temores de problemas econômicos como consequência da recessão.

Um dos maiores destaques da festa politizada deste ano no Sambódromo do Rio de Janeiro foi o desfile da Paraíso do Tuiuti, cuja comissão de frente recebeu o Estandarte de Ouro do jornal O Globo, considerado a segunda premiação mais importante do Carnaval carioca.

A escola da zona central do Rio, que questionou se a escravidão realmente acabou no Brasil, satirizou o presidente Michel Temer e suas reformas neoliberais, especialmente a reforma trabalhista e sugestões de redefinição do trabalho escravo, com um destaque chamado de "Vampiro do Neoliberalismo", no carro alegórico que representava um navio negreiro dos dias atuais. O enredo "Meu deus, meu deus, está extinta a escravidão?", lembrou os 130 anos da Lei Áurea e falou do trabalho precário.

Destaque contra a intolerância

As críticas implacáveis do Carnaval foram dirigidas a políticos e empresários corruptos, pregadores de todas as religiões e incorporaram também denúncias contra a discriminação.

Em homenagem à comunidade LGBT, a Beija-Flor convidou para o seu desfile na segunda duas estrelas da contracultura brasileira do momento, a cantora drag queen Pabllo Vittar e a revelação do funk Jojo Todynho. Elas foram destaques em um carro alegórico que falava sobre a intolerância, numa festa que comemora tanto a sexualidade quanto a diversidade – mas num país que está entre os que têm as taxas mais altas de violência contra pessoas gay e transgênero na América Latina.

Pabllo Vittar tem vários vídeos com milhões de visualizações no YouTube. O da música Todo Dia atraiu 216 milhões de cliques. Sensação da cena pop brasileira, Vittar havia dito, em entrevista recente à revista Época, que tratar de temas como homofobia e transfobia nas ruas do Brasil é importante "para divulgar essa mensagem [de tolerância] todos os dias".

Também na segunda, a organização Grupo Gay da Bahia organizou seu concurso anual de fantasias  LGBT em Salvador, incluindo performances que destacaram as altas taxas de violência contra mulheres, gays e transgêneros no país.

Já na cidade pernambucana de Olinda, os foliões desfilaram com bonecos gigantes que satirizaram figuras políticas como o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o líder norte-coreano Kim Jong-un, além de homenagearem celebridades tanto brasileiras quanto internacionais, como Michael Jackson e os Beatles.

"Brasil monstruoso"

A Marquês de Sapucaí serviu de palco para a Beija-Flor retratar um "Brasil monstruoso", inspirado no romance Frankenstein, e apresentar as cenas de violência vividas por milhões de pessoas nas favelas do Rio.

A escola, última das seis a se apresentar no segundo dia de desfiles cariocas, é tida como uma das favoritas desta edição e, além de fazer sucesso com o público – que continuou cantando o enredo após o encerramento do desfile – chegou a receber aplausos de jurados, segundo mostrou foto divulgada pela Folha de S. Paulo.
Com uma sátira cuja intenção era ser um "grito de alerta" contra o modelo social, político e religioso do país, seu enredo, "Monstro é aquele que não sabe amar", reproduziu extremos que sacudiram o público.

Uma mulher que segurava o corpo de um policial morto, evocando a Pietá de Michelangelo, encerrou uma parada em que se viram crianças baleadas em caixões, pais e mães carregando os corpos de seus filhos feridos, jovens apontando armas para a cabeça de suas vítimas e arrastões.

Carnaval de protesto

A Portela, campeã do ano passado, criticou a intolerância falando de um grupo de judeus perseguidos na Europa e refugiados no Brasil, onde passaram a enfrentar discriminação de colonizadores portugueses.

O Salgueiro encheu a Sapucaí de cor numa denúncia contra o racismo e uma homenagem às mulheres negras do Brasil, inspirada num tributo carnavalesco a Xica da Silva, há 55 anos.

Apesar de também apresentar enredos mais suaves, observadores apontam a edição de 2018 do carnaval do Rio como o "Carnaval do protesto" porque a estreia, na noite de domingo, também foi dominada pela crítica política.

Além das alusões da Paraíso do Tuiuti, a Mangueira atacou o prefeito do Rio, o evangélico Marcelo Crivella (PRB), que não esconde que considera o Carnaval uma "celebração pecaminosa" e viajou para a Alemanha depois de ser criticado durante a maior festa brasileira.

No ano passado, Crivella anunciou cortes pela metade nos financiamentos municipais destinados às escolas de samba, ajudando assim a estimular a politização dos enredos.

A escola verde e rosa transformou Crivella num boneco de Judas numa das alegorias, ostentando também placas com os dizeres: "Prefeito, pecado é não brincar o Carnaval!". Segundo o jornal O Estado de S. Paulo, o prefeito divulgou nota se dizendo vítima de "intolerância religiosa" após o desfile. O nome do prefeito também foi pintado na bunda de um boneco da escola.

Durante a ausência de Crivella, multiplicaram-se os roubos nos blocos de rua, assim como os arrastões em praias de bairros da zona Sul da cidade, como Ipanema e Leblon.

No olho do furacão, as autoridades do Rio de Janeiro, que inicialmente disseram sentir-se satisfeitas com o contingente de segurança de 17 mil agentes destacado para o Carnaval, tiveram que anunciar reforços de segurança nas zonas mais turísticas da cidade.

Algumas escolas do Grupo Especial de São Paulo também aproveitaram o carnaval para criticar a situação política, econômica e social do Brasil. A X-9 Paulistana abriu o segundo dia de desfiles no Sambódromo do Anhembi, no último sábado (10), e teve um carro alegórico com pessoas fantasiadas de juízes e políticos com notas em cuecas e malas de dinheiro. Já a Império da Casa Verde, que desfilou depois da X-9, comparou o Brasil de hoje ao período da Revolução Francesa.

Grupos feministas também vêm usando o Carnaval para destacar e combater o assédio sexual. Muitos blocos de rua têm temas feministas e várias mulheres usam tatuagens temporárias ou adesivos com dizeres como "não é não". Autoridades também lançaram campanhas para estimular mulheres a denunciar assédio à polícia.



Fonte: DW Brasil

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