Cultura

12 de fevereiro de 2018 - 17h34

Chico Buarque e o carnaval na visão das novas gerações

Evandro Teixeira
Chico Buarque desfilando na Mangueira, em 1989 Chico Buarque desfilando na Mangueira, em 1989


Nunca conversei com ele, nem mesmo o entrevistei como jornalista. Mas fez parte da vida de toda a minha geração. Era um amigo íntimo de todos nós de esquerda, mesmo que nunca o tenhamos visto de perto.

Cada música que lançava, era uma resposta “nossa” à ditadura. A gente vibrava como se fosse nossa mesmo. Era um tapa na cara dos ditadores.

Para contar um episódio que se segue, é preciso lembrar que os vestibulares eram específicos para cada curso, não havia isso de primeira opção Medicina, segunda opção Economia e terceira Agronomia.

Fazia-se vestibular para um determinado curso, e ponto final. E os vestibulares eram nos próprios prédios onde os que passavam iriam estudar.

Então, no prédio de Geografia e História da USP, fazia-se vestibulares para Geografia e História. E os veteranos iam lá dar apoio aos vestibulandos.

No início de 1969 ou 70, cheguei lá numa manhã de sábado, para participar dessa recepção aos vestibulandos, e vi um amontoado de gente em frente à biblioteca de História. Eram vestibulandos. Muitos.

Perguntei o que eles estavam fazendo ali, e me mostraram, através do vidro que separa a biblioteca do pátio, um monte de vestibulandos em mesas da biblioteca. O detalhe era o professor que tomava conta daqueles vestibulandos, Sérgio Buarque de Hollanda, autor de alguns clássicos dos livros de História do Brasil. Mas não estavam ali pra ver essa celebridade:

— É o pai do Chico — disse uma menina que olhava o homem com admiração estampada no rosto.

Saí rindo. Sérgio Buarque de Hollanda, um dos maiores pensadores brasileiros, havia virado “o pai do Chico”.

Mas o que tem isso a ver com o Carnaval?

É que num Carnaval dos meados dos anos 1990 eu acompanhava pela televisão uns flashes da festa por todo o país. Quando entrou uma repórter direto de Salvador, ao vivo, ao lado de Chico Buarque, e parei pra ver e ouvir, mas ouvi só o início da fala dela:

— Estamos aqui com o sogro de Carlinhos Brown…

Tive que rir. Chico Buarque, um ídolo da minha geração, para aquela nova era apenas sogro do Carlinhos Brown…


Fonte: Brasil de Fato

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