Brasil

11 de fevereiro de 2018 - 20h54

Sambódromo do Rio terá forte politização das Escolas de Samba

 Beija-Flor promete um desfile bastante politizado como há quase 30 anos  Beija-Flor promete um desfile bastante politizado como há quase 30 anos

Entre as 13 escolas de samba do Grupo Especial, a elite do Carnaval carioca, sete irão apresentar enredos de cunho político-social. Enquanto a Beija-flor lembra os "filhos" abandonados pela pátria, a Mangueira exalta a cultura de rua como expressão não alienada. A São Clemente, por sua vez, lembra o incêndio no prédio da Escola de Belas Artes da UFRJ, ainda sem solução.

Vencedoras da edição anterior, Mocidade Independente e Portela bradam contra a intolerância e reivindicam a integração entre os povos. Já o Paraíso do Tuiuti lembra as novas formas de cativeiro, ao passo que o protagonismo das mulheres negras é tema central na escolha do Salgueiro.

O último boom de enredos politizados havia sido observado na redemocratização, período que tem como marco o tema escolhido pela Imperatriz Leopoldinense em 1989. Com "Liberdade, liberdade, abre as asas sobre nós", a escola exaltava os 100 anos da proclamação da República.

Pesquisador do Carnaval, o historiador Luiz Antonio Simas esclarece que a festa sempre reflete a conjuntura do país ou da cidade: "É uma festa tensionada. Na época da abolição, os Carnavais abordaram o tema com muita força. O mesmo aconteceu durante a Segunda Guerra Mundial."

A politização dos enredos neste ano ocorre justamente após um corte de 50% na verba destinada pela prefeitura do Rio às escolas. Em vez de R$ 2 milhões, cada escola passou a receber R$ 1 milhão anual.

Na época da redução, o prefeito Marcelo Crivella argumentou que o dinheiro poupado poderia ser usado para a alimentação de crianças nas creches do município em 365 dias do ano, em vez de numa festa que dura apenas três dias.

A decisão inspirou o carnavalesco da Mangueira, Leandro Vieira, a idealizar o enredo "Com dinheiro ou sem dinheiro, eu brinco" para este ano.

"A motivação é o avanço do pensamento conservador na política nacional, que ficou evidente no Rio com a chegada do Crivella à prefeitura. Existe uma tentativa de enfraquecer as manifestações culturais da cidade, e o enredo é uma resposta a isso. É um posicionamento político as escolas desfilarem neste ano", afirma.

Marcello Crivella em entrega das chaves do Rio para o Rei Momo
Após ausência no ano passado, Crivella (centro) marcou presença na entrega das chaves da cidade para o Rei Momo neste ano

Simas, por sua vez, ressalta que a crise das escolas é bem anterior ao início da atual gestão municipal. "A partir dos anos 1960, elas começam a se virar para a indústria do turismo e entretenimento. Esse movimento chega a um ápice 30 anos depois, com os enredos patrocinados. Assim, foram perdendo as relações de afeto com a sociedade", diz o historiador.

O historiador acrescenta que, em um contexto de crise econômica e sem o apelo popular de outras épocas, as agremiações se viram obrigadas a buscar uma reaproximação de suas bases. "É a única forma de recuperarem o protagonismo. Paradoxalmente, a crise pode salvar as escolas."

Todavia, seria um engano pensar que a politização continuará em alta nos enredos dos próximos carnavais. "A cultura da malandragem não é do enfrentamento. As escolas sempre negociaram com as circunstâncias, desde 1930. Uma escola que traz um enredo de cunho social neste ano pode falar de uma empresa de tubulação no próximo Carnaval", diz Simas.


 Fonte: DW

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