Brasil

11 de fevereiro de 2018 - 18h21

Henfil não é pra qualquer um: o que ele veria no Brasil de hoje

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Nesse ano completaremos 30 anos sem Henfil. Criador da Graúna, que marcou gerações de luta e militante pelas Diretas Já e por um país mais justo, democrático e igualitário, Henfilcertamente se entristeceria se visse o que ocorre no Brasil de hoje, o país do golpe, onde aqueles que assaltaram o poder insistem em usar de maneira cínica até mesmo a linguagem e a arte de quem lutou contra toda a forma de opressão.

Henfil assistiria à campanha idealizada pelo seu irmão, “Natal sem Fome”, ter que ser relançada porque o país voltou pro Mapa da Fome. Henfil assistiria à história se repetindo com a operação da PF “A Esperança Equilibrista”, título, que remete à canção de João Bosco e Aldir Blanc – imortalizada na voz de Elis Regina – e que também faz menção ao “irmão do Henfil“, àquela época exilado. Esta música, que se tornou um hino da anistia, nos mostra o que parentes e sobreviventes dos horrores da ditadura já sabiam: a anistia “ampla, geral e irrestrita”, que também perdoou torturadores, não aplacou o terror, apenas o escondeu. A operação que levou professores coercitivamente parece rir dos que resistem, como se dissesse: o tempo de vocês dançarem na corda bamba se foi. O tempo da esperança acabou.

Desde sua promulgação em 1979, a Lei da Anistia não corrigiu o ranço da nossa sociedade policialesca, resultando em números assustadores de violência e abuso policial, que se antes aconteciam nos becos das favelas, com autos de resistência forjados gerando genocídio da juventude negra, agora são televisionados para o deleite de quem patrocina e apoia o assassinato de reputações porque ainda não podem apoiar a morte literal de seus adversários. O estado de exceção nunca foi exceção: herança maldita de um passado colonial e escravocrata, a polícia brasileira sempre foi política. E a política, como sabemos, há 500 anos é dominada por “herdeiros”.

A campanha “Natal sem Fome” foi relançada recentemente com apoio massivo de artistas como no passado recente. A classe artística agora empresta novamente sua imagem a uma campanha cujo objetivo é muito nobre. Afinal, como já disse Betinho: “quem tem fome tem pressa”. É possível afirmar, aliás, que os artistas foram os primeiros a sentir o golpe. Afinal uma das medidas de Temer assim que tomou posse foi dissolver o Ministério da Cultura, que até hoje ninguém sabe se realmente existe ou não, tamanho é o descaso com as políticas culturais. Mas voltando à campanha: sua última edição aconteceu há 10 anos, quando as políticas de erradicação da miséria ainda engatinhavam. De lá pra cá o Brasil saiu do Mapa da Fome, para o qual ameaça voltar devido às políticas de austeridade de Michel Temer. Os cortes expressivos em programas já considerados de sucesso, como o Bolsa Família, além da estagnação econômica, criaram o ambiente perfeito para o desespero. A cada dia é possível observar o crescimento de desempregados e, consequentemente, de trabalhadores informais e da população em situação de rua. As “reformas” aprovadas e as que devem vir em seguida, como a da previdência, também ajudam a empurrar os mais pobres para um cenário em que a humilhação é sempre o prato do dia. Com a nova legislação trabalhista nem mesmo o emprego será capaz de salvar da miséria e as novas leis para a aposentadoria querem que o povo trabalhe até a morte. Tudo isso sem falar no congelamento dos investimentos em saúde e educação por 20 anos, que vão piorar os índices de desenvolvimento. É retrocesso goela abaixo. Como diria Millôr, contemporâneo de Henfil n’O Pasquim: “O Brasil tem um enorme passado pela frente”.

Henfil se entristeceria com a situação da educação, o principal alvo desde os primeiros minutos do golpe. A Reforma do Ensino Médio feita por meio de medida provisória lembra bastante certos acordos “MEC-Usaid” que colocavam o sistema educacional brasileiro totalmente a serviço dos interesses estadunidenses. A educação que prevê senso crítico é chamada agora de doutrinadora. Henfil talvez desse risada, talvez ficasse chocado, ao saber que Paulo Freire se tornou um inimigo do país e que a principal questão a ser corrigida na nossa educação é a ideologia de gênero e a doutrinação política. Agora a nova “reforma” prioriza o ensino técnico também para atender as demandas do capital internacional, visando baratear a mão de obra e esvaziar a formação, uma vez que prioriza disciplinas tecnicistas em detrimento da história, da filosofia e da sociologia. A oferta do espanhol substituída pelo inglês, decisão que combina com o esvaziamento do Mercosul. Empregos? Só se for os que não pagam nem a corda com a qual nos enforcaremos. E aqui é preciso ressaltar a perversidade da relação entre o desmantelamento da indústria nacional, a recessão econômica que, vendida como herança maldita do governo Dilma, só fez piorar com a crise política e mais uma vez a “deforma trabalhista” que foi aprovada sob a justificativa de que acabaria com o desemprego, mas seus defensores não lembraram que o Brasil ainda registrava sensação de pleno emprego no início de 2014 sem precisar retirar nenhum direito do trabalhador!

Além do ensino médio, as universidades – outrora motivo de orgulho para a juventude que via na graduação uma oportunidade e do país para a produção de conhecimento – agora é atacada como gasto, sob o discurso de que não gera emprego ou riqueza e que estudantes custam caro. A UERJ resiste, mas seus servidores (assim como milhares da gestão criminosa de Sérgio Cabral) já não recebem há algum tempo. Na UFSC a perseguição resultou no terrível e ainda mal explicado suicídio do reitor Luiz Carlos Cancellier. A narrativa na grande mídia é a mesma já usada anteriormente com políticos: primeiro acusa, depois se apuram os fatos. E o fato é que na manhã do dia 06 de dezembro, reitor, vice-reitora e mais 7 professores da UFMG foram levados coercitivamente para depor sob a acusação de desvio de verba do Memorial da Anistia.

A denúncia contra os professores da federal mineira não apresenta provas e os depoentes nem sequer receberam qualquer aviso. Foram levados à força, mesmo que nunca tenham se recusado a prestar esclarecimentos. A obra em questão, que se arrasta desde 2008 principalmente devido a problemas técnicos – uma vez que se trata de um prédio histórico – não recebe repasse do Ministério da Justiça desde o ano passado. O delegado responsável afirma que foram desviados pelo menos R$ 4 milhões sob um esquema de bolsas de pesquisa não pagas e uma “editora fantasma”. A investigação que começou em março deste ano ainda não deu conta de produzir provas, mas garantiu o espetáculo do dia. A vice-reitora Sandra Regina Goulart Almeida foi eleita para ocupar o principal cargo da universidade e a composição da lista tríplice seria na semana seguinte. Coincidência?

Quem quiser crer no acaso, que fique à vontade, Henfil não acreditaria. Mas próximo ao aniversário do Ato Institucional nº5, que feriu de morte artistas, instaurou a censura, perseguiu e matou militantes da resistência, nos deparamos com o recrudescimento da polícia, aparelhada escancaradamente para servir aos interesses de quem deveria ser alvo de suas operações. O Brasil, um dos países-alvo da Operação Condor, que espalhou terror e retrocesso durante décadas de ditadura na América Latina – com contribuição bélica e econômica dos EUA historicamente registradas – nunca revisitou seu passado e todas as vezes que tentou fazê-lo, sofreu com a represália dos setores mais conservadores da sociedade que não apenas financiaram os anos de chumbo, como se beneficiaram deles. Ou será que a Rede Globo vai pedir desculpas novamente depois de 50 anos?

E quais seriam os interesses por trás da intimidação de professores? O golpe é contra quem pensa, quem produz intelectualmente, quem questiona, quem critica, quem ri, quem dança, quem interpreta, quem canta, quem sonha… Porque o golpe é antes de tudo um projeto de entrega. O desmonte da Petrobras foi só o início. Vale voltar um pouco na história e lembrar que os indícios da existência de uma grande reserva de petróleo são da década de 1970, mas naquela época, auge da ditadura e do “milagre econômico”, o Brasil não tinha nem sequer tecnologia para explorar as riquezas do seu próprio quintal. Preferia, no entanto, ser eterno capacho dos Estados Unidos, estes sim mui “solidários” e diretamente interessados no ouro negro que movimento economias mundiais. Corta para 2012, quando sob pressão do Movimento Estudantil, é aprovado o investimento dos royalties do pré-sal para a educação. Àquela época, durante o 65º Congresso de Entidades Gerais da UNE, que ocorria num Rio de Janeiro que recebia ao mesmo tempo a Rio+20 e a Cúpula dos Povos, o debate amadurecia sobre como, por quê e para quem destinar o dinheiro vindo da exploração, ao mesmo tempo em que se falava em energia renovável e até se deveríamos de fato utilizar o petróleo como fonte de energia, uma vez que todos sabem seu potencial devastador numa conjuntura de aquecimento global.

Hoje já não podemos decidir nada, o pré-sal foi entregue e os brasileiros não verão benefício algum. Outro fato daquele junho de quatro anos atrás: golpe “institucional” no Paraguai. A “casualidade” se dá por causa de um nome: Liliana Ayalde. A embaixadora que serviu até poucos meses antes da queda do presidente eleito Fernando Lugo se transferiu para o Brasil onde atuou até janeiro de 2017. Até os menos afeitos a teorias da conspiração devem estranhar tantos movimentos semelhantes. E caso ainda duvidem bastante é só dar uma rápida olhada nos documentos vazados pelo Wikileaks: de âncora racista da vênus platinada até presidente golpista e o José Serra (que ocupou o Itamaraty quando virou ministro de Relações Exteriores do golpe), que nunca escondeu sua vontade de entregar o petróleo nacional nas mãos dos EUA, diversos personagens já passaram pelas conversas com embaixadores, empresários e representantes dos interesses norte-americanos. Se o Brasil fosse um país sério essa gente já estava detida por crime de lesa-pátria e Henfil poderia escrever uma nova versão de seu “diário de um cucaracha” que alguns brasileiros parecem mesmo ter sangue de barata correndo em suas veias.

Henfil assistiria a uma nova experiência neoliberal sendo implantada no país, onde a ordem é privatizar tudo, inclusive a educação, o conhecimento e a arte, que é o último refúgio de humanidade que uma sociedade pode ter. Ficaremos condenados à exportação de commodities, à flutuação dos preços internacionais (comandados pela mão bem visível das maiores economias e potências bélicas mundiais). Exportar inteligência? Tecnologia? Isso não é papel de um país de “terceiro mundo”. A terceira via construída pelos BRICs padece sob a ganância de quem paga a miséria dos outros povos em dólar. Por isso os ataques não são apenas no plano econômico. Não basta empobrecer a população e convencê-la de que a meritocracia é possível numa sociedade desigual: é preciso torná-la completamente imbecil. Só assim se mina a resistência, só assim os canalhas serão eternos vencedores. E sabemos todos que os “vencedores” é que contam a história. Depois de estar na China (antes da Coca Cola!), Henfilveria suas principais críticas ao modelo chinês implantadas de maneira arbitrária agora bem perto, na sua própria terra.

Graúna, o bode Francisco de Orelana e o cangaceiro Zeferino: cadê a Esperança?

Talvez Henfil chorasse ao ver que o maior líder popular vivo no Brasil pode ser condenado sem nenhuma prova, somente para não ser Presidente da República. Em um país que nunca acertou suas contas com o passado, uma denúncia significativamente menor que as malas do Geddel gera tanto constrangimento e o Estado de Direito segue sendo violado, não é necessário só resistir: é urgente contra-atacar. Henfil certamente lutaria, nas ruas, com ideias e com arte, pois sabia que na luta de classe todas as armas são boas. É bem verdade o que Henfil escreveu em uma de suas cartas-crônica para a dona Maria, sua mãe: “O atual sistema, para governar, nos fez pessimistas. E pessimista não dorme, não faz amor, não faz partidos, não incomoda, não reclama, não briga. Que diabo de país é este? Pessimistas de todo o Brasil, uni-vos! Somos a maioria. Às ruas!”

Um artista como Henfil, que sabia que o verdadeiro humor deve ser um soco no estômago de quem oprime, não teria motivos para rir, mas inúmeros motivos para continuar lutando.

Às ruas!

*Luara Ramos é mineira, mas atualmente mora no Espírito Santo. Otimista incansável, acredita no amor, no time do GALO e no poder popular.

Camila Moreno é carioca, mineira, brasiliense e vascaína. Acredita no povo organizado e no poder da arte.



 Fonte: Jornalistas Livres, via Blogo do Sorrentino

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