Economia

5 de fevereiro de 2018 - 10h17

Manuela D’Ávila: O que a disputa Boeing-Bombardier diz sobre o Brasil


Richard Silva
   
A Boeing acusou a Bombardier de vender jatos abaixo do preço de custo para a companhia norte-americana Delta Airlines e disse que o dumping teria sido financiado por subsídios ilegais dos governos do Canadá e do Reino Unido (este último está interessado no tema porque uma das principais fábricas da Bombardier fica na Irlanda do Norte). Por conta disso, Trump chegou a ameaçar subir os impostos de importação da Bombardier em 292%. No dia 25, no entanto, a Comissão de Comércio Internacional dos EUA votou por unanimidade em favor da Bombardier, o que deve salvar milhares de empregos na Irlanda do Norte.

Mas o que eu pretendo realçar não diz respeito a essa disputa em si, por mais que ela seja instigante dada a importância econômica e geopolítica da fabricação de aviões. Chamo a atenção para um fato que pode ter passado despercebido por aqui: os protagonistas da contenda não foram os presidentes das empresas, nem seus respectivos departamentos jurídicos, mas os principais líderes políticos dos três países envolvidos. A luta entre Boeing e Bombardier foi, na verdade, uma importante queda de braço entre Theresa May e Justin Trudeau, de um lado, e Donald Trump, de outro. Foram eles que usaram sua força para pressionar a Comissão de Comércio Internacional dos EUA em favor dos interesses de seus respectivos países.

A história começou quando Trump, preocupado com o avanço da empresa canadense sobre o mercado da Boeing, decidiu estabelecer taxas que preservassem o mercado norte-americano para a empresa de seu país, dificultando a entrada de aeronaves fabricadas pela concorrente. A justificativa para estabelecer a taxação? Os governos do Canadá e do Reino Unido teriam oferecido subsídios pesados para a Bombardier, de modo que não haveria livre concorrência no caso.

Trump lutando pela Boeing. Trudeau pelos interesses geopolíticos e tecnológicos do Canadá. Theresa May pelos empregos em Belfast. Enquanto esses governos lutam com unhas e dentes pelos interesses de suas empresas estratégicas e pelo emprego qualificado de seus trabalhadores, o que o Brasil faz? Promove uma política econômica que desindustrializa o país, aceita e patrocina um processo violento de desnacionalização e, justamente na aviação, apesar do jogo de cena, permite que a Embraer seja comprada pela Boeing.

Esse caso da disputa que citamos é muito representativo. Mostra que dizer que os países desenvolvidos “deixam o mercado agir livremente” é uma mentira mal-intencionada. Prova a importância estratégica da indústria de ponta, especialmente em um setor decisivo, inclusive para assuntos de defesa, como o da fabricação de aviões. E, por último, demonstra que qualquer governo comprometido com o desenvolvimento tem a obrigação de proteger, incentivar e fomentar sua indústria. Essas são as regras do jogo geopolítico internacional. Diante delas, só há duas opções: lutar pelos interesses do país ou traí-lo, transformando-o em um quintal neoextrativista habitado por um povo pobre e sem perspectiva.




*Manuela D’Ávila é deputada estadual (PCdoB-RS) e pré-candidata do partido à Presidência da República

Fonte: Folha de S. Paulo

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