Cultura

26 de janeiro de 2018 - 16h40

Quilombo, um jornal da imprensa negra, nas décadas de 1940 e 1950

Divulgação
Quilombo explicitou uma agenda política para a luta antirracista, pela igualdade entre os brasileiros, independente da cor de sua pele Quilombo explicitou uma agenda política para a luta antirracista, pela igualdade entre os brasileiros, independente da cor de sua pele

Ele lembrou a luta e diz: "Temos de estar na trincheira, mandando bala, mostrando que a realidade é outra." A entrevista foi feita no momento em que a Editora 34, de S. Paulo, lançava a edição facsimilar do histórico jornal, que circulou de dezembro de 1948 a julho de 1950, animado por um grupo de intelectuais negros, liderados por Abdias do Nascimento, com a partiipação de outros lutadores, de pele mais clara, contra o preconceito e a discriminação. Quilombo levou o debate da questão racial a um patamar mais elevado, num momento em que muita gene dizia que no Brasil, a questão não existia. Contra esta opinião, ela própria discriminatória, Quilombo explicitou uma agenda política para a luta antirracista, pela igualdade entre os brasileiros, independente da cor de sua pele.

Quilombo, um jornal moderno e afinado com seu tempo, tinha entre seus colaboradores intelectuais, artistas e militantes do porte de Guerreiro Ramos, Edison Carneiro, Solano Trindade, Nelson Rodrigues, Rachel de Queiroz, Gilberto Freyre, Arthur Ramos, Murilo Mendes, Carlos Drummond de Andrade, Péricles Leal, Orígenes Lessa, Roger Bastide, lembra o pesquisador Antonio Sérgio Alfredo Guimarães, que escreveu a introdução à reedição facsimilar. Nomes que se uniam no combate ao racismo. Cujos textos variaram da questão institucional (como a discussão da lei Afonso Arinos, que criminalizou a discriminação racial), à denúncia da eleição da boneca de piche, uma miss negra. Suas capas traziam modelos e atrizes, realçando a beleza negra, e textos denunciando escolas que não aceitavam alunos negros. O jornal lembrava também nomes como Lima Barreto, Cruz e Souza e Teodoro Sampaio. Fazia denúncias contra quem praticasse a discriminação, condenava as condições de trabalho das empregadas domésticas e defendia candidatos negros.

Para a história do movimento negro, qual a importância do jornal?

Quilombo ajudou a despertar a consciência do negro, de seus valores. Infelizmente, não pôde continuar. Teve uma circulação pequena, mas influente, porque era bem realizado. Ele ajudou a aglutinar as pessoas e a mostrar que o Teatro Experimental do Negro não era só um grupo de teatro, era também uma frente de luta. Nós organizamos duas conferências nacionais do negro, um congresso, advogamos a discriminação racial como crime, políticas públicas em favor do negro, patrocinamos o concurso do Cristo Negro. Não tínhamos um programa estreito e conseguimos concretizar muitas questões.

Que questões, na sua opinião, avançaram a partir do que vocês defenderam?

Em vários pontos, fomos vitoriosos. A questão das cotas, que agora é moda, por exemplo. Estávamos falando disso desde os anos 1940, talvez com outro nome. As ideias ficam, elas pode demorar, mas acabam germinando. A ideia de que a discriminação racial é crime, por exemplo.

Essa, então, deve ser próxima bandeira do movimento negro?

Essa é uma questão que a comunidade tem de buscar, temos de reconstruir a dignidade da população de cor. O negro não nasceu escravo, isso é importante para resgatar a integridade do negro, que, depois do fim da escravidão, continuou espoliado, atirado na pior situação, enquanto os herdeiros dos donos de escravos continuaram a enriquecer.

Mais de 50 anos depois, pelos textos do Quilombo, é possível perceber que alguns argumentos enfrentados pelo movimento negro são semelhantes.

Os argumentos são parecidos, às vezes usam até as mesmas palavras. Mas toda a minha identidade foi construída assim, desde a minha escola primária, em Franca. Eu luto por essas coisas, me chamam de radical, rebelde. Foi assim que eu virei adulto, lutando contra a sociedade que quer associar o negro à vadiagem, à contravenção, a mesma sociedade que muitas vezes o joga nessa situação. Acabei ficando com uma imagem desagradável. Quem trata desses problemas acaba estigmatizado. O negro bem-vindo é aquele que não reclama, que aceita as patacoadas de democracia racial, etc. Temos de estar na trincheira, mandando bala, mostrando que a realidade é outra. A democracia racial deve ser perseguida como utopia, ninguém é contra ela, contra a miscigenação, desde que não haja uma pressão para que o negro “embranqueça”, como sempre houve no Brasil.

O escritor Toni Morrison disse que a criança negra hoje tem, nos EUA, condições melhores que as que viveu em seu tempo. Não só porque não há mais discriminação institucionalizada, mas também porque há negros como modelo de sucesso. No Brasil, o que mudou?

Alguma coisa melhorou. Mas tudo isso foi fruto de uma grande luta. Hoje [em 2003 – nota do Vermelho], temos uma secretária de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, a Matilde Ribeiro, o vice-presidente do Senado, o Paulo Paim, vários deputados. As coisas estão mudando, mas elas não podem parar, porque senão volta tudo. A sociedade brasileira é hipócrita e covarde. O negro não pode bobear.

O movimento negro tem algo de semelhante ao que representou o Quilombo?

No Rio e São Paulo, não vejo uma imprensa negra. Teve a revista Raça, mas ela era mais comercial e acabou. De todo modo, as caras negras estão aí. Temos de trabalhar muito ainda.



*Trechos de entrevista publicada originalmente em o Estado de S. Paulo (8 de junho de 2003). Adaptação: José Carlos Ruy

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