Movimentos

13 de janeiro de 2018 - 17h13

Oprah Winfrey: representatividade e feminismo negro

Divulgação
Oprah nutriu no coração de cada menina e de cada mulher que a assistiu a esperança de que “um novo dia está no horizonte” Oprah nutriu no coração de cada menina e de cada mulher que a assistiu a esperança de que “um novo dia está no horizonte”

Oprah pautou a questão racial e evidenciou a importância fundamental da representatividade para que as pessoas negras possam ter a chance de se espelhar, de sonhar em estar em outros espaços sociais que não os historicamente a elas delegados.

Ela nos conduziu para uma importante memória afetiva de sua infância, quando, em 1964, assistiu o ator Sidney Poitier ser premiado na 36ª edição do Oscar. “Nunca havia visto um homem negro ser celebrado dessa maneira”.

Sendo uma criança pobre “que olha a mãe passar pela porta, cansada até os ossos de limpar a casa de outras pessoas”. Poderia Oprah sem ser atriz, receber uma grande premiação se não tivesse se espelhado em Sidney Poitier? Possivelmente não.

Revivendo sua história e ciente do momento histórico que protagoniza, a atriz diz que sabe que “neste momento, há garotinhas assistindo eu me
tornar a primeira mulher negra a receber esse prêmio. É uma honra e um privilégio compartilhar a noite com todas elas”.

Para chegar onde chegou, Oprah deixa claro a importância de Sidney Poitier, Recy Taylor (que teve a história do estupro que sofreu e sua luta por justiça retratada em um documentário), a ativista Rosa Parks, sua mãe e tantos outros negros e negras, anônimos ou não, que ousaram subverter o status quo, ou sucumbiram a ele para que outros pudessem triunfar no futuro. Essa perspectiva é grandiosa, pois fortalece a história do povo negro, bem como a história das mulheres, que é essencialmente coletiva.

Por fim focou de maneira emblemática a questão da violência contra a mulher dentro e fora da indústria do entretenimento, enfatizando que tanto as que denunciaram quanto as que silenciaram, foram heroicas ao enfrentar tais situações:

“Quero expressar gratidão a todas as mulheres que sofreram anos de abuso e agressão porque elas, como minha mãe, tiveram filhos para alimentar, contas a pagar e sonhos para perseguir.”

Para encerrar seu discurso de forma grandiosa e com uma enfática referência à campanha Time's Up – contra assédio sexual -, afirma que essa era de impunidade acabou, pois agora as mulheres se sentem fortes e empoderadas o suficiente para falar a sua verdade:

“Recy Taylor morreu há dez dias, pouco antes de seu aniversário de 98 anos. Ela viveu como todas nós vivemos, muitos anos em uma cultura destruída por homens brutalmente poderosos. Por muito tempo, não ouviam as mulheres, ou não acreditavam nelas quando ousavam falar a verdade sobre o poder desses homens. Mas esse tempo acabou. Esse tempo acabou.”

Com sua figura negra, imponente e eloquente, Oprah nutriu no coração de cada menina e de cada mulher que a assistiu a esperança de que “um novo dia está no horizonte”, o dia em que nenhuma de nós dirá “Me too - Eu também” diante de um caso de violência.

Resposta francesa

Em resposta ao que acontece em Hollywood, um coletivo de 100 mulheres, atrizes e intelectuais francesas, publicaram na terça 9, uma carta no jornal Le Monde. As assinantes da carta, intitulada “Defendemos a liberdade de importunar, indispensável à liberdade sexual”, discorre sobre certo puritanismo no atual posicionamento das mulheres e na incitação de práticas feministas que pregam ódio aos homens. Defendem explicitamente o direito do homem importunar uma mulher, como sendo algo inerente às vivências da sexualidade.

“Esta justiça expeditiva já tem suas vítimas, homens impedidos do exercício de sua profissão, obrigados a demitir-se, etc., quando seu único erro foi terem tocado um joelho, tentado roubar um beijo, falado sobre coisas “íntimas” em um jantar de negócios ou enviado mensagens sexualmente explícitas para uma mulher com a qual a atração não era recíproca”.

Penso estarmos em um momento muito delicado de revisão dos comportamentos sexuais e do feminismo também. A meu ver o que é considerado crime está nos dispositivos legais para que possamos acessá-los. O fato é que qualquer investida sexual não consentida, seja no ambiente de trabalho ou não, já configura um desrespeito. Para mim o sexo, flerte, paquera parte da premissa do consenso, do prazer. Por isso discordo com veemência das francesas. A inconveniência, como o próprio termo define, não cabe em qualquer tipo de relação sexual, pois esta parte da reciprocidade. Qualquer relação ou investida sexual, sem reciprocidade, tende a ser ofensiva, violenta ou criminosa.

Por isso, reforço que o impacto social do discurso de Oprah, na perspectiva do empoderamento, da sororidade e na possibilidade de um futuro sem violência, foi extremamente positivo. Principalmente para as mulheres negras brasileiras, que ainda enfrentam situações muito adversas, protagonizando os piores indicadores sociais, bem como as estatísticas de violência contra a mulher. Mulheres que, no campo artístico, lutam pela inserção, representação e representatividade efetiva. O discurso de Oprah encoraja essas mulheres a protagonizarem suas histórias e a construírem juntas esse novo dia.

Considero que Oprah protagonizou o mais importante discurso político-feminista desta década, tanto que seu nome passou a ser cogitado para
a Casa Branca. Especulações à parte, Oprah sinalizou que caminhamos para o fim de uma era de impunidade, de silenciamento em relação as violência contra a mulher.


*Débora Garcia é poetisa, gestora cultural, idealizadora e artista no coletivo Sarau das Pretas

  • VOLTAR
  • IMPRIMIR
  • ENCAMINHAR

Últimas Mais