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13 de janeiro de 2018 - 12h18

As terríveis alternativas para a Itália

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A última vez que um político italiano liderou seu partido na eleição e depois se tornou primeiro-ministro foi em 2008. Esse líder foi Silvio Berlusconi, e todos os governos italianos desde sua queda em 2011 foram formados por tecnocratas não eleitos A última vez que um político italiano liderou seu partido na eleição e depois se tornou primeiro-ministro foi em 2008. Esse líder foi Silvio Berlusconi, e todos os governos italianos desde sua queda em 2011 foram formados por tecnocratas não eleitos

O parlamento italiano foi dissolvido em 28 de dezembro, sendo então convocadas as eleições gerais de 4 de março de 2018. Se as indicações das disputas regionais recentes e das pesquisas estiveem corretas, os democratas, que hoje governam em aliança com pequenos partidos de centro, poderão ter uma derrota histórica.

Mas o que virá a seguir? A cobertura internacional se concentrou no Movimento Cinco Estrelas (M5S), uma agremiação populista pós-crise que está à frente nas pesquisas,mas parece improvável que seja capaz de formar uma coalizão para governar. Um cenário mais plausível é a volta de Silvio Berlusconi, cujo partido Forza Italia está à frente da recuperação da direita.

A Itália está prestes a mergulhar a zona do euro em uma nova crise? E depois de anos de estagnação econômica e desemprego massivo de jovens, quais são os sinais de esperança?

A direita resurgente

A última vez que um político italiano liderou seu partido na eleição e depois se tornou primeiro-ministro foi em 2008. Esse líder foi Silvio Berlusconi, e todos os governos italianos desde sua queda em 2011 foram formados por tecnocratas não eleitos, ou coalizões híbridas unindo forças de centro-esquerda e centro-direita. A crise econômica intensificou a fragmentação a longo prazo do sistema partidário italiano, que persiste desde o fim da Guerra Fria. Continuando nessa tendência, na véspera da eleição de 4 de março de 2018, há novamente um bric-a-brac de novos nomes e alianças partidárias.

Mesmo a força mais antiga no parlamento italiano - a Liga do Norte, fundada em 1991 – é um bom exemplo disso, e mudou seu nome para apenas "Liga". É uma força que faz campanha para separar as regiões mais ricas, ao norte, do centro-sul da Itália. A Liga de Matteo Salvini é um movimento de direita, que tenta se expandir para o sul e criar um partido semelhante ao Front National francês, e rivaliza com a centro-direita. Com cerca de 15% da votação nacional, a Liga está atrás da Forza Italia de Berlusconi que, sendo seu concorrente mais direto, é também seu possível parceiro de coalizão.

O Partido em Crise

Se o M5S é uma grande ameaça para Berlusconi, o principal rival histórico da direita é o Partido Democrático centrista (PD). Grande parte de sua base militante e institucional mais antiga provém do Partido Comunista histórico e, em menor medida, dos democrata-cristãos, ambos extintos no início dos anos 90. Sob a liderança do primeiro-ministro Matteo Renzi, o PD continuou sua evolução pós-guerra fria, passando de um grupo de centro-esquerda para um explicitamente baseado no liberalismo corporativo. Ao longo da última legislatura, impôs uma "Lei do Emprego" flexível, reformas e medidas de educação neoliberal que obrigam os italianos em idade escolar a trabalhar em estágios não remunerados. Renzi é o candidato dos democratas para primeiro ministro, na esperança de substituir o titular Paolo Gentiloni, que também é membro do seu partido.

Se a Liga do Norte acabou de se reformular como apenas Liga, o partido de Renzi ainda não abandonou formalmente o nome de "Democrático". No entanto, desde sua tentativa de reescrever a constituição italiana, que foi derrotada no referendo de dezembro de 2016, o partido vacilou, e agora enfrenta uma oposição mais aguerrida à esquerda. Aqueles que saíram em rachas recentes incluem Pierluigi Bersani (um ex-comunista, líder do partido nas eleições gerais de 2013) e o primeiro-ministro de 1998-2000, Massimo D'Alema. Seu novo partido, MDP, no entanto, permaneceu no governo em aliança com o partido de Renzi e pequenas forças centristas e ex-berlusconianos.

Na eleição de março, o MDP fará parte da Liberi e uguali [LeU; Livre e Igual], que é um dos maiores projetos de centro-esquerda, fora do PD. O ex-comunista D'Alema, um dos personagens do MDP menos interessados em um pacto pré-eleitoral com o PD, fez parte da deriva da Terceira Via na social-democracia européia e mal se distinguia de Tony Blair ou Gerhard Schröder no final de na década de 1990.

Talvez, de forma mais reveladora, a perspectiva de futuro que o MDP tem, Bersani. rapidamente afastou a marca socialdemocrata que o partido tinha, insistindo que, como liberais, não queriam "nacionalizar tudo". Seu projeto é esperar para entrar no governo com o PD, puxando-o pelo menos um pouco para a esquerda.

O afastamento do MDP foi o resultado imediato da tentativa de Renzi, em dezembro de 2016, de reescrever a Constituição de 1947, que é uma pedra angular da identidade republicana italiana devido a seus vínculos simbólicos com a derrubada do fascismo. A juíza Anna Falcone, uma das principais ativistas da campanha pelo "Não", contra a pretendida reforma na Constituição, esperava unir uma nova aliança de esquerda nessa base. No entanto, após uma série bastante caótica de iniciativas de unidade nos últimos meses, as forças envolvidas no grupo D'Alema-Bersani, bem como outros pequenos partidos de centro-esquerda acabaram sob liderança de Piero Grasso, um magistrado anti-mafioso que hoje é o presidente do Senado e, até o final de outubro, foi membro do PD. Sua LeU tem atualmente em torno de 6-7%nas pesquisas.

Mas LeU é apenas um dos problemas para os democratas e seu líder Matteo Renzi, cuja promessa de demitir-se caso não pudesse impulsionar o referendo - insistindo na necessidade de remover barreiras às reformas econômicas planejadas - transformou um debate sobre arranjos constitucionais em uma expressão mais geral de descontentamento com seu governo. A derrota e a renúncia de Renzi não só enfraqueceram gravemente suas próprias pretensões de popularidade, mas também lançaram novas dúvidas sobre o mantra blairista de que o caminho da esquerda italiana para a vitória viria da tentativa de manter o centro político. Grasso sublinhou recentemente a necessidade de "levar para casa" aqueles que se deslocaram da esquerda para o M5S.

As eleições regionais da Sicília, em novembro passado, sugeriram que mesmo as forças centristas neoliberais, antes aliadas ao PD, estão se afastando deste, pois se tornou menos importante para a aritmética eleitoral. O líder alternativo popular Angelino Alfano, que foi até 2013, um aliado chave de Berlusconi, foi nos últimos quatro anos, um sólido aliado do PD no governo, sendo atualmente ministro das Relações Exteriores. No entanto, ele anunciou sua intenção de demitir-se na eleição.

O comportamento destas pequenas forças na eleição siciliana foi uma expressão adicional da crise geral do PD, cujo candidato teve apenas 18%, contra 30% cinco anos antes. No meio do quadro político fragmentado, ainda é bem possível que um PD enfraquecido surja como o maior partido nas eleições de 4 de março, e suas listas também serão reforçadas pela integração de pequenas agremiações liberais, de outra forma incapazes de passar o limiar (a cláusula de barreira) para conseguir representação parlamentar. No entanto, mesmo isso é provável que leve a centro esqueda, dirigida pelo PD, a apenas 30% dos votos, longe de poder formar uma maioria.

O PD enfrenta desafios comuns a todos os partidos social-democratas. Para conquistar o apoio dos eleitores centristas a uma nova coalizão, deve ser capaz de manter pelo menos o apoio passivo de sua base histórica na classe trabalhadora e na esquerda. Isso é difícil em tempos de austeridade, especialmente quando o sistema eleitoral facilita o surgimento de novos rivais. Nessas circunstâncias, o partido corre o risco de seguir o mesmo caminho do Partido Socialista, na França, e do Partido Trabalhista holandês, vencidos pelos liberais precisamente porque sua própria base se tornou tão esvaziada.

O movimento

Diante do surgimento de um rival à esquerda, Renzi acusou a todos os que não votaram no PD de minarem os valores do antifascismo e abrir caminho para uma nova extrema direita, uma ameaça que sua retórica ampliou. Dada a história eleitoral recente e pobre dos democratas, é incerto que tais apelos por uma votação pragmática tenham um efeito galvanizador, e o poder emocional deste tipo de recurso para os eleitores de esquerda é, de qualquer forma, enfraquecido pelos reacionários.

Nos últimos anos, Renzi esperava realinhar a política italiana em algo como o que houve no segundo turno francês de 2017, onde os liberais exigiram o apoio da esquerda para impedir a vitória do Front National. No entanto, este imaginário simplista sempre foi inadequado para combater seu próprio alvo polêmico, o M5S.

Este movimento é uma ameaça particular para o PD por causa da base que construiu entre os jovens e os desempregados. Atualmente, está em primeiro lugar nas pesquisas de opinião, embora esteja longe de estar claramente a caminho do poder.

Fundado em 2007 como "Amigos de Beppe Grillo", o M5S se beneficiou tanto do colapso da esquerda como da crise econômica para se estabelecer como a voz dos excluídos, em rebelião contra a "casta" representada pela corrente principal e pelo centro-direita. O fato é que Berlusconi e o PD foram de 2011 a 2013, vinculados por várias formas de acordos de coalizão. E ligados a escândalos de corrupção, como o caso do desfalque da Mafia Capitale; isso ajudou o "Movimento" a se diferenciar dos "partidos". O apelo do M5S deve menos às propostas de políticas específicas do que a promessa de revisão política, eliminando os velhos partidos que dominam a vida pública italiana.

Em uma Itália abatida pelo desemprego juvenil de massa, o M5S conseguiu capturar e expressar esse descontentamento. No entanto, o aspecto oposicionista da retórica do M5S enfraqueceu ao longo do tempo, tanto por sua presença em governos locais quanto pela reorientação do partido feita por Luigi Di Maio, seu candidato de trinta e um anos. E pela ligação com o primeiro ministro. Em setembro, Di Maio fez uma visita simbólica ao fórum dos líderes empresariais, no Lago de Como, insistindo que o M5S não queria um "governo populista e extremista anti-UE", nem que fosse realizado um referendo sobre o euro.

Duas mudanças recentes nos estatutos do Movimento também enfatizaram uma alteração em sua direção. Em primeiro lugar, apesar das origens do M5S como um movimento anticorrupção, a investigação policial contra a prefeita Virginia Raggi, de Roma, por abuso no cargo obrigou-o a abandonar o princípio de suspender qualquer membro que tenha sido submetido a um processo judicial. Em segundo lugar, ciente de que o seu peso eleitoral (superior a 25%) não garante uma rota óbvia para o governo, abandonou uma base fundamental que o distinguia, a recusa, por princípio, de fazer alianças com outras agremiações.

O M5S nunca fez acordos com agremiações mais estabelecidas e nem participará de qualquer tipo de lista eleitoral conjunta para o dia 4 de março. Na proximidades da votação, Di Maio deixou isso um pouco vago Que tipo de coligação o M5S faria?. Até agora, limitou-se a afirmar que após as eleições, assim que os resultados forem anunciados, o M5S vai colaborar com qualquer partido disposto a realizar seu programa. Essas declarações são projetadas para proteger o partido de ser visto como se alinhando com os blocos centro-esquerda ou centro-direita.

Em uma recente entrevista à La Stampa, Di Maio, no entanto, observou que ele "não descarta" uma coalizão com LeU ou Liga. Não só Di Maio levou o M5S a uma abordagem mais "possibilista" para as alianças do que as aceitáveis pelo fundador do Movimento Beppe Grillo, mas ele também é mais à direita dele. Isso é particularmente evidente em sua dura retórica sobre a crise dos refugiados, acusando as ONGs de oferecer um "serviço de táxi" pelo Mediterrâneo para os migrantes. No entanto, é difícil ver como tal força composta, como M5S, poderia sobreviver a uma aliança com um partido tão duro quanto a Liga.

Na verdade, ao longo da existência do M5S, seus deputados se abstiveram em questões polêmicas da política social, como as uniões civis homoafetivas ou a situação dos refugiados, precisamente para continuar defendendo "todas as coisas para todas as pessoas".

Figuras no M5S, como Roberto Fico, adotaram abordagens muito mais progressistas para a política social do que Di Maio. Embora mesmo os escândalos financeiros em Roma e Livorno, não comprometeram a popularidade do Movimento, impedindo-o de assumir a responsabilidade governamental - particularmente em aliança com a Liga - inevitavelmente forçaria sua liderança inexperiente a definir sua agenda mais claramente.

Isso também coloca a questão de saber se a corrente pricipal do M5S pode abrir o espaço anti-establishment que recentemente conseguiu ocupar. Interessante a este respeito é o que aconteceu em Nápoles. Na maior cidade do sul, o prefeito Luigi de Magistris que, nos últimos anos, construiu sua própria coalizão populista multiforme, e impediu efetivamente o M5S de estabelecer um ponto de apoio. O centro social Je So 'Pazzo, que apóia De Magistris, embora não seja politicamente vinculado a ele, lançou uma iniciativa eleitoral nacional com a esperança de representar os movimentos sociais, sindicatos, jovens desempregados e trabalhadores precários, e negou ao M5S voz naquela disputa.

Enquanto De Magistris e outras figuras de centro-esquerda estão mais alinhadas com Liberi e Uguali, a iniciativa Potere al Popolo lançada por Je So 'Pazzo, uniu movimentos sociais do resto da Itália, junto com a Rifondazione Comunista – isto é, os restos do antigo Partido Comunista - e forças menores da extrema esquerda. A iniciativa não espera alcançar o limite de 3% para a alcançar a representação parlamentar, e marca o início de uma recomposição do movimento de esquerda, sem representação no parlamento desde o desastre da Rifondazione em 2008.

Potere al Popolo realizou assembléias em mais de uma centena de locais na Itália e está tentando atravessar uma paisagem de mídia hostil. Sem dúvida, a próxima eleição é um desafio para um ativista que ainda não emergiu do trauma de décadas passadas. A força do M5S é uma expressão da fraqueza da mobilização social na Itália, marcada com movimentos populistas anti-austeridade, como a France Insoumise, ou o Podemos na Espanha. No entanto, baseando-se no reaparecimento dos protestos e na organização trabalhista, nesta campanha, Potere al Popolo poderia pelo menos ser a base de uma alternativa radical para os próximos anos.

Acordo geral

Na falta de um novo avanço para a direita, o resultado mais provável é um novo tecnocrata, e a julgar pelo que ocorreu nos últimos seis anos, provavelmente seria liderado por figuras que nem são parte desta campanha eleitoral. Alcançando o fim do período parlamentar, o primeiro ministro Paolo Gentiloni indicou seu orgulho de, no ano passado, seu governo ter mantido as instituições italianas funcionando. Esta foi uma demonstração notável de complacência diante de um crescimento econômico de apenas 1%, emigração maciça e uma taxa de desemprego juvenil de 36%. Sua despreocupação constante reflete a decadência da vida pública italiana; e, além disso, é ecoada pela postura superficial da campanha eleitoral, em que questões tão significativas como a reforma da UE, a moeda única e a crise bancária italiana parecem menos proeminentes do que um choque de personalidades e uma acalorada retórica sobre a imigração.

A última questão que o parlamento italiano enfrentou antes da sua dissolução em 28 de dezembro ilustrou esse sentimento de impasse. Um debate acentuado deveria definir se os filhos de imigrantes nascidos na Itália teriam a cidadania italiana. Isso naturalmente encontrou a forte hostilidade de Forza Italia, da Liga e da direita pós-fascista, que nearam o quórum opara a votação no parlamento, e o projeto de lei ficou em suspenso. Este foi um final adequado para um governo liderado por PD que cortou a entrada de imigrantes da Líbia em 87%.

Esta rejeição aos novos italianos, obviamente, se deve à hostilidade com os imigrantes e ao medo do multiculturalismo. No entanto, talvez também possa ser visto como uma escolha natural para uma sociedade que oferece tão pouco até aos jovens que nascem dos pais italianos. Um primeiro-ministro recente rejeitou os temores de uma mão-de-obra fragmentada e casual ao apontar que "ter um emprego estável é maçante de qualquer maneira"; o atual ministro do Trabalho da PD insistiu que seria melhor para os jovens saírem, "ao invés de ficar sob nossos pés ".

Esse desprezo pelo jovem é uma aula política sem plano para o futuro da Itália. Seu compromisso inabalável com o centro neoliberal não produz estabilidade nem estagnação, mas atomização e desespero social. Hoje, os maiores vencedores nesse pântano de cinismo são a Liga e o M5S. Com o colapso de 2008 da Rifondazione Comunista, o período pós-crise foi marcado pela ausência da esquerda radical. Sua tarefa neste período até 4 de março e depois é reverter uma derrota histórica e abrir canais que possam novamente oferecer avanços materiais e um espírito de esperança para os esquecidos e explorados.


*David Broder é especialista em história do comunismo francês e italiano. Está escrevendo um livro sobre a crise da democracia italiana no período pós-Guerra Fria.

Tradução: José Carlos Ruy

Fonte: Jacobin

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