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21 de dezembro de 2017 - 18h35

Dirigente defende agenda política em defesa da engenharia nacional

guilherme santos/ SUl 21
Alexandre Mendes Wollmann foi reeleito presidente do Sindicato dos Engenheiros do Rio Grande do Sul (Senge-RS) Alexandre Mendes Wollmann foi reeleito presidente do Sindicato dos Engenheiros do Rio Grande do Sul (Senge-RS)

Wollmann, que preside a entidade desde o final de 2014, diz que a ideia para o próximo triênio é dar continuidade ao trabalho desenvolvido nos últimos três anos, o que inclui a manutenção de uma agenda política em prol da engenharia gaúcha e nacional e contra as privatizações que vêm sendo conduzidos em todos os níveis.

Desde que o governo Sartori apresentou uma proposta de emenda à constituição estadual para retirar a exigência de realização de plebiscito para a venda das estatais CEEE (Companhia Estadual de Energia Elétrica), Sulgás (Companhia de Gás do Estado do RS) e CRM (Companhia Riograndense de Mineração), o Senge tem sido uma das entidades da sociedade civil que de maneira mais firme tem se posicionado contras as pretendidas privatizações.

Para Wollmann, os projetos que autorizam a retirada de plebiscito, que podem ser votados na Assembleia Legislativa ainda neste ano, são um presente de Natal do governador, um “presente de grego”. “É o verdadeiro peru putrefato que o governador vai dar para o servidor público e para a sociedade como um todo”, diz. “Nós saímos em defesa da engenharia gaúcha, da engenharia brasileira, em defesa da ciência e da tecnologia e nós vamos continuar lutando por isso. Isso é uma decisão de gestão. Vamos defender a CEEE, vamos defender a CRM, vamos defender a Sulgás, vamos defender as fundações, vamos defender outras companhias se entrarem nessa onda, Banrisul, Corsan e outras mais, porque achamos que o problema não seja o funcionário e que a solução do problema não seja extinguir, vender ou passar adiante”.

O presidente do Senge-RS defende que o governo deveria estar atuando principalmente com o foco nas receitas, uma vez que os funcionários públicos já teriam dado sua “cota de sacrifícios” possível e sido “crucificados em praça pública” como responsáveis pela crise do Estado.

“O grande culpado não é o funcionário, o grande culpado disso são as benesses pactuadas nos inícios de governo, nas campanhas eleitorais e que não estão sendo tocadas. Eu acho que está na hora de alguns beneficiários de incentivos fiscais darem a sua cota de sacrifício. Se hoje nós temos aí 100% de incentivo fiscal para alguma empresa, será que ela não poderia ter só 70% e dar 30% de ICMS para o governo? Seria uma boa. Por que a gente diz isso? O governo, quando entrou, em 2015, cometeu, aos nossos olhos, o pior erro dele, que foi aumentar o ICMS. Tu aumentou ICMS, tu penaliza quem paga. E quem está naquela corda bamba entre pagar e ir pelo descaminho, esse optou pelo descaminho”, diz.

Ao final de 2015, o Senge ajuizou uma ação na Justiça contra o governo do Estado pedindo a abertura da “caixa preta” do Fundopem (Fundo Operação Empresa do Estado do Rio Grande do Sul), programa de concessão de incentivos fiscais criado para fomentar o emprego, mas que, em muitos casos, tem resultado abaixo das expectativas. Uma CPI sobre as isenções fiscais chegou a ser tentada por iniciativa do deputado estadual Luiz Augusto Lara (PTB), com apoio do Senge, mas não obteve as assinaturas necessárias para ser instalada.

Onda pró-estado mínimo

Wollmann avalia que o Brasil vive uma onda de defesa do estado mínimo que contraria os interesses da engenharia nacional, mas que continua avançando. É nesta onda que está inserido esse movimento pró-privatizações, que conta com apoio de uma parte da sociedade e restrições de outra, que tentam impor barreiras ao seu avanço. “A gente espera que as urnas, em 2018, deem o recado se essa onda deve continuar ou não continuar. Dentro do que a gente pensa, está sentindo e enxergando o baque, me parece que a onda está muito forte ainda e não está respeitando essas barreiras. Eu estou vendo poucas pedras para bloquear essa onda. O Sindicato dos Engenheiros é uma pedra. Temos outras pedras, sindicatos e movimentos sociais, que estão se aglutinando nas fileiras para barrar essa onda, mas eu acho ela muito forte ainda”, pondera.

Além das privatizações, a onda do estado mínimo tem levado governos a adotarem uma série de cortes e investimentos públicos, que também trazem efeitos para a área da engenharia. O presidente do sindicato expressa, por exemplo, grande preocupação com os cortes e congelamentos na área de pesquisa, ciência e tecnologia no âmbito federal, que se reflete no corte ao financiamento para as universidades públicas. Em 2017, os investimentos em ciência e tecnologia sofreram um corte de 44% no país, isso em um cenário que já vinha sendo de redução de investimento nos dois anos anteriores.

“Essa decisão que o governo tomou de congelar por 20 anos sem poder aumentar incentivos à ciência e à pesquisa, isso está dando um recado para o jovem que está saindo do meio escolar e indo para o meio profissional: ‘não vá fazer cursos superiores ou para a área de pesquisa’. Nós temos um dado estatístico de que, de cada 10 que se formam, um vai para a área de pesquisa e esse um geralmente vai para o exterior. Então, além de exportamos commodities, nós estamos hoje exportando cabeças pensantes. Ou seja, estamos levando lá para fora a inteligência, a matéria-prima, e, daqui a alguns anos, nós vamos enxergar um Brasil tipo o Paraguai. Isto é, não vai produzir nada, não vai ter incentivo de nada. Isso é muito ruim para a ciência, para o desenvolvimento”, diz, acrescentando que a principal empresa brasileira que investia em ciência e tecnologia, a Petrobras, “está sendo crucificada em praça pública”. “Estão dilapidando, vendendo como sucata um polo naval em Rio Grande e estamos vendo que a única empresa que está sobrando de ciência e tecnologia de engenharia no Brasil é a Embraer, outras já findaram”, opina.

Já no RS, o engenharia critica a decisão do governo Sartori de extinguir fundações que atuam na área de pesquisa e ciência, como Fepps (Fundação Estadual de Produção e Pesquisa em Saúde) – já extinta -, Fepagro (Fundação Estadual de Pesquisa Agropecuária) – praticamente extinta -, Cientec (Fundação de Ciência e Tecnologia) e FZB (Fundação Zoobotânica do RS), as duas últimas em processo de extinção. “É muito triste para a área da engenharia um cenário onde tu está denegrindo, desmantelando e desmotivando que se faça pesquisa em ciência e tecnologia no RS”, diz. “Essa esculhambação tem método dentro dessa onda do estado mínimo. Eu vejo com muito receio o que será o Brasil daqui a 15, 20 anos”.

Wollmann afirma que uma instituição como a Cientec tem um papel extremamente importante para dar suporte à indústria gaúcha e para os investimentos que o setor público faz em infraestrutura. Ele destaca, por exemplo, que a área do saneamento básico é hoje a com papel mais importante em investimentos de infraestrutura e que cabe à Cientec fazer a vistoria nos materiais utilizados em obras pela Corsan e validar seus empreendimentos.

“Foi-se o tempo de investir em rodovias, em hidrovias, a construção civil também está diminuindo. Mas hoje o saneamento ainda é uma das fontes que ainda detém um pouco de recurso e depende dessas fundações. Por exemplo, todo o material que a Corsan usa nas suas obras, desde a tubulação até o equipamento do sistema de bombeamento e tratamento, passava pela validação de conformidade desses produtos pela Cientec. Então, esses serviços a Corsan não sabe quem vai fazer, quem vai fiscalizar a tubulação que vai bombear água ou vai coletar o esgoto”, diz, salientando ainda que a Cientec cumpre um papel importante para diversas outras empresas, como a CEEE, e outras áreas, como a do carvão mineral. “O impacto da extinção das fundações vai ser muito grande, mas talvez não a curto prazo, a médio e longo prazo. Talvez nós não tenhamos a qualidade da água e do esgoto tratado daqui a cinco, dez anos”.

Além do interesse pelas pautas estaduais, o presidente diz que o sindicato acompanha de perto temas que estão sendo ou serão discutidos em Porto Alegre, como a mobilidade social, a revisão do Plano Diretor, entre outros. Contudo, o engenheiro destaca que a relação do sindicato com o atual prefeito sem sido inexistente. Antes das eleições, ao final de 2015, quando ainda era deputado federal, Nelson Marchezan Júnior (PSDB) visitou o sindicato em busca de dados e informações para subsidiar-se para a disputa de 2016. Wollmann diz que, na ocasião, a direção do Senge entregou ele uma pauta com 10 itens, incluindo a defesa da valorização do quadro técnico da Prefeitura e da necessidade do estabelecimento de um escritório de gerenciamento de projetos. “Não adianta eu querer fazer um asfalto numa vila, se eu não tenho iluminação, não tenho água, não tenho esgoto, planejamento urbano”, diz.

Durante o período da corrida eleitoral, Marchezan voltou a se reunir com o Senge para um café da manhã. Contudo, desde então, não consultou mais o Sindicato dos Engenheiros sobre os rumos da cidade. “Estranhamente, acho que o prefeito rasgou o cartão ou deletou da sua caixa cerebral onde fica o Sindicato dos Engenheiros. O Senge tem muito a dizer sobre o Plano Diretor, tem muito a dizer sobre mobilidade urbana ao prefeito, como disse aqui quando esteve então como pré-candidato e depois como candidato. Mas me parece que não querem ouvir”, afirma. “Não adianta consultar somente empresários ou pessoas que estão querendo se aproveitar da conjuntura, porque talvez o tiro saia pela culatra”, conclui.

Um dos enfrentamentos do sindicato já feitos com a atual gestão de Porto Alegre é em relação à possível privatização do Departamento Municipal de Água e Esgoto (DMAE). Em agosto passado, o Senge promoveu uma reunião com ex-diretores do DMAE que se posicionaram contrários à privatização.



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