Cultura

22 de dezembro de 2017 - 9h00

“Meus quadrinhos nascem de minhas raivas e meus medos”

Art Spiegelman
   

Art Spiegelman queria ser caubói. Planícies, cavalgadas, um rancho no meio do nada. Pena que vivia em Nova York. Tinha nove anos quando se mudou com sua família. E seu sonho de infância se chocou contra os arranha-céus. “Desisti”, conta, rindo. Mas não totalmente. “Eu me tornei um dos últimos ferreiros das publicações impressas”, acrescenta. Ou seja, autor de histórias em quadrinhos. “Elas me marcaram desde que era pequeno. Achava que era o manual de instruções para o que eu precisava entender como ser humano. O que eu precisava saber sobre os EUA, não podia aprender com meus pais, e sim com Mad e seu autodenominado ‘bando de idiotas’”, destaca. Essa revista em quadrinhos seduziu Spiegelman e milhares de leitores a partir dos anos cinquenta. E aí o menino passou para o segundo sonho: “Queria ser um dos que faziam aquelas coisas”.

Foi muito mais longe. Escreveu e desenhou a única história em quadrinhos a ganhar um Pulitzer, em 1992: Maus, uma recordação das experiências vividas por seu pai no Holocausto, na qual os judeus são representados como ratos e os nazistas, como gatos. Spiegelman já editou uma revista de quadrinhos underground (Raw), desenhou para a New Yorker, refletiu em quadrinhos sobre os momentos posteriores aos atentados de 11 de setembro de 2001 nos EUA e escreveu ensaios sobre seu meio artístico. É considerado um pai dos comics contemporâneos. “Vou pedir um teste de DNA”, brinca.


Autorretrato de Art Spiegelman.

Em entrevista, ele fala sobre a difícil trajetória dos quadrinhos até se tornar uma arte respeitada. “Poucos meios podem se orgulhar de ter passado por tantas batalhas: entre adultos e crianças, fantasia e realidade, imagens e palavras, arte e negócio, pensamentos autoritários e rebeldes. O fogo cruzado continua, mas agora os quadrinhos são apreciados e não menosprezados como uma estupidez para crianças”, resume. Outra guerra foi necessária, talvez mais longa: Spiegelman tem dedicado seus quase 70 anos (Estocolmo, 1948) a defender os quadrinhos: “Deixaram de ser o meio que poucos levavam a sério, mas todos liam. A partir daí, podia se tornar arte ou desaparecer. Tenho orgulho de dizer que meu time venceu”.

Foi difícil, talvez mais para ele do que para qualquer outro. “Geralmente se considera que você começa rabiscando alguns desenhos em um caderno e descobre uma experiência feliz. Para mim, os quadrinhos sempre foram uma luta. Fica cada vez mais difícil avançar e mais claro o quanto este meio considerado simples é complexo”, explica. Spiegelman considera que seus desenhos sempre parecem poder ser bastante melhorados. Uma só página pode lhe custar um mês de trabalho. E ele quase agradece a seu olhar preguiçoso, que o obriga a ver só em duas dimensões, mas também a ficar “com o que é importante”. “Isso me levou à parte estrutural dos comics”, explica. Justamente o que ele mais aprecia. “Eu me interesso pela essência de quando palavras e imagens se juntam. Quando tinha 18 anos, era fácil conhecer mais ou menos tudo que saía, mas agora me chegam tantos quadrinhos que não consigo dar conta. Alguns trabalhos me deixam admirado, e outros me recordam tristemente uma frase que disse anos atrás: ‘Estamos lutando para que os quadrinhos alcancem um nível maior de mediocridade’”.

As histórias em quadrinhos também servem para ajudá-lo a se sentir melhor. “O desastre é minha musa. Meus comics nascem de meu descontentamento, minhas raivas, meus medos. Se me sinto bem, não tendo a desenhar ou escrever. São uma forma de encontrar equilíbrio.” Em seus quadrinhos, ele se representa como uma pessoa insegura e ansiosa. A morte de seu irmão, a crise nervosa de 1968 e o suicídio de sua mãe complicaram sua juventude. Maus ajudou em parte: deu-lhe fama e estabilidade econômica, mas também frustração, pelas interpretações erradas e por amarrar sua carreira a uma obra.

Porque Spiegelman sempre quis olhar para a frente, experimentar. Nos últimos tempos, experimenta fazer graphic novels de uma página. Passará o Natal trabalhando com um litógrafo em outro projeto. E há dois anos trabalha em uma ideia que “deveria se transformar em um novo programa de televisão”. Ainda estão sendo discutidos os últimos detalhes. Mas ele está confiante: leva uma vida inteira na luta.

Um rato adorável e odioso 


O criador daquela que é considerada a melhor história em quadrinhos de todos os tempos tem uma relação ambivalente com ela. “Estou agradecido a ela, por aterrissar na cultura de uma forma que a manterá viva, por me dar segurança econômica para experimentar projetos financeiramente inviáveis, e porque parece um marcador útil para as pessoas”, afirma.

Ao mesmo tempo, Maus o irrita: “Acho um pouco insultante dizerem que serve para ensinar às crianças de 12 anos o que é o Holocausto, não foi concebida para isso”. Spiegelman ficou indignado quando descobriu que Roberto Benigni se inspirou em sua história em quadrinhos para A Vida É Bela, filme que considera “obsceno”.

Garante que nunca escreveu Maus para “tornar o mundo um lugar melhor ou oferecer algum tipo de lição”. Sabia que o tema era pesado, mas estava interessado principalmente em ver como estruturar um relato misturando palavras e imagens. O que sempre quis foi “uma história em quadrinhos ambiciosa, no formato de livro, que precisasse ser relida”.



Fonte: El País 

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