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11 de dezembro de 2017 - 14h51

Choque usa bomba e gás lacrimogêneo para impedir ciclistas de pedalar

Henrique Espírito Santo
   

Enquanto a maior parte das cidades de todo o mundo vêm incentivando cada vez mais o uso da bicicleta em alternativa aos veículos motorizados, a cidade e o governo de São Paulo parecem fazer exatamente o contrário. Entre políticas que valorizam o uso do motor, como aumento de velocidades nas principais vias e retiradas de ciclovias, a capital paulista teve um aumento de 75% de mortes de ciclistas no trânsito no primeiro semestre de 2017. É neste cenário que a Polícia Militar do governo de Geraldo Alckmin (PSDB) executou praticamente uma operação de guerra contra mais de 3 mil ciclistas neste domingo (10).

Por Ponte Jornalismo

A “Tradicional Descida para Santos”, que todos os anos reúne milhares de pessoas em um passeio-protesto pelo direito de pedalar e pela oficialização da Rota Márcia Prado, em homenagem a mulher morta por um motorista de ônibus na Avenida Paulista no ano de 2009, foi violentamente reprimida pela PM com bombas de gás, jatos d’água, agressões e intimidações de policiais em motocicletas e em carros blindados. Tradicionalmente, os ciclistas descem até Santos pela Rota Márcia Prado, que é, na verdade, a Estrada de Manutenção da Serra do Mar, e utilizam alguns trechos do sistema Anchieta-Imigrantes. A principal reivindicação dos cicloativistas é a oficialização da rota com apoio de prefeituras e do governo do estado. Cubatão, por exemplo, já havia recomendado que a rota fosse incluída no calendário turístico da cidade.

Como em todos os anos, a Ecovias, administradora do sistema Anchieta-Imigrantes, conseguiu uma liminar para impedir a realização do passeio. Este ano, a proibição foi sacramentada por liminar do juiz Celso Lourenço Morgado, da Comarca de São Bernardo do Campo, que determinou multa de R$ 300 mil para o descumprimento da decisão. A determinação deste domingo (10), no entanto, foi acompanhada por um bloqueio policial da Tropa de Choque na altura do quilômetro 40 da Rodovia dos Imigrantes.

Aviso de que liminar impedia realização do evento em placa na Rodovia dos Imigrantes | Foto: Leonardo Alves

Vídeos que circulam nas redes sociais mostram que a PM começou a atirar bombas de efeito moral contra os ciclistas em um momento em que acontecia uma tentativa de negociação, sem qualquer esboço de violência por parte das milhares pessoas de bicicleta. Até mesmo pessoas que tentaram se abrigar em postos de combustíveis próximos, além de crianças e idosos, foram atingidos pelas bombas e jatos d’água.

Em entrevista ao site Ponte Jornalismo, Ho Song informou que cerca de 50 bombas de gás lacrimogêneo foram lançadas contra os ciclistas, além dos jatos de água. “A ação da polícia foi totalmente desnecessária, tratou os ciclistas como se fossem bandidos”, ponderou.

Apesar de não haver feridos, os ciclistas foram obrigados a retornar os cerca de 50 km sem acesso à água, comida ou banheiros e sob os efeitos do gás. “Tinha criança, senhora voltando a pé carregando a bicicleta”, concluiu Song em entrevista. 

Alguns ciclistas conseguiram furar o bloqueio por rotas alternativas, mas a maioria foi obrigada a voltar para a capital, em meio aos gases das bombas, sem nenhum suporte, sob um sol escaldante de mais de 32º.

Procurada pela reportagem da Fórum para comentar os relatos de violência da PM, a secretaria de segurança Pública do Estado de São Paulo informou, por meio de nota, que interveio “para garantir a segurança de motoristas e dospróprios ciclistas” e que a ação com “armamento químico” e jatos d’água se deu após uma tentativa infeliz de negociação.

Cicloativistas, por sua vez, marcaram um protesto para sábado (16), a partir das 16h, na Praça do Ciclista (Avenida Paulista), em resposta à operação da polícia.

Nota da SSP

A Polícia Militar informa que neste domingo (10) cerca de 3 mil ciclistas interditaram as pistas sul e norte, na altura do km 40, da Rodovia Anchieta, em protesto à decisão judicial da 6ª Vara Cível de São Bernardo do Campo que os proíbe de descer a serra.  

Em cumprimento a ordem judicial, e para garantir a segurança de motoristas e dos próprios ciclistas, a PM tentou negociar a liberação da via, porém, ciclistas começaram a tentar a passagem com o uso de força, sendo necessário o apoio de PMs da Força Tática dos batalhões da área e do Choque, que utilizou munição química e jatos de água.

Com a dispersão dos ciclistas, a manifestação se encerrou. Eles foram escoltados pela equipe da Rocam do Policiamento Rodoviário até a pista norte da Rodovia dos Imigrantes para retornarem em segurança pelo acostamento.

A rodovia foi liberada para trânsito por volta das 13h20. Não houve registro de feridos.

Um soldado sofreu um corte na mão, após um dos manifestantes arremessar uma bicicleta nele. Um boletim de ocorrência de lesão corporal e desobediência foi registrado no 3º DP de São Bernardo.



*Na Revista Fórum

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