5 de dezembro de 2017 - 10h35

O dia em que o ditador foi escorraçado pelos catarinenses


Novembrada 1979 Novembrada 1979
Naquele ano o país estava agitado e era como o destampar de uma panela de pressão após 15 anos de ditadura. No ABC paulista, os operários das montadoras fizeram grandes paralisações pelo segundo ano consecutivo. Os moradores faziam abaixo-assinados e manifestações contra a carestia. No início do segundo semestre saiu a anistia e a quase totalidade dos presos políticos foram soltos. Os perseguidos que estavam no exterior começaram a voltar e foram criados os jornais alternativos ligados a partidos, entre eles a Tribuna Operária, do PCdoB. Havia um grande descontentamento popular por causa do desemprego, baixos salários e carestia. Bastou um gesto obsceno do ditador para que a rebelião começasse.

Figueiredo chegou à capital catarinense com grande esquema de segurança. No caminho do aeroporto à capital ele teve que ouvir um panelaço das moradoras por causa da carestia pois, às vésperas da viagem, autorizou o aumento dos combustíveis e da carne, insuflando o descontentamento popular. Para agravar o quadro, o governo federal decidiu inaugurar uma placa de bronze em honra ao marechal Floriano Peixoto, que era mais conhecido por ter mandado fuzilar mais de cem pessoas em Florianópolis durante a Revolta da Armada, em 1893.

O ambiente estava carregado quando o presidente fez o seu discurso, da fachada do Palácio Cruz e Sousa, e foi recepcionado por uma manifestação de 4 mil estudantes convocada pelo Diretório Central dos Estudantes (DCE) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Assim que ele ouviu as primeiras vaias ficou transtornado e fez um gesto obsceno com os dedos polegar e indicador. A partir daí a população se uniu aos universitários e enfrentaram os policiais. A placa em homenagem a Floriano foi arrancada e levada como troféu e os enfeites, colocados na praça XV de Novembro para recepcionar as autoridades, foram arrancados e queimados.

No trajeto até um tradicional café na rua Felipe Schmidt, Figueiredo foi hostilizado com palavras de ordem que citavam o nome de sua mãe e avançou contra o povo. Ele foi contido pelos seguranças e teve que ser retirado às pressas do local. A Polícia Militar agiu com extrema violência contra os manifestantes e a cidade ficou deserta no resto do dia. Em seguida a polícia iniciou as investigações e prendeu sete líderes estudantis que foram enquadrados na Lei de Segurança Nacional. As repercussões destas cenas rodaram o mundo.

Nos dias seguintes foram feitas várias manifestações, algumas com cerca de 10 mil pessoas, exigindo a libertação dos estudantes presos. A pressão popular fez efeito e no dia 12 de dezembro os sete membros do DCE foram libertados. Os militares que mandavam no país saíram desmoralizados. Quatro anos depois teve início a maior mobilização da história brasileira, a Diretas Já, que resultou no fim da ditadura, em março de 1985.

O professor universitário Sílvio Coelho dos Santos escreveu o livro “Nova História de Santa Catarina” e relatou que o golpe militar de 1964 trouxe muita violência e perseguição aos moradores do Estado. Nas palavras dele, “todos perderam com as amarras criadas pelo regime de exceção, centrado na delação, no medo, na alienação, na censura, na concentração de renda e no endividamento externo. Foram os anos de chumbo. Não é de se estranhar a explosão social ocorrida em Florianópolis, em 1979, em protesto contra a visita do então general-presidente Figueiredo. A população também tinha a sua memória”.



Publicado originalmente no Blog ZARCO LIVRE - Trânsito livre para todas as ideias

  • VOLTAR
  • IMPRIMIR
  • ENCAMINHAR

Últimas Mais