Cultura

3 de dezembro de 2017 - 8h07

3º Congresso Latino-americano de Cultura Viva se realiza em Quito


Foto: Coop La Comunitária
3º Congresso Latino-americano de Cultura Viva se realiza em Quito 3º Congresso Latino-americano de Cultura Viva se realiza em Quito
Essa foi a dimensão do 3º Congresso Latino-americano de Cultura Viva Comunitária, realizado entre os dias 20 e 25 de novembro em Quito, no Equador. Após as edições na Bolívia (2013) e El Salvador (2015), o Congresso na capital equatoriana consolida uma trajetória de larga duração na construção de um movimento político e cultural na América Latina.

Existem no continente latino-americano pelo menos 120 mil organizações e coletivos populares que desenvolvem atividades nas áreas de cultura, educação e comunicação comunitárias em territórios urbanos e rurais, mobilizando cerca de 200 milhões de pessoas por ano em eventos e atividades regulares e permanentes. Na maioria dos casos, esses grupos existem sem que haja um apoio continuado e reconhecimento adequado por parte das políticas públicas e legislações culturais vigentes nos países da América Latina.

A experiência brasileira dos Pontos de Cultura e do Programa Cultura Viva apontou um caminho comum para as políticas culturais: reconhecer e fomentar estas experiências de forma perene, garantindo a sua autonomia e promovendo a integração e articulação em rede. A política pública criada no Brasil levou à criação de programas de reconhecimento e apoio a Puntos de Cultura e iniciativas de cultura comunitária na Argentina, Peru, Bolívia, Equador, Colômbia, Costa Rica, El Salvador, Chile e Uruguai.

Movimentos e coletivos culturais articulados em torno da Cultura Viva Comunitária vem se consolidando também em países como México, Guatemala, Chile, Cuba e Espanha. A incidência nas políticas culturais segue sendo uma estratégia importante, e o diálogo intersetorial esteve presente no Congresso com a realização dos encontros de uma rede de gestores locais e do Conselho Intergovernamental do programa de cooperação internacional IberCultura Viva, vinculado à Secretaria Geral Ibero-Americana (SEGIB) e que reúne hoje 11 nações.

Nesta edição do Congresso, os avanços mais importantes, no entanto, se deram na dimensão organizativa e política do movimento, que é hoje um laboratório de criação e invenção de novas estratégias, ambientes e mecanismos de participação para a organização das esquerdas e dos setores populares no século XXI a partir da cultura. O encontro aprofundou também a dimensão conceitual , filosófica e espiritual da Cultura Viva Comunitária enquanto uma alternativa civilizatória baseada na sabedoria ancestral dos povos originários afro-ameríndios, nos princípios do sumak-kawsay (bem-viver) e do equilíbrio entre a humanidade e a natureza.

Trata-se de um movimento político cultural, com uma agenda específica voltada para o desenvolvimento de políticas públicas, mas com um programa mais amplo de alternativa ao modelo de desenvolvimento vigente, à esquerda e à direita, na América Latina, a partir de três conceitos amplos e inspiradores: descolonização, despatriarcalização e desmercantilização.

Congresso de 2019 será na Argentina

Em assembleia geral do Conselho Latino-americano de Cultura Viva Comunitária, espaço participativo de organização do movimento, foi aprovado por unanimidade que a quarta edição será na Argentina. O país desenvolve desde 2010 uma política nacional de Puntos de Cultura, e esteve desde o início na construção de um movimento de Cultura Viva Comunitária na América Latina.

É um grande desafio, no momento em que a onda conservadora que atravessa o continente tem no governo Macri um dos principais símbolos de sua restauração. No entanto, a cultura política e a tradição de lutas do povo argentino, refletidas em um movimento amplo e autônomo de redes de cultura comunitária, que este ano reuniu cerca de 300 pessoas em um encontro preparatório para o Congresso de Quito, será certamente uma inspiração importante para este movimento continental que, segundo um de seus lemas principais, “não veio para decorar a democracia, mas, sim, para transformá-la”.





*Alexandre Santini é Gestor cultural, dramaturgo e escritor. Formado em Teoria do Teatro pela UNIRIO e mestre em Cultura e Territorialidades pela UFF. Foi diretor de Cidadania e Diversidade Cultural do Ministério da Cultura entre 2015 e 2016. Atualmente dirige o Teatro Popular Oscar Niemeyer, em Niterói (RJ). Artigo publicado na ANF (Agência de Notícias das Favelas)

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